O casamento CSLDVA
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– E aí... – Mindy puxou os joelhos para o peito e abraçou as pernas, provavelmente tentando se manter aquecida no meu quarto, que era gelado até mesmo no verão. – Qual é a daquele tal de Samuel? Ele foi uma tremenda surpresa, hein?
Terminei de abotoar meu pijama e engatinhei sobre o colchão para me juntar a ela. Nossa última “festa do pijama” antes de eu começar a dormir toda noite com outra pessoa. E não só dormir...
– Samuel não é o que eu esperava – admiti, tentando me distrair dos pensamentos sobre minha noite de núpcias, que de repente pareciam enormes na minha cabeça, de novo.
Quinn era experiente. Eu não era. Será que isso importaria para ela? Será que ficaria evidente... de um modo ruim?
Uma noite, quando Quinn e eu estávamos sozinhas no escritório dela, nos beijando – Quinn obviamente lutando contra o desejo de fazer mais, apesar de nossa decisão de esperar até o casamento –, eu tinha dado a entender que estava preocupada. Não pude deixar de questionar se sabia o que estava fazendo, mesmo só beijando, e meio que pedi desculpas, sem graça, pela inexperiência. Quinn recuou, com uma expressão estranha nos olhos e um pequeno sorriso nos lábios enquanto dizia:
– Não creio que eu poderia permitir que outra pessoa que tivesse tocado você continuasse a andar pela Terra. O único motivo para Weston haver sobrevivido é a dívida que tenho para com ele.
Quinn alargou um pouco o sorriso, brincando.
– Sua inexperiência salva vidas, Rachel.
Pelo menos ela estava tentando fazer graça do assunto, porque eu sabia que Quinn não gostava mesmo da ideia de eu ter namorado outra pessoa, assim como eu não gostava de pensar nela com as “debutantes de Bucareste” que espreitavam em seu passado – ou com Kitty Wilde. Principalmente com Kitty, que era tão nojenta e que sem dúvida alardeava ter muita experiência.
– Você ia começar a dizer alguma coisa sobre o Samuel? – instigou Mindy, batendo no meu joelho e felizmente acabando com minha linha de pensamento. – Terra chamando Rach!
Balancei a cabeça, desfazendo imagens que não queria formar – ou cenas que não queria relembrar.
– Só sei que Samuel é primo de Quinn – afirmei, tentando afastar da mente a imagem de Quinn e Kitty juntas na cama do apartamento em cima da garagem. – Mas Quinn o considera um irmão, porque eles cresceram juntos no castelo Fabray.
– Samuel também perdeu os pais? – perguntou Mindy. – Por que morou tanto tempo com a Quinnie?
Sorri quando Mindy usou o apelido que eu não escutava fazia muito tempo.
– Os pais dele moram na Itália – expliquei, tentando me lembrar de tudo o que Quinn havia contado sobre seu padrinho. – Mas os Anciões acharam que seria sensato educá-lo com Quinn.
Mindy inclinou a cabeça parecendo confusa, talvez porque tivéssemos crescido numa cultura onde herdeiros do trono não eram um assunto tão importante.
– Por quê? – perguntou.
– Como Quinn é filha única, os Anciões acharam que seria sensato preparar outro jovem vampiro Fabray para ocupar seu lugar, caso alguma coisa...
Não consegui me obrigar a terminar a frase. Principalmente na véspera do meu casamento, quando eu deveria estar planejando um futuro longo e feliz com Quinn.
– De qualquer modo, os Anciões acharam que Samuel era promissor e que poderia ser criado para servir como o braço direito de Quinn, quase como um general – acrescentei. – Seria o segundo em comando, já que não existe nenhum irmão Fabray de sangue puro.
– E o que deu errado? – perguntou Mindy, pegando um travesseiro e apertando-o contra o peito. – Porque Samuel não parece capaz de organizar um luau na praia de onde veio, quanto mais comandar um exército ou uma nação!
Dei de ombros.
– Quinn não revelou muita coisa sobre ele. Só que o cara se mudou abruptamente para a Califórnia há alguns anos e se afastou dos líderes do clã.
De repente imaginei se Samuel já teria passado um tempo naquela masmorra que eu tinha visto. Ou será que esse tipo de “educação” era reservado para o treinamento de realeza genuína? Porque se Samuel tinha cicatrizes iguais às de Quinn – se ele foi levado para aquelas câmaras escuras para ser “educado” até estar com a vida por um fio, até que a carne fosse arrancada e os ossos, quebrados –, eu podia entender por que teria ido morar numa praia ao sol.
– Mas ele e Quinn obviamente continuam ligados – acrescentei, descartando mais pensamentos ruins, lembranças da surra que os tios de Quinn haviam dado nela quando foram à Pensilvânia e de como isso a havia mudado, levando-a para um lado sombrio.
– Bom, sem dúvida Quinn e Samuel são diferentes – observou Mindy, revirando os olhos. – Quinn é totalmente régia, e Samuel é tipo... um vagabundo!
Ainda que meus pensamentos tivessem acabado de ficar presos numa masmorra sinistra, não pude deixar de rir da ideia de um vampiro vagabundo, sobretudo um Fabray vagabundo.
– Nós só o vimos durante algumas horas – lembrei a ela. – Talvez ele só estivesse tendo um dia difícil.
– Ou um ano difícil – disse Mindy. – O cara precisa cortar aquele cabelo. Ou pelo menos tomar um banho!
– Mindy! – comecei a protestar, querendo defender o melhor amigo de Quinn, mas descobri que não podia. Samuel Fabray Evans tinha parecido meio... desleixado. Tomara a sopa como se fosse um bárbaro faminto, o corpo frouxo na cadeira, e chegara a chamar um empregado balançando a mão e gritando, em seu sotaque italiano com levada de surfista da Califórnia:
– Ei, brother, mais lentilha, per piacere.
Eu tinha ficado olhando para Quinn, esperando que ela se encolhesse ou talvez até sugerisse que Samuel tivesse bons modos, mas não vi nada mais do que diversão nos olhos da minha noiva.
Quem, exatamente, era esse cara que Quinn chamava de “irmão”? E será que ele tinha algum interesse no poder que também fora criado para talvez exercer um dia? Será que aquelas sandálias de borracha não seriam só um disfarce?
– Acho que veremos se ele vai tomar um banho para o casamento, não é? – falei, rindo e descartando minhas suspeitas sobre o amigo mais íntimo de Quinn. – Não consigo imaginar que Quinn deixaria seu padrinho, até mesmo um cara que ela considera irmão, usar bermuda de surfista na cerimônia!
Mindy abraçou o travesseiro com mais força e franziu a testa.
– A não ser que alguém dê uma boa geral naquele cara de hoje para amanhã, minhas esperanças não vão aumentar.
– Esperanças? – perguntei, sem saber por que Mindy se importava com Samuel. Afinal, o casamento era meu. Se o padrinho de Quinn parecia ter acabado de ser devolvido pela maré, o problema era meu.
– Bom, sou eu que vou passar o casamento inteiro com ele, certo? – lembrou ela. – E pelo menos preciso dançar com ele, não é?
Então percebi que, sendo minha dama de honra, Mindy provavelmente considerava Samuel seu acompanhante. E talvez, apenas talvez, ela tivesse esperado que o sujeito com quem ficaria fosse... melhor. Ou, dada sua antiga paixonite pela “Quinnie”, um pouquinho parecido com a minha noiva.
– Ah, Mindy...
Queria lhe dizer que lamentava o fato de o padrinho de Quinn ser uma frustração e que não seria bom que ela sequer pensasse em se envolver com um vampiro. Eu nasci para me casar com Quinn – não desejava nada além da vida que estávamos prestes a compartilhar –, no entanto, não recomendaria a nenhum dos meus amigos essa opção por sangue, eternidade e ser considerada assustadoramente diferente.
Ter um vampiro como namorado, ou mesmo “ficante”, nem sempre era boa ideia. Meus dedos se cravaram nos cobertores da cama quando pensei de novo, com uma mistura de ciúme e raiva, em Kitty Wilde. Não, flertar com um vampiro podia ser perigoso para todos os envolvidos.
Mas antes que eu pudesse alertar Mindy de que ela provavelmente tinha sorte por Samuel não fazer seu tipo, fomos interrompidas por uma batida na porta e minha mãe enfiou a cabeça para perguntar:
– Mindy, será que eu poderia falar com Rachel um minuto? Tenho uma coisa para dar a ela.
Ia dizer a mamãe que Mindy provavelmente poderia ficar. Afinal de contas, éramos praticamente irmãs, tanto quanto Quinn e Samuel eram irmãos. Mas então vi sua expressão e me virei para Mindy:
– Depois a gente se fala.
Porque a expressão no rosto dela... Eu nunca tinha visto minha mãe daquele jeito.
Mindy também tinha sentido o clima da minha mãe e já estava saindo da cama.
– Claro, Dra. Corcoran. Tenho que ir para o meu quarto mesmo. Amanhã vai ser um grande dia!
Quando Mindy mencionou isso, meu coração pulou de ansiedade – e medo – de novo. Eu havia conseguido evitar pensar no casamento durante alguns minutos, mas dentro de apenas algumas horas eu me vestiria e um serviçal traria as coisas de que eu precisava para o ritual privado que realizaria primeiro.
Será que teria coragem?
– Vai ser maravilhoso – garantiu Mindy, sem dúvida vendo o sangue sumir do meu rosto. – Quero dizer, você vai se casar! Com a Quinn!
É... Eu ia... Aquilo estava mesmo acontecendo...
Então ela se inclinou e me deu um abraço rápido, se despediu e deixou mamãe e eu sozinhas.
Desci da cama também e fui até minha mãe, curiosa com a expressão dela – e com o objeto que ela segurava.
– O que é isso? – perguntei. – O que está acontecendo?
Mamãe sorriu com os lábios – mas isso não apagou a expressão triste, quase solene, de seus olhos enquanto dizia:
– Tenho um presente antecipado para você. Uma coisa que quero que receba esta noite.
Olhei de novo o que ela segurava, pensando que o presente era tão estranho quanto o humor da minha mãe. Diferentemente da maioria dos presentes de casamento, aquele não estava embrulhado num papel bonito. Pelo contrário, o pacote que mamãe segurava, com cuidado óbvio, estava envolto num pano branco simples, que ela começou a desenrolar, quase como uma bandagem.
– É um presente meu... e da sua mãe biológica – revelou mamãe, os dedos tremendo um pouco enquanto ela continuava desenrolando o tecido.
Eu nunca tinha visto Shelby Corcoran – sempre tão forte e confiante – tremer de verdade e isso me abalou. Cheguei mais perto dela.
– Mamãe...?
– Prometi a Mihaela que daria isso a você na véspera do seu casamento, se você se casasse com Quinn. Mantenha em segurança, como Mihaela fez e depois eu fiz, por você. Porque isso pode manter você em segurança.
Minha mãe levantou o olhar do pano e vi de novo aquela expressão estranha em seus olhos. Então entendi, de algum modo, que naquele momento ela estava me entregando. A cerimônia do dia seguinte seria uma formalidade para ela. Para mamãe, esse ato – me entregar o que quer que fosse que trazia nas mãos – simbolizava o cumprimento da sua promessa de me criar como filha para que eu retornasse a Quinn e minha família original.
– Mamãe... – Senti as lágrimas começando a se formar nos olhos. Eu não estava preparada... Não queria deixá-la...
Mas, claro, mamãe sabia que eu estava preparada. E que tinha que deixá-la, por isso me entregou o presente, apertando-o nas minhas mãos.
– Você vai ser uma governante maravilhosa. E uma esposa maravilhosa – disse. – Vocês são duas pessoas incrivelmente especiais e compartilham um amor muito poderoso. Eu sabia disso, antes mesmo que vocês soubessem.
Aparentemente, Quinn e eu fomos as últimas a saber.
Então, antes que eu ao menos pudesse ver o que tinha recebido – talvez por causa das lágrimas que estava lutando para conter –, mamãe me abraçou e sussurrou:
– Tenho orgulho de você ser minha filha. De Mihaela ter me escolhido para ser sua mãe.
– Você sempre vai ser minha mãe – disse eu, odiando parecer que estávamos dizendo adeus.
– Eu sei, Rachel... Anastácia – corrigiu ela. – E você sempre terá um lar na Pensilvânia. Mas também sei que, a partir do momento em que você fizer os votos, amanhã, sua vida estará centrada aqui. E que sempre estará, muito, muito depois de seu pai e eu nos formos.
Pela primeira vez em minha vida, a Dra. Shelby Concoran pareceu incapaz de absorver um conceito – a eternidade relacionada a mim. Ficamos em silêncio, simplesmente nos abraçando.
– Eu te amo, Anastácia – disse ela, decidindo usar meu nome antigo, provavelmente pela última vez.
– Também te amo, mamãe – respondi enquanto minhas lágrimas começaram a escorrer de verdade, encharcando seu ombro.
Depois de alguns instantes mamãe recuou, firmando meu ombro com uma das mãos, e usou a outra para enxugar as lágrimas do meu rosto, como costumava fazer quando eu era pequena, e nós duas tentamos sorrir de novo.
– Você vai me ajudar a me aprontar amanhã, não vai? – perguntei, porque não tinha certeza de que seria capaz de realizar aquele apavorante ato de preparação sem tê-la por perto.
– Claro – prometeu ela. – Claro!
Fiquei aliviada, porque quase tinha sentido medo de que estivéssemos mesmo nos separando. No entanto, não conseguia afastar a sensação de que algo havia mudado para sempre entre nós.
Queria que mamãe ficasse mais um pouco, mas ela saiu. E quando a porta se fechou, ousei olhar o presente em minhas mãos e pensei que era adequado que ele tivesse vindo enrolado num pano como uma bandagem, porque pareceu que meu coração se rachou e sangrou, só de segurar uma coisa tão preciosa.
Minhas mãos começaram a tremer também e eu não soube se estava falando com Shelby ou Mihaela – ou talvez com as duas – quando disse baixinho:
– Ah, mamãe...
“Confie nos seus instintos e desconfie de qualquer um que a deixe ao menos um pouco cautelosa, mesmo sendo um de seus amigos mais íntimos.”
“Os Fabray têm vontade forte, mas uma princesa Dragomir jamais se dobra.”
“Sempre serei parte de você, Anastácia...”
Fechei o caderno de capa de couro preta e afundei na cama, sem ao menos saber como tinha caminhado de volta até ela, de tão absorta que estivera lendo a letra apertada e cuidadosa da minha mãe. Parecia que ela havia tentado encher cada centímetro do caderninho minúsculo – suficientemente pequeno para ser carregado num bolso, ou talvez escondido nos cobertores de uma criança fugitiva – com toda a sua sabedoria. Tudo de que ela obviamente havia pensado que eu precisaria para ser governante não de um, e sim de dois clãs. E para ser uma esposa.
Acariciei a capa com as pontas dos dedos, acompanhando o couro cheio de relevos parecendo pedrinhas, e dominada pela sensação de quanto ela devia me amar para ter se preocupado em me deixar aquele legado.
Quinn tinha me dado o manual para virar vampira; Mihaela Dragomir me dedicara um guia para sobreviver como vampira.
Fechei os olhos por um momento, baixando a cabeça com respeito num gesto de gratidão a ela.
Obrigada, Mihaela, por me proteger, mesmo estando claro que você via sua própria destruição se aproximando.
Apesar de ter apenas folheado o caderno, sabendo que leria tudo com mais atenção – que passaria a viver pelas palavras dela nos meses e anos que viriam – eu percebera como as mensagens de minha mãe biológica ficavam mais curtas e objetivas e a letra, mais irregular, à medida que as páginas iam acabando, como se ela soubesse que o tempo para registrar seus pensamentos também estivesse chegando ao fim.
Tremendo e percebendo de repente que o quarto tinha ficado mais frio enquanto eu lia de pé, me enfiei embaixo dos cobertores e pus o caderninho sob o travesseiro, como se talvez pudesse absorver sua sabedoria durante o sono. Também queria mantê-lo perto. Até a mesinha de cabeceira parecia longe demais para uma coisa tão valiosa – pelo menos para mim.
Pousando a cabeça no travesseiro macio, fechei os olhos, já me sentindo mais quente, não só por causa dos cobertores, mas porque parecia ter uma nova aliada nesse mundo ainda pouco familiar no qual estava entrando, uma pessoa sábia, que já havia enfrentado as coisas que estavam por vir para mim e que podia me ajudar.
Também entendi por que minha mãe adotiva havia sentido com tanta intensidade que estava me entregando o começo de uma vida nova, com novos conselhos, porque as palavras de Mihaela sem dúvida seriam minha principal orientação dali em diante. Mas eu sabia que sempre precisaria de mamãe também e que iria procurá-la quando pudesse.
Ainda que o presente e a noite tivessem sido um tanto tristes, comecei a sorrir, lembrando-me de uma passagem específica que tinha notado enquanto folheava rapidamente.
“Espero que você venha a amá-la...”
Eu sabia que Mihaela se referia, claro, a Quinn – com quem eu me casaria no dia seguinte. Eu a amava tanto que era quase de dar medo e ao mesmo tempo, maravilhoso.
Quinn... Como eu poderia não querer VOCÊ?
Comecei a tentar visualizar nosso casamento, mas talvez porque ainda não tinha certeza de onde ele aconteceria, tive dificuldade em imaginá-lo. Então, como acontecia com frequência desde a noite em que Quinn havia feito o pedido, me peguei lembrando daquilo, revivendo tudo na mente. E mesmo tendo certeza de que não conseguiria dormir um segundo sequer na noite antes de nos casarmos, em pouco tempo estava caindo no meu sonho predileto, que sempre começava com Quinn pegando minha mão e me levando por um caminho que só uns poucos vampiros – e dois humanos muito especiais – conheciam.
“Venha comigo, Anastácia”, convida ela, dedos fortes e frios segurando minha mão. “É hora de lhe mostrar um lugar que não é somente especial, mas também sagrado...”
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