O casamento CSLDVA
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Mindy Stankowicz, minha melhor amiga – se é que eu ainda podia chamá-la assim –, parecia totalmente perplexa enquanto uma multidão de romenos que sabiam aonde ir passava por ela para chegar às esteiras de bagagem no movimentado Aeroportul Intenational Henri Coandă, em Bucareste.
Eu tinha consciência de que deveria correr para ajudá-la, mas me contive por alguns segundos, apenas observando enquanto ela me procurava no meio da turba. Seus olhos saltavam de vez em quando para as placas repletas de orientações no idioma que nem meus quatro meses na Romênia tinham me preparado para entender.
Bagaje pierdute... Conexiune gara... Carucioare bageje...
De certa forma, nós duas éramos estranhas numa terra muito estranha. Recém-chegadas a uma cultura tão diferente daquela em que tínhamos crescido, agora éramos também estranhas uma para a outra, apesar de nos conhecermos desde o jardim de infância.
Mindy deu um passo hesitante e parou, obviamente sem saber aonde ir. Continuei sem me mexer. Meus pés pareciam aparafusados ao chão enquanto eu tentava entender as emoções que afloravam ao ver uma amiga do passado recente, alguém que havia sido testemunha de tudo o que acontecera na escola, desde o dia em que Quinn Fabray entrou na minha vida até o momento em que foi tirada de mim.
Eu ainda não sabia direito se Mindy me abandonara ou se eu é que a havia deixado de lado à medida que as coisas com Quinn ficavam mais intensas. Ela tinha tentado me ajudar a enfrentar tudo pelo que eu vinha passando com Quinn, Kitty Wilde e Brody Weston, mas eu a afastara, com medo de confessar a verdade sobre o que sentia por Quinn – e sobre o que ela era e eu estava me tornando. Mesmo assim, fiquei muito magoada no dia em que Mindy puxou a mão e correu para longe de mim na aula de educação física. Foi como se ela estivesse renunciando à nossa amizade.
Quem foi a pior amiga?
Parada num aeroporto apinhado e cercada de pessoas que pegavam suas bagagens nas esteiras rolantes ao som de anúncios em vários idiomas, numa cena que lembrava uma torre de Babel caótica e moderna, Mindy parecia apavorada e me lembrei de um detalhe crucial da nossa história.
Na noite em que Quinn quase foi destruída – no meu aniversário de 18 anos, quando quase todo mundo, até meus pais, de certa forma, havia virado as costas para mim e para Quinn – foi Mindy quem me ligou para avisar que ela estava em apuros.
Ela tivera dúvidas com relação a Quinn, pensou que ela até pudesse estar me machucando, mas no fim tentou salvá-la, por mim, porque sabia que eu a amava.
Se eu não tivesse aparecido no celeiro naquela noite e tentado intervir, talvez as coisas houvessem acontecido de modo um pouco diferente. Talvez Blake Strausser, em vez de Brody, pegasse a estaca. E Quinn não existiria mais...
De repente meus pés se libertaram e eu não apenas andei na direção de Mindy, mas corri para ela, sem sequer pensar em como a situação poderia ficar delicada – afinal de contas, eu era uma vampira e nós não tínhamos nos visto depois da minha transformação nem conversado direito sobre o assunto.
Fui empurrando a multidão e abri os braços no momento em que Mindy me viu. Então ela também abriu os braços sem hesitar, sem ter nada além de alegria nos olhos. Nós nos abraçamos e começamos a chorar tanto e tão rápido que nem tivemos chance de dizer “oi”.
Ficamos agarradas uma à outra por um longo tempo, ignorando as pessoas que passavam, algumas reclamando em romeno por estarmos no caminho. Quando finalmente nos acalmamos, fiz a pergunta pela qual estava ansiosa e que ainda não tivera coragem de verbalizar, porque talvez já fosse muito querer que Mindy fosse à Romênia para o casamento de uma pessoa de quem ela poderia nem gostar mais.
– Quer ser minha dama de honra? Por favor.
Mindy se afastou de mim e passou os dedos sob os olhos, tentando secar as lágrimas que espalhavam a maquiagem pela bochecha, e disse, com um sorriso trêmulo e ainda meio lacrimoso:
– Nossa, Rach, já estava achando que você não fosse pedir!
Também enxuguei o rosto, tentando afastar algumas lágrimas.
– Fiquei com medo de...
Com medo de que você dissesse não... De não sermos mais tão amigas... De que você, em sã consciência, não apoiasse meu casamento com um vampiro...
Antes que eu pudesse encontrar as palavras certas, Mindy apertou meu braço, me impedindo de falar mais.
– E quem é que faria o seu cabelo no dia mais importante da sua vida, Rach? – provocou ela. – Hein?
Por algum motivo quase comecei a chorar de novo, mas ri também.
– Só você – garanti, sabendo que tudo o que havia acontecido entre nós, todas as esquisitices, tinham ficado para trás. Não precisaríamos dizer mais nenhuma palavra.
Ou talvez houvesse mais uma coisa a dizer, porque de repente Mindy ficou séria, o riso sumindo dos olhos.
– Você é mesmo uma... – ela olhou em volta, provavelmente verificando se havia alguém por perto que pudesse nos entender, depois se aproximou de mim e sussurrou, tão baixo que nem eu pude ouvir direito: –... vampira?
Ajeitei a postura, não querendo esconder o que eu era nem agir como se sentisse vergonha. Queria ser totalmente honesta com Mindy desta vez, porque tinha escondido muita coisa dela no passado.
– É, sou.
Mindy examinou meu rosto com atenção, como se precisasse ter certeza de que eu ainda era realmente eu, não simplesmente uma criatura incompreensível para ela e que bebia sangue. Aos poucos, enquanto examinávamos os olhos uma da outra, vi seu sorriso não apenas retornar, mas ficar mais firme e mais caloroso, como se ela estivesse pondo de lado as últimas reservas a meu respeito. A nosso respeito.
– Legal – disse finalmente, confirmando com a cabeça. – Tudo bem.
Eu não sabia que precisava da aprovação de alguém, mas acho que precisava da de Mindy, porque foi bom ouvi-la dizer aquilo.
– Obrigada – respondi, sorrindo mais também.
Eu estava em êxtase porque ia me casar com Quinn, mas ter minha melhor amiga de volta preencheu um espaço vazio no meu coração. Então, apesar de já sermos bem grandinhas e de estar chegando o dia do meu casamento, peguei a mão dela, como fazíamos quando éramos crianças no parquinho.
– Vamos pegar suas malas – sugeri, puxando-a para a esteira certa, onde a maior parte das bagagens já havia sido retirada.
Ao nos aproximarmos, vi três malas grandes, imitações de Louis Vuitton novinhas, que provavelmente já davam a vigésima volta por ali. Quando elas chegaram a nós, Mindy soltou minha mão, esticou o braço e puxou uma, depois outra, e eu corri para pegar a última, antes que ela fosse embora de novo.
Enquanto a mala pesada batia no chão perto dos meus pés, olhei para Mindy, confusa.
– Três malas? Eu tinha entendido que você só ia ficar três dias, no máximo.
Mindy me olhou como se eu estivesse louca.
– Este é o evento mais importante da sua vida – lembrou ela. – Vamos precisar de muitos produtos para o cabelo!
Comecei a gargalhar, sentindo-me completamente feliz naquele momento. Eu ia me casar com Quinn e Mindy estava mesmo de volta.
– Venha – chamei, começando a puxar a mala em direção à saída. – Quinn mandou um motorista e nós temos um monte de coisas para fazer.
– Já estou indo – declarou Mindy, correndo ao meu lado com as outras duas malas a reboque. – Mal posso esperar!
Olhei para ela e compartilhamos um sorriso que resumia uns 15 anos de amizade e todas as nossas esperanças e sonhos de encontrar o amor, casar e viver felizes para sempre.
Então me virei para frente e levei-a na direção do carro que nos esperava.
Os preparativos para o casamento estavam oficialmente iniciados.
– Estou pensando num coque clássico – disse Mindy, a cabeça inclinada enquanto folheava as páginas de uma edição especial para noivas da revista Penteados das celebridades. – Dependendo, é claro, do que você vai usar na cabeça.
Eu estava dividida entre conferir as opções disponíveis e olhar a paisagem de fora do carro. Aparentemente Quinn havia previsto a quantidade de malas de Mindy, porque o utilitário de luxo que ela mandara para nos buscar do aeroporto tinha um porta-malas bem maior que o dos outros muitos veículos da garagem dos Fabray. E eles logo estariam à minha disposição também, por mais que ainda fosse difícil acreditar.
Do outro lado da janela, os Cárpatos se descortinavam teatralmente e, quando fazíamos uma curva mais íngreme na montanha, de repente só o que se via era o céu. Eu me pegava meio boquiaberta, não só porque parecia que íamos voar para fora da estrada, mas por causa do assombro de perceber que aquela paisagem escarpada e selvagem era meu novo lar.
– Rach? – Mindy deu um tapinha no meu braço. – Eu perguntei o que você vai usar na cabeça. Vai ser uma tiara, não é? Quero dizer, tem que ser uma tiara!
Virei-me e vi os olhos de Min brilhando diante da perspectiva de fazer parte de um legítimo casamento da realeza – algo que nunca pensaríamos que pudesse acontecer de verdade a qualquer uma de nós, apesar do que pregavam nossos filmes prediletos da Disney.
– É, vai ser uma tiara – confirmei, imaginando se Mindy não estaria mais empolgada do que eu com o casamento propriamente dito. Eu mal podia esperar para me casar com a Quinn, mas pensar na cerimônia me deixava nervosa.
Será que eu conseguiria seguir o protocolo da forma adequada?
Será que os convidados iriam se divertir?
E, mais importante, será que algum dos meus parentes – Dragomir ou Fabray – causaria alguma encrenca? Porque isso com certeza era possível.
– Estou doida para ver o vestido! – disse Mindy, voltando à atenção para a revista no colo. – Aposto que é lindo!
– Você vai ver amanhã – prometi, esperando que ela gostasse. E esperando que Quinn gostasse. Eu mesma, com a ajuda do alfaiate romeno de Quinn, tinha desenhado o vestido, que era pouco convencional. Mas eu queria algo que fosse diferente e especial, um vestido que me lembrasse do meu passado e do meu futuro. Sorri ao pensar que aquela roupa seria também um tributo a um dos momentos mais importantes que Quinn e eu tínhamos compartilhado.
Eu ainda podia escutar sua voz enquanto ela parava atrás de mim numa butique na Pensilvânia e segurava meus cabelos. “Nunca mais diga que você não é inestimável, Anastácia. Ou que não é linda...”
Eu desejava ardentemente que Quinn me achasse mais do que linda quando eu caminhasse em direção a ela no altar.
Tinha que deixá-la sem fôlego.
Nada menos do que isso.
Já nervosa de novo, voltei a olhar pela janela e vi os telhados de Sighişoara a distância. Pensei em desviar um pouco do trajeto e mostrar a Mindy aquela cidade medieval tão charmosa, como meu tio Dorin tinha feito comigo quando cheguei à Romênia, mas mudei de ideia no último momento. Havia outra coisa que, de repente, fiquei ansiosa para mostrar a Mindy, mais importante do que as ruas estreitas e lindamente antiquadas que Quinn percorrera na infância.
Inclinei-me e dei um tapinha no ombro do motorista, sinalizando para ele no meu limitado romeno:
– Se opreste cind ai lui Vladescu casa, te rog.
Apesar de Mindy ter levantado os olhos da revista para olhar para mim admirada, tive quase certeza de que minha gramática – assim como minha pronúncia – estava bem ruim. Mas o motorista – um dos guardas jovens e sérios que um dia me prenderam pelos braços na floresta escura – deve ter entendido, porque assentiu sem desviar os olhos da estrada sinuosa e concordou:
– Da, bineinteles.
– O que foi? – perguntou Mindy, parecendo bastante à vontade para uma garota que dava seu primeiro passeio pela área rural da Romênia em um carro de luxo com um motorista vampiro.
– Vamos parar um segundinho – respondi. – Quero que você veja uma coisa.
– O que...?
Antes mesmo que Mindy pudesse terminar a pergunta, o carro diminuiu a velocidade e foi para o acostamento. Eu apontei para além do ombro da minha amiga, direcionando seu olhar.
Ela se virou no banco e, quando viu a paisagem, teve a reação que eu esperava, porque eu havia reagido do mesmo modo quando Dorin parou praticamente no mesmo ponto da estrada. Eu ainda tinha a mesma reação toda vez que via o lugar que seria minha casa. Era uma mistura de espanto, incredulidade e, talvez, um toque de medo que fazia o queixo cair e me deixava – e agora deixava Mindy – incapaz de pensar ou dizer qualquer coisa além de...
– Esse lugar é de verdade?
– Você vai mesmo morar lá? – perguntou Mindy, sem afastar os olhos do enorme e imponente castelo gótico dos Fabray. Deu mais um passo em direção à beira do precipício e eu segurei sua manga, com medo de que ela despencasse no vale íngreme e estreito que nos separava da casa de Quinn. Mas Mindy parecia hipnotizada demais para ao menos notar que eu a havia impedido. – Você vai se casar mesmo lá?
Era difícil dizer se o que havia na voz dela era fascínio ou preocupação. Talvez uma mistura dos dois. Ou talvez eu estivesse projetando em Mindy as emoções conflituosas que eu tinha em relação à minha futura casa.
Soltando sua blusa, protegi os olhos do sol poente e me juntei a ela para observar o enorme castelo onde em breve eu viveria com Quinn.
A vasta mansão de pedra, do tamanho de um pequeno – talvez não tão pequeno – quarteirão, era magnífica, sem dúvida, como se houvesse saído de um conto de fadas. No entanto, enquanto meu olhar percorria o exterior sinuoso, pontuado por pequenas torres pontudas que pareciam espetos e dominado por uma alta torre de vigia, não pude deixar de pensar, com mais do que um pouco de insegurança, que os contos de fadas sempre tinham tramas sombrias. Crianças se perdiam em florestas desoladas e esbarravam em bruxas que as cozinhavam em caldeirões. Um punhado de feijões levava a um encontro com um gigante furioso. E, como Quinn havia me lembrado à sombra das mesmas paredes de pedra que eu estava observando, menininhas inocentes podiam ser devoradas por lobos...
Mindy interrompeu meus pensamentos com um assobio baixo.
– Esse lugar é...
Ela parecia incapaz de articular os pensamentos, mas eu podia completá-los muito bem.
Gigantesco.
Espantoso.
Imponente.
Temível?
– É, eu sei – concordei, baixando a mão e olhando para Mindy. – É quase inacreditável para se descrever em palavras.
Ela finalmente conseguiu afastar o olhar também e me encarou.
– Quando você disse que ia se casar na “propriedade” de Quinn, não pensei que estivesse falando, tipo, de um castelo de Cinderela, de rei e rainha.
Olhei um pouco mais fundo nos olhos da minha melhor amiga, porque, pela primeira vez desde que Quinn entrara na minha vida – talvez pela primeira vez na minha amizade com Mindy –, tive a impressão de ter notado uma pontada de inveja, mas ela passou tão rápido quanto veio.
Mindy se virou de novo para o vale, parecendo atraída pela construção que dominava a paisagem, cuja silhueta ia ficando mais e mais nítida à medida que o sol se punha.
– Onde, exatamente, vocês vão se casar? – perguntou ela. – Existe, tipo, um salão especial só para casamentos? Porque parece suficientemente grande para ter um salão especial para tudo.
Olhei de novo para o castelo, examinando as torres, os pátios sombreados e as janelas altas e estreitas, e tentando formar uma imagem dele em minha mente.
– Quinn não quer me dizer – admiti.
Mindy girou para mim, pasma.
– O quê? Você está brincando, não é?
Apesar de nunca ter namorado ninguém – não muito diferente de mim num passado recente –, Mindy planejava seu casamento desde que tínhamos uns 5 anos. De jeito nenhum Melinda Stankowicz deixaria alguém, nem mesmo o amor de sua vida, tentar manter em segredo o local onde aconteceria a noite mais importante de sua vida. Principalmente se estivesse se casando numa propriedade onde havia coleções de armas e manchas de sangue.
Não, Mindy insistiria em ver a sala, a câmara, ou qualquer que fosse o lugar onde seu noivo pretendesse oficializar a união.
– A única coisa que sei é que ainda nem vi o lugar – contei. – Quinn o escondeu de propósito quando me mostrou o castelo.
Não só o castelo como um labirinto de câmaras subterrâneas que só podia ser chamado de masmorra, onde Quinn admitiu que fora “disciplinada” algumas vezes.
– Rach, tem certeza de que não quer ver o lugar onde vocês vão trocar os votos? – perguntou Mindy com preocupação genuína na voz. – É o seu casamento!
– Eu sei. Acredite, pensei nisso.
Eu tinha ficado muito preocupada quando Quinn sugeriu que eu a deixasse escolher, mas, quando questionei isso, minha futura esposa disse: “Conheço o lugar perfeito.” Depois arqueou as sobrancelhas, com malícia nos olhos verdes, e perguntou: “Você confia em mim, Anastácia?”
Encarei aqueles olhos enigmáticos, misteriosos, maravilhosos durante um bom tempo, sabendo que aquela era uma oportunidade única, em toda a eternidade, de escolher onde iria me casar... e pensando, só por uma fração de segundo, que a vampira que estava diante de mim havia me surpreendido, não muito tempo antes, com uma estaca junto ao meu peito.
Quinn estava sorrindo, provocante, mas também havia algo sério no fundo dos seus olhos e tive a sensação de que ela estava testando nosso relacionamento, só um pouquinho. Pensei que aquilo era importante, mais do que apenas uma decisão sobre onde faríamos a cerimônia que unira gerações de vampiros antes de nós.
Então sorri também, espelhando a expressão de Quinn.
– Rach, fala sério!
A voz de Mindy me trouxe de volta ao presente.
– Você vai deixar a Quinn, mesmo sendo uma garota maneira, tomar essa decisão?
Apesar das pontadas de apreensão que eu sempre sentia à sombra do castelo dos Fabray, me peguei sorrindo do mesmo modo como tinha feito na noite em que permiti que Quinn cuidasse dessa escolha crucial. Então me virei para Mindy e disse, sem qualquer dúvida:
– Confio nela.
Então olhei o relógio, percebendo que tínhamos que ir.
– Venha – falei, já caminhando de volta para o carro. – Precisamos chegar à propriedade dos Dragomir, que é muito menos impressionante – alertei, de modo que ela não criasse muitas expectativas. – Tenho certeza de que você está louca por um banho e nós duas precisamos nos vestir para o jantar, depois pegar mamãe e papai, também. Na última vez que vi os dois, eles estavam saindo para uma caminhada pelas montanhas à procura de uma planta medicinal que papai se lembrava de ter colhido na última vez que estiveram aqui.
– Seus pais vieram? – perguntou Mindy. – Verdade?
– Claro – respondi, surpresa por ela estar surpresa. Era o meu casamento. Então me lembrei de como mamãe e papai tinham tentado me impedir de ir ajudar a Quinn naquela noite terrível em que ela quase foi destruída no celeiro dos Weston. Mindy provavelmente sabia a maior parte do que havia acontecido naquela noite, inclusive que meus pais tinham pegado as chaves do carro, com medo de que Quinn tivesse mesmo sucumbido à sua natureza sombria e mordido Kitty Wilde.
– Perdoei mamãe e papai há muito tempo – confessei a Mindy, nem me incomodando em perguntar quanto ela sabia. – Eles só estavam tentando me proteger. Não sabiam como as coisas iriam ficar ruins para a Quinn.
– É, acho que não sabiam – concordou Mindy, enquanto chegávamos ao carro. Ela conteve um passo, parecendo ter algo em mente.
Esperei também, enquanto ela escolhia as palavras.
– O Brody... – começou ela finalmente, parecendo hesitante em falar do meu antigo namorado, que havia cravado uma estaca no amor da minha vida. – Ele...
– Ele não tentou matá-lo de verdade – garanti. – Foi tudo armado para salvar a vida da Quinn. Brody é um cara legal – concluí, o que, de um modo estranho, era parte do motivo de eu não poder amá-lo.
– É, sua mãe me contou a história. Houve tantos boatos, tanta confusão depois daquela noite... Eu tive que perguntar qual era a verdade.
– Quinn convidou Brody para o casamento – acrescentei. – Até se ofereceu para pagar a passagem. Ela é muito grata pelo que Brody fez.
Os olhos de Mindy se arregalaram de surpresa.
– E?
Balancei a cabeça, antes que Mindy começasse a pensar que mais alguém da escola estaria na cerimônia.
– Ele recusou. Acho que prefere esquecer tudo.
Talvez me esquecer também, depois do modo como o tratei.
– É, entendo que ele queira isso. Brody não parece ser um cara que gostaria de ir a um casamento chique, principalmente com vampiros.
– É, acho que ele não se sentiria à vontade num castelo – concordei.
Eu ainda pensava em Brody como um cavaleiro de armadura brilhante, um sujeito bom de verdade, que tinha arriscado muita coisa para salvar uma colega de escola de quem nem gostava. Um herói, de certa forma. Mas eu estava destinada a algo muito diferente, a alguém que, na certa, naquele exato momento estaria completamente à vontade se vestindo para um jantar formal. Talvez estivesse dando ordens de última hora aos criados ou andando em seu escritório, as mãos cruzadas às costas enquanto preparava o brinde que provavelmente faria naquela noite...
Apesar de agora eu ver Quinn quase todo dia, comecei a sentir aquele frio inevitável na barriga, que vinha sempre que eu pensava nela, e comecei a andar de novo para o carro, de repente com pressa de vê-la.
– Anda, vamos!
– E onde vai ser o jantar? – perguntou Mindy, indo atrás de mim.
O motorista abriu a porta para nós duas e, quando subi no carro, ri por cima do ombro.
– Digamos que, em algumas horas, você vai olhar a casa de Quinn bem mais de perto!
– Caraca... – murmurou Mindy, subindo também. – Caraca...
E pela segunda vez naquela tarde eu não soube direito se ela estava empolgada ou apavorada. Ou talvez eu estivesse projetando meus sentimentos de novo. Porque, mesmo sabendo que Brody Weston não fazia parte da lista de convidados, eu não tinha exatamente certeza de quem iria aparecer.
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