Notas iniciais
Oi.

O castelo Fabray pode ter me intimidado por seu tamanho e sua história sinistra, assim como pelas paredes de pedra que o deixavam frio e assustador. Mas a sala onde Quinn e eu oferecemos um jantar pré-casamento para nossos parentes e amigos mais íntimos parecia cálida e acolhedora. As pessoas que eu mais amava estavam ali, reunidas à mesa de mogno comprida e brilhante que refletia a luz de nada menos que quatro enormes candelabros de ferro fundido, cada um com dezenas de velas tremeluzentes lançando um brilho suave na sala.

Apesar de ambas sermos anfitriãs da festa, claro que Quinn chegou lá primeiro – sobretudo porque meu pequeno grupo de convidados se atrasou, graças aos acertos intermináveis que Mindy fez em nossos dois penteados – e ela sorriu e se aproximou enquanto entrávamos na sala.

– Bem-vindos, todos vocês – disse, chegando ao meu lado e pegando minha mão. Seu olhar encontrou o meu e vi a apreciação, o amor, que eu sempre desejava ver em seu olhar. – Você está linda, Rachel – disse ela, baixando os olhos para avaliar meu vestido de seda, longo, volumoso, com um padrão discreto, mas intricado de cristais Swarovski no corpete.

Na verdade não tinha escolhido esse vestido para impressionar Quinn e sim para homenagear minha mãe biológica, que era conhecida por usar carmim.

– Adoro você vestida de vermelho – acrescentou Quinn, levantando os olhos na direção dos meus outra vez. Apesar de seus olhos serem incrivelmente verde-dourado, vi que estavam com um brilho caloroso, por isso soube que a havia agradado também. – Se bem que – observou ela, provocando – amei você mesmo quando usava aquela camiseta com o cavalo árabe.

Compartilhamos um sorriso com a referência à camiseta da qual Quinn costumava zombar – e que eu tinha usado na noite em que ela tentou dissolver o pacto e terminar nosso noivado. Mas, obviamente, ela não pôde evitar um destino que nós duas queríamos tanto.

Então ela se curvou ligeiramente, segurou meu queixo e beijou meus lábios. Enquanto meu coração martelava, como sempre acontecia quando nos tocávamos, percebi que fiquei um pouco vermelha por meus pais estarem ali. Não fazia muito tempo desde que eu me sentira humilhada só por ter sido pega com Quinn na varanda, nós duas nos aproximando para um beijo que acabou não acontecendo. Enquanto Quinn e eu nos separávamos, meu olhar saltou para mamãe e papai, para ver se minha súbita transformação em adulta – se o fato de estar beijando uma garota... uma mulher... em público, mesmo um beijo casto e doce – parecia estranho para eles também.

Mas quando vi seus rostos, foi difícil interpretar as expressões. Em seguida olhei para Mindy – e pela segunda vez no dia pensei ter notado uma pontada de inveja em seus olhos. Mindy tivera uma paixonite por Quinn antes de eu admitir meus sentimentos por ela.

– Leroy, Shelby, que prazer revê-los! – disse Quinn, interrompendo minha especulação. Ela soltou minha mão e passou por mim para abraçar meus pais. – Bem-vindos à minha casa.

– É bom ver você, Quinn – disse mamãe, fechando os olhos e puxando-a para perto, abraçando-a com força como uma mãe de verdade faria. – Sentimos saudade.

As duas se abraçaram por tempo suficiente para eu saber que minha futura esposa também havia sentido saudade da minha mãe. O fato de ela não ter dito isso imediatamente me fez pensar que Quinn, que não tinha mãe, estava saboreando o toque maternal ou talvez estivesse perto demais de ser dominada pela emoção para conseguir falar.

Durante o breve tempo em que tínhamos morado todos juntos na Pensilvânia, minha mãe, com toda a certeza, havia destrancado algo em Quinn. Um lugar vulnerável que nem mesmo eu conhecia, uma parte de minha endurecida princesa guerreira que era apenas uma criança querendo receber amor materno.

– Obrigada por terem vindo – disse ela finalmente e, apesar de sua voz ter saído baixa, tive quase certeza de que Quinn se esforçava para controlar a emoção.

Quando mamãe a soltou, ela se empertigou e foi até o meu pai. Eu suspeitava de que papai, mais ainda do que mamãe, desconfiara de Quinn naquelas últimas semanas em que morou conosco, mas Leroy Berry nunca recusava um abraço. Os dois hesitaram um diante do outro por apenas um segundo, até que papai abriu os braços e convidou:

– Venha cá, Q!

Em seguida apertou Quinn contra o peito e deu uns cinco tapas calorosos em suas costas, até que, rindo, Quinn se soltou e segurou papai a distância, dizendo:

– Calma aí, Leroy! Para um pacifista, você bate forte!

Então todos rimos e de repente eu soltei o ar dos pulmões com um sopro quase audível e senti os ombros relaxarem. Até aquele momento, quando tive certeza de que tudo ficaria bem, eu nem tinha percebido como estivera tensa por causa do encontro deles.

Eu sabia que meus pais continuavam preocupados – talvez aterrorizados – com o fato de eu me casar com alguém da realeza vampírica. Mas uma parte deles sempre soubera que esse momento poderia chegar e, fiéis a seus princípios com relação a criar filhos, eles estavam deixando que eu seguisse meu caminho, que virasse a adulta que me criaram para ser. Estavam permitindo que eu escolhesse Quinn e que ela voltasse a ter um lugar em seus corações.

Para ser honesta, eu duvidava de que eles algum dia tivessem negado a Quinn esse lugar.

Quinn foi até Mindy, que de repente pareceu meio insegura, quase nervosa, quanto ao modo de agir naquele ambiente régio. Ou talvez, a seu modo, ela estivesse preocupada por se encontrar de novo com Quinn depois de tudo que acontecera na Pensilvânia.

– Ahmm...

Ela chegou a começar uma pequena reverência e estendeu a mão como se esperasse que ela fosse beijá-la. Mas Quinn segurou tranquilamente a mão estendida e puxou minha amiga para um abraço menos vigoroso, mas mesmo assim receptivo. Falou baixinho com ela, também, mas ouvi-a dizer:

– Obrigada, Melinda, por ter vindo. Obrigada por tudo.

Elas se afastaram, mas Quinn apertou a mão dela antes de soltá-la e vi que os olhos de Mindy estavam brilhando. Ela havia entendido tudo o que ela quis dizer. Obrigado por insistir que Anastácia me desse uma chance... Por tentar me salvar... Por nos defender quando ninguém mais faria isso...

Ela voltou para o meu lado, dominando as emoções, que percebi estarem de novo surpreendentemente perto da superfície, e pôs a mão nas minhas costas, unindo-nos como fazia com frequência quando estávamos em público. Eu amava o modo como ela sempre mostrava que éramos um casal e tinha os mesmos instintos possessivos com relação a ela. Olhei seu rosto bonito. Logo nos apresentaríamos diante do mundo para oficializar o que sentíamos.

– Devo me desculpar – disse ela, dirigindo-se primeiro a mim, depois a mamãe, papai e Mindy. – Como diriam vocês, preciso fazer sala a nossos convidados romenos.

Olhei em volta e percebi que várias outras pessoas – vampiros – tinham chegado. Dentre eles vi alguns dos meus parentes Dragomir, inclusive tio Dorin, com o rosto já vermelho por causa do calor da sala e talvez pela taça de vinho tinto que ele segurava enquanto contava alguma história animada para três primos meus.

Virei-me para olhar para um canto distante da sala e vi que Claudiu, tio de Quinn, também havia se juntado a nós. A paz que eu tinha acabado de sentir ao ver meus amigos e parentes reunidos com Quinn foi um pouco abalada.

Claudiu – o irmão mais novo de Basile, que Quinn havia destruído na mesma casa onde estávamos.

Eu não acreditara que Claudiu marcaria presença numa ocasião feliz daquelas. Apesar de ser um dos Anciões que governavam os clãs, não havia qualquer afeto entre ele e Quinn. Mas Quinn, defensora das regras de etiqueta, havia insistido em convidá-lo, porque não fazer isso o afastaria ainda mais, talvez causando um rompimento do qual não haveria mais volta.

A presença de Claudiu na sala pareceu embaçar as velas um pouco, lançar sombras mais profundas na pedra. Olhei para ele lembrando-me de que – juntamente com o amor eterno – a obrigação, a política e a diplomacia também faziam parte de minha vida nova. Eu estaria me ligando ao clã Fabray quando juntasse minha vida a vampira que estava com a mão em minhas costas.

– Não vou demorar, Anastácia – prometeu Quinn.

– Vou com você – ofereci, pensando que provavelmente era adequado que eu cumprimentasse todo mundo.

Mas Quinn me impediu, passando a mão pelo meu braço e apertando-o de modo tranquilizador.

– Você terá tempo de falar com todo mundo mais tarde – disse com um sorriso. – Por que não acompanha nossos visitantes americanos? Veja se eles estão à vontade. Eu levo nossos parentes até você, o que é perfeitamente adequado, já que você não é somente da realeza, mas também, por mais um dia, é tecnicamente uma convidada aqui.

Lancei-lhe um olhar agradecido, sabendo que ela devia estar quebrando o protocolo um pouquinho para dar a mamãe, papai e especialmente a Mindy tempo para se acomodarem antes de serem deixados sozinhos numa festa onde eram estranhos. Olhei de novo a sala ao redor, notando que mais alguns convidados haviam chegado e tentando me lembrar de quem era Fabray e quem era Dragomir. Não que eu não fosse praticamente uma estranha, também.

Por enquanto.

Então vi Quinn andar com sua confiança de sempre na direção de Claudiu e do pequeno grupo ao seu redor e invejei minha noiva pela facilidade com que se movia nos círculos de poder – às vezes poder perigoso – nos quais eu estava entrando.

Também me peguei admirando outras coisas em Quinn. Sua postura sempre impressionante; o cabelo fino e loiro, que estava um pouco mais curto e arrumado do que normalmente, para o casamento; e o modo como ficava bem em qualquer roupa feita “sob medida”, que tinha escolhido para a ocasião. Seus ombros eram alinhados sob a camisa bem cortada e as pernas pareciam mais longas e fortes a mostra na saia estreita de estilo europeu.

Eu estava tão absorta em observar Quinn que mal notei papai falando com Mindy:

– Venha, Melinda! Vamos ver se achamos alguma coisa para beber.

Enquanto eles se afastavam, nem parei para pensar que provavelmente era responsabilidade minha providenciar bebidas para os convidados. Como às vezes acontecia, eu estava quase hipnotizada por Quinn.

Enquanto cumprimentava Claudiu e os outros, ela sorriu, de modo que seus dentes brancos – tão brancos quanto sua camisa bem passada – relampejaram à luz das velas e meu coração deixou de dar algumas batidas. Eu não via nem sentia as presas de Quinn desde a noite em que ela havia completado minha transformação em vampira. Estávamos esperando a noite de núpcias para nos tocarmos daquele jeito de novo, saboreando a expectativa, que era quase insuportável, já que agora ela ficava perto de mim todo dia.

Pus a mão no peito, sentindo que o coração havia começado a disparar.

– Ela é muito bonita.

Minha mãe sussurrou isso no meu ouvido e dei um pulo, depois me virei e a peguei sorrindo para mim, com a expressão provocadora de quem sabe das coisas.

– Mamãe! – comecei a protestar, vermelha por ter sido flagrada olhando para Quinn com o que devia ser luxúria óbvia. Depois me lembrei de que não era mais uma menininha e de que Quinn era quase minha mulher. Eu podia olhar. Logo eu seria como mamãe, uma mulher casada. Controlei o rubor e confessei:

– Parece que ela está ficando mais bonita ainda, para mim.

Olhei de novo para Quinn e vi que ela estava dando um sorriso largo, passando a mão pelo cabelo loiro enquanto conversava com o tio, agindo como se não houvesse tensão entre eles.

– Também acho que ela está ficando mais bonita – concordou mamãe.

Estremeci um pouco, surpresa com o comentário, e notei que ela não estava rindo mais. Parecia pensativa, mas de um modo satisfeito, enquanto acrescentava:

– Ela está feliz, Rachel. É por isso. A felicidade embeleza as pessoas.

Sorri para minha mãe.

– Espero que ela esteja feliz, mamãe.

Então papai e Mindy se juntaram a nós outra vez, papai carregando algum tipo de caneca de estanho da qual não teve chance de beber porque de repente a voz profunda de Quinn rompeu as conversas que aconteciam em voz baixa e anunciou:

– Caros convidados, por favor, queiram ocupar seus lugares. O jantar será servido!

Fui para o meu lugar numa das extremidades da mesa, Quinn ocupou o dela na outra ponta e o restante dos convidados procurou seus nomes nos cartões de pergaminho arrumados artisticamente em suportes de prata diante de cada cadeira de espaldar alto.

Enquanto nos sentávamos, percebi que havia um lugar vazio – faltava uma pessoa, à direita de Quinn – e de jeito nenhum consegui me lembrar de quem deveria se sentar ali.

Meus pensamentos mudaram de direção quando um grupo de silenciosos empregados uniformizados retirou os cartões que marcavam os lugares e os substituiu por cardápios individuais que traziam os pratos da noite em uma caligrafia cheia de arabescos.

Um a um, os pratos foram apresentados.

E, alguns segundos depois, todos os americanos caíram na gargalhada.

– Foi um belo toque de vocês dois – disse papai, rindo para mim, depois para Quinn. – Muito sagaz!

Sorri para Quinn na outra ponta da mesa, também, amando-a pela consideração demonstrada com meus pais e pela gentileza e o bom humor daquele gesto. Seu acréscimo secreto de última hora ao menu – “caçarola de lentilha à la Fabray” – era uma ótima piada, visto que ela fizera pouco caso do gosto de meus pais por grãos e feijões, principalmente lentilha, mas também era uma escolha gentil para agradá-los.

– A caçarola foi ideia da Quinn – falei, ignorando a confusão no rosto dos meus parentes vampiros. Todos sabiam o que eram lentilhas, mas o significado delas no menu estava totalmente distante da cabeça dos Fabray e dos Dragomir.

Mamãe sabia que Quinn estava brincando com ela. Ela não tinha sido exatamente tímida ao opinar sobre sua comida.

– Você deveria ter ligado e pedido a minha receita, Quinn – disse ela, dirigindo-lhe um sorriso cheio de malícia, porém afetuoso. – Eu teria dado!

Mesmo estando longe de Quinn na mesa, em volta da qual dois empregados iam enchendo as taças com vinho tinto, pude ver a alegria em seus olhos.

– Ah, eu não poderia incomodá-la com isso! – brincou ela. – Vejamos como minha cozinheira cuida dessa leguminosa adaptável e persistente. Estou sempre ansiosa para provar uma nova variação!

De repente, ao ver Quinn à cabeceira daquela mesa enorme, no controle do menu e da conversa, fiquei realmente pasma com a magnitude e a velocidade das mudanças que aconteciam na minha vida. Menos de um ano antes, mamãe havia praticamente arrastado Quinn pela orelha para fora de nossa modesta sala de jantar e lhe dado uma bronca por ser grosseira com Brody durante nosso primeiro encontro. Olhei para mamãe, depois para Quinn e de volta, pensando que agora isso nunca poderia acontecer. Quinn estava muito além do controle de qualquer pessoa.

Eu estava vivendo de modo independente, num novo país, mas será que também era uma adulta de verdade, desse mesmo jeito?

Remexi-me na cadeira e olhei para Mindy, que me pareceu pequena, jovem e ainda um pouco inquieta numa reunião tão formal. Ela parecia estar olhando – com cautela – a variedade quase estonteante, ofuscante, de talheres espalhados diante de cada um de nós.

Examinei meus próprios talheres, incerta de que saberia quando ou como usá-los, e a confiança que havia sentido quando Quinn pegou minha mão ficou abalada de novo.

Eu havia exercido o poder com Quinn na noite em que pus fim à guerra entre os vampiros e reivindiquei meu lugar como líder do clã Dragomir. Mas neste momento não podia deixar de me perguntar com quem eu me parecia mais.

Com Quinn, à vontade e no comando?

Ou com Mindy, sorridente mas nervosa?

Será que eu estava preparada para ficar na cabeceira da mesa, como a princesa que eu via lá, lá longe de mim? Ou será que ainda parecia fazer parte dos bastidores, convidada humilde de minha própria festa?

Os dois empregados que serviam o vinho chegaram a Quinn e a mim simultaneamente, com o desempenho coreografado para nos servir por último, e eu quase pus a mão em cima da taça sinalizando que não queria – que não podia beber vinho. Então olhei rapidamente para Quinn e vi que ela parecia não perceber que estava sendo servido. Olhei para meus pais também, como se buscasse aprovação, antes de me lembrar de que as leis europeias não me impediam de beber vinho e de que eu não precisava mais de permissão. Além disso, eles esperavam que eu participasse do brinde, ainda que o gosto do álcool fizesse eu me encolher.

Baixei a mão de volta para o lado do corpo, esperando que ninguém tivesse notado o quase erro e olhando o líquido escuro, praticamente preto, fazer redemoinho na taça. À luz das velas ele parecia um bocado com outra coisa que eu queria muito, muito mais. Na verdade, pela qual eu ansiava e de que necessitava.

Meus olhos permaneceram fixos no líquido escuro. Sangue e vinho, coisas que eu havia provado poucas vezes e que agora passariam a fazer parte da minha existência...

Então, com o canto do olho, vi Quinn se levantar, e minha atenção – e a de todos os convidados – se voltou para ela, que ergueu sua taça para brindar a todos nós.

Eu sabia, enquanto a observava, que ela estava gostando daquilo, que Quinn Fabray estava em casa. No entanto, também tinha consciência de que parte do prazer dela resultava do simples fato de que, levando em conta quem estava presente, mesmo um ato simples como dar as boas-vindas aos convidados representava perigo. Qualquer afronta, intencional, involuntária ou meramente suspeitada poderia ter sérias repercussões.

Porém, como era esperado, a pressão não apareceu no rosto de Quinn enquanto ela começava um brinde que não somente agradeceria aos nossos hóspedes por compartilhar uma refeição especial, mas que também poderia, se não fosse feito com graça e elegância, algum dia dar início a uma guerra.

Olhei para meus parentes Dragomir em volta e para o tio de Quinn, Claudiu, que estava sentado rigidamente, com os dedos compridos e pálidos deslizando pela haste da taça de vinho, e minha garganta se apertou, como se aqueles dedos estivessem torcendo meu pescoço.

Claudiu provavelmente adoraria uma guerra. Sendo um Ancião Fabray, ele fizera parte da trama para Quinn se livrar de mim em alguma noite escura em nossa cama, de modo que os Fabray pudessem exercer o poder sobre um império de vampiros sem ser desafiados.

Virei-me de volta para Quinn, de repente quase aterrorizada com meu próprio futuro e precisando me tranquilizar pensando que a poderosa princesa guerreira que estava à minha frente, presidindo a mesa, iria me manter longe do mal.

E olhar para Quinn me acalmou – por um instante. Claro que eu estaria segura com ela na cama enorme que ela havia me mostrado quando fizemos o passeio pelo castelo.

Mesmo assim meu olhar voltou rapidamente para Claudiu. E nas ocasiões em que Quinn não estiver ao meu lado?

Eu estava tão preocupada em lutar contra um pânico crescente que demorei um segundo até notar que Quinn ainda não havia começado o brinde. Não estava sequer olhando para os convidados – nem para mim.

Não, sua atenção fora atraída pelo ranger das dobradiças antigas da porta às minhas costas. Enquanto a porta se abria mais, deixando entrar uma corrente de vento frio que fez as velas tremularem nos candelabros, a expressão de Quinn mudou claramente, fazendo-me esquecer tudo sobre Claudiu e tramas secretas.

Comecei a girar na cadeira, certa de que quem estava entrando na sala não era simplesmente um empregado trazendo comida ou mais vinho. E, no momento em que me retorci para olhar para trás, Quinn confirmou minha suspeita de que alguém importante havia chegado à festa.

– Apesar do deplorável atraso – anunciou Quinn, enquanto eu via pela primeira vez o último convidado, que chegava tarde –, peço que todos deem as boas-vindas ao meu único irmão!

Irmão?

Por uma fração de segundo a palavra me pegou totalmente desprevenida e me senti um tanto traída, certa de que Quinn havia escondido algo importante de mim, um segredo enorme.

E também fiquei pasma com o surgimento do novo convidado, que caminhava em linha reta pela sala, indo na direção de Quinn.

O restante de nós estava usando roupas formais. Até papai, que geralmente vestia camisetas decrépitas defendendo causas nas quais ninguém ao menos pensava, estava de terno. Mas o homem que cruzava toda a extensão da sala, rindo como se não percebesse que estava fazendo uma cena, usava apenas uma bermuda suja e uma camiseta amarela que anunciava uma loja de surfe em Venice Beach. Uma camiseta que parecia pior do que a maioria das do meu pai.

Enquanto ele passava pela mesa, a luz das velas se refletiu no cabelo castanho claro, comprido e brilhante, preso num rabo de cavalo frouxo com o que parecia um velho cadarço de sapato, de couro. Cabelo que talvez estivesse brilhando demais, como se precisasse ser lavado.

Notei um som familiar enquanto ele andava e olhei para seus pés, onde descobri um par de...

Sandálias de borracha pretas?

Levantei-me da cadeira, insegura, e me virei para Quinn, querendo algum tipo de explicação e talvez esperando que minha princesa vampira de modos impecáveis demonstrasse uma enorme insatisfação com aquela cena. Se aquele era mesmo seu irmão, a chegada tardia e a aparência desleixada eram um desrespeito.

Mas quando vi o rosto de Quinn, percebi que ela não parecia com raiva.

Pelo contrário, também estava rindo de orelha a orelha, pousando a taça e empurrando a cadeira para ir ao encontro do recém-chegado.

O que...?

Olhei para meus pais e para Mindy, que também pareciam confusos, e fiquei sem graça por não poder fazer nada mais do que dar de ombros, perplexa.

Ainda de pé e sem jeito, girei de volta para Quinn bem a tempo de vê-la apertar a mão do cara que ela havia chamado de irmão, que por sua vez apertou a mão da minha futura esposa antes de puxá-la no mesmo tipo de abraço, com tapas nas costas, que Quinn trocara com meu pai.

Só quando Quinn pegou o estranho pelos ombros e o girou para nos encarar – para que eu pudesse ver seus sorrisos quase idênticos, os dentes brancos e brilhantes da nobreza Fabray – acreditei em quem aquela pessoa era. Quando Quinn falou, ainda sorrindo, foi como se eu adivinhasse suas palavras:

– Este rato de praia que ousa se juntar a nós, atrasado e com vestimentas tão inadequadas, sinto quase vergonha de admitir, é meu padrinho de casamento.

Afundei de volta na cadeira, ainda não acreditando nos meus olhos.

Então esse era o lendário Samuel Fabray Evans?

Notas finais
*-*