O Vulto
4 O Demônio na Garrafa
Notas iniciais
Um grito, um soco, um choro, um palavrão...
No fim tudo são sons: sons ditos, malditos, pequenos, longos ou curtos, em alguns deles esquecemos quem somos, em outros perdemos ou ganhamos o que queremos.
Alguns meses se passaram, era mais um dia de recebimento de salário, Armando ajeitou os materiais e partiu, pensou em tantas coisas que faria com o dinheiro,
Menos na família.
Ele poderia ter ido para casa, comprado verduras e presentes, mas não, preferiu seguir para o bar encontrar os amigos, que àquela hora já estava contentes ou jogados ao chão. E assim que chegou inalou a fumaça de cigarro que lhe caiu revigorante, a musica brega fazia com que todos sempre tivessem um par adequado, as mulheres feias e mal vestidas estavam prontas a se entregarem para o primeiro que lhes pagassem uma bebida, quem sabe não tinham motivos para voltarem para casa e lá encontrariam um pouco de conforto. Ele entrou feliz, não estava tremendo como os viciados que ali chegavam, o que ele buscava era diversão e o prazer que o aquilo poderia lhe proporcionar.
— Eu quero uma garrafa! – Um pedido simples, mas que se mostraria perigoso.
Armando abriu o recipiente que continha o líquido ardente, enquanto a esvaziava enchia-se de fúria, ciúmes, perversão, inconsequência e maldade. Agora tudo que Armando havia pensado sóbrio, faria enquanto estivesse sob o véu da embriaguez.
E dentro daquele copo repleto de água ardente, ele levou até a boca com gozo o alivio que precisava naquele momento, e desta forma o liquido quente que desceu queimando a garganta e aqueceu todo o corpo. Talvez fosse para esquecer a dor, quem sabe deixar de lado coisas que ele não gostaria de lembrar, talvez para ter paz,
Mas não...
Sabia ele que lentamente a cada copo, garrafa ou lata, deixava para traz os próprios desejos e sonhos, passava a carregar consigo, mais especificamente nos punhos e no corpo grande e musculoso, o medo que empregaria em outras pessoas, mais especificamente na própria família.
E depois que a garrafa secou, o sons da festa não passavam de barulhos desengonçados e as luzes atrapalhavam a visão, os amigos já haviam se despedido e ele nem percebera, quem sabe nem eram seus amigos, afinal depois de um tempo não reconhecia mais ninguém, todas as pessoas eram confidentes e as mulheres lindas e ardentes. Ali deixou mais um salário e voltou para casa com os passos cambaleantes, quem sabe passou vergonha na rua e nem sabia, talvez tenha parado para dar uma cochilada em alguma calçada e fora expulso, ou talvez encontrado alguma confusão na rua e levado uma surra. A penumbra da rua estava intensificada, o chão gelatinoso lhe fazia ziguezaguear pelas estradas, porque os objetos da rua não permaneciam no local e insistiam entrar na sua frente? Todo este conjunto lhe dava mais fúria ainda, porque o mundo era tão injusto, porque depois de um dia de diversão as pessoas se aproveitavam dele?
Não havia problema em dormir na porta dos outros, menos ainda mulher com as mulheres na rua ou xingar as pessoas na rua, final todos gostam de um bêbado enchendo seu saco, seja ele chorão, falador, pensador, dorminhoco, ou no caso dele...
Violento.
Entre passos trocados, chegou em casa; a maçaneta parecia viva, mas a abriu; chamou pela esposa, que prontamente levantou-se e se dirigiu para cozinha, que era onde o marido já estava a fuçar as panelas.
— Oi Lindo – ela disse preocupada ao notar os olhos vermelhos de Armando o corpo balançava em pé, mais parecia uma árvore preste a cair. Neste instante o coração de Lurdes se enchia de tristeza e medo. Ela temia não por ela, mas pelas crianças que dormiam sossegadas.
Por um instante Lurdes refletiu no quanto a vida poderia ser boa, mas seu marido insistia em estragar estes momentos por um simples copo de bebida.
— Faz comida pra mim. – Armando retornou para a sala, jogou-se no sofá e ligou TV.
— Você bebeu de novo né? – infelizmente ela o amava.
— Foi só um pouco. – Talvez duas garrafas e algumas cervejas sejam pouco para muitas pessoas, mas não para uma.
Ela temeu... o cheiro do esposo lhe afastava como repelente, ela sabia que não poderia errar em nada, mas como fazê-lo? Quando qualquer coisa poderia sair errado. Ela não poderia prever, mas deveria antecipar-se usando das experiências que já teve. Lurdes nunca fora boa na cozinha: o feijão era aguado o arroz grudado, a carne as vezes saia boa, não fazia sobremesas, não porque não sabia, não porque não queria, mas porque não encontrava motivação em agradar um homem que se quer tentava fazê-la feliz, que pouco a pouco a deixava partir.
Em fim, ela terminou a sopa de feijão, que era a coisa mais rápida a ser preparada para não deixá-lo ainda mais impaciente. Mas ele teria motivos para impaciência? Já que possuía uma mulher que, mesmo que não fosse boa cozinheira, preparava seu café, almoço e janta, mesmo que estivesse com uma casa construindo atrás e um lixão na frente ambos sempre trazendo sujeira Lurdes deixava a casa impecável, os filhos eram levados à escola, era caseira e as poucas festas que ia eram as da família ou da igreja.
— Espero que goste! – Entregou o prato com um sorriso verdadeiro.
Ele não retribuiu.
— Ai! Essa merda tá quente!
Naquele instante foi como se ela houvesse ganho poder sobre o tempo, e por um instante via todas as coisas como se estivessem em câmera lenta, e com esta habilidade que sempre ativava em momentos como aquele, assim pôde ver os olhos vermelhos e caídos do marido tornarem-se mais vivos, e a expressão ficar primitiva, assim todo o resto do corpo acompanha a fúria dos olhos como se deles saíssem uma força impronunciável que dominavam aquele homem, as veias do corpo tornavam-se grossas e os músculos maiores, assim ele levantava-se do sofá e ficava cada vez maior enquanto o prato caia lentamente até que atingiu o chão e partiu-se, mas o som que ela ouviu não fora o da louça que se quebrou, mas o do próprio rosto que agora estava quente e latejante, quando notou estava jogada ao chão com mão uma das mãos no rosto que agora sangrava pela boca.
— Para Lindo! – Uma frase curta, simples e direta, mas que não significava nada...
Ele não iria parar,
Ainda do chão ela olhava parao marido que parecia cada vez maior, as penas não mexiam, o corpo não respondia, o sentimento de fuga estava ativado, mas ela sabia que precisava ser forte para que ele não fosse até o quarto das crianças.
Onde estava a vida bela? Que dure para sempre...? Até que a morte nos separe? Prometo amar-te e respeitar-te?
Palavras, apenas palavras que no momento não faziam sentido algum, não traziam verdades e deixavam a realidade cada vez mais dura de se encarar.
. – Não, Lindo! – Ela pedia enquanto Armando retirava o cinto e a olhava com um desgosto sádico. Lurdes sentia a saliva descer seca cortando a garganta misturada ao sabor do sangue.
As crianças deviam estar dormindo há essa hora, mas Renato acordou desde que ouviu a porta ser aberta, e naquela madrugada fria Renato devia ouvir os golpes que estralavam enquanto a mãe chorava baixinho. Enquanto assustava-se com cada golpe as lágrimas caiam, e o sentimento de impotência o tomava de tal forma a causar nele mesmo vergonha por ser um garoto, pequeno e fraco, não sabia porque mas lhe veio a mente o último culto onde falaram de Lutero e sua saga contra o sistema religioso, e Renato deveria saber que precisaria desta mesma força para vencer em casa, afinal a mãe estava só a alguns metros, mas o pai era tão grande e forte, o que Renato podia fazer era simular em sua mente o que faria caso fosse grande, caso fosse mais velho, caso... caso... Entre casos e acasos ele sabia que ainda não era nada do que queria nem do que deveria ser, então ficaria ali sendo flagelado com a mãe, o melhor que ele poderia fazer era sofrer com ela, mesmo que não lhe doesse na carne, as dores e feridas no espírito tornavam-se cada vez maiores com o passar dos anos.
Por fim o som parou e restou somente o gemido e passos de uma pessoa que caminhava para o quarto das crianças, Renato estava mais acordado do que nunca, mas paralisado pelo medo sentia o coração palpitar cada vez mais alto e forte, a porta abriu-se e um faixo de luz iluminou parcialmente a penumbra do quarto, como um animal o pai parecia farejar o sono, nada disse e fechou a porta, logo depois ouviu-se o som de um corpo sendo jogado na cama. A mãe parecia erguer-se entre cambaleios, pareceu cair duas vezes e derrubou alguma coisa enquanto chorava.
Mas Renato pode ouvir outros passos, mas estes eram mais leves, a porta tornou a ser aberta e o faixo de luz entrou, Renato sabia que era a mãe, sentiu que ela olhou para todos, ela precisava assegurar que nenhuma das crianças estavam acordadas. Renato sentia vergonha por tantas coisas, pois a mãe estava triste e machucada e ele não podia levantar para abraça-la, desta forma sentiu-se conivente com tudo aquilo, será mesmo que era? Afinal quem oculta o crime tem culpa também. Por muito tempo acreditou ser cumplice do pai, afinal os colegas não sabiam, os professores não suspeitavam e os irmão da igreja sequer duvidavam.
O faixo de luz diminuiu, a porta fora fechada, com Renato ficou a escuridão do quarto, o barulho do vento que uivava na madrugada, o som dos cachorros que fuçavam o lixão que ficava na gente de casa e os dos insetos que de lá vinham.
Fale com o autor