O Vulto

5 Confraternizando com o inimigo


Notas iniciais
Tema: Decepção

Mesmo em épocas bonitas aquela casa parecia assombrada, da janela Renato podia contemplar a vasta vegetação morta e os morros de lixo que formavam a paisagem matinal do garoto, bem como acordar ao som dos latidos dos cães e dos pássaros carniceiros.

— Crianças, acordem vocês precisam ir pra escola! – Lurdes disse sorrindo, talvez assim os filhos não percebessem o rosto inchado.

— Não, mãe, só mais um pouquinho... – Camila disse cobrindo a cabeça.

— Não, de pé agora!

Lurdes usava roupas longas para esconder as marcas, mas não conseguiria disfarçar o rosto marcado. Renato não questionou, fingiu não perceber a boca inchada e disse:

— Anda logo, a mãe já falou!

— Oxe! Você não é meu pai – Tiago reclamou inocente, mas não sabia como aquelas palavras deixaram Renato alegre e triste ao mesmo tempo.

Os mais novos foram para o banheiro, mesmo que resmungando. Renato ficou para ajudar a mãe que demonstrava dificuldade ao pegar as coisas. Naquele dia Lurdes não faria muita coisa, porque Renato estaria lá para cuidar dela.

— Mãe, eu coloco o café da senhora.

— Obrigada, filho... Você tá querendo alguma coisa? – Ela disse brincando.

— Quero tantas coisas, mas agora não posso ter nem uma delas. – Renato pensou triste, mas conseguiu sorrir.

Não demorou muito até Armando aparecer:

— Bom dia família! – Falou alegre como quem havia dormindo um sonho bom.

— Bom dia pai, benção! – Camila e Tiago disseram juntos.

— Deus os abençoe, um ótimo dia pra todos!

— Bom dia né, Renato? Não vai falar comigo?

A reposta que ele queria dar era: “O que tem de bom?”, mas respondeu com um sorriso amarelo.

— Bom dia, pai.

— Só “Bom dia?” E o que mais?

— Benção, pai, bom dia. – Não havia como ficar mais sem graça.

— O que sua mãe preparou pra gente?

Camila respondeu contando nos dedos:

— Leite, café, pão, manteiga e fruta!

— Sua besta, – Retrucou Tiago – a mãe não fez nada disso, ela comprou na padaria.

— Nada haver! Eu falo como eu quiser!

— Quem nada e vê e peixe! E quem não vê é cego!

— Tá bom, vamos parar com isso. – Armando falou sorrindo.

— Lindo, vou botar seu café. – Lurdes falou forçando um sorriso.

— Nega, não precisa – Ele falou segurando na mão dela, fora um toque delicado, mas Lurdes não pode evitar o susto – deixa que eu mesmo coloco. – Fora tão carinhoso, tão verdadeiro que por um segundo o acontecido na noite anterior pareceu um pesadelo para Renato.

Renato não tirou os olhos das mãos do pai sobre a mãe, “ele não tem esse direito”, mas nada podia fazer, bem como relutava com o sentimento de decepção para com a própria mãe, ao notar que ela se mantinha omissa numa situação como aquela, ele queria que ela reagisse, queria que ela partisse, no mínimo evitasse ser tocada por ele.

Armando levantou-se e colocou o café, sentou-se e começou uma conversa qualquer, fazendo os filhos sorrirem, e quando Renato se viu ele também estava sorrindo e brincando com o pai no sofá, por um instante decepcionou-se consigo mesmo, pois estava divertindo-se com o homem que destruía gradativamente a família.

— Renato, você sabe que mês é esse? – Perguntou Armando.

— É novembro.

— E o que tem em novembro?

— Nosso aniversário.

— O que você quer ganhar?

Renato pensou imediatamente: Paz, um pai.

Antigamente Renato sabia exatamente o que queria em todos os seus aniversários, mas coisas como estas estavam passando.

— Não sei pai.

— Eu vou pensar por você, mas e para mim?

— Não sei pai, vou pensar.

— Olha que promessa é dívida em! Não se pode quebrar promessa nem quando faltar carinho, mas vamos, eu vou deixar vocês na escola hoje!

Armando tinha uma habilidade incrível ao andar de bicicleta, assim levava os três filhos: Renato na garupa; Camila, no cano da bicicleta sentadinha de lado; e Tiago, em uma garupinha presa ao guidon.

Na porta da escola comprou lanche para os três, lhes deu um beijinho, despediu-se e partiu para o trabalho.