P.O.V Ravena Castellyn.

Acordei sentindo-me um pouco cansada por conta do despertador. Me espreguicei e sentei, o sol entrava pela janela aberta e me perguntou por qual motivo a havia deixado assim, até por fim me lembrar que dia era.

É claro! Hoje ela iria finalmente fazer compras! Tinha que acordar cedo.

Foi instantâneo. No mesmo momento em que levantou da cama, ouviu batida na porta e a voz de sua tia, gritando: “acorda, Ravena”.

— Já estou acordada! — Respondeu, correndo até a porta e a abrindo. Não disse bom dia ou nada do tipo, apenas saiu correndo e adentrou-se no banheiro para tomar um belo banho. Ao sair, sua tia já aguardava na porta:

— Volte cedo. Ainda preciso de ajuda na loja.

Coloquei a mão na cintura, fazendo minha melhor cara de cínica.

— Não se envergonha em colocar uma criança de onze anos trabalhar?

Ela assumiu exatamente minha pose com a mesma cara de cínica (quase, na verdade, eu conseguia refletir mais profundamente o cínico).

— Então o que acha de parar de te pagar mesada? Já que é muito difícil para você organizar os livros?

A loja de Mil e Uma Utilidades era o orgulho de minha tia. Havia essa loja desde muito antes de eu nascer, já havia criado franquias em muitas partes do mundo e agora, finalmente, estava abrindo no Beco Diagonal. Quando completei cinco anos e fui mandada para morar com ela, ela começou a pedir que eu ajudasse com os livros; era bem simples, na realidade. Eu apenas tinha que folheá-los e limpar as prateleiras para que não acumulasse traças. Acho que foi isso que me fez gostar de ler, o contato com os livros que tive desde nova.

Não era exaustivo. Apesar de ter muitas prateleiras, eu tinha que folhear e limpar uma vez por mês, dava para fazer um pouco cada dia. Mas aquele mês era um mês de muita turbulência, já que as aulas em Hogwarts estavam começando e era a primeira vez que vinha tantos clientes para a loja do Beco Diagonal de minha tia. Por mais que ela tivesse inúmeras franquias, não éramos exatamente ricos, já que as lojas tinham muitas coisas dentro, tinham que ser enormes (e os aluguéis ou os preços das propriedades eram também enormes) e então, enquanto eu não ia para o colégio, ela me mantinha como uma funcionária e me pagava regularmente (menos do que para uma verdadeira funcionária, mas o suficiente, já que eu não fazia tudo que uma funcionária fazia). Hoje eu só teria que arrumar as prateleiras quando a loja fechasse, como todos os outros dias, esse era bem regular — por mais que alguns dias Tiane o fizesse por mim, a verdadeira funcionária da loja.

— Certo, então. Vou me trocar, fazer minhas compras e volto para arrumar a prateleira. Feliz? Agora me passa a grana.

Pela carranca, ela não estava nem um pouco feliz.

— Ah, é, mocinha? Vai sair cedinho? E aqueles livros que eu pedi para colocar na prateleira ontem? Você os colocou?

— Mas você acabou de dizer para voltar cedo! — Fiz cara de desespero. Não era sempre que funcionava, mas as vezes sim e infelizmente atualmente funciona bem menos que antigamente.

— Sim, eu disse, já que toda vez que sai volta depois que anoitece. Você tem onze anos e age como se tivesse dezessete! Então, quero que volte antes de anoitecer e termine de colocar os livros na prateleira antes de sair… e eu só darei sua “grana” — ela fez aspas com os dedos, mesmo que isso não fosse necessário — quando terminar.

Dei um grande suspiro enquanto revirava os olhos, mas isso também não surtia mais efeito em Camille Castellyn, que saiu andando e desceu as escadas para a loja. Viviamos em baixo da loja, por assim dizer; dava até para ver a loja se chegasse bem perto do parapeito do corredor, mas graças a Merlin não dava para ver aqui em cima. Em baixo ficava a enorme loja; em cima ficava dois quartos, uma cozinha e dois banheiros (um dentro do quarto). Era até grande e confortável. Havia até um jardim nos fundos, pequeno, mas extremamente incomum levando em consideração que vivíamos no meio do Beco Diagonal.

Coloquei uma calça, uma blusa de frio fina com alguns desenhos aleatórios, preta com vermelha, azul e roxo. Coloquei minha bota também e, quando olhei no espelho, fiquei alguns minutos para decidir o que fazer.

Meus cabelos eram enormes e castanhos claro, um pouco puxado para o loiro, havia uma pequena franja que escondia uma cicatriz vertical no meio de minha testa; tinha os olhos castanhos esverdeados — algumas partes — e possuía um pouco de sardas nas bochechas e no nariz. Finalmente decidi deixá-los soltos mesmos, mais por preguiça, já que meu cabelo era tão liso que era difícil de prender.

Ao terminar, desci as escadas. Estava tão entusiasmada em fazer compras que fui rapidamente pegar os livros no depósito para encher as prateleiras novamente. Estava trabalhando fazia uns quarenta minutos, colocando o último livro na última prateleira, quando um menino chegou e puxou a escada que eu estava; por pouco não cai.

— Oh, seu maluco, não viu que tinha gente aqui? — Gritei.

O garoto levantou a cabeça na hora e deu um leve sorriso.

— Não tinha visto. Pode me pegar As Forças das Trevas — Autoproteção? É o último livro que falta! — Ao lado do garoto havia uma pilha de livros. Ele já tinha parado de sorrir.

O garoto era negro, com cabelos curtíssimos, olhos castanhos escuros e usava um óculos redondo com armação grossa e preta. Eu revirei os olhos, peguei o livro que ele havia pedido depois de deixar o outro na prateleira e desci. Entreguei a ele. Chegando ali, percebi que era um pouco maior que ele, embora parecessemos ter a mesma idade.

Além dos livros, ele tinha uma cesta cheia de outras coisas: tinha frasco para poções, material de escrita, telescópio, balança de latão e, com todos os outros objetos dentro, um caldeirão. Era exatamente as mesmas coisas que eu possuía e, sabendo que o último livro que ele pegou também era igual ao que eu precisava, cheguei rapidamente à minha conclusão:

— Hogwarts, em? Parece que vamos estudar juntos.

Ele me encarou depois de colocar todos os livros dentro da cesta, quase os fazendo cair.

— Não é muita coincidência, já que este Beco Diagonal está repleto de estudante de Hogwarts hoje.

— Pois é. Mas eu quis dizer que vamos estudar no mesmo ano. Eu também começo meu primeiro ano esse ano.

Ele pareceu compreender.

— Legal. Não conheço ninguém do meu ano, só um monte de gente chata e mais velha. Fazer o que, não é mesmo? Você conhece o Beco Diagonal? Eu vim algumas vezes mas como hoje está muito cheio me perdi duas vezes.

— E seus pais? — Perguntei, cruzando os braços, abrindo um sorriso e me apoiando na prateleira.

— Acha mesmo que ia ficar andando com eles por aí? Vou encontrar eles no Caldeirão Furado mais tarde. E os seus?

— Em algum lugar de Londres, não sei se se mudaram — dei de ombros. — Mas minha tia é a dona da loja, eu estava arrumando.

— Trabalho infantil? Vou denunciá-la!

Eu ri.

— Posso ajudar sim, eu também vou fazer compras hoje. Eu te encontro no caixa, vou pegar dinheiro com minha tia… hoje eu compro uma Clistener!

— Aquela vassoura caríssima? Eu pensei que não pudesse levar vassouras no primeiro ano…

— E eu lá sigo regras, bebê? — Ri enquanto me afastava, tentando achar minha tia em meio aos clientes.

Logo a achei. Quando ela me viu, nem falou nada, apenas deu uma olhada na prateleira de livros enquanto conversava com uma cliente, tirou dinheiro do bolso e me entregou. Igualmente não pronunciei uma palavra, juntei o dinheiro com o que eu já possuía em meu bolso da calça e fui até o caixa. Ele ainda não havia passado, mas era o próximo.

Conversamos um pouco. Tínhamos algumas coisas em comum: éramos mestiços, gostavamos de voar, gostávamos da Dedos de Mel (pelo menos a franquia do Beco Diagonal) e das Gemialidades Weasley (eu gostava mais que ele, mas ele admitia que era uma loja fabulosa). Ele era bem rico e isso ficava claro no modo como estava ansioso para ir à loja de roupas e comprar ela inteira — palavras dele, não minhas.

E foi para lá que nos encaminhamos depois. Primeiro, experimentamos todas as roupas de uniforme, ajustamos no nosso tamanho e enquanto esperávamos que terminassem a confecção, Noah (o nome do garoto) experimentou um monte de roupas montando praticamente um novo guarda roupa para Hogwarts. Tinha um belo gosto para as roupas, admiti, e então ficamos com mais algo em comum: tínhamos bom gosto. Quando me apaixonei por uma saia de couro que vinha até o um pouco acima do meio da coxa, ele me deu sem pestanejar. Disse ser um agradecimento por ser uma guia e ter um bom gosto.

Ele comprou tanto que tive de ajudar com a bagagem. Ele acabou comprando malão novo, muito bonito por sinal além de ter um feitiço indetectável de extensão e nele colocamos todas as coisas (até minhas). Fomos para o Olivaras depois.

Um homem de quarenta e poucos anos nos atendeu. Não era muito atento, tanto que demorou para ver que havíamos entrado, e olha que falávamos muito alto, Noah acabou tocando a campainha que, de tão alta, machucou nossos ouvidos e rimos.

— Oh, olá! — Ele desceu as escadas, sorrindo. Como falava alto, cheguei a conclusão de que era um pouco surdo. — Bem-Vindos! Podem me chamar de Olivaras.

Noah deu um leve sorriso.

— Bom dia. Pode nos mostrar suas varinhas?

— Fale mais alto, meu jovem. Sou surdo do lado direito! — Informou, comprovando minha teoria.

Noah repetiu a frase quase aos berros, fazendo o homem rir. Ele, então, saiu murmurando de sua frente e desapareceu em meio à tantas prateleiras; ficamos novamente sozinhos, mas desta vez não tivemos assunto. Ao voltar, Olivaras trazia cerca de cinco varinhas. Deu a primeira com um sorriso e um aceno com a mão, pedindo silenciosamente para que testasse.

Balançou a varinha e o livro que estava em sua frente foi feito em pó. Eu me assustei, depois ri, enquanto Noah deixava a varinha de lado com os olhos arregalados. Olivaras deu outra varinha, não parecendo se importar com o livro destruído. Agora, ao balançar a segunda varinha, o livro magicamente se recompôs. Ele sorriu.

— Oh, parece que é essa! Madeira de amieiro com núcleo de coração de dragao, 11 ¾ cm, bastante flexível. Uma boa varinha, excelente!

Eu passei para frente de Noah e sorri, deixando ele murmurar “oh, falta de educação!” enquanto eu ignorava. Estava ansiosa para ter minha primeira varinha, afinal, minha tia não havia deixado em comprar nenhuma, pois segundo ela nada de bom sairia comigo e uma varinha juntas (chata).

Olivaras pareceu entender, saindo e voltando mais tarde com mais varinhas. Estava tão ansiosa que balançava os pés enquanto me apoiava na escrivaninha. Até Noah percebeu a minha empolgação.

— Empolgada, em?

— Obviamente! Sabe qual a primeira coisa que vou fazer com uma varinha? Além da vassoura, a varinha era a minha aquisição mais esperada!

— O quê? — Ele não parecia preocupado. Ainda não me conhecia bem…

— Quero colocar uma lagartixa na sopa de alguém no Caldeirão Furado. Não seria incrível?

Ele riu.

— Algo que não me incomodaria de ver!

Tive que destruir um vaso, duas prateleiras, incendiei a barba enorme de Olivaras e fazer uma varinha voar da minha mão de negação (enquanto Noah morria de rir, dizendo ser vingança por ter rido dele) eu finalmente consegui a minha. Ao contrário da de Noah, soube que era minha no momento em que a segurei e me senti completa. Era a melhor sensação que já havia sentido em minha vida.

— É essa! — Anunciei, feliz.

Olivaras sorriu.

— Excelente, também. Madeira de cipreste com núcleo de pena de fênix, 13 ¼ cm, levemente flexível.

Eu admirava minha varinha com amor quando Noah estragou o momento:

— Consegui na segunda tentativa e você na sexta. Sou realmente incrível — ele fez eco na última palavra, dando ênfase.

Revirei os olhos. Havia começado a ver o quanto ele era convencido….

Depois de pagarmos, fomos comprar animais, que era bem perto dali. Eu queria uma coruja, já que assim poderia me comunicar com minha tia e meu tio (que estava administrando a loja da Itália), assim tento mais possibilidade de ganhar presentes (esse era o real motivo, na verdade) além do bônus de ter um lindo animal de estimação. Eric queria um coelho e acrescentou que era ótimo eu querer uma coruja, ele a usaria todos os dias. Coitada!

Peguei uma coruja-orelhuda (me encantei com as orelhas e a cara despojada). Ela tinha uma linda pelagem castanha e branca, lembrava um pouco a mim. Foi amor a primeira vista; o coelho de Noah era branco como a neve, pequeno o suficiente para ficar em seu ombro. Saímos felizes, com eles dentro de gaiolas e com comida para ambos.

E, por fim e não menos importante, compramos a vassoura.

Quando saímos era hora do almoço. Estávamos com fome (e eu estava impressionada por termos terminado relativamente cedo, deveria ser o fato da maioria das coisas terem na loja de minha tia). Estavamos decidindo quando tive uma brilhante ideia:

— Que tal testarmos minha varinha?

— Não pode fazer magia fora de Hogwarts — anunciou o óbvio.

— Qual é! Estamos no Beco Diagonal, qual as chances de saberem exatamente quem fez o feitiço? E é um tão simples! Vamos, temos que tentar! Por favorzinho…

— Okay, certo, mas eu escolho o amaldiçoado — agora ele parecia tão empolgado quanto eu.

Estavamos bem perto e rindo. Ao entrarmos no Caldeirão Furado, tivemos que tomar cuidado para que os pais de Noah não nos vissem; sentamos na escada. Estava tão cheio que nos camuflavamos perfeitamente até com o malão e a vassoura. Eu avistei uma lagartixa facilmente e demorei um pouco para pegar, mas nada muito exaustivo (os risos de Noah eram mais). Ao pegar, voltei a me sentar ao seu lado e sorri.

— Pronto? Escolheu o alvo?

Ele ainda procurava. Acabou apontando para um grupo de quatro garotos sentados em uma mesa, com não mais que treze anos. Eles conversavam animadamente… um deles tinha um cabelo castanho, outro cabelos negros e enrolados, outro cabelos negros e lisos enquanto o quarto tinha os cabelos castanhos quase ruivos, acho que poderia dizer ser ruivo.

— Algum daqueles garotos. Eles parecem convencidos.

— Atacando a própria espécie? — Ri.

— Ah, cala a boca! — Riu de volta, mas um pouco ofendido. — Acaba com eles, confio em você — deu um tapinha em minhas costas.

Peguei a varinha, me concentrei, limpei a garganta e murmurei o feitiço que havia lido:

— Wingardium Leviosa — não ocorreu nada. Novamente tentei e mais três vezes, quando Noah começou a ficar entediado com a demora e, segundo ele, a “inutilidade”. E, na sétima vez, a lagartixa começou a flutuar.

Ele se admirou.

— Calou a boca agora né? — Ri.

— Presta atenção e anda logo!

Foi rápido. A lagartixa voou pela sala rapidamente e parou no prato do de cabelo castanho; quando os quatro encararam a lagartixa, a deixei cair. A sopa voou no rosto do garoto. Noah e eu começamos a rir imediatamente, assim como os outros três garotos que estavam com ele. Saímos rápido, rindo desesperadamente, quase chorando. Ríamos tanto que, ao chegarmos em uma das ruas do Beco Diagonal, chamamos atenção.

— Quer voar comigo?

— Não sou maluco! — Disse, tentando parar de rir.

— Ah, nem venha com isso! Eu sou uma ótima voadora, jogo quadribol desde os cinco anos! Sou a melhor que vai ver na sua vidinha. E, além disso, podemos comer na minha casa que é bem mais perto de vassoura.

Ele riu.

— Só quero dizer que só vou para comer e para caçoar de você quando ver que não voa tão bem.

Foi minha vez de rir. Subi na vassoura e coloquei a alça na mesma. Então, pedi para que ele subisse.

Foi um voo adorável como todos meus voos eram. Não fui muito rápido, queria testar a velocidade mas não podia correr o risco de deixar o malão ou nossos animais caírem. Noah pareceu gostar, mesmo que não tenha dito nada. A visão do Beco Diagonal era bonita, mesmo sendo bem mais de noite com as luzes e o conhecia como a palma de minha mão de tantas vezes que havia sobrevoado no último ano. Pousamos no telhado de minha casa que dava à minha janela. Entramos com facilidade, já que a deixava aberta para esse fim (sempre entrava por ali quando saí de vassoura).

Comemos, conversamos mais e logo ele teve de ir embora. Foi um ótimo dia e agora, finalmente e pela primeira vez na vida, tinha um amigo.

Notas finais
NA: Espero que tenham apreciado meu texto. Aceito dicas construtivas, podem apontar erros e tudo mais! Estou aqui para escutar. Comentem, pois isso anima um autor de fanfics. Até o próximo capítulo! Beijinhos :*