O Véu Negro
2 Expresso de Hogwarts

P.O.V Noah Belmonte.
O garoto de uniforme vermelho pega minhas malas e as joga sem muito cuidado no vagão com as malas de todos os outros alunos.
— Ei! Tem algumas coisas MUITO caras nessa mala, ok?
Ele assente e faz sinal para a garota atrás de mim, me ignorando completamente.
— Você esqueceu dessas outras duas.
Aponto para outras duas malas enormes. Ele revira os olhos e as joga no vagão da mesma forma que a anterior. Desisto.
Sigo caminhando pela estação, os quase alunos estão todos animados subindo aos vagões, despedindo-se de seus parentes mães chorosas, pais orgulhosos, famílias completas mostrando uma animação exagerada, é um lugar bom de estar, a energia é contagiante, é simplesmente lindo.
— E como você está aí? — Pergunto para a minha jaqueta.
Não sabia ao certo se podia trazer animais comigo no trem, mas trouxe meu coelho, Zeus, escondido. Se me pegarem eu serei expulso antes de chegar na escola? Ou jogarão meu coelho pela janela? Céus, cometi o maior erro da minha vida, pobre Zeus, nem saiu da loja direito.
Alguém toca meu ombro.
— Noah, certo?
Salto no meu lugar, assustado.
— Não leve meu coelho!
Me viro e encontro a garota do Beco Diagonal. Rapidamente ela explode em gargalhadas.
— Você precisa relaxar um pouco. Ninguém vai tirar o seu coelho de você.
— Como você sabe dele?
— Você estava falando com ele nesse instante.
Isso é verdade.
Seus cabelos enormes estavam presos em um rabo de cavalo e seus olhos estavam um pouco avermelhados, como se não tivesse dormido por nem um segundo esperando esse momento, mas isso era normal dentre a maioria dos alunos. Ela segurava uma gaiola em sua mão direita, onde estava sua coruja.
— Você está sozinha?
Ela assente.
— Minha tia veio comigo, mas não pode ficar até a saída do trem. E onde estão seus pais?
— Ocupados. Me deixaram aqui e foram embora rapidamente.
Como sempre eles estavam brigando por… tudo, mas nossa amizade de poucos dias não precisa de um assunto tão ruim, principalmente quando encontramos nosso vagão.
— Finalmente! Andar é tão cansativo!
Ravena deixa escapar um pequeno sorriso antes de saltar para dentro do vagão, como uma criança atrás de um presente de natal.
Ok, acho que é aqui que as coisas começam de verdade, o primeiro passo para me tornar um grande bruxo. Ou não. Talvez seja melhor apenas voltar para casa e desistir dessa ideia, minha mãe odeia o fato de meu pai ser um bruxo e meu pai pode ser classificado como mediano. Eu não quero ser mediano, eu quero ser incrível, marcar o mundo de alguma forma, mas como vou conseguir fazer isso? Encaro os degraus por mais um tempo. Outros alunos esbarram em mim para subir.
A cabeça de Ravena aparece na porta, seus cabelos por algum motivo agora estão soltos.
— Ei, você não vai subir? Tipo… é o motivo do trem estar aqui, sabe?
Ela está tão animada. Seus olhos brilham a cada palavra, cada suspiro. Como ela faz isso? Meus medos estão me segurando e eu não gosto disso. Talvez fosse esse o motivo de nós termos nos conhecido tão aleatoriamente. Na noite anterior ao nosso encontro tive um sonho estranho onde alguém me empurrou de um penhasco, onde eu estava paralisado de medo, com medo de voar, talvez seja ela a me dar esse empurrão e isso seria ótimo para mim.
Cuidadosamente subo ao trem. Expresso Hogwarts, isso realmente está acontecendo!
Ravena me puxa pela mão.
— Você precisa se animar um pouco mais. Nós estamos indo para Hogwarts!
Solto um sorriso. E decido correr livremente pelo corredor, bem, é uma forma de demonstrar animação, certo? Infelizmente escorrego em algo e caio de costas no chão, minha corrida dura um total de quatro segundos.
— Ai!
Alguns alunos riem. Ravena leva a mão até o rosto, surpresa.
— Meu prendedor! Achei que o tivesse perdido.
Por isso seu cabelo não estava mais preso, ela o perdeu durante a animação. Me levanto com um pouco de dificuldade. Ravena está encarando um cabine com os olhos arregalados. Me aproximo.
— O que aconteceu?
— Nós temos um fantasma.
— Como?
Ela me olha, a expressão mais surpresa que já vi em minha vida.
_ Um fantasma! Meu prendedor caiu bem aqui. Alguém o puxou para essa cabine, mas olhe…
Encaro a cabine vazia. Meu coração se enche de energia.
— NÓS. TEMOS. UM. FANTASMA!
Ravena me encara com um ar de dúvida.
— Acho que você está se animando pelo motivo errado.
— Agora nós podemos pesquisar de sobre sua história, como ele morreu e todas essas coisas. Isso é o máximo.
— Ok, chega por hoje. Vamos achar outra cabine.
Ele me puxa pela mão. Minha mão flutua no ar tentando alcançar a cabine fantasmagórica enquanto ela se distancia de mim.
— Adeus, fantasma! Adeus!
A nova cabine tem um cheiro leve de camomila o que acalma nossos ânimos, pelo menos um pouco.
Nos sentamos de lados opostos e fechamos a cabine. Talvez eu esteja torcendo para nenhum desconhecido passar pela porta e se juntar a nós, e talvez seja isso o que Ravena espera também já que encara a porta com um ar preocupado, ou talvez ansioso e ela espera o contrário, não consigo entendê-la perfeitamente ainda. Claro, pessoas não são minha especialidade.
Zeus salta do bolso de minha jaqueta e se esconde atrás de mim quando percebe que Ravena soltou sua coruja que está parada como uma estátua rolando seus olhos pela cabine. Ravena percebe meus olhares preocupados e ri.
— Não se preocupe, Neji não vai lhe fazer mal.
Solto um suspiro aliviado e Zeus se aconchega em meu lado.
O trem se prepara para sair. Meu coração se acelera. Os pais do lado de fora estão gritando o nome de seus filhos acenando incessantemente, sorrisos fartos, lágrimas de orgulho. Me pergunto se em algum dos próximos anos irei ver meus pais fazendo o mesmo. Talvez enquanto Ravena corre os olhos pela estação ela esteja compartilhando do mesmo pensamento.
Agora os pais já desapareceram. Os alunos andam pelo trem, conversando sem parar, mostrando seus objetos mágicos, brincando uns com os outros. Penso em sair um pouco e talvez conhecer novas pessoas, mas assim que me levanto uma senhora aparece, puxando um carrinho que parece ter tudo o que eu mais preciso nesse momento. Açúcar!
— Olá, crian...
— Um de cada por favor! Não, dois! Três!
Ravena me olha com estranheza.
— Dois está bom, não acha?
— Três é sempre melhor, acredite.
A senhora de chapéu listrado ri.
— Esses não são hábitos de um garoto saudável.
— Mas definitivamente são hábitos de um garoto feliz!
Não passa muito tempo e a maior parte dos doces se foram. Estou jogado no chão como se tivesse comido todo o açúcar do mundo e nunca estive tão feliz. Ravena está jogada no assento, seu rosto sujo de chocolate com Neji andando sobre ela.
— Acho que seu coelho não sobreviveu.
Olho para Zeus, também caído no assento com suas patas para o alto e e uma bala rosa presa em seus pequenos dentinhos. O cutuco. Ele se mexe um pouco.
— Completamente vivo. Nosso pouco tempo juntos o deu uma tremenda tolerância aos doces, somos almas gêmeas.
Ravena sorri, mas não se move.
Pelo vidro da cabine consigo ver os outros alunos caminhando agora com seus uniformes o que significa que estamos próximos de nosso destino. Balanço o corpo imóvel de Ravena. Neji voa até o outro assento ao lado de Zeus, que arregala os olhos com medo e não se move, se fingindo de morto, inteligente.
— Ravena, acho que é hora de nos trocarmos.
Ela salta e em segundos está em pé. Ainda não tenho forças para me levantar.
— Você me avisa agora, Noah? Meus planos era ser a primeira a colocar o uniforme. Eu disse que eram doces demais! Você não consegue nem se levantar!
Tento me levantar me apoiando ao assento, mas escorrego e termino ao lado de Zeus, tão morto quanto ele.
Ravena me empurra para fora da cabine, demora um pouco, mas finalmente estamos prontos. No reflexo do vidro da cabine consigo me observar, o uniforme caiu perfeitamente, esse foi o segundo passo. Já me sinto um bruxo. Ravena tem um sorriso estampado em seu rosto, girando e checando todos os seus ângulos.
— Esse Uniforme é lindo!
— Sim! Nós somos oficialmente quase bruxos, o quão incrível é isso?
Ela dá saltinhos no ar. Logo em seguida abre a gaiola e Neji voa de volta para lá. Pego Zeus e o coloco em meu bolso. É agora, chegamos.
A caminhada até a saída é longa, vários alunos medindo suas animações e querendo dar a primeira olhada no castelo. Na noite. Na lua. A ansiedade é maior que tudo.
Ao descer do trem vejo um homem gigante. Meu pai me falou sobre ele. Hank, não… Hal, não… Harold…
Ravena salta na minha frente e sussurra, seus olhos brilhando como diamantes.
— Hagrid!
Hagrid, isso!
Foi então que eles nos chamou para pequenos barcos. Sentamos com mais dois desconhecidos, que tão animados quanto nós nem chegaram a se apresentar. A ansiedade parecia corroer, já que o castelo já se tornava visível. Conforme se aproximava, a vontade de correr até as portas era enorme; por mais que possamos ver tudo isso é como se pisar do lado de fora dos barquinhos fosse mudar tudo, trazer um brilho diferente, como se não conhecêssemos nada, só estamos descendo desse trem como bebês esperando pelo início de uma nova vida, surpresas, novidades, amigos, tudo!
O vento frio toca minha pele e me faz estremecer. Posso ver morcegos voando ao longe e o grande castelo como uma sombra em meio ao céu iluminado pelas estrelas.
É isso, finalmente Hogwarts!
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