O Teste da Deusa
5 Capítulo Quatro - O Dia da Vingança
Notas iniciais

P.O.V. Rachel
Bufei, enquanto o décimo táxi passava direto por mim ante o meu sinal. Já era tarde e eu realmente estava com vontade de chegar em casa. E comer. Ah, comer seria realmente bom.
Que se dane essa merda. Eu vou andando mesmo.
Eu ando estressada demais. Não paro nem um único minuto nessa droga de vida para simplesmente respirar.
O museu vinha absorvendo todo o meu tempo e eu realmente estava sem ideias para novos projetos. Eles queriam algo que fosse diferente do meu trabalho habitual. Algo que fugisse da minha zona de conforto.
Caminhei rapidamente até a minha casa, no cento da Upper East Side. Meus pais me deserdariam se vissem o lugar onde moro. Mas quem liga?
Depois de quase meia hora andando finalmente cheguei ao apartamento e abri as portas.
Entrei com um suspiro. Havia tanto a ser feito e tão pouca vontade de fazer. Chegava a ser deprimente.
Telas jogadas, inacabadas. Uma parede em branco para o fim de semana. Tintas em toda a parte. Eu preciso de uma faxina. E de novo, de comida. Comida seria realmente muito bom.
Caminhei até o quarto tirando os sapatos. Eu odiava a vida adulta. Ela não estava sendo como eu havia planejado. Quem diria que a herdeira das empresas Dare estaria em um apartamento minúsculo, em um bairro classe média, tendo que trabalhar para se sustentar? Meus pais nem sonham com isso. Eu vou estar realmente ferrada quando eles perceberem que a filha não está se formando em direito e sim em artes. Nem quero ver a guerra. Tentei prender o cabelo no alto da minha cabeça e suspirei me jogando na cama, para levantar logo em seguida. Tenho coisas para fazer.
Tirei a saia e a camisa social que vestia. Eu detesto essas roupas que preciso usar em dias de reunião, francamente. Vesti uma legue e uma camisa branca larga, manchada de tinta.
Caminhei até o pequeno quartinho que deveria ser um closet, mas eu não trouxe tantas roupas assim para o apartamento. Abri a porta e me joguei na poltrona para então começar a analisar o quadro inacabado. Pintado apenas pela metade.
Ela era como várias outras coisas que eu já havia pintado ou esculpido. Um garoto de traços fortes. Boca carnuda e vermelha. Cabelos negros. Olhos verdes.
Eu não podia evitar. Sei que é quase masoquismo comigo mesma, mas era impossível. Odeio essa... Esse sentimento. Paixonite adolescente que nunca foi embora. Mas... Como evitar? Ele era perfeito, apesar de ser cheio de defeitos... Acho que era toda aquela áurea de semideus que ele tem que me deixa assim, me faz achar que ele é irresistível. Era bobo, idiota e irresponsável. Ele deveria ter sido meu.
Suspirei analisando o desenho. O moreno era o meu modelo. Fazia parte da minha obra prima. Mas eu nunca o apresentava para o público assim, esses pertenciam a minha galeria pessoal. Eu modificava a cor do cabelo, em outra o tom de pele, formato dos olhos e fim! Ele virava outra pessoa.
Levantei sem me conter. A inspiração não caminhava ao meu lado hoje. Deitei em minha cama novamente ligando o notebook, indo checar os e-mails. Nada de novo.
— Talvez as notícias animem seu dia. – Murmurei para mim mesma. Era estranho viver sozinha e ter que suportar os próprios pensamentos junto com o silêncio. De matar qualquer um.
Corri os olhos pelas atualizações da última semana, até parar em uma que me fez trincar os dentes.
— Chase.
Fechei o computador sem nem ao menos ler a notícia. Levantei em um pulo, calçando os sapatos novamente e pegando um casaco.
Desci as escadarias do apartamento e comecei a caminhar pela rua procurando um café. Era disto que eu precisava. Um café.
Peguei meu celular e acessei a página que havia visto no computador. Era mais forte que eu.
“Aluna se forma em faculdade no interior de São Francisco e surpreende nos estágios.” Corri os olhos procurando algo realmente importante. “A+ em todas as disciplinas, desde o inicio do curso(...) Primeira vez na história da região que uma aluna de faculdade pequena compete com as maiores faculdades de Arquitetura(...)”. Blé. Filha de Atena, o que esses idiotas esperavam?
Parei ao perceber que havia uma frase da garota entrevistada ali. Ela devia adorar a vida sob os holofotes.
“ — Foi realmente muito difícil conseguir todas essas notas. Mas a faculdade em si é ótima e me ajudou muito em tudo o que precisei. Cada hora de estudo valeu a pena e estou muito orgulhosa de mim mesma.
— E o que você pretende fazer agora que se formou e grande parte dos escritórios de arquitetura da região estão de olho em você? – Perguntamos a garota prodígio a nossa frente. Ela sorriu.
— Vou tirar um tempinho de férias com o meu namorado e (...)”
Parei de ler. Era demais para mim. Se ela começasse a falar de todo o amor deles eu vomitaria.
De repente, senti um calafrio. Eu estava parada ali a tempo demais. Parabéns Rachel, fique sozinha no meio de uma rua deserta durante a noite. Que tal um prêmio?
Olhei para a entrada na lateral do prédio logo a minha frente, uma luz brilhava em verde levemente vinda daquela direção. Franzi o cenho dando um passo adiante e parei ao fazê-lo.
Parabéns mesmo Rachel, agora você vai ser assassinada pelo Lanterna Verde.
Uma mulher estava de cabeça baixa, e um manto com capuz escondia todo o copo dela, me impossibilitando de ver muita coisa. O estranho brilho parecia vir dela mesma e algo gritou dentro de mim me mandando correr com todas as forças que eu tinha.
Bom, eu nunca fui muito boa em ouvir meus instintos.
— Quem é você?
A mulher pareceu dar uma risadinha.
— Uma amiga. – Sua voz saiu abafada por ainda estar de cabeça baixa. – Mas a pergunta mais importante é: quem é você?
Respirei fundo. A voz emanava uma espécie de força que há muito tempo eu não encontrava.
— Rachel.
— Rachel, só isso? – Eu simplesmente odeio quando alguém pergunta meu sobrenome como se isso fosse me transformar em outra pessoa. Sou Rachel, só Rachel.
— Só Rachel talvez seja muito mais do que você jamais será. Eu ainda quero saber o seu nome.
Agora eu pude ter certeza, ela ria.
— Insolente. Gosto disso. – E então ela levantou a cabeça, revelando cabelos tão mais escuros que os meus, mas ainda vermelhos e olhos quase amarelos de tão dourados. Era linda. – Nomes tem poder minha querida, mas acho que posso lhe revelar o meu. – Ela parou para sorrir – Nêmesis.
Coloquei a minha mente para trabalhar em um esforço desesperado. Percy já havia me falado dela. Tentei vasculhar em todos os cantos. “É uma deusa poderosa”. Bom, isso não é muito útil agora.
— Certo. – Franzi o cenho, tentando ganhar tempo. – Nêmesis. Nome bacana.
Ela caminhou calmamente até mim, o salto ecoando na rua estranhamente silenciosa e o vestido balançado com o vento inexistente. “Deusa da justiça. Da vingança. Das recompensas. Como quiser. Desde que exista equilíbrio” – Lembro de Percy estar apreensivo no dia que me falou sobre ela, como se a qualquer momento um raio fosse explodir em as cabeça. Talvez fosse mesmo.
— O que te aflige? – Perguntou doce, como se não tivesse aquele olhar mortífero.
— O que você faz aqui? – “Não confie nela. Sob hipótese alguma” e foi a última coisa que ele me disse sobre ela.
— Bem, quer a versão risonha onde eu falo o que você quer ouvir ou a chata e honesta?
— Chata e honesta, obrigada.
Ela suspirou, revirando os olhos.
— Já que insiste. – Ela se virou e andou até onde estava antes, sentando em um trono de névoa verde que havia surgido do nada, ênfase no do nada. — Tudo que se eleva acima da sua condição, tanto no bem quanto no mal, está exposto a vingança dos deuses. Tende, com efeito, a mudar a ordem do mundo, a pôr em perigo o equilíbrio universal e, por isso, tem de ser castigado, se se espera que o universo e tudo o mais se mantenha como é.
Franzi a testa, sem entender.
— Não... Não compreendo.
— Ah! Não? – Ela disse risonha. – Deixe-me explicar. Tudo o que desequilibra a ordem natural das coisas... Tristeza demais, solidão demais, amor demais, alegria demais... Está exposto a mim. Sou a personificação do equilíbrio. E você, minha querida, está recebendo a chance de alterar o desnivelamento da balança. O que me diz?
— Desnivelamento da balança... Como assim? Você só pode ser maluca! – Exclamei, me virando para voltar para casa. Mas parei, dando um passo para trás. Ela surgiu na minha frente. – Mas... Como...
Ela apenas riu.
— Não me dê as costas querida. Estou lhe oferecendo um acordo.
Estreitei os olhos.
— Que tipo de acordo? – Ela sorriu.
— O tipo de acordo que pode mudar a sua vida.
— Seja mais especifica.
— Digamos que eu posso lhe dar algo que foi tirado de você.
— E o que você ganha com isso?
— Ora, eu? Nada.
— E porque você me daria isso de graça?
— Quem disse que era de graça? – Ela riu. Essa risada já estava me dando nos nervos.
— Mas você acabou de dizer que...
— Eu disse – ela me interrompeu – que eu não ganharia nada. Isso não significa que outra pessoa não ganhe.
— Vamos direto ao ponto. O que eu ganho.
— Perseu Jackson. E uma vingança. – Abri a boca. Não era possível. Dei um passo para trás.
— Não... Não existe jeito de isso acontecer.
— Ora! Como não? Não é por isso que você clama nas noites de inverno? Nas tardes de verão? Não é esse o motivo de você chorar durante as manhãs? Não é isso que você pede? Não quer que ela sinta o que você sentiu ao se ver sem ele?
— E-eu não sei. – E não sabia mesmo. Não imaginava que alguém lá em cima me ouvisse.
— Mas eu ouvi. – Disse, como se lesse meus pensamentos. Algo que eu não duvidava. – Você só tem a ganhar.
— Mas eu tenho que dar algo em troca. O que é? – O que estou dizendo?
— Nada de mais. Você me deverá um favor. Nada que você não possa suportar. Toda magia tem seu preço.
— E qual é o preço da sua? – Ela apenas sorriu.
— Na hora certa você saberá.
Ponderei o assunto. Isso só podia ser furada.
— Não, não é. Observe.
Ela deu alguns passos para trás e tirou algo da manga, para jogar aos céus logo em seguida.
Pude ouvi-la murmurar algo em... grego, e sou péssima em traduções. Eu não fazia ideia do que aquilo significava. Porém até mesmo eu pude sentir o poder nas palavras. Logo, algo tremeluziu a nossa frente e eu vi. Eu o vi. Meu coração falhou uma batida.
O moreno caminhava em direção ao centro de algum lugar que não pude reconhecer. E lá estava ela. No alto de vários degraus, sentada. Rindo. Como se fosse a pessoa mais feliz do mundo.
— Bonitos, não? Um belo casal.
Trinquei os dentes. A olhando pelo canto do olho.
— O que ele vai fazer?
— Pedi-la em casamento. Não é romântico? Faça silêncio se não quer fazer o acordo. Quero ouvi-lo.
“Há mais ou menos dez anos eu conheci uma garota maravilhosa. ” – Falou uma voz abafada. A voz dele. Mordi o lábio. Casamento. Não pode ser.
— E pensar que podia ser você ali... – Ela disse negando com a cabeça.
— O que eu preciso fazer?
— Fazer para o que? – Ela se fez de desentendida, me olhando.
— Para aceitar o acordo.
— Apenas aperte a minha mão. – Encaminhei minha mão, hesitante, em direção à dela. – Não, não. Antes tenho que fazer algumas observações.
— Quais?
— O feitiço não dura para sempre. Apenas dois meses...
— Como é? – A interrompi
— ... mas pode ser permanente. – Concluiu. – Apenas não deixe que ele se lembre. Não deixe que eles se casem. Você poderá me consultar nesse "novo lugar".
— Se lembre? Se casem? Novo lugar? Não estou entendendo...
— Decida-se. Você tem menos de um minuto antes que eu vá embora. Meu tempo está se esgotando. – Ela esticou a mão.
“É claro que eu aceito! ” – Ela murmurou, após beijá-lo. Seria eu ali. Deveria ser eu.
E então o fiz. Apertei a mão da deusa a minha frente, selando meu destino. Ela riu, diabólica.
— Ah, é isso! – Ela gritou, e então um vento veio de onde nossas mãos de chocaram, me empurrando para trás. – Acordo feito. Ele não pode ser quebrado. Lembre-se: se fracassar, me deverá um favor.
Assenti com a cabeça, observando a cena. Um trovão retumbou tanto acima de mim, quanto no local onde eles estavam. Pude ouvi-los gritar e se abraçarem. Sorri. Era bom que aproveitassem o pouco tempo que tinham. Depois disso ele seria só meu.
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