O Teste da Deusa
6 Capítulo Cinco - Nova Vida
Notas iniciais

— O que está havendo? – Gritei.
— Eu não... – E então o homem a minha frente começou a desaparecer.
— Não! Por favor! Não vá! Não me deixe!
— Calma! – Só de ouvir sua voz e sentir seus dedos apertando os meus eu me sentia mais tranquila, e apesar disso, não importava o quanto eu olhasse para seu rosto, eu não conseguia enxerga-lo. – Eu vou te encontrar! Me espere, por favor.
— Prometa. – Apertei seus dedos com mais força enquanto o via sumir, junto com todos a sua volta. O vento estava mais forte, me afastando dele. – Prometa que vai em encontrar!
— Eu... – E então ele sumiu. Sua voz morreu e eu estava sozinha. Tudo ficou escuro e a única coisa que eu conseguia ouvir era uma risada. Uma risada fria e cruel.
***
Acordei ofegando, em um pulo. Senti que estava gritando mais não consegui ouvir nada. Minha cabeça latejava como se tivesse levado uma forte pancada. Uma sensação de pânico invadiu meu corpo e só piorou quando uma mão encostou no meu braço, me puxando para si.
O aperto era forte, quente, tranquilizador. Confortante. Como se meu corpo estivesse acostumado àquela sensação. Aos poucos, minha respiração foi estabilizando e minha mente desembaçando. Não confiava no meu corpo, minha cabeça ainda estava a mil. O que aquele sonho significa? Quem era o garoto que disse que iria me encontrar? Onde eu estava? E, mais importante, quem era o garoto sem camisa que me abraçava? Aliás, cadê a camisa desse garoto?
— Shii, – tentou me acalmar. – Tudo bem, calminha. Respira. Foi um pesadelo. Eu estou aqui. Sou eu. Só eu.
O afastei lentamente. Minha mente estava embaralhada. Qual é o meu nome?
— Esse é o problema. Eu não sei quem é você. – Falei, calmamente.
Ele franziu a testa, parecendo confuso. Meu coração acelerou como se fosse uma coisa que eu gostasse nele.
— Annie, que brincadeira é essa? Como assim não sabe?
Annie. Annabeth. A dor em minha cabeça intensificou-se. Meu nome. Annabeth Chase.
— E-eu não sei. Eu deveria saber quem você é? – Perguntei confusa.
Olhei para a situação em que nos encontrávamos. O homem a minha frente tinha cabelos negros, a pele tinha um tom claro doentio, como se ele não costumasse pegar sol. Os olhos negros me encaravam, confusos. Ele estava sem camisa, com um cobertor lhe cobrindo até a altura de seu umbigo me impedindo de ver mais alguma coisa. Olhei para mim mesma. Fora da coberta, usando apenas roupas intimas. Corei no mesmo instante, puxando um lençol para me cobrir o melhor possível, mas ao fazer isso acabei por descobri-lo e reparei que o mesmo usava apenas cueca, me fazendo corar e olhar para o outro lado.
Eu não sabia o que sentia. Pânico. Vergonha. Medo. Talvez um pouco de tudo.
— Annie, por que está se escondendo?
— Porque eu estou apenas de roupa íntima com um estranho. Em uma cama. Em um lugar que eu nem sei onde é.
— Estranho? Annabeth, eu sou seu namorado a sei lá... Só uns cinco anos, como posso ser um estranho? – Ele parecia preocupado.
Tentei assimilar aquilo. Namorado. Eu tinha um namorado? Pensei um pouco. Sim. Eu tinha. Flashes corriam na minha mente a toda velocidade. Memória. Todas nossas. Nós dois caminhando. Ele me pedindo em namoro. Eu sentada na beirada do píer de algum lugar e ele me empurrando dentro d’água. Todas memórias embaçadas, mas eu tinha um namorado.
Minha dor de cabeça só parecia aumentar.
— Nico. – Murmurei. – Nico di Ângelo.
Ele pareceu relaxar.
— Isso. Eu mesmo. Por um instante fique preocupado. Achei que você realmente não se lembrava de mim. Loucura, não é?
Ri, sem humor. Eu me lembrava de Nico em vários momentos da minha vida, mas ao mesmo tempo não me lembrava de Nico. Não parecia certo.
— É. Uma loucura. – Falei baixo.
— Vem, deita aqui – Ele bateu no espaço ao seu lado. – Vamos dormir.
— Sim. – Murmurei sentindo minha voz longe, com a cabeça a mil. – Eu só vou tomar uma água. Já volto.
Ele assentiu ainda me olhando estranho. Peguei uma camisola, que julguei ser minha ao lado da cama e a vesti. Eu realmente não me sinto à vontade, por mais que meu corpo não dê sinais de nervosismo.
Era impossível que eu tivesse um namorado e não me lembrasse dele. Impossível.
Andei o mais rápido que pude ao que reconheci ser uma cozinha. Tomei um copo d’água que eu realmente precisava. Não podia ser. Eu tinha que sair dali. Já. Para ontem. Todos os meus instintos diziam que tinha alguma coisa errada. E, se meus instintos diziam, pode apostar que tinha.
Caminhei pé por pé procurando por alguma roupa. Eu não queria sair por ai de camisola. Aliás, eu nem sei onde eu estou.
Achei algumas roupas jogadas pelo chão, fazendo um caminho até o quarto. Roupas femininas e masculinas. Minhas e de Nico. Pude sentir o meu rosto esquentar. Eu não posso ter feito algo assim com ele. Ou eu posso?
Catei peça por peça e as vesti. Uma calça jeans comum, um casaquinho e uma camiseta branca. Olhei para a camisa roxa no chão, de Nico. Senti uma vontade incontrolável de pega-la, e foi o que fiz. Ela tinha o desenho de algo que me lembrava uma espécie de coroa dourada. Coroa de louros. Franzi o cenho. Como eu sabia disso? E também tinha a sigla SPQR. Minha cabeça começou a doer e dei um grito. SPQR. SPQR. SPQR.
Nico apareceu correndo na cozinha, com uma espada negra em mãos. Porque raios ele tem uma espada em casa? Dei um passo para trás deixando a camiseta cair ao chão.
— Annie? Tá tudo bem? O que houve? Eu ouvi um grito e...
— Por... Por que você tem uma espada?
— Porque eu não gosto de usar adagas como você, Sabidinha. – Ele revirou os olhos – Tudo bem mesmo?
Minha cabeça latejava. Sabidinha?
— Adagas? Eu?
Ele bufou, revirando os olhos.
— Hoje você tá difícil meu amor. O que houve?
A frase meu amor soou tão estranha vinda da boca dele. Tão, tão estranha.
Ele rodopiou a mão e a espada negra se desfez em sombras antes dele começar a caminhar em direção à gaveta.
Arregalei meus olhos. A espada sumiu.
— O que você vai fazer?
Ele me olhou como se eu fosse maluca e então tirou algo de lá. Reluzia. Jogou em minha direção e eu agarrei no ar, um pouco antes de atingir meu rosto. Uma adaga.
— Você tá maluco? Podia ter me matado!
— Maluco? Eu? Maluca tá você! É óbvio que isso não te mataria. E, por que eu te mataria com a sua adaga e não com a minha espada?
Olhei a arma em minhas mãos. Minha cabeça doía e trabalhava a toda velocidade. Reconhecia o cabo da adaga que se ajustava perfeitamente a minha mão. Parecia que eu a usava há anos. E eu usava.
— É a minha adaga. – Murmurei.
— É obvio que é. Por qual outro motivo você acha que eu jogaria uma faca em você?
Não sei, talvez você possa ser, sei lá, um maluco psicopata tentando me matar.
— Não sei. Estou um pouco tonta. Acho que bati a cabeça. – Isso era verdade.
— Eu não acredito! A filha de Atena está lerda como um filho de Poseidon? Sua mãe deve estar se revirando lá no Olimpo. – Ele riu da minha cara. Mas tudo o que ele me falou me atingiu como um soco no estômago. Olimpo? Atena? Poseidon?
Poseidon. Coloquei as mãos na minha cabeça. Ajoelhando-me no chão. A dor era demais.
— Nico... Por favor...
Ele já estava ao meu lado, me segurando.
— Annie? Annabeth? Você está me ouvindo? O que houve? – Ele parecia realmente preocupado. Era meu namorado. Filho de Hades. Eu namoro um filho de Hades.
— Muita... Dor. Não consigo... Aguentar.
E então apaguei, com os olhos preocupados de Nico me fitando.
***
Pisquei tentando me acostumar com a claridade que vinha em direção aos meus olhos.
Tentei me sentar, mas fiquei tonta no mesmo instante. Encostei minha cabeça ao travesseiro do quarto branco.
Aos poucos me lembrei do que acontecera antes de apagar.
— Nico. – Murmurei. Ele era a única pessoa da qual eu lembrava.
Vi alguém se mover um pouco mais a frente. Ele usava calças negras, uma camisa roxa e jaqueta de aviador. Parecia ter acabado de acordar.
— Annabeth! – Ele correu em direção a minha cama, e segurou minha mão entre as suas, acariciando a superfície com o polegar. – Que susto você me deu.
Sorri. Ele parecia se preocupar comigo. Alguém pigarreou próximo a nós.
— Senhor di Ângelo, eu preciso falar com a senhorita Chase.
Nico assentiu corado, se afastando.
— Bom dia, você sabe onde está?
Neguei com a cabeça.
— Você está no hospital de Nova Roma.
— Nova Roma?
— Sim. Localizada no Acampamento Júpiter.
Ele deu uma pausa, como se quisesse que eu absorvesse a informação. Só me lembro de ter estado aqui uma vez. Há muito tempo. E lembro que isso resultou em metade do acampamento ardendo em chamar. Legal. Lembrança agradável.
— Certo. E você é...?
Antes que ele pudesse me responder visualizei o acampamento Júpiter de uma forma diferente. Havia uma campina agradável para piqueniques, um mercado, templos, e uma infinidade de outros locais. Acho que estou aqui há muito tempo.
— Um dos descendentes de Apolo. É, eu sei. Doideira. Um grego em Roma. Mas tudo bem. Você supera.
Dei uma risada fraca. Não era bem isso que eu estava achando uma “doideira”. Tudo bem. É só mais uma das coisas estranhas do dia de hoje.
— E então? Porque você acha que eu apaguei?
— Não sei bem. Você sentiu alguma coisa antes de apagar?
— Eu... Eu estava com a cabeça doendo demais. E não me lembro de quase nada antes de acordar mais cedo com Nico. E, quanto mais eu me lembrava... Quanto mais ele falava... Mais a minha cabeça doía.
— Certo. E você se lembra de ter batido a cabeça ou algo assim?
— Não me lembro de nada. Mas quando acordei minha cabeça já doía.
— Certo. – Ele rabiscou mais algumas coisas em um papel que tinha nas mãos. – Acho que você está com algum tipo de amnésia. Eu não posso afirmar com certeza o que a causou, mas você deve ter batido a cabeça. Você não se esqueceu de tudo. Só precisa de um empurrãozinho e aí as memórias voltam. É bem simples. Converse com pessoas. Busque saber o que aconteceu nos últimos dias. Com o tempo você vai se lembrar de tudo. Eu sei que o diagnostico pode parecer meio vago, mas ainda não sou médico, mas dentre todos aqui, os filhos de Apolo são os mais qualificados para cuidar de pessoas.
— Mas... Como isso é possível? Esquecer as coisas assim, do nada?
— Eu não sei. Talvez algum deus quer fazer uma pegadinha com você – Ele riu, sendo acompanhado com Nico. Mas não achei graça. Ainda não me acostumei com essa coisa de deuses. Não lembrei totalmente.
— Mas ela...
Nico foi interrompido do que quer que fosse falar. Uma garota um pouco mais nova que ele entrou correndo pela sala e abraçou Nico. Ela tinha a pele morena e cabelos encaracolados.
— Eu vim o mais rápido que pude quando... – Ela pareceu finalmente notar a minha presença. – Annabeth! – E então pulou sob mim, direcionando toda a energia que antes estava em Nico sobre mim.
Não retribui ao abraço. Travei. Quem era essa?
— Hazel... Acho melhor você...
Ela se afastou rápido, me olhando.
— Claro. Desculpe. Eu... Não devia ter... Você está com dor?
Olhei para Nico, pedindo ajuda. Eu a conhecia?
— Annie, essa é Hazel. Minha irmã. Filha de Plutão. Lutou ao seu lado na guerra contra Gaia, se lembra?
Forcei minhas memórias. Eu queria lembrar. Eu tinha que lembrar. Eu devia lembrar. Aos poucos minha mente ficou menos nebulosa. Hazel Levesque. Frank Zhang. Piper McLean. Jason Grace. Leo Valdez. Perseu Jackson.
Apertei minha cabeça. Ela doía mais agora. Algo apitava lá dentro, como se eu tivesse atingido algum ponto vital. Eu não conseguia me lembrar bem dos mesmos, mas sabia quem eram. E sabia o quanto eu havia odiado a missão.
Sorri para Hazel.
— Eu me lembro de você.
Ela apertou o braço de Nico, eufórica.
— É claro que lembra! Está todo mundo doido pra te ver!
— Todo mundo...?
— É claro! Vocês vêm nos fazer uma visita e espera que nós não os recepcionemos? Até parece que não sabe como somos! – Ela riu como se fosse inacreditável. Eu queria gritar e dizer que não sei como eles são, por que eu não consigo lembrar. E isso é uma grande merda. Além do mais, tenho certeza de que moro aqui. Como eu poderia estar fazendo apenas uma visita? Suspirei.
— Tudo bem Annabeth – disse o loiro que dizia ser médico – Vai ser bom pra você ver rostos conhecidos. Vai se lembrar de tudo muito mais rápido. A recuperação será excelente!
Sorri assentindo, enquanto Hazel tagarelava sobre como ia ser ótimo ter a minha presença por ali, mas eu não a ouvia. Só conseguia pensar nas palavras do descendente de Apolo. Se minha recuperação será tão boa assim, porque tenho a impressão de que não quero me lembrar?
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