Notas iniciais
Double Side: Heey! :3 Mais um capítulo para vocês!! Pedimos desculpas pela formatação ter ficado estranha, mas o site não ajudou D:

No dia seguinte, Luciano voltou ao trabalho logo de manhã porque queria compensar pelo facto de não ter trabalhado no dia anterior.
Levou Sofia de volta e esta, mal entrou na Colubris, desatou a correr até ao português, abraçando-o pelas pernas.

– Tio~!

Afonso, absorto em pensamentos, assustou-se, mas logo sorriu e agachou-se para poder abraçar Sofia.

– Bia. – a menina se agarrou no pescoço do tio e riu – Tiveste um bom dia ontem?

– Sim! O tio Luci e eu vimos desenhos animados! – sorriu – E comemos pipoca e sanduíches-- o tio Luci faz uma sanduíche muito boa!

Luciano, que já vestia seu avental, sorriu um pouco corado.

– H-hei, não exagere, Bia.

– Mas é verdade! – olhou de Luciano para Afonso – Eu queria que o tio Luci fosse meu tio de verdade! – piscou e depois teve uma ideia – Tio! Tu não te podes casar com o tio Luci?

O português ficou rubro e pegou nela ao colo.

– Bia! Claro que não. O Luci namora com o Martin, deixa de ser parvinha. – beijou-lhe a testa e voltou a pousá-la no chão, enquanto que ela amuava e pedia para ele se casar.
Luciano, no outro lado da loja, estava também corado e optou por nem dizer nada.
Porém, esse pensamento lhe passou pela cabeça, inocente.
Como seria estar casado – ou a viver junto, até – com o português... Podia vê-lo todos os dias, comer a sua comida, abraçá-lo e beijá-lo quando quisesse e sem se sentir mal por isso...
Bateu com uma palma da mão na sua testa e deu um estalido com a língua. Mais uma vez, aquelas coisas eram erradas.
Olhou para trás e observou o português, que estava de costas para si a reclamar com a sobrinha, e foi então que notou umas marcas no pescoço dele. Semicerrou os olhos e depressa percebeu que eram chupões.
Foi então que a realização de que Afonso eventualmente poderia dormir com outras pessoas – e o brasileiro estava quase certo de quem, especificamente – o atingiu.

Luciano esperou que Sofia fosse guardar sua mochila na staff room e aproximou-se de Afonso. Era com suas melhores intenções que ele se pôs atrás do mais velho, lhe abraçou o corpo pequeno e sussurrou ao pé do ouvido:
– Seu pescoço está parecendo o de um dálmata.

O português deu um pequeno salto e olhou pelo ombro, corando um pouco.

– E-Eu sei... – puxou a gola da sua camisola um pouco mais para cima.
Luciano se afastou logo em seguida, mexendo nos papéis e verificando que só haviam três pedidos de encomendas para aquele dia.

– Não que me interesse, mas foi o Arthur, não?

O português achou estranho a forma seca com que Luciano lhe falara mas não deu importância ao assunto.
– S-Sim...

O brasileiro soltou um suspiro baixo, parando de analisar a folha em suas mãos para bater a direita na testa e, em seguida, usá-la para afagar a própria nuca.

Por quê, mesmo sabendo que Afonso era doido pelo inglês, aquele “sim” tímido lhe causou tão mal? Por quê sentira seu coração despedaçado dentro do peito e um nó na garganta? O português, diferente de si, era solteiro, podia sair – e transar – com quem quisesse! Então...

Por quê?

– Olha, Afonso... Não querendo me meter na sua vida nem nada, mas você mesmo disse que ele estava namorando. – suspirou e o encarou finalmente – Eu... Eu não quero que se magoe, e acredito que você vai.

O lusitano encarou-o por um momento e depois baixou o olhar.
Ele não se ia magoar. Ele já estava magoado.
– Eu sei... Sinto-me péssimo e cheio de culpa.

Outro suspiro.

– Afonso... – onde estava aquele apelido chato? – Então por que você cede?

O mais velho nem sabia como lhe responder. Havia tantos sentimentos em jogo...
Ele gostava de Arthur, de o ouvir falar, de lhe poder tocar, estar com ele... Mas custava-lhe saber que todas as coisas que o inglês lhe dizia não eram sentidas. E mesmo assim, o lusitano gostava delas porque lhe davam uma falsa ilusão de reciprocidade que não existia.
Nunca conseguiria explicar aquilo por palavras... Doía demais.
Virou costas a Luciano, terminando de arranjar o ramo que estava no balcão e ficou em silêncio, cabisbaixo.

Luciano também desistiu de dizer qualquer coisa, porém lhe custava ver Afonso tão para baixo. Não que o menor fosse um exemplo de alegria a ser seguido, mas não costumava ser tão depressivo assim.

Não sabendo bem o que fazer, e agora sorrindo porque Sofia começou a tentar lhe escalar as pernas, começou a cantarolar:

“Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.”

Afonso pestanejou ao ouvi-lo cantar e suspirou, agora sorrindo um pouco porque Luciano tinha uma voz realmente bonita.
Olhou pelo ombro e viu que Sofia tentava arrastar Luciano, fazendo-o dar voltas para que dançasse consigo.
– És como a Pequena Sereia, tio Luci~

Luciano riu e pegou a menina no colo, começando a dançar com ela.

– E você seria quem? Sebastião, Minguado?

– O príncipe! – ela riu e Luciano corou um pouquinho, voltando a cantar, bem abraçado em Sofia:

“Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar”

Afonso terminou o ramo e pousou-o num jarro, encostando-se depois no balcão para observar a brincadeira. Luciano tinha jeito com crianças.
O que lhe lembrou...
– Hey... Logo à noite vou vistar a Lovina, queres vir connosco? Eu vou estacionar no shopping para ser mais fácil, jantamos lá e depois é só atravessar a rua para chegar ao hospital.

O brasileiro piscou, porém antes que pudesse responder, Sofia lhe atropelou.

– Vais sim, não é tio Luci?! – os olhos verdes dela brilham em expectativa.

– A-ah... Desculpa, Bia, mas acho que não...

– Por que não? P-Por favor! Vem! O tio fica sempre a resmungar se não houver estacionamento e se tu vieres ele porta-se bem. – apertou o abraço e fez beiço – Por favorzinho!

Luciano encarou Afonso e em seguida apertou o abraço e sussurrou para que apenas Sofia ouvisse:

– O tio Luci tem vergonha.

Achando que aquilo agora tinha um tom confidencial, Sofia aproximou-se mais dele e o encarou curiosa, sussurrando em tom de segredinho.

– Vergonha por quê?

Como Luciano não lhe respondeu, Sofia afastou-se um pouquinho e, ao vê-lo corado, riu.

– Tio Luci! És tímido?

– N-não! – ele corou mais e Sofia encarou Afonso.

– Tio! O tio Luci tá vermelho!
Afonso riu um pouco e sorriu:

– Bastante~
A pequena voltou a sua atenção para Luciano e apertou-lhe as bochechas.

– Se não vieres eu digo a toda a gente que és tímido~!

Luciano fez biquinho.

– Você é uma bobinha. – disse e depois sorriu – Só se eu ganhar um beijo seu~.

Sofia sorriu satisfeita e beijou-lhe a bochecha.

– Pronto~

Ele riu e beijou a testa da pequena.

– Então o tio Luci vai.
– Ok! – sorriu e deu-lhe outro beijinho – Convences o tio a levar-me ao McDonalds, não convences?

– Bia! – a voz de Afonso foi ouvida, e a criança se riu toda, ignorando o tio enquanto encarava os olhos escuros de Luciano.

Luciano, então, voltou a rir, usando a ponta de seu nariz para bagunçar alguns fios do cabelo castanho de Sofia, que era comprido e tinha alguns cachos nas pontas, assim como o cabelo de sua mãe. O brasileiro apenas acenou com a cabeça e a menina lhe deu outros beijinhos, exclamando agradecimentos carinhosos a infantis, logo descendo pro chão novamente.

Quando Sofia correu para a estufa, Luciano continuou sorrindo, pondo as mãos no bolso frontal de seu avental.

– Um dia quero ter uma filha como a Bia.

~※~

– Um dia quero ter uma filha como a Bia.– disse Elizabeta, limpando os olhos com a manga da camisa por já estar a chorar de tanto rir com as coisas engraçadas que a sua amiga italiana lhe contava.
Bella abanou a cabeça e sorriu de lado.

– Já sabemos bem a quem ela saiu.
– A Bia também tem coisas do pai. – Lovina sorriu e cruzou os braços – A teimosia, o excesso de bom humor e a capacidade de manipulação emocional.
– E qualidades?
A italiana sorriu de lado, um tanto travessa.

– São todas minhas, claro! Mal posso esperar que a Marisa abra os olhos! Queria ver qual era a cor e queria ainda mais que fossem como os do António.
Elizabeta esfregou-lhe o braço carinhosamente.

– Daqui a pouco já podem as duas sair daqui e ir para casa.
– Eu sei... – suspirou – Mas enfim, contem-me novidades.
Bella esfregou as mãos e começou:

– Adivinhem quem foi visitar o Luci lá casa~

Lovina, coçando a parte interna do braço, um pouco acima da área onde uma agulha lhe dava soro, encarou a loira com curiosidade:

– Não me vais dizer que--

– O Afonso! – Bella riu animada e suas amigas se entreolharam, uma sorrindo mais maliciosamente que a outra.

– Estás a me esconder as coisas, Bella? – a húngara implicou, e a loira voltou a rir.

– Vingança por não me teres contado sobre como conhecestes o Luci~

Elizabeta e Bella mostraram a língua uma para a outra e a italiana riu, pedindo ajuda de ambas para se ajeitar no leito do hospital. Voltaria para casa apenas em dois dias, e Marisa continuaria na incubadora até depois do Natal.

– Certo, meninas. Mas expliquem-me isso direito, Bella. – olhou para a sorridente belga – O que houve para que meu cunhado, aquele idiota, fosse visitar o Luciano?

A húngara piscou, confusa.

– Não sabes?

– O que? – a italiana questionou.

– O Luci deu-te sangue e sentiu-se mal... – Bella disse.

Lovina piscou e em seguida olhou de uma amiga a outra.

– N-não... Não me contaram isso... M-mas ele está bem? O que houve com ele?

Bella sorriu um pouco e acarinhou-lhe o cabelo.

– Calma, ele saiu de casa sem tomar o pequeno-almoço e depois sentiu-se mal.
– Mas como é que ele sabia que eu precisava da doação?
A loira suspirou e recontou o sucedido, que o brasileiro a tinha acompanhado e que depois se ofereceu para doar sangue. E ainda que tinha adulterado as notícias de Afonso só para ver se ele se preocupava com Luciano.

– A Bia acabou por ficar lá a dormir e tudo, mas agora está com o teu novamente.
– Espera-- Eu tenho de agradecer ao Luciano! – ajeitou a sua posição e olhou para as amigas – Alguma de vocês que me empreste o telemóvel para eu ligar ao Afonso.

A húngara riu baixinho e em seguida balançou a cabeça em negação.

– Calma, Lovina. – a mais velha começou a lhe ajeitar os cabelos escuros e um pouco embaraçados – O Luci está a trabalhar agora, tens calma.

– Mas ele--

– Nina, ele está bem agora. – Bella disse enquanto tirava uma escova de cabelo da bolsa e estendeu à Elizabeta, que lhe agradeceu e começou a pentear a amiga acamada – Mas sabes? O Luci gosta tanto da Bia. – sorriu e sentou-se ao lado de Lovina – Ele tem um jeito com crianças que nunca vi num rapaz da idade dele. E acho que ela também gosta dele. O chama de “tio Luci”! – riu – É tão fofo!

A italiana pestanejou e depois sorriu.

– Ainda vai ser meu cunhado também~
– Mas ele não tinha namorado? – Elizabeta perguntou, sentando-se no outro lado da cama.
Bella acenou demissivamente com a mão.

– Isso são só pormenor--
– Por falar em namorado, como andam as coisas com o Hansen?

Bella estagnou a frase na metade e corou até as orelhas, os olhos verdes fitando os de Elizabeta num misto de acanhamento e chateação.

– Não andam. – ela murmurou – E-estou a sair com um rapaz... Felipe! Já lhes falei dele? – Lovina e Elizabeta se entreolharam, suspirando em seguida – E-ele é um encanto de--

– Bella... – a italiana lhe interrompeu, segurando-lhe a mão direita enquanto pedia para a húngara parar de lhe pentear os cabelos por um minuto – Nós bem sabemos que tu amas teu irmão--

– De criação. – ela interrompeu.

– ...de crianção. – Lovina completou com um meio sorriso – Não importa. Sabemos que tu amas o Hansen... Por que manter um relacionamento que não te faz feliz?

A loira piscou.

– Ah! Mas o Felipe me faz feliz! – tentou fingir um riso, porém suas amigas a conheciam tão bem que apenas um olhar reprovador delas a fez desistir – A quem estou querendo enganar? – seus olhos umedeceram e ela soluçou baixinho – Eu amo o irmãozão mais que tudo, mas que posso fazer? – Lovina abriu os braços e Bella acomodou-se ali, sendo abraçada por Elizabeta também, que lhe fazia carinho nos cabelos – E-ele nunca me vai ver além de sua irmãzinha boba e atrapalhada. – suspirou – Ele nem sequer tem ciúmes do Felipe.

Elizabeta, a mais velha das três, lhe beijou o topo da cabeça.

– Mas ficar com alguém que gosta de ti e tu não gosta deste alguém não te vai fazer esquecer teu irmão.

– E-eu sei! – ergueu o olhar – Mas... Mas quem sabe eu passo a gostar dele de verdade? Não custa tentar, certo?

A mais jovem das três voltou a suspirar, tentando não fazer o fio do soro lhe machucar a pele. Queria arrancar aquela agulha incômoda de sua pele.

– Custar não custa. Mas tu não o amas...

– Bella, tu tens de curtir a vida, isso sim! – a húngara se afastou e se levantou, as amigas ainda na cama – Tens vinte e quatro anos, nunca namorastes a sério e ainda és virgem!

– LIZA! – Bella corou e Lovina piscou.

– Estou a falar a verdade, Bella! – Elizabeta cruzou os braços – Concordo com a Lovina sobre não namorares um rapaz que não gostas, isso mais por ele do que por ti. Tu estás a ferir os sentimentos dele! – suspirou e depois suavizou o tom de voz – Mas tens de curtir a vida, amiga. Tens de sair, dança, beijar...

– E queres que ela perca a virgindade com um qualquer, Liza? – Lovina perguntou, a belga completamente assustada ao seu lado.

– Não! Mas... Bella, querida. Tu estás a te guardar para alguém que tu mesma disseste que nunca a verá com outros olhos...

– Mas eu--
– Bella... – Lovina suspirou e apertou o abraço – A Liz tem razão. Se realmente achas que não tens hipótese nenhuma, o melhor é... Superares isso e arranjar outra pessoa.
A loira a choramingou e escondeu-se no ombro dela.

– Mas eu gosto tanto dele... Eu não quero que ele me odeie...

Lovina e Elizabeta se entreolharam, perdidas sobre o que dizer ou fazer. Novamente, a húngara sentava-se ao lado das mais jovens e abraçava ambas.

– Ele não te vai odiar se nunca disser. – a italiana encarou Elizabeta, não entendendo onde ela queria chegar – Se tens tanta certeza de que ele não te ama assim, não te declares. Talvez... – mordeu o lábio inferior – Talvez eu esteja errada, mas quem sabe essa paixão passa? Uma hora tudo sempre passa.
– Por que dizes isso? – a italiana perguntou desconfiada. Não era comum ouvir a húngara dizer a alguém para desistir.
Elizabeta manteve-se calada e a loira ganiu:

– Ajudem-me... O que é que eu faço?

– Não sabemos, a sério. – a mais velha delas disse, agora trançando os próprios cabelos – Tu és a melhor pessoa para saber o que fazer com teus sentimentos, Bella. Se queres ou não te declarar ao Hansen, entenderemos, mas apenas tu o podes fazer.

Bella piscou e em seguida soluçou, limpando os olhos claros.

– T-talvez tenhas razão, Liz...

No instante seguinte, ouviram baterem na porta e Antônio, seguido de Hansen, entrou no quarto.

– Como está minha esposinha linda~?

Enquanto o espanhol “roubava” um espacinho ao lado de sua amada esposa, Hansen piscou ao ver sua irmã com os olhos vermelhos e húmidos. Bella, é claro, desviou o olhar e esfregou as mãos no rosto.

A italiana suspirou e inclinou-se para o lado, encostando-se no seu ombro, “Com fome, cansada, com vontade de ver as filhas, e etc.”.
António sorriu e um pouco e lhe beijou a testa.

– Daqui a nada podemos vê-la, relaxa.
Discretamente, o holandês aproximou-se da irmã:

– Estás bem?

A belga corou um pouco e acenou com a cabeça, esfregando os próprios braços com as mãos.

– S-só emocionei-me ao ver a bebé na UTI neonatal... – mentiu.

Hansen ia dizer alguma coisa a mais, que sabia que ela estava mentindo e que se preocupava.. Ou talvez nem dissesse, pois era tímido e orgulhoso.

Enfim, o holandês nada pode fazer porque a porta foi aberta em seguida, e uma sapeca menina correu pelo quarto.

– Mamã, papá!

Afonso, que entrou em seguida, censurou:

– Bia! N-não corras! – pediu. Em seguida, olhou para trás e piscou – Luci? Entra...

Luciano, um pouco encabulado, apareceu na porta e murmurou:

– C-com licença...

António abraçou Bia, que tinha saltado para o seu colo, e encarou o brasileiro, que mais parecia esconder-se atrás de Afonso.
– Boa tarde, Luci! – a húngara sorriu ao vê-lo e foi até ele, puxando-o um pouco mais para a frente.
Ele deu as boas tardes mais uma vez e olhou para a italiana.

– C-Como você está?

Lovina sorriu para o mais jovem e acenou com a cabeça, estendendo a mão direita para que ele se aproximasse. Luciano, um pouco temeroso – e sempre olhando para Antônio, porque ele parecia não gostar de si –, aproximou-se dela e a italiana o abraçou carinhosamente, mesmo que não fosse de seu feitio.

– Obrigada, Luciano.

O brasileiro ficou um pouco atrapalhado e tentou retribuir.

– N-Não foi nada.
Sofia tentou abraçá-lo também, uma vez que estava perto.

– Foi sim, tio Luci! Tu salvaste a minha mamã.
– N-Não eu--
– Tio? – António voltou a perguntar, não se lembrando que a pequena já lhe chamara isso anteriormente.
– Sim~ Mas é tio do coração. Podia ser tio mesmo se casasse com o Tio Afonso. – fez beiço.
Bella e Elizabeta encaram-se por uns momentos. A pequena tinha realmente a quem sair.

Afonso e Luciano coraram até as orelhas, mas fora Antônio quem comentara algo:

– C-como assim “casar”? – encarou o irmão e o estrangeiro – Bia, explica-me isso direito.

– Ué! Eu quero que o tio Luci seja meu tio mesmo.

– Ah, mas o Afonso gosta de outro~ – Bella alfinetou, algo que chateou Luciano, fazendo-o baixar o olhar.

Sofia piscou e encarou seu tio:

– Quem, tio?

Elizabeta respondeu, maldosa:

– O Arthur, claro.

A criança balançou a cabeça e começou a lacrimejar, correndo até Afonso e lhe segurando as calças na altura dos joelhos, os olhos verdes encarando-o pesarosamente.

– Não, tio! Ele não! O Arthur é feio e ruim! Eu não gosto dele!

Afonso pegou nela ao colo e encarou Elizabeta de soslaio, suspirando ao voltar a encarar Sofia.

– Não é nem feio nem ruim, deixa de ser parvinha.
– E tem muito bom humor. – Bella disse sarcasticamente o que levou Afonso a rosnar.

– Se é para ficar a falar da minha vida, eu vou-me embora.

Luciano, prevendo uma terceira guerra mundial, ergueu-se do leito e balançou as mãos em frente ao corpo:

– P-por favor, vamos nos acalmar. – quando todos olharam para si, ele desviou o olhar – B-bem, já que a Lovina está passando bem, eu vou pra pensão. Com licença.

Afonso suspirou e coçou a nuca com a mão livre. Não era suposto ter criado confusão.
Ia pedir desculpas mas Sofia interrompeu-o antes:

– N-Não! Vem connosco!
Luciano deu um meio sorriso e se agachou.
– Eu tenho que ir, Bia...
– M-mas tu e o tio precisam ver desenhos animados hoje! – ela comentou, uma vez que sabia o que eles faziam as quartas-feiras.
O moreno olhou de soslaio para Afonso e em seguida explicou:
– Hoje o tio Afonso não pode, e o tio Luci está cansado.
A pequena choramingou e abraçou-o pelo pescoço.

– Pode sim! P-Por favor tio Luci! Fica!
Enquanto a maioria via aquela cena com bons olhos, Antônio sentia ciúmes da filha. Era da natureza do meio-irmão de Afonso ser gentil, infantil e superprotetor, porém o espanhol também era um jovem de vinte e dois anos ciumento e possessivo. O fato de ter tido a pequena Sofia aos dezessete também influenciava esse lado já natural, uma vez que tirava de amadurecer rapidamente, mas ainda desejava ser criança.
– Bia, ele disse que não pode... – Antônio disse, saindo do lado da esposa e caminhando até a filha.
– Mas, papá! – os olhinhos dela, tão verdes e bonitos, estavam úmidos, e o pai sentiu pena dela e uma pequena raiva de Luciano. Ele fazia sua menina chorar! – Eu quero ver desenhos animados com o tio Luci.
Luciano, também com o coração na mão, abraçou a criança e inventou a primeira coisa que lhe veio a mente:
– Hoje meu namorado – aquela palavra chamou a atenção de todos, principalmente Antônio – terá, depois de muito tempo, uma noite livre... e eu quero muito ficar com ele. Entende, Bia?

Sofia encarou-o e pestanejou, limpando as lágrimas com as costas da mão.
Ela queria muito que Luciano ficasse consigo e com Afonso. O brasileiro era simpático e dava-lhe atenção, mesmo que agora tivesse uma irmãzinha e que os seus pais andassem mais preocupados com ela.
António passava a noite no hospital junto de Lovina e por isso a pequena ficava com o tio. E ela gostava muito de Afonso mas... Quando Luciano estava por perto, ele era mais meigo ainda.
Acenou com a cabeça e murmurou, ainda triste.

– E-Entendo...

O brasileiro voltou a sorrir, pegando Sofia no colo e a abraçando carinhosamente.
– O tio Luci vai ficar com você o dia todo amanhã, ok? – ela maneou com a cabeça – E eu faço aquele sanduíche que você gostou!

– Mesmo?
– Mesmo! – o moreno sorriu e beijou-lhe a testa – Mas hoje não posso. Não fique triste.

Sofia suspirou e abraçou-o pelo pescoço.

– E-Eu não fico...
Luciano sorriu e entregou Sofia ao pai dela. Abraçou outra vez Lovina e se despediu de todos.
– Até mais tarde, Bella. – sorriu e olhou para Afonso – Boa noite, chefinho.

Este corou um pouco e foi por pouco que não reclamou de ser chamado “chefinho”.

– Boa noite. Queres boleia?

Ele voltou a sorrir e balançou a cabeça.
– Nah. Posso ir a pé, fique tranquilo. – piscou-lhe o olho – Sua família precisa de você.

O português corou um pouco mais e franziu ligeiramente o sobrolho.

– De certeza? É um instantinho para te levar lá.

– Não precisa, obrigado. – voltou a sorrir e deu um meio abraço nele, acenando em seguida – Se precisarem de mais sangue, me liguem~. – brincou.

Lovina riu e levantou o polegar.

– Fica combinado. E mais uma vez, obrigada.
O brasileiro sorriu e abanou as mãos:

– Não foi nada de mais.
Luciano despediu-se de todos e deixou o quarto.

Bella suspirou e agarrou o braço do irmão.

– Bem, nós temos de ir também.

– Mas já? – Lovina questionou, e a húngara também se anunciou.

– Também preciso ir, Nina. – sorriu e deu a escova de cabelo para a belga, terminando de trançar os cabelos de Lovina – A Natália deve estar a chegar, e se eu não estiver em casa, ela fica preocupada. – riu, embora todos soubessem que a namorada de Elizabeta realmente era uma pessoa ciumenta e difícil de lidar. Tanto que ela não se misturava com os amigos da húngara – Ficas bem, minha amiga. – abaixou-se e deu um beijo na italiana.

– Adeus. Obrigada por me visitarem.
As duas amigas sorriram e disseram em uníssono:

– De nada!
Após mais alguns minutinhos com as amigas trocando beijinhos e abraços e mimos e risadas, Elizabeta e os irmãos também deixaram o hospital, restando apenas a família no quarto.

– Mamã? – Sofia subiu no leito da mãe com a ajuda de Antônio e engatinhou até a mãe, abraçando-a – Eu posso conhecer minha mana?

Lovina e Antônio se entreolharam, a italiana logo afagando os cabelos soltos e bagunçados de sua filha, alisando-os e desfazendo os cachos das pontas.

– Bia, meu amor... – beijou-lhe a testa – A mana está muito fraquinha ainda... Nós vamos ter de esperar mais um pouquinho para visitá-la. Consegues entender?

– Mas eu quero brincar com a mana...
António suspirou e acarinhou-lhe o braço.

– Tens de ter um bocadinho de paciência, pequena.
Ela acenou com a cabeça e aconchegou-se no abraço da mãe.
A menina em seguida pediu, erguendo os olhos verdes ao pai:
– Papá, tenho fome. Posso comer pão de queijo?
O casal sorriu, e Antônio convidou:
– Vem comigo, Afonso?

O mais velho acenou afirmativamente e saiu atrás dele, caminhando para a sala de espera do hospital, onde havia as máquinas de comida.
Enquanto compravam alguns salgados, Antônio batia levemente o pé direito no chão. Afonso imaginou que era o estresse da situação, porém o maior logo perguntou:
– Como é que conheceste esse tal Luciano?

Encarou o irmão com uma expressão confusa.

– Er, ele veio substituir a Lovi na Colubris, lembras-te?
Antônio pegou o pão de queijo para Sofia, assim como um café para si e um suco natural para Lovina e sua filha. Ele, estranhamente, mantinha uma expressão desconfiada e curiosa, e continuou com o seu interrogatório:

– Sim, sim. Ele trabalha contigo desde que a Lovi teve de se afastar... – bebericou seu café enquanto voltavam para o quarto – Mas como e por quê ele passou a trabalhar contigo?

Afonso encarou-o como se achasse que o seu irmão estava a ficar doido. Pestanejou e voltou a explicar:

– Porque se a Lovi não estava a trabalhar, alguém tinha de ficar no lugar dela, duh.

O espanhol apenas não bateu com a mão na testa pois as tinha ocupadas.

– Sim, mas eu estou a achar tudo isso muito estranho. – franziu o cenho e fez biquinho – Num dia ele começa a morar com a Bella, noutro simplesmente está a trabalhar contigo. Por quê?

Podiam continuar nisto por muito tempo.

– Porque a Bella sugeriu que ele fosse para lá? Não entendo onde queres chegar.

O mais jovem soltou um suspiro e disse, antes de abrir a porta:

– Só estou a achar que aí tem coisa.

~※~

Já era tarde da noite quando Bella despertou com um barulho estranho em seu quarto. Abriu os olhos claros e coçou as pálpebras, levando algum tempo até se situar de onde estava.

Olhou ao redor e, ao não constatar nada de estranho, voltou a deitar-se em sua cama grande e confortável, suspirando em contentamento ao sentir sua cabeça cansada outra vez sobre o travesseiro fofo.

Não havia nem se passado dez minutos e a belga despertou mais uma vez.

– Ah, não! – a loira percebeu que seu aquecedor não estava funcionando, e levantou-se – Não, não, não! – começou a desligar e ligar o aparelho, verificando a tomada e tudo. Apenas quando sentiu um sutil cheiro de queimado que ela decidiu deixar o aparelho fora da tomada e voltou para sua cama.

Bella tentou, mas não conseguiu voltar a dormir. Estavam tendo um inverno rigoroso, e sem o aquecedor, seu quarto logo se transformou numa espécie de geladeira. Nem com seus grossos cobertores de lã ela conseguia se aquecer.

– Perdoa-me. – murmurou e levantou-se outra vez.

Abriu a porta de seu quarto e verificou que não havia ninguém no corredor. Atravessou-o e bateu lentamente na porta do quarto de Hansen.

– I-irmãozão?

O holandês acordou e esfregou os olhos com o antebraço, espreitando pela coberta. Estava demasiado frio para se levantar e não conseguia ver quase nada por ter o cabelo todo despenteado e em frente aos olhos.
– Huh? Que foi? O que se passa?

Bella mordeu o lábio inferior e corou de leve. Sentia-se estúpida pelo pedido que faria, porém não tinha outra opção.

Sentia saudades da época em que Lovina e a irmã mais nova dela, Feliciana, viviam naquela pensão. Porém, a italiana mais velha logo engravidou de Antônio, e eles compraram uma pequena casinha com a ajuda de Afonso. Feliciana foi estudar em outro país e logo também começou a namorar.

– A-ah... D-desculpa ter-te acordado. – encolheu-se e tremeu de frio – M-mas o meu aquecedor queimou e e-estou com tanto frio... – enrubesceu mais um pouco – P-posso dormir contigo?

O mais velho corou um pouco e chegou-se para o outro lado da cama, que estava fria.

– C-Claro...
Bella sorriu timidamente e correu até lá, entrando de imediato para baixo dos cobertores. O holandês esticou o braço e passou pela cintura dela, puxando-a para perto.

– Não fiques na ponta senão vais cair abaixo...

A belga sentiu seu rosto arder, e seu coração palpitar no peito. Hansen lhe abraçava com tanto carinho, e o corpo dele era tão quente e cheiroso...

– S-sim. – ela murmurou tímida, e hesitantemente abraçou-se no mais velho – Ah~ és tão quentinho, irmão!

O loiro corou e apertou-a um pouco mais, encostando o queixo sobre o topo da cabeça dela. Era, claro, uma desculpa para a poder ter abraçada bem pertinho de si e sem ser julgado por isso. Distraído, começou a acarinhar-lhe as costas.

– Tu que és friorenta.
Bella riu baixinho, adorando tanto o carinho como ter seu amado a lhe abraçar tão carinhosamente. Claro que, para ela, Hansen apenas estava cuidando da irmãzinha, porém não conseguia deixar de se sentir feliz por tê-lo perto de si.
O amava tanto!
– Bons sonhos, irmãozão... – ela sorriu quando Hansen lhe deu um sutil aperto e se aconchegou no abraço quente dele.
– Noite. – murmurou ao esconder um sorriso, adormecendo assim que sentiu que Bella já descansava.
Hansen foi o primeiro a despertar.
Num primeiro momento, ele estranhou o corpo quente e macio agarrado em si, porém logo as lembranças da madrugada lhe invadiram a mente.
Lembrou-se do cheiro dela perto de si, e corou ao perceber que toda aquela proximidade da belga e o fato de que, ao se remexer em seu sono, ela esfregou-se sutilmente contra a virilha dele e lhe despertou a intimidade.
Acanhado, Hansen desvincilhou-se da irmã ainda adormecida e dirigiu-se para o banheiro a fim de livrar-se daquele incômodo entre as pernas.

Alguns minutos depois, Bella acordou com frio novamente. A cama ainda estava quente e ela sentou-se, esfregando os olhos.

– Irmãozão?

Ao não obter resposta, Bella voltou a se deitar e encolheu-se sob as cobertas de seu irmão, rolando para o lado onde ele havia dormido.
A belga sorriu ao lembrar-se do abraço carinhoso do mais velho, e ela abraçou-se no travesseiro de Hansen.
– Irmãozão...

Hansen regressou alguns minutos depois. Sentia-se um completo pervertido. Mas que fazer? Não era uma coisa que pudesse controlar.
Ele viu a belga enrolada nos lençóis e achou que estivesse ainda a dormir. Silenciosamente, e como ainda era cedo, voltou a deitar-se – mesmo que do lado oposto e sem almofada – e aconchegou-se ao lado dela.

Bella piscou ao perceber que seu irmão tinha retornado. Sentiu-se um pouco nervosa, pois acreditava que, se Hansen soubesse que havia despertado, ele a pediria para voltar ao seu quarto que ele tentaria arrumar o aquecedor... mas desejava tanto ficar ali, abraçada no mais velho!

Desejava que seu aquecedor ficasse quebrado para sempre!

Decidiu fingir ainda adormecer, e fechou os olhos, afundando-se no peito do holandês ao girar para o lado dele.

O holandês olhou para baixo e pestanejou surpreso, rindo baixinho depois ao apertar um pouco o abraço.
Achava Bella adorável.
Tinha um braço a servir de almofada e por isso usou o livre para lhe fazer festinhas no cabelo.

A belga agradecera aos céus por seu rosto estar colado ao peito de Hansen, pois ele começava a colorir-se de vermelho perante os carinhos do irmão. Era... tão estranho, aquilo. O mais velho não tinha esse costume de lhe acarinhar os cabelos, no máximo afagava e bagunçava os fios como se Bella fosse uma criança arteira. Não que Hansen jamais a fizesse algum mimo, porém nos últimos anos, o holandês passou a se afastar cada vez mais de si, e ao senti-lo perto e carinhoso novamente... lhe enchia o peito de felicidade.

Prosseguindo com sua farsa, apertou o irmão num abraço e, vencida pelos carinhos, acabou adormecendo novamente.