Notas iniciais
Feliz ano novo, gente linda! Finalmente conseguimos postar um novo cap, e agradecemos as reviews lindas! Nos desculpem a formatação, isso é culpa do site :v Enfim, aproveitem!

– Tio Afonso! Tioooo! Tio Afonso!
– Bia! Não corras-- – desviou-se da pequena, que corria como doida pela cozinha, saltando por vezes para chamar a atenção do mais velho.
Afonso parou de preparar o pequeno-almoço e suspirou.
Era sexta-feira, inicio das suas férias de Natal, e como não tinha de ir trabalhar, apenas se levantou cedo para fazer o pequeno-almoço mas... Sofia já estava na sala a ver televisão.
– Quando é que o tio Luci vem? Quando? Quando?

Afonso suspirou outra vez e passou o dorso da mão direita pela testa. Desde que visitaram Lovina no hospital, dois dias antes, Sofia não parava de se queixar que queria ver o brasileiro. Embora tivesse prometido à criança que lhe faria companhia na quinta-feira, os planos de Luciano foram por água abaixo porque Afonso, cansado, optou por antecipar suas férias de Natal e Ano-novo. Voltaria a abrir a floricultura apenas no dia cinco de Janeiro, podendo cuidar melhor de Sofia.

Lovina receberia alta no dia seguinte, porém Antônio pedira ao irmão para ficar com a menina até Marisa receber alta da UTI, o que poderia levar dias ou meses.

Os pais de Sofia viviam no hospital, e para não ficar sozinha, a menina voltou suas atenções ao tio e ao brasileiro.

– Diz-me, tio! Quando o tio Luci vem?

Ele baixou-se e esfregou-lhe a cabeça.

– Bia... O Luci tem a vida dele e as coisas dele. Não pode estar sempre aqui... É quase Natal e ele deve estar a aproveitar com o Martin, não o vamos chatear, sim? – beijou-lhe a testa e sorriu um pouco por ela estar amuada.
– M-Mas eu quero o tio...
– E eu? A mim não queres? Assim fico com ciúmes.

Sofia piscou e corou de leve, erguendo os braços por querer colo.

– Q-quero! – voltou a fazer biquinho – Mas quero o tio Luci também! Tio, tu não te podes mesmo casar com o tio Luci? E-eu não gosto do Arthur.

Afonso pegou nela ao colo e levantou-se, beijando-lhe a testa.

– Mas eu gosto do Arthur, parvinha. Não, não posso mesmo casar com Luciano.

Sofia fez bico.
– Não podes ou não queres?

– As duas coisas, Bia. Já expliquei: Eu gosto do Arthur.

A menina desceu do colo de Afonso fazendo bico.

– Que foi agora? – perguntou, suspirando de seguida antes de voltar a terminar o pequeno-almoço.

A menina encarou o tio por um momento e cruzou os braços tal como seu pai fazia quando contrariado.
– Quero o tio Luci! – ela soltou num muxoxo, as bochechas infladas – Leva-me até a casa da tia Bella?

– Ainda é cedo Bia...
– Não importa. Eu quero o tio Luci!
Afonso pegou no tabuleiro de comida e levou para a mesa da sala.

– Não me vais ajudar a fazer os embrulhos?
Ela, como continuava amuada, cruzou os braços outra vez.

– Não!

Afonso rolou os olhos e prosseguiu:

– Pois então não vais~ – implicou.

Sofia piscou os olhos e começou a bater pé.

– M-mas eu quero o tio Luci!

– Pois não o vais ter se continuares com esse péssimo comportamento! – ele passou a falar sério. Adorava sua sobrinha, mas aquilo estava passando dos limites.

A criança arregalou os olhos e fez bico.

– T-tio chato! Por isso vais ficar sem ninguém! – berrou – Ninguém gosta de ti! – saiu correndo para o quarto de hóspedes.

O português petrificou e mesmo com a ideia de ir a trás dela, ficou parado.
Aquelas coisam doíam ouvir... Ainda para mais vindo dela, uma das pessoas que mais amava e daria tudo para proteger.
E era como dizia o ditado: “Crianças não mentem.”.
Suspirou mais uma vez, magoado, e já nem tocou na comida.
Talvez Sofia tivesse toda a razão.
Decidiu deixá-la quieta, para evitar outra discussão. Foi procurar os objectos necessários e começou a embrulhar as prendas para oferecer.
Quando Luciano foi jantar consigo e com Sofia, o português aproveitou para ir comprar as prendas para ambos e deixá-las no carro em segredo enquanto os mais novos comiam.
Por um momento pensou se aquilo não teria sido uma ideia estúpida mas... Depressa sacudiu a cabeça e afastou os pensamentos negativos da sua cabeça, mesmo que o seu coração estivesse magoado.

~※~

Quando Luciano chegou naquele bar, já noitinha, ele pôs-se na ponta dos pés à procura de Michelle. Ele e a moça tornaram-se bons amigos e quando ela sugeriu se verem outra vez antes do Natal, o moreno não viu problema algum e a convidou para beberem alguma coisa na sexta-feira.

Por não a encontrar, perguntou a um garçom se alguém com as características físicas dela. Ele negou e Luciano agradeceu, sentando-se numa mesa próxima ao palco do bar e enviou uma sms para Michelle, avisando onde estava.

Enquanto aguardava resposta, observou melhor o bar.
Era relativamente pequeno mas muito aconchegante, com moveis antigos, luzes fracas e música jazz de fundo. Na parte frontal tinha um pequeno palco com uma tv e um microfone e na parte de trás tinha o balcão.
O seu telemóvel vibrou e viu uma sms da morena a avisar que estava mesmo a chegar.
Cinco minutos depois, Luciano viu Michelle, com os longos cabelos presos em duas maria-chiquinhas, questionar ao mesmo garçom de antes sobre sua presença. Sorrindo, sacou o celular de seu bolso e discou para a amiga.

– Estou vendo você~. – ele disse risonho, e pode ver Michelle lhe procurando.

Onde estás? Não te estou a ver!

– Perto do palco. Estou acenando para você!

Por ser baixinha, teve de se colar na ponta dos pés e procurar. Ao ver Luciano acenar, sorriu.

Já te vi~. – desligou o telefone e foi em passo rápido até a mesa onde ele estava – Desculpa o meu atraso! A minha chefe precisou de uns favores e não consegui mesmo vir mais cedo...

Luciano riu e se levantou, abraçando Michelle com carinho, aquela demonstração tão singela de amizade a fazendo corar antes de retribuir. Ao se afastarem, o brasileiro ainda lhe deu dois beijinhos nas bochechas, uma típica saudação brasileira.

– Não se preocupe. Já fiz você esperar mais vezes, hn? – sorriu e ambos sentaram-se – Já veio aqui? Eu sinceramente não conheço esse bar, mas o Ivan me disse que é legal e mais “familiar”. – fez o sinal de aspas com os dedos, rindo em seguida.

– Não conheço também... – pousou a sua bolsa na cadeira que estava livre – Mas parece agradável.

Quase logo apareceu um empregado para atender os pedidos. Michelle pediu um simples café e Luciano uma caneca de chocolate quente, com chantilly e marshmallows.

Enquanto esperavam, começaram um papo agradável. Conversaram sobre seus gostos – ambos tinham uma paixão absurda por rock das décadas de oitenta e noventa –, seus sonhos, medos... E namorado.

– ...então ele simplesmente começou a gritar com o pobre moço! – Michelle contou o caso do jantar da semana anterior – E acabei sem sopa. – suspirou.

Luciano piscou e engoliu seu chocolate-quente, lambendo os lábios sujos de chantily.

– Não acredito que ele fez isso!

– Pois fez! – comeu um biscoitinho que veio com seu café – E não foi a primeira vez. No nosso primeiro encontro ele confundiu o preço entre duas garrafas de vinho e recusou-se a pagar a conta. Apenas quando ameaçaram chamar a polícia ele pagou... – escondeu o rosto com a mão.

– Mas, Michelle... – Luciano lhe segurou a mão e afastou-a do rosto da amiga – Se ele é esse babaca, por que está com ele ainda?

De uma forma que fez Luciano lembrar-se vagamente de Afonso, Michelle suspirou e corou um pouco.

– P-Porque mesmo assim... Eu gosto dele...

O brasileiro piscou os olhos antes de suspirar e sorrir.

– O-o que foi? – ela questionou, e Luciano terminou seu chocolate-quente.

– Nada. – continuou sorrindo – Você só me lembra um amigo meu.

Michelle pousou a chavena de café vazia em cima da mesa e pestanejou.

– Como assim? Por quê?

– Meu chefe... Você fez o mesmo olhar que ele carrega. – sorriu – Ele também ama um babaca.

– Mesmo? Que fez ele? – apoiou o queixo na mão e ficou a brincar com a colher de mexer o café. Não dispensava uma boa história.

O moreno pousou o queixo na mão esquerda e tamborilou os dedos na mesa.

– Hn... Parece que o cara namora e tudo mais, mas usa meu chefe quando briga com o companheiro... – suspirou e coçou os olhos – Esses dias vi o pescoço do Afonso cheio de marcas e ele não negou que tinha sido o tal Arthur-babaca-das-sobrancelhas-mal-assombradas.

Michelle franziu subtilmente o sobrolho.

– E ele sabe que o outro tem namorado? Não faz nada para impedir isso? Não sou ninguém para dar sugestões mas o teu chefe devia afastar-se dele...

– Saber ele sabe... – suas feições se tornaram tristonhas – Concordo com você, mas quem sou eu para fazê-lo mudar de ideia? – deu outro sorriso, suspirando outra vez – O chefinho é doido por esse inglês maricas e adúltero...

A morena fitou Luciano com atenção e suspirou.

– Há mais alguma coisa por aí, não há? – esticou o braço e cutucou-lhe levemente a bochecha – De onde veio esse sorriso tristonho?

Luciano piscou e começou a gaguejar.

– N-não! S-só somos amigos e--

Michelle riu.

– Mesmo~? Não estás, sei lá, apaixonado pelo teu “chefinho”?

O moreno corou rapidamente até as orelhas, atrapalhando-se mais ainda.

– Q-que? N-não! – balançou a cabeça – C-claro que não!

Ela sorriu de lado, um pouco divertida pela expressão atrapalhada mas fofa que Luciano tinha.
– Se o tu o dizes, quem sou para te contrariar. – apoiou o queixo na outra mão – Eu ainda não conheci o teu chefe. Como é que ele é?

Luciano piscou e relaxou, voltando a sorrir.

– Ah... O chefinho... – riu – O chefinho é um... como se chama? Mistério? Quebra-cabeça?

– Enigma?

– Isso! – apontou o indicador para ela, e ambos sorriram – Um enigma!

– Como assim, Luciano? – eles pediram mais bebidas, ela uma cerveja e ele uma caipirinha, logo dizendo que a sua era mil vezes melhor.

– O chefinho é doce, gentil, tem um dom com flores que nunca vi... – suspirou – Mas me parece um pouco fechado, está amando um idiota completo e... – pensou que Afonso nunca olharia para si como olhava para Arthur – ...ele me faz bem. Tenho vontade de cuidar dele.

Michelle voltou a sorrir.

– Hum... Eu perguntei como ele era mas referia-me fisicamente. – disse a brincar e encarou Luciano – Cuidar dele? De certeza que não estás apaixonado?

Luciano corou mais ainda, tentando se esconder atrás do copo de caipirinha.

– A-ah... C-claro que não! É coisa de amigo! – mordeu o lábio inferior, percebendo que seu coração batia descompassado – A-Ahn... E-ele é baixinho, mais ou menos da sua altura; – ela inflou as bochechas e disse que não era pequena – olhos verdes como as folhas na primavera; a pele clara como leite; cabelos castanhos e compridos, que ele insiste em deixar presos... – suspirou – Ele é... Bonito, sabe? Muito...

Ela bebeu um pouco da sua cerveja e sorriu.

– Conta mais. Quero saber mais sobre essa paixão-- e não me contradigas porque é claro que gostas dele.

Luciano fez biquinho.

– Não gosto dele. – em seguida, desviou o olhar para baixo – E mesmo que gostasse, ele ama outro, e eu tenho o Martin...

– Isso não é assunto, Luciano. – suspirou e cruzou os braços – Não conheço o Martin, por isso, fala-me dele então.

– O Martin? – Luciano coçou a nuca e ponderou por algum tempo – Ahn... Ele trabalha na mesma Agência de modelos que você, mas sei que não trabalham juntos. – sorriu – O Martin é alguns meses mais novo que eu, mas mais alto. E é loiro.

– Deve trabalhar noutro departamento porque o único loiro e alto que vejo é o Santiago. – disse pensativa – Mas viste? O teu tom de voz era diferente ao falar de Afonso.

– Deve. Meu tom? – piscou – Meu tom foi normal pra ambos!

Abanou com a cabeça negativamente.

– Não foi. Foi mais ternurento para um deles.

– Ternurento? – coçou a nuca, confuso – Como assim, Michelle?

Ela rolou os olhos e suspirou outra vez.

– Ai Luci que tu hoje estás lento. Tu falaste do Afonso de forma mais ternurenta, carinhosa.

O brasileiro voltou a corar, resmungando qualquer coisa sobre não ter mudado a forma de falar sobre Martin ou Afonso.

Em seguida, um senhor rechonchudo, o dono do bar, subiu ao palco e anunciou:

– Hoje, para comemorar a sexta-feira e o Natal de domingo, vamos fazer um jogo! – o pessoal do bar aplaudiu – A vossa mesa está marcada com um número, e eu vou sortear alguns durante a noite. A mesa sorteada deve mandar um integrante para vir cantar no nosso karaokê! – mais aplausos – E a primeira mesa é... A mesa número 12!

Luciao riu e segurou a plaquinha.

– É a nossa, Michelle. Vai lá cantar~

Ela corou até ás orelhas e encolheu-se no banco.

– N-N-Nem pensar! Vai lá tu!
O resto das pessoas começou a bater palmas e a gritar:

– Canta! Canta!
Luciano também corou e balançou a cabeça.

– E-eu não! N-não estou bêbado o suficiente e-- – antes que pudesse terminar sua frase, uma garçonete lhe puxou pelo braço até o palco, aumentando seu acanhamento e a euforia do pessoal.

Enquanto Luciano tentava fugir dali, o dono do bar ria. Abraçando o brasileiro pelos quadris – uma vez que o senhor era menor até mesmo que Afonso –, ele pegou o microfone mais uma vez:

–Como te chamas? – sorriu.

– A-Ah... Luciano, senhor.

Todos aplaudiram.

– Um brasileiro?! – o moreno confirmou, aumentando o sorriso do senhor – Pois eu chamo-me Miguel, Luciano. Tens alguma música em mente ou podemos escolher uma aleatória?

– A-ahn... – como ele demorava a se decidir, Miguel riu e pôs uma de Nando Reis, pois adorava aquele cantor – É uma índia com colar--

Luciano fez uma careta e pediu para que o karaokê fosse pausado ou desligado, o que desse. Quando Miguel veio lhe questionar se havia algo de errado, Luciano sorriu acanhado e cochichou ao ouvido do senhor se ele poderia usar um violão emprestado e que não precisava do karaokê. Miguel concordou e, ao ter o violão ajeitado, Luciano tomou posse do microfone:

– Boa noite a todos. – ele sorriu enquanto ajeitava a altura do microfone – Acho que todos concordamos que um violão é mais agradável aos ouvidos do que uma música robótica de fundo, né? – as pessoas riram, algumas berrando por estarem bêbadas demais. Começando a tocar, Luciano avisou: – Bem, aí vai...

“É uma índia com colar
A tarde linda que não quer se pôr
Dançam as ilhas sobre o mar
Sua cartilha tem o A de que cor?”

Todas as pessoas do bar, incluindo os bêbados que faziam barulho, calaram-se ao ouvi-lo cantar. A voz e talento de Luciano tinha sido inesperado e todos ficaram espantados e deliciados ao ouvi-lo.
Michelle estava literalmente de boca aberta. O brasileiro tinha realmente muito talento.
Por ser um pouco tímido, Luciano mantinha os olhos fechados, atento no que estava fazendo. Sabia a música de cor, também era grande fã de Nando Reis, e era inevitável lembrar-se do dueto dele com a já falecida Cássia Eller, outro ícone da música brasileira.

“O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou”

Naquela estrofe, cantada por Cássia no dueto, fê-lo lembrar-se de um certo português de olhos verdes. Luciano sentia-se conturbado: sua vida parecia certa antes de viajar para Portugal; seu amor parecia eterno... E agora ele estava num bar, antes do Natal, cantando para pessoas desconhecidas, longe de seu namorado e pensando em Afonso.

“E são dois cílios em pleno ar
Atrás do filho vem o pai e o avô
Como um gatilho sem disparar
Você invade mais um lugar
Onde eu não vou”

Afonso...

A concentração fê-lo esquecer por momentos do público. A música tinha esse efeito nele, fazia-o pensar nas coisas sérias, de certa forma, viajar pelos seus pensamentos sem sair do sítio.
Naquele momento os seus pensamentos estavam com aquele português baixinho e resmungão que era demasiado orgulhoso até para pedir ajuda nas tarefas mais simples. E também... Naquilo que Michelle tinha dito.

Ao término da música, Luciano voltou a abrir os olhos, um pouco corado.

Sem exepção, todas as pessoas da sala e inclusive os empregados, colocaram-se de pé e bateram palmas, alguns até assobiaram, deixando o brasileiro mais acanhado.
– QUEREMOS OUTRA! – um dos bêbados gritou lá do fundo.

Luciano balançou a cabeça em negação e desceu apressado do palco. Seguiu até sua mesa e pegou sua jaqueta.

– M-Michelle, me desculpe, mas eu preciso ir.

– P-por que, Luci? Foi algo que eu fiz? – questionou. Talvez ter forçado Luciano a cantar não fosse uma boa ideia?

Luciano sorriu acanhado e explicou-se:

– E-eu preciso ver o chefinho e--

Miguel interrompeu Luciano mais uma vez. Sorridente, o português riu e bateu com um pouco de força nas costas de Luciano.

– Tu cantas muito bem! – riu outra vez.

– O-obrigado, senhor, mas eu preciso mesmo ir agora...

– É assim tão urgente?
– S-Sim, senhor--
Miguel ficou pensativo por um momento.

– Importa-se de passar por aqui outro dia?
Luciano encarou Michelle, que também se ajeitava para ir embora, por um momento e logo voltou sua atenção ao senhor.

– Por...?

Miguel riu e voltou a bater nas costas de Luciano, que fez uma sutil careta de dor.

– Eu gostei de ti... Todos gostaram de ti, rapaz. – sorriu – Não queres vir trabalhar aqui às noites. Como cantor. Vais trazer muitos clientes para o bar, e eu pago bem.

– C-cantor--? – o moreno voltou a olhar para Michelle, e um sorriu para o outro – C-claro que eu aceito! – ele riu e abraçou o senhor, que não estava acostumado com aquela demonstração tão pura de afeto – Eu aceito, sim senhor! – confirmou – Mas... E-eu posso passar aqui amanhã?

O português sorriu e lembrou-lhe que a noite seguinte era véspera de Natal.

–Está aqui na segunda-feira, às dezanove horas. Conversamos melhor sobre isso, então.

Luciano sorriu outra vez e voltou a abraçar Miguel, logo também abraçando Michelle.

– Obrigado, obrigado! Agora, se me dão licença, eu preciso ir.

Michelle, que ainda ria, voltou a abraçar Luciano e lhe cochichou.

– Vais onde?

O moreno corou de leve e lhe admitiu.

– Talvez você esteja certa... – sorriu – Eu vou ver o chefinho. Precisa de carona--?

– Não, eu chamo um táxi. – sorriu outra vez – Vai... Corre.

Luciano agradeceu e saiu às pressas do bar.

Ele gostava de Afonso. Muito. Ele só precisava saber se o português também gostava de si, nem que fosse só um pouquinho.

~※~

Afonso suspirou, um pouco irritado e encarou Sofia, que estava na outra ponta do sofá, bem afastada de si.
A pequena continuava amuada e recusava-se a falar consigo. Tinha ignorado a ordem para ir dormir e sentou-se no sofá a ver tv. O português sentou-se a ler enquanto esperava que ela adormecesse.
Era tarde quando a campainha da porta tocou. Ele pousou o livro em cima da mesa depois de o marcar e foi abrir a porta.
Pestanejou ao ver Luciano tão ofegante mal a abriu e de imediato pensou que algo tivesse acontecido.

– L-Luci? Estás bem?

Luciano abriu um sorriso enorme ao ver Afonso. Ele era lindo até mesmo com roupas de ficar em casa.

Abriu os braços e deu um passo em frente, abraçando o menor de forma apertada... Ele só não esperava que a coragem que reunira para confessar que gostava de Afonso se esvaísse assim que o sentisse contra si.

– A-Ah, tudo bem... – apertou-o mais um pouco – Eu só... Chefinho, eu estou apai-- – suspirou e se afastou, encarando o mais velho nos olhos – Eu estava num bar com a Michelle até agora pouco e... Eu cantei lá por causa de uma brincadeira e... E-eu consegui um emprego de cantor lá!

O português corou um pouco e nem teve tempo de retribuir o abraço porque Luciano se afastou logo.
Pestanejou outra vez e sorriu abertamente.

– Mesmo?! Fico mesmo feliz por ti! – deu um passo em frente e foi a vez dele de o abraçar – Vês! Eu disse que tinhas jeito! Vais aceitar, certo? Não sejas parvo em recusar!

Foi a vez de Luciano corar, mas ele logo retribuiu o abraço.

– Já aceitei. A Michelle me batia se não o fizesse. – riu – Vou conversar com o dono do bar depois do Natal, mas sei que vou tocar de quinta a domingo à noite.

Por ser mais baixo, Afonso encostou o queixo no peito de Luciano e olhou para cima.

– Vais deixar a floricultura? Eu entendo se não tiveres tempo para as duas coisas e acho que deves seguir o teu sonho.

Luciano baixou o rosto e corou. Afonso estava tão pertinho de si e os olhos dele pareciam mais belos e brilhantes naquela meia-luz. E faltava só um pouquinho para que o pudesse beijar...

– N-não! – balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos idiotas. Afonso amava Arthur e nunca olharia para si de forma diferente – E-eu quero muito continuar a trabalhar com você, porque eu-- – ele ia se declarar, porém desistiu outra vez. Corando um pouco mais, desviou o olhar – ...A Lovina precisa descansar... ainda mais agora que a nenê nasceu e... você precisa de ajuda, não?

Afonso não entendeu por que é que o mais novo tinha corado mas acabou por corar também por causa da proximidade.
– Precisar nem preciso nesta época do ano mas a tua companhia é sempre agradável. – disse e depois lembrou-se do que Sofia tinha dito de manhã, o que o fez desviar o olhar e apertar subtilmente o abraço.

– E-eu incomodo? – questionou. Não lhe passara pela cabeça que pudesse incomodar o português. Em seguida, estranhou o aperto do abraço – E-eu também gosto da sua companhia. – muito mais do que ele pensava que devesse.

Mais envergonhado ainda, Afonso escondeu o rosto no peito de Luciano e deu um passo atrás, fazendo-o entrar para o corredor.

– Claro que não incomodas!

Luciano piscou e em seguida sorriu. Usou o indicador e médio direito e apertou o nariz de Afonso, como sua mãe costumava fazer em si quando era criança.

– Que bom. – alargou o sorriso – Ficaria chateado se te incomodasse...

Corou ainda mais e tentou morder-lhe a mão.

– Se incomodasses eu já tinha dito- espera, afinal incomodas. Sempre que me chamas “chefinho”. – implicou e ia apertar-lhe as bochechas mas Sofia apareceu ao fundo do corredor.

– Tio Luci!

Luciano piscou e desviou o olhar até a pequena que corria em sua direção. Ainda abraçado em Afonso, fez o português girar para a sua esquerda, mantendo-o contra si ao segurá-lo pela cintura, e flexionou o joelho direito para que Sofia o usasse como apoio e pulasse para seu colo. No fim, voltou a girar Afonso no seu abraço e abraçou os dois.

– Bia! Ainda não foi dormir? Está tarde.

Ela encheu as bochechas de ar e abraçou o pescoço de Luciano, dando costas ao português de propósito.

– Não. O Tio Chato não manda em mim.

O moreno voltou a piscar e, ao perceber que Afonso apertava o abraço e escondia o rosto em seu peito, Luciano suspirou.

– Bia... Seu tio te adora... Por que está tratando ele assim?

– Porque ele é chato e eu não falo com ele nem gosto mais dele. – resmungou e cessou o abraço para cruzar os braços.

Luciano olhou para Afonso e deu um beijo na testa dele.

– Posso conversar com a Bia a sós?

O mais velho acenou afirmativamente e afastou-se.

– Claro. Queres comer ou beber alguma coisa? – perguntou e foi fechar a porta, dirigindo-se depois para a cozinha.

– Não, obrigado. Não quero incomodar. – disse e seguiu até o sofá, sentando-se e deixando a criança no seu colo – Bia... Que foi? Por que vocês estão brigados?

A pequena desviou o olhar.

– A culpa é do tio. Eu queria ir a casa da Tia Bella hoje e ele não me deixou!

Luciano piscou algumas vezes e em seguida começou a rir, logo passando a gargalhar.

– Ai, não. Você está brincando com o tio Luci, né? – ao ver o biquinho nos lábios de Sofia, sorriu e bagunçou os cabelos compridos dela – Bia... Se o Afonsinho não pode levar você pra casa da tia Bella é porque ele tem seus motivos... – tentou fazê-la sorrir, mas ao não conseguir, abraçou-a junto ao peito – Não fique chateada com ele e nem seja grosseira... Ele faz tanto por você...

– Não faz. Ele não gosta de mim. – abraçou e encostou-se no peito dele – Ele não me deixa ver televisão à noite nem me dá um dos rebuçados mágicos dele.

– Claro que gosta e-- – afastou a pequena – Rebuçados mágicos? – sorriu – O que isso, Bia?

Ela olhou à volta para se certificar que Afonso não estava por alí.

– Uma vez vi o tio ir ao armário alto e perguntei o que ele ia buscar. Ele disse-me que eram rebuçados mágicos mas nunca me deixou comer nenhum!

O moreno franziu o cenho. Que mal havia dar um pouco de doce a uma criança?

Suspirando, pediu para que Sofia fizesse as pazes com o tio e, como ela tinha a teimosia do pai, decidiu “ameaçar”:

– Biazinha... Se vocês não fizerem as pazes, quem vai te levar para dormir comigo semana que vem? – piscou-lhe o olho.

Suspirando, ela voltou a cruzar os braços e encolheu-se um pouco.

– Eu não quero fazer as pazes com ele... E-e duvido que ele queira também. – encarou Luciano e recontou o que tinha dito ao português de manhã.

Luciano piscou e jogou a cabeça para trás, apoiando-a no encosto do sofá. Isso explicava a expressão de Afonso quando Sofia chegou.

– Vem cá. – sorriu e pegou a menina no colo.

Foram a cozinha sem fazer barulho. Mesmo que o brasileiro dissesse que não precisava se incomodar, Afonso decidiu preparar uma macarronada simples para comerem. Já era tarde, mas o português tinha essa mania de cozinhar para quem gostava.

Gostava... Era engraçado pensar que gostava do brasileiro, sendo que o conhecia tão pouco. Mas, claro, eram só amigos. Certo? Afonso só gostava de Luciano como um amigo.

Alheio aos mais jovem, Afonso foi abraçado por trás por Sofia – que lhe agarrou o pescoço – e Luciano – que abraçou o mais velho pela cintura com a mão esquerda, já que a direita segurava a menina.

– Chefinho~ A Bia tem algo a dizer~.

A menina corou e apertou o abraço.

– D-desculpa, tio. E-eu gosto de ti.

O português deu um pequeno salto por não estar a contar e corou, olhando pelo ombro.
Sorriu um pouco e beijou-lhe a bochecha.

– Não tem mal, já passou.

Sofia sorriu e apertou o abraço, bocejando em seguida.

– Tio? Levas-me para a cama? Tenho sono... – pediu.

– L-Levo. Vem cá. – rodou e pegou nela ao colo.
Sofia sorriu.

– Tio Luci, hoje ficas connosco?

Luciano também sorriu e beijou a testa de Sofia, lhe afagando os cabelos em seguida.

– Hoje não, Bia. Mas eu volto, ok? – voltou a sorrir quando Sofia acenou, quase adormecendo no colo do tio. – Bons sonhos.

Sofia não conseguiu responder, pois o abraço quentinho de Afonso a fez adormecer.

Assim que ambos sumiram pela casinha simples de Afonso, Luciano correu até o mais alto armário da cozinha. Não fazendo barulho, procurou pelas tais “balas mágicas”, e arregalou os olhos ao achar um pote de medicamentos. Eram soníferos de tarja preta, antidepressivos. E estavam no nome de Afonso.

– P-por que ele toma isso? – questionou-se num sussurro e abriu o pote – Isso faz mal, chefinho... – abriu o pote e despejou as cápsulas rubras no bolso de sua jaqueta, logo em seguida enchendo-o de tic-tacs de canela.

Após isso, guardou o pote onde havia achado e voltou para a sala. Quando chegasse na pensão, descartaria corretamente aqueles medicamentos, uma vez que era errado simplesmente jogá-los no vaso sanitário como muitos filmes e novelas mostravam.

Afonso voltou alguns minutos depois. Tinha sido fácil adormecer Sofia uma vez que àquela hora ela já costumava estar a dormir.
Passou para o outro lado do balcão e pegou num prato para Luciano.

– Só sais daqui depois de comeres e me contares mais pormenores. – sorriu ligeiramente e colocou tudo num tabuleiro, que levou para o sofá, quentinho graças à lareira acesa.

Luciano até pensou em perguntar ao português o motivo dele ter um pote de tamanho considerável de antidepressivos usados contra a insônia, porém acreditava que estaria a invadir mais ainda a privacidade de Afonso. Entretanto, sua vontade de cuidar e proteger o menor apenas aumentou.

– E eu lá tenho escolha em recusar? – riu e seguiu o menor, sentando-se ao lado dele no sofá – Nossa, você tem que me ensinar o seu segredo! – disse ao provar a macarronada – Você cozinha superbem, já disse.

O português riu um pouco e abanou a cabeça.

– Eu não tenho segredo nenhum! Apenas calhou bem, pelos vistos.

Luciano sorriu e enrolou uma grande quantidade de macarrão no garfo antes de pôr na boca e, claro, falar com ela cheia.
– Não~ Você tem um dom, isso é fato. – riu.

Deu-lhe uma palmada leve no ombro.

– Não é dom nenhum, é sorte. E fala de boca fechada antes que te mate.

– Não se tem a mesma sorte tantas vezes assim, logo é um dom. – sorriu e limpou a boca que, como sempre, estava suja de comida – Ui~ você vai me matar? Baixinho.

Afonso ficou vermelho e encheu subtilmente as bochechas com ar.

– E-Eu não sou baixinho! Nem toda a gente é um gigante Adamastor!

– Adamastor? – Luciano franziu o cenho e depois riu – É um cão gigante? Como o Beethoven naquele filme? – em seguida se levantou e retirou o prato das mãos de Afonso, pondo ao lado do seu sobre a mesinha de centro. Puxou o menor pelas mãos e fê-lo ficar de pé.

– Q-que foi?

– Hn... Me enganei. A Michelle é mais alta que você, certeza.

Afonso franziu o sobrolho e começou a resmungar tal e qual um idoso.

– Ele não é um cão! É um gigante que foi enganado e transformado em pedra e-- Isso é porque ela deve usar saltos, oh parvinho. Eu não sou baixo. Ponto final.

– Não, ela detesta usar salto e-- – Luciano piscou e olhou para o relógio de pulso, que já tinha a pulseira velha e quase a rasgar – Caraca! Está supertarde! – olhou outra vez para Afonso – E-eu tenho que ir... O Martin deve estar para chegar e se eu não estiver no quarto antes dele, ele vai ficar brabo.

Afonso pestanejou e disse, aguardando que Luciano lhe soltasse as mãos:

– Tudo bem, eu levo-te à porta.
Mas internamente, quase desejava que Luciano ficasse...
Luciano, finalmente soltando as mãos de Afonso – com muito custo, uma vez que gostava daquelas mãos pequenas e geladas –, coçou a nuca.

– Desculpa ter aparecido tão tarde... – começou a achar-se estúpido. Havia saído às pressas de um encontro com uma amiga para... para se... declarar...? e agora via o quão idiota e impensado aquilo era – E-eu só quis que fosse o primeiro a saber da novidade... – riu acanhado – B-bem, a Michelle soube antes, mas ela estava comigo, então não conta, né?

Afonso sorriu ligeiramente e esticou-se para lhe despentear o cabelo.

– Sabes bem que podes aparecer à hora que quiseres, ora. E obrigado eu por teres resolvido o problema com a Bia. – suspirou e riu um pouco de seguida – Pareces o meu irmão quando me veio dizer que a Lovi estava grávida da Marisa.
Apenas havia a pequena diferença que o espanhol, todo atrapalhado e feliz, lhe tinha dito aos berros e por engano: “Hermano! Estamos grávidos!”.

Luciano sorriu um pouco, olhando para seu prato de espaguete. Estava no fim, mas ele não queria se demorar.

– Bem... Agora só nos veremos depois do Ano Novo, hn? – coçou a nuca outra vez. Ia sentir tantas saudades de Afonso... – N-não quer aparecer no jantar que a Bella vai dar no Natal? Digo... Se não estiver ocupado, claro...

Abanou negativamente com a cabeça.

– Obrigado, mas não. Ela já tem muito trabalho para cuidar de todos vocês. – sorriu e depois estalou com os dedos – Ia-me esquecendo...
Foi à cozinha e pegou num saco com vários embrulhos. Tinha comprado umas sapatilhas para Luciano – quando foram ao shopping ele viu-as e foi experimentar mas reclamou que eram muito caras. O português depois foi lá buscá-las. Um coelho de peluche para Hansen por implicação e um livro para Bella. Por uma questão de boa educação, comprou pequenas caixinhas de chocolate para os restantes hóspedes, uma vez que sempre tinham sido simpáticos consigo quando lá ia almoçar.
Entregou-lho e disse:

– Dá à Bella para juntar ás prendas debaixo da árvore. E só para abrir depois da meia-noite!

Luciano olhou curioso para a sacola e acenou com a cabeça.

– Ok, prometo me comportar.

Afonso também sorriu e lhe apertou a barriga. Era durinha devido aos exercícios que Luciano fazia.

– Acho bom~

O moreno sorriu outra vez e puxou o mais velho para um abraço rápido.

– Obrigado pela macarronada. – se afastou e fechou o zíper de sua jaqueta... que emperrou na metade, fazendo Luciano suspirar e deixar como estava – Então... Boa noite e boas festas.

– Obrigado e igualmente. Boas entradas. – respondeu, não sem antes puxar Luciano um pouco para perto e lhe ajeitar o fecho, fechando-o até cima.

Luciano aproveitou a curta distância e deu um beijo na bochecha de Afonso, acenando em seguida.

– Valeu~ – disse risonho e passou pela porta, encolhendo-se dentro da jaqueta por estar frio enquanto caminhava.

O português corou um pouco novamente e ficou na porta a vê-lo afastar-se.

– Queres outro casaco? Ou luvas? Cachecol?

Afonso apenas ouviu o mais jovem rir antes de berrar, já no fim da rua:

– Não, 'tô de boa.

Luciano, então, continuou a caminhar, sumindo ao virar a esquina.

Abanou a cabeça e entrou para casa.

– És impossível, parvo.
Pegou nos pratos e foi lavar, aproveitando que estava cansado para ir dormir de seguida.
Deitado no aconchego de sua cama – de casal, grande demais para um homem pequeno e que não costumava ocupá-la inteiramente –, Afonso passou a devanear. Conhecia Luciano não fazia meio ano, porém achava engraçado aquela nova amizade. A forma como se conheceram; o motivo de Luciano passar a trabalhar consigo; o carinho que sentia pelo brasileiro; a maneira como este o tratava... O mais jovem era um doce de pessoa, e Afonso, apesar de viver implicando com ele por culpa daquele apelido idiota que só o moreno lhe chamava, gostava imenso dele.

Luciano era um rapaz jovem, energético – e Afonso já reclamava de dores nas costas –, cheio de vida e... bonito. Lindo.

No que começava a pensar? Se fosse pensar em alguma coisa, devia focar-se na amizade que construía com o brasileiro, e não em seu... beijo.

Ganiu e escondeu o rosto sob as cobertas. Por que raios lembrara do beijo que trocaram?

Luciano tinha namorado e ele próprio gostava de outra pessoa. Outra pessoa da qual ele sabia que tinha de se afastar mas...
Era tão complicado.
Além do mais, Martin era modelo e mais jovem... Não que 4 ou 5 anos de diferença lhe fizesse confusão, mas apenas imaginava que Luciano nunca quereria nada consigo por esse motivo.

Suspirou e encarou o teto.

Ele gostava de Arthur, isso era certo... Mas não podia negar que Luciano estava ocupando demais seus pensamentos nos últimos tempos...

Voltou a suspirar e girou o corpo para o lado, fechando os olhos e tentando adormecer.

~※~

Apesar do esforço em correr e chegar rápido a casa, quando o fez, Luciano percebeu que Martin tinha chegado mais cedo.
O argentino estava sentado em cima da cama e ao vê-lo entrar cruzou os braços e encarou-o sério, aguardando justificação.

Luciano sorriu de lado e aproximou-se a passos hesitantes do namorado.

– Onde estava, Luciano? – questionou assim que o moreno passou a engatinhar sobre a cama.

– Num bar. – disse como se estivesse desejando “bom dia” ao loiro.

Martin sentiu o cheiro de caipirinha no hálito de Luciano e torceu o nariz.

– Você está fedendo à cachaça, Luciano.

– Eu sei, dã. – riu e deu um beijo na bochecha de Martin, que se afastou sutilmente. – Ah, qual é! Você vive trabalhando até tarde, que mal tem eu beber um pouco com amigos agora que estou de folga?

– Exato! Você está de folga, eu ainda estou trabalhando como uma mula para nos sustentar! – o loiro resmungou e se ergueu, se esquivando dos carinhos de Luciano.

O brasileiro soltou um suspiro, retirando a jaqueta por cima, uma vez que o zíper estragara de vez. A jaqueta, no entanto, ergueu também a camisa que Luciano usava por baixo, e a visão do peito moreno e desnudo dele chamou a atenção de Martin.

O argentino lia alguns contratos – estava pensando em aceitar fazer um desfile em Milão –, porém seus olhos cerúleos deixaram as linhas de letras pequenas e palavras difíceis para focarem-se no tronco de Luciano.

Aquela era uma das perdições de Martin.

– Me desculpe se trabalho num lugar mais familiar e tenho folga em feriados. – também resmungou, procurando por uma camisa que pudesse usar para dormir. Não tinha pijama, mas também não tinha camisas boas para usar fora de casa.

Suspirou. Precisava usar o próximo salário para comprar algumas roupas.

– Luciano...

– Martin, eu agradeço a força que você dá e por ter pago os últimos meses de estadia, mas deixa que eu pago da próxima. Estou juntando um dinheiro para comprar um novo sapato, porque você vive reclamando do meu, mas posso deixar isso para depois.

– Luciano. – Martin deixou o contrato sobre a mesa de cabeceira e se aproximou do mais velho.

– Eu também vou trabalhar dobrado agora, ok? De quinta a domingo vou trabalhar num bar, e o salário é bom e--

– Luciano! – impaciente, o argentino segurou o namorado pelo pulso e fê-lo girar, trazendo o corpo moreno de encontro ao seu – Cala a boca, seu mané irritante.

Luciano piscou mas antes de poder retrucar a ofensa, seus lábios foram tomados por Martin num beijo íntimo e necessitado. O brasileiro soltou um gemido mais pelo fato do mais jovem ter lhe afagado a intimidade coberta do que por aquele beijo apressado e sem carinho.

Chegava a doer ter os lábios de Martin sugando os seus e a língua do argentino lutando com a sua por dominância.

– M-Martin? – ele arfou ao ser jogado na cama de lençóis desfeitos.

Martin apenas sorriu predatório e pôs-se sobre o brasileiro, iniciando outro beijo.

Aquilo logo passaria a se tornar comum entre eles: usar um ao outro pensando em seus verdadeiros amores.