O Som Do Coração
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Capítulo XXV
Aquela voz...
O português levantou de imediato o rosto e apertou a mão que o segurava, sentindo o seu coração acelerar ao confirmar que era mesmo aquela pessoa.
Quase sem acreditar no que via, ele murmurou:
– L-Luciano...? – e sem pensar nas acções, puxou-o com um pouco de brusquidão e abraçou-o.
Luciano, num primeiro momento, apenas parou de respirar, e assim que sentiu o corpo de Afonso contra o seu, retribuiu o abraço, apertando o menor junto de si.
– Afonso.
Escondeu o rosto no peito dele. Tinha saudades daquele abraço, do calor do brasileiro e do cheirinho e presença dele.
Parecia-lhe surreal que ele estivesse ali depois de tanto tempo sem o ver... sem o ouvir...
Apertou mais o abraço, não querendo separar-se dele.
– Eu tenho tantas saudades tuas... – murmurou.
Luciano também apertou o abraço, nem acreditando que Afonso estava consigo novamente.
– Eu... Meu deus, você está aqui...
Claro que Pongo, ciumento, também quis carinho e pulou entre os dois, os afastando.
Afonso olhou para o cãozinho e fez-lhe festinhas na cabeça, mas sem nunca desviar o seu olhar do rosto do brasileiro.
– Hey... Que é feito de ti?
– Esse é o Pongo, meu cachorro. – sorriu, os olhos fixos em Afonso.
O português sorriu um pouco tristemente ao ver a sua pergunta ignorada e ficou de cocoras a fazer festinhas ao animal:
– Olá Pongo!
Ele abanou a cauda e voltou a saltar para cima dele, derrubando-o com facilidade, o que fez o lusitano rir e proteger a cara das lambidelas.
O que Afonso não sabia era que Luciano imaginava que ele perguntava sobre o cão.
Retirando o animal de sobre Afonso outra vez, Luciano lhe estendeu a mão e sorriu:
– Veio fazer o que aqui?
Mais uma vez, segurou a mão dele e levantou-se, não a soltando depois.
– Fui ameaçado de morte pela Lovina e chantageado emocionalmente pela Bia para vir com eles de viagem.
Ele sorriu.
– Ah, vocês vieram para as férias. – lhe chateava Afonso não ter ido a sua procura – Estão hospedados onde?
O português piscou, olhando para os lados. Então, percebeu que estava perdido.
– E-eu não sei... Saí logo que chegamos...
Luciano riu baixinho e coçou a nuca.
– Hei... Eu moro aqui perto. Não quer usar meu computador para descobrirmos isso?
Afonso acenou afirmativamente com a cabeça e soltou-lhe a mão a contragosto quando ele voltou a caminhar.
– Moras sozinho?
Luciano segurou bem a coleira de Pongo, fosse ele fugir mais uma vez. O braseiro sorriu amigavelmente, porém Afonso percebia uma diferença em seus gestos – só não sabia que era amor unido a timidez.
– Bem, o Pongo mora comigo, né garotão? – o cão latiu e abanou o rabo, contente pela atenção – Mas somos só nós dois. Sempre. – disse, temeroso de que Afonso pudesse imaginar que ele estivesse com alguém.
Afonso sorriu e voltou a fazer festinhas no Pongo.
– O teu dono é parvinho não é? – o cão abanou o rabo e lambeu-lhe a mão.
O brasileiro coçou a nuca, e em seguida apontou para um prédio pequeno.
– Moro ali...
– É um sitio bonito. – comentou sinceramente e encarou o brasileiro de forma discreta.
Luciano já não estava tão magro e parecia bem mais saudável... E bonito.
Desviou o olhar e suspirou:
– Depois se puderes... Vem comigo ao hotel. A Bia também tem saudades tuas.
Luciano deu um meio sorriso, abrindo o portão principal do prédio e cumprimentou o zelador com um aceno de cabeça e um “boa tarde” amigável. Indicou para Afonso o caminho do pequeno elevador – e já que Pongo ocupava todo o espaço, Luciano e Afonso tiveram que ficar colados um no outro, empurrados pelo cão para as paredes –, suspirando ao chegar no quarto andar.
– Não sei se devo... A Bia nem deve lembrar de mim... – disse e abriu a porta do apartamento 42, deixando Pongo correr para dentro – Desculpa a bagunça... Eu não esperava visitas. – sorriu.
– Claro que lembra! – pediu licença ao entrar e limpou os pês no pequeno tapete, logo sendo “atacado” por Pongo que começou a esfregar nas pernas dele para receber mimo. – Mal soube que vinha ao Brasil perguntou logo se te ia ver.
O moreno piscou, suspirando um pouco perante aquilo. Talvez se Bia o detestasse, as coisas seriam mais fáceis.
– Vou pegar o computador, sinta-se em casa. – sorriu.
Afonso acenou e suspirou também, vendo Luciano sumir por uma das três portas. O apartamento era pequeno – e parecia ainda menor com Pongo, que se esfregava no carpete, ali –, mas ajeitadinho e bonito. Embora dissesse que estava bagunçado, a casa de Luciano estava limpa e organizada... e claro que tinha aquele delicioso cheiro acanelado.
O apartamento fazia jus ao dono: simples, aconchegante... Luciano não tinha muitas coisas, mas Afonso percebeu, com alguma curiosidade, que o brasileiro tinha uma pequena estante com dvds e livros. Caminhou até ela e piscou, realmente surpreso, ao ver que havia algumas literaturas portuguesas escondida entre as revistas de super-herói.
Puxou um exemplar de poesias de Fernando Pessoa e abriu numa página qualquer:
“O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.”
Assustou-se quando Luciano, segurando o notebook debaixo do braço direito, completou:
“Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…”
– Com que então Pessoa?
Luciano sorriu um pouco e sentou-se no sofá confortável.
– É um bom poeta.
– Eu sei. – retribuiu o sorriso e foi sentar-se ao lado dele.
Havia muita coisa que gostaria de lhe perguntar. O que fazia, porque é que desapareceu do nada, se tinha sentido a sua falta...
Mas não disse nada disso e suspirou mais uma vez.
Ainda nem tinha acabado de ultrapassar a vergonha por ter Luciano ali ao seu lado e já Pongo lhe tinha saltado para o colo e começado a lamber a cara.
– Pongo, meu deus! – Luciano enrubesceu perante o comportamento de seu cão – Olha que eu vou trancar você no banheiro!
Pongo ganiu e voltou para o tapete, deitando-se com as orelhas baixas e erguendo os olhos para encarar Afonso, e sempre que o português olhava para si, abanava o rabo.
– Desculpa. Ele não costuma se comportar assim... – coçou a nuca e ligou o computador, colocando-o no colo de Afonso – B-bem, vamos procurar seu hotel. Sabe, pelo menos, o nome dele? Ou algum ponto de referência?
– Não tem mal... Ele é adorável. – o lusitano garantiu e fez festinhas na cabeça dele. Pongo então pousou o focinho sobre o colo dele e fechou os olhos enquanto Afonso lhe mexia no pêlo, ganindo mal parava por um segundo. – Hum.. As paredes estavam pintadas de... vermelho, acho...
O moreno esfregou a mão na testa.
– Vermelho... hn... Você estava caminhando há muito quando o Pongo te atacou?
– Não... alguns minutos...
– Certo, então isso... – puxou o aparelho para si e digitou algumas palavras – Voilà! – sorriu – Aqui está o endereço e o telefone. – apontou para seu telefone – Pode usar à vontade... Quer beber algo? Eu me lembro que estou devendo uma caipirinha para você.
O português riu um pouco ao lembrar-se disso:
– Estás mesmo! Não te escapas disso.
Agradeceu e pegou no telefone, digitando o número do hotel e logo ligando.
Foi uma questão de momentos para que a recepcionista transferisse a chamada para o quarto de António e este logo começasse um monologo sobre ser perigoso andar sozinho em lugares desconhecidos e etc, etc.
Quando finalmente Afonso teve oportunidade de falar, explicou:
– Tem calma... Eu encontrei o Luci na rua, não estou perdido.
– O Luci? Aquele Luci? – o espanhol perguntou quase aos berros, não acreditando que aquilo fosse possível. Claro que, ao ouvirem o nome do brasileiro, Sofia e Lovina quiseram arrancar o telefone de Antônio, mas este por ser mais alto conseguiu se safar – Afonso, estás na casa do Luciano?
Afonso coçou a nuca e olhou para a porta que Luciano havia entrado – a da cozinha – e baixou o tom de voz:
– Eu encontrei o Luci.
– Mas o Luci, mesmo Luci?!
– ...Sim, parvo! Quem mais querias que fosse?
António começou aos guinchos com Lovina, como se fossem duas adolescentes histéricas e depois ganiu. Afonso apenas ouvindo um “Ouchhh Lovi!” antes de ouvir a própria italiana:
– O que é que tu disseste? O que é que ele disse? O que estás a fazer com ele?
– Nada!!
Afonso não viu, mas Lovina sorriu maliciosamente:
– Ah... Pois bem, sabemos que estás a salvo~ – ela riu – Não precisas voltar para o jantar, nós vamos ao cinema com as meninas~
– M-mas--
– Divirtam-se~ – e desligou.
Luciano voltou no mesmo instante em que Afonso suspirou e desligou o telefone. Segurava dois copos de caipirinha.
– Tudo bem?
Afonso acenou com a cabeça e riu um pouco:
– Sim... Fui abandonado pela minha familía.
O moreno sorriu e se aproximou, estendendo um dos copos para Afonso.
– Espero que goste... – disse e sentou-se novamente no sofá, o europeu de pé ao lado do telefone – Vem cá... Me conta as novidades.
O baixinho sentou-se ao lado dele, resistindo à vontade de o abraçar outra vez...
– Novidades? Eu não tenho nov-- Oh espera, tenho! – procurou pelo telemóvel no bolso e mostrou-lhe uma fotografia de si próprio a segurar um bébe – Sabes quem é o pequeno? É o Enzo, o filho da Bella e do Hansen.
Luciano quase se engasgou com a caipirinha, e seus olhos castanhos demonstraram a real surpresa perante aquela novidade. Pegou o celular de Afonso e olhou para o bebê robusto e bochechudo, a cara de Hansen.
– F-filho? – ele sorriu – Então eles se acertaram?! Meu deus, que legal!
O português riu e respondeu afirmativamente, comentando logo de seguida:
– Acertaram mesmo. E o Hansen é o pai mais convencido e que pode existir no planeta!
O brasileiro olhou bem para o bebê, mas depois voltou sua atenção para a expressão de Afonso na imagem. Ele parecia distante, embora sorrisse. Como quando se conheceram.
Olhou para o português ao seu lado, e corou um pouco ao perceber que, para também olhar a foto, Afonso havia se aproximado, e que seus rostos estavam próximos. Ele trancou a respiração, desejando puxar o menor pela nuca, beijá-lo loucamente e amá-lo ali mesmo, no sofá... Mas não fez nada além de desviar o rosto e se levantar, desconfortável.
– Gostou da caipirinha? Posso adoçar mais se estiver muito azeda...
Afonso bebeu um gole e pestanejou, lambendo os lábios de seguida:
– Nem é preciso, está óptima!
Luciano sorriu de canto e andou pela sala, tentando não tropeçar em Pongo.
– Que bom... Está com fome? – não sabia como conversar mais com Afonso. Havia coisas que ele desejava esquecer, e outras que ele se arrependia – Eu posso cozinhar alguma coisa... Agora que eu moro sozinho, aprendi outros pratos-- mas não sou um chef, e minha comida não é tão boa quanto a sua, mas...
– Eu não me importo. – levantou-se também e terminou a caipirinha – Aposto que a tua comida é tão boa como os teus chocolates quentes.
Ele corou um pouco, atrapalhado e nervoso.
Quando saíra com Pongo naquela tarde, não imaginava que fosse encontrar Afonso na rua. Não esperava reencontrar o amor de sua vida, assim como agora não sabia como agir em frente ao português. Parte de si, que ele estava louco para ceder, queria abraçar o menor e se declarar, beijá-lo por todos os dias que ficaram separados... Mas a outra parte, que estava vencendo, o deixava acanhado, estranho e distante.
– Não sei... Mas vou fazer a melhor omelete que você já comeu.
O português riu:
– Então que venha a omolete!
Seguiu atrás dele para a cozinha e enquanto o brasileiro andava de um lado para o outro a procurar as coisas, Afonso foi fazendo perguntas e tentar arranjar conversa porém sempre fugindo ao assunto principal que estava ali subentendido por ambos e que nenhum dos dois queria falar directamente com medo da rejeição do outro.
Como o apartamento era pequeno, a cozinha era própria para apenas uma pessoa por vez, e quando Afonso deu um passo para frente, Luciano girou o corpo para seguir até a geladeira pegar os ovos. Obviamente eles embateram um no outro, e o brasileiro enrubesceu até as orelhas.
– Desculpa.
Afonso corou um pouco porque aquela proximidade com o brasileiro mexia consigo e deixava-o atrapalhado.
O problema é que começava a ser difícil resistir à vontade de o abraçar outra vez...
Mordeu o lábio inferior e desviou o olhar ao perceber que encarava o moreno.
– N-não tem mal...
Luciano deu um passo para a esquerda, desviando de Afonso, e foi até a geladeira.
Também lhe custava trancar seus sentimentos, mas ele temia a rejeição mais uma vez.
Porém, era masoquista:
– Então? Você e o Arthur se acertaram? – perguntou enquanto cozinhava.
– O Arthur? – perguntou, pestanejando confuso com aquela pergunta que não tinha cabimento nenhum – Claro que não. Mas... O Francis veio falar comigo porque alguém partiu o nariz ao Arthur.
Topou então que ainda lhe faltavam algumas respostas.
Luciano olhou por cima do ombro.
– N-não era para você ficar sabendo disso!
– Mas soube... – cruzou os braços e suspirou – O que é que aconteceu lá?
O moreno voltou sua atenção para a omelete, logo desligando o fogo e pondo-a num prato.
– Nada.
– Luciano... Eu quero saber o que aconteceu. O Arthur podia ter-te magoado! O-ou pior, o Francis!
O brasileiro continuou sem dizer uma palavra, mas Afonso persistiu com seu questionamento, e Luciano se exaltou, batendo a mão com força na bancada da pia.
– Porque eu não aguentava mais ver aquele desgraçado usando e abusando de você! Faz ideia do ódio que eu sinto por ele? Do quanto eu me segurei para não dar mais do que apenas um murro nele?!
O português deu um pequeno salto ao ouvir o barulho e encarou-o sem entender.
– C-como assim?
Luciano apertou os lábios numa linha fina, e suspirou.
– Está pronto... Vamos para a sala.
Ao ver que não obteria resposta, limitou-se a suspirar e segui-lo.
Sentaram-se no sofá, Luciano colocando algumas almofadas entre eles para que Afonso pudesse usar de apoio.
– Se quiser mais alguma coisa, é só pedir.
Afonso acenou com a cabeça e ficou muito quieto e calado no seu canto. A reacção de Luciano apanhara-o desprevenido e agora não sabia dizer se o brasileiro não queria falar consigo ou se estava chateado.
Começou a comer em silêncio mas depois sorriu:
– É mesmo a melhor omelete que já comi.
O sorriso de Luciano, entretanto, corrigiu os maus pensamentos de Afonso. Era bonito e sincero, como sempre fora, e o moreno falava consigo naturalmente:
– Ah, obrigado... – embora tranquilo, aquele não parecia ser o Luciano de sempre – Mas não chega aos pés da sua comida... Passei fome quando-- – pigarreou – Digo... Fico feliz que tenha gostado e... – Luciano se levantou, deixando a omelete de lado, e seguiu até um armário, jogando umas balas para o português – Toma seus “rebuçados”.
Afonso apanhou-os e ficou a olhar para eles:
– Os meus--
Aqueles eram os rebuçados que ele sempre tinha espalhados pela Colubris e que por vezes Luciano “roubava” ou escondia. Nem fazia ideia que eles se vendiam no Brasil.
Corou bastante e nesse mesmo momento foi ao bolso pegar numa caixa de Tic Tacs e atirou-lha:
– E aqui tens as tuas “balas”.
Luciano repetiu o gesto de apanhá-las no ar, e piscou ao ver a caixinha de tic-tac pela metade. Ergueu o olhar para Afonso e balançou a embalagem, fazendo barulho.
– É a caixinha que deixei com você?
O português corou um pouco e acenou afirmativamente com a cabeça, envergonhado.
Andava sempre com aquela caixinha no bolso mas só comia algum quando se sentia mesmo muito em baixo ou triste e por isso é que a caixinha só ia a meio ainda.
Ficaram em silêncio por um momento, o único som a ser produzido sendo a respiração de Pongo, que dormia de barriga para cima no meio do carpete da sala. Luciano encarava a caixinha de tic-tac em mãos, e Afonso desviava o olhar para baixo.
Havia tanto a ser perguntado, tanto a ser dito...
Afonso queria saber por quê Luciano fora embora, o abandonara depois de dizer que sempre estaria consigo. Desejava perguntar se o que Michelle lhe dissera era verdade, e se fosse, se ainda valia. Queria dizer que dona Camila, assim como dona Inês e a pequena Luíza, procuraram por ele quando sumira, e que Afonso sabia que Luciano as visitava com frequência ao saber que elas ficavam sozinhas.
Luciano só tinha uma pergunta: se alguma vez Afonso o amara.
O brasileiro abriu a caixinha e comeu um tic-tac, voltando a jogar a caixinha para Afonso. Colocou as mãos nos bolsos e baixou o rosto.
– Quer alguma coisa para beber?
Voltou a abanar com a cabeça.
– Não, obrigado. Não tenho sede mas... A comida está óptima. Está mesmo, não é para dar graxa. – encarou o brasileiro e sorriu timidamente.
O moreno sorriu de canto.
– Obrigado... Bem, se você não se importa, vou beber outra caipirinha... – seu sorriso se alargou – Está muito quente.
– Claro que não me importo, que é isso? – ele riu e levantou-se, pegando no prato que já tinha terminado de comer – Deixa-me ajudar a lavar a louça.
O brasileiro balançou a cabeça:
– Nem vem, você está na minha casa e a louça é minha. – empurrou Afonso para o lado com o quadril, como ele fazia – Vai pra sala e me deixa com os pratos.
O português riu e retribuiu o empurrão, implicando com ele na brincadeira:
– Nem penses, tu não mandas em mim~ Vai fazer a tua caipirinha que eu trato disto.
Luciano também riu, usando um pouco mais de força ao empurrá-lo novamente.
– E nem você em mim, che-fi-nho~ – sorriu. Ah, aquele sim era o sorriso de Luciano – Vamos lá, se quer tanto me ajudar, dê comida para o Pongo antes que ele acorde e coma o sofá outra vez.
O português corou até ás orelhas e reclamou:
– Eu- Eu não sou chefinho! – cutucou-lhe a barriga para fazer cócegas e fugiu dele antes que houvesse hipótese de retaliação.
Viu o saco da comida de Pongo num canto da cozinha e claro que o cão ao ouvir o barulho típico do plástico logo acordou e correu para a cozinha, sentando-se a abanar a cauda em frente a Afonso.
– ...Olá Pongo, vejo que és melhor mandado que o teu dono. – ao ouvir o seu nome, Pongo ladrou – Eu sei que concordas~
O cão ganiu ao ver sua vasilha sendo servida, mas mesmo quando Afonso se afastou, Pongo continuou no mesmo lugar, chorando e olhando para a ração.
– Ele não vai comer nada até você dizer que pode. – Luciano disse entre risos, espremendo os limões.
– Definitivamente é bem melhor mandado que o dono. – disse a brincar e fez festinhas na cabeça de Pongo – Podes ir comer pequenino. – ele levantou-se num salto e quase que derrubou Afonso para chegar à comida.
– Hei! Eu resgatei você das ruas, te alimentei e é assim que me agradece? – ele brincou, estendendo outro copo de caipirinha para Afonso – Bebe isso que eu vou levar você para o hotel...
– Só falta pores-me uma coleira, não? – sorriu de lado e aceitou a caipirinha.
Não queria voltar nem ter de se despedir dele mas... Nem sabia se Luciano o queria ali por isso não tinha coragem para pedir para ficar.
Luciano não queria se despedir de Afonso, ainda mais depois de tanto tempo. Sorriu ao europeu e coçou a nuca, envergonhado.
– Bem... A não ser que você queira ver algum filme... Como antigamente...
Ele levantou o olhar para o encarar e sorriu, corando um pouco:
– S-sim, isso seria óptimo!
Luciano também enrubesceu, e logo apontou para o móvel da televisão.
– Tem uns dvds na gaveta de baixo, escolhe um.
O lusitano levantou-se e foi onde ele apontou, abrindo a gaveta. Sorriu ao ver a versão brasileira dos filmes da Disney e pegou nos 101 Dálmatas:
– Em honra ao Pongo.
Mal ouviu seu nome, o labrador grandão correu até Afonso, a língua de fora, e sentou-se ao lado do europeu como se esperasse alguma coisa.
– Luci? O que ele quer agora?
Ouviu Luciano rir da cozinha, e em seguida o brasileiro colocou alguma coisa no micro-ondas.
– O que todos os cães querem: carinho.
– Só isso? – perguntou divertido e começou a fazer-lhe festinhas no pescoço vendo logo abanar a cauda contente.
Bateu na sua perna e Pongo não hesitou duas vezes em saltar para o seu colo. Era demasiado grande mas Afonso abraçou-o na mesma, como se fosse um peluche... Que lhe lambia a cara.
– Ele é um amor.
O micro-ondas apitou, a Afonso sentiu o característico cheiro de pipoca, sorrindo de leve. Pongo continuava se remexendo em seu abraço, faceiro com aquele novo amigo. E, se tinha uma coisa que o jovem Pongo sabia era quando Luciano gostava de alguém, e acabava por gostar também.
Luciano surgiu pouco tempo depois, com um grande pote de pipocas, e olhou para os dois abraçados sobre seu carpete, rindo:
– Hei! E não sobra nada para mim? Assim eu fico com ciúmes, hein? – ele disse sem pensar, e em seguida corou de leve – Ahn... Pongo, vai pra sua caminha, tá? Afonso, melhor você lavar o rosto... está todo babado.
Pongo pousou a cabeça no ombro de Afonso e ganiu, baixando as orelhas pois não queria sair do mimo do português.
– Aww, deixa-o ficar, ele é um amor. E não precisas de ter cíumes, tenho a certeza que ele continua a gostar mais de ti.
– Eu não estava falando dele. – Luciano disse rapidamente, dando a pipoca para Afonso. Antes, porém, que o europeu pudesse dizer alguma coisa, o telefone tocou, e Luciano correu até ele – Alô? Oi, tio... Arrã... Arrã... 'Tá, eu falo com a Patrícia... Tchau.
Afonso corou ao ouvir o comentário por mais idiota que se sentisse por isso e esperou que Luciano terminasse o telefonema para ver se ele lhe dizia algo mais concreto em relação a isso.
O brasileiro desligou o telefone e voltou para perto de Afonso, sentando-se ao lado dele e começando a arrumar o dvd para rodar o filme.
O português suspirou um pouco mal Luciano se sentou. Ele estava tão perto... Tinha uma vontade enorme de se encostar nele...
O moreno engoliu em seco ao ver Afonso tão quieto e timidamente colocou o braço pelas costas do sofá, ganhando coragem para tentar passá-lo pelos ombros do baixinho.
A situação era um pouco desconfortável, e quando Pongo latiu, Afonso deu um salto e Luciano se afastou, ralhando com o cão.
– Pongo! Que susto! – ele disse e o cão latiu de novo, enciumado e querendo Afonso só para si.
Luciano franziu o cenho e bufou, dando o play e o filme se iniciou.
– O que foi? – Afonso perguntou, encarando o brasileiro, que logo desviou o olhar, envergonhado e sentindo-se idiota.
– N-Não foi nada~
O português deu de ombros e apertou o abraço, fazendo Pongo abanar a cauda novamente, sobretudo quando começou a receber festinhas no pêlo...
Assistiram ao filme num silêncio quase total, apenas rindo em algumas partes engraçadas e quando Pongo saltou do colo de Afonso para latir e uivar em frente a televisão sempre que ouvia o nome do personagem que inspirou o seu.
Os dois riram enquanto o cão lambia a tela da televisão, e Afonso inclinou-se para frente num momento, logo voltando para trás na mesma hora que Luciano esticava o braço esquerdo por ele estar dormente. O inevitável aconteceu: Afonso ficou num meio abraço de Luciano, que o aproximou mais de si sem perceber.
Eles se encararam por um momento, acanhados e ansiosos. Um beijo era esperado por ambos, e a respiração descompassada e as bochechas rubras demonstrava isso. Faltava poucos centímetros para que seus lábios de unissem, porém um barulho alto os assustou e afastou: Pongo, contente com os cães do filme, acabou derrubando a televisão, que caiu no chão e desligou.
– P-Pongo! – o brasileiro empalideceu e se ergueu, indo até o cão abobado e lhe segurando pelos pelos – Ai, agora me lembrei porquê não vejo mais esse filme!
Afonso começou a rir com a situação e Luciano corou, olhando pelo ombro com uma expressão de amuo infantil.
– A-Afonso! Não tem graça!
– Tem sim! Coitadinho dele! – bateu levemente no sofá – Anda cá Pongo.
O cão ladrou e correu para ele, derrubando-o no sofá e saltando para a sua barriga, recomeçando a lamber-lhe a cara, o que fazia o lusitano rir e resmungar ao mesmo tempo.
Sem querer, o laço que prendia o cabelo de Afonso soltou-se e Pongo pegou nele com a boca, abanando a cauda em desafio para ele o recuperar.
Afonso piscou e olhou para o cão, ofegante e rubro.
– P-Pongo... Dá-me isso, amor-- – o europeu tentou pegar seu laço, porém Pongo começou a correr pelo pequeno apartamento, para desespero dos lusófonos.
– Pongo! Pelo amor de deus, o que há de errado com você?! – Luciano disse, divido entre levantar a televisão e pegar seu cachorro endiabrado.
– Luci! Ajuda-me!
– Calma, eu preciso colocar a TV no lugar!
– Pongo, dá-me a fita!
– Pongo, caminha!
– PONGO!
– AI. MEU. DEUS! NÃO DEIXA ELE IR PARA O BANHEIRO-- TIRA ELE DAÍ! NÃO BEBE DA PRIVADA-- PONGO!
Luciano e Afonso correram atrás de Pongo por quase uma hora, aos berros e com a bagunça a segui-los por todos os lados, e apenas quando o brasileiro saltou – literalmente – para cima do cão, Pongo desistiu, arfando de cansaço.
– Eu nunca mais trago o Afonso aqui, menino mau! – o brasileiro resmungou e tirou a fita da boca de Pongo, estendendo para Afonso – Acho melhor você lavar isso antes de usar para prender o cabelo outra vez.
Pongo lambeu Luciano e abanou a cauda satisfeito.
Afonso segurou a ponta da fita e dobrou um pouco o corpo para recuperar a respiração:
– Vou ter mesmo de lavar, obrigado.
Luciano sorriu e saiu de cima de Pongo e olhou para toda a bagunça que o cão fizera: a televisão ainda estava torta, havia livros e papéis pelo chão, o cão estava molhado...
Suspirou.
– Pongo, se eu não te amasse tanto eu deixava você trancado a semana inteira na cozinha.
Pongo ganiu e se encolheu, mas logo Luciano sorriu e o puxou pelos pelos delicadamente.
– Precisa de um banho, amigão. Afonso, você se importa?
– Importar o quê? De lhe dar banho? – pestanejou e disse a brincar – Não deve ser mais díficil que tirar a Bia da banheira, suponho.
Luciano riu.
– Na verdade eu ia perguntar se você se importava de me esperar, mas aceito de bom grado que você dê banho nele... Eu arrumo essa bagunça toda enquanto isso. – sorriu.
O brasileiro se levantou e caminhou até Afonso, tocando timidamente em seus cabelos.
– Eles estão mais compridos... – murmurou, puxando os fios para trás e tirando o cabelo de frente dos olhos de Afonso.
As bochechas do português voltaram a tingir-se de vermelho e depois de encarar o moreno por um momento, olhou para o chão com vergonha mas não impediu nem sequer reclamou com Luciano por lhe mexer no cabelo e riu um pouco:
– Eu... desleixei-me um pouco com ele. Preguiça de ir ao cabeleireiro.
– Eu gosto.
Luciano desfez o sorriso e se afastou, começando a caminhar em direção à terceira porta – seu quarto.
– Você vai querer prender o cabelo, né? – Afonso o ouviu gritar – Acho que tenho alguma coisa aqui, espera um minuto.
– O-Ok! – respondeu-lhe e ajoelhou-se ao lado de Pongo, fazendo-lhe festinhas na barriga para o ver rebolar pela carpete e esticar as patas para o ar.
Luciano retornou com um elástico preto e deu para Afonso.
– É meu, juro que está limpinho.
O europeu se levantou e prendeu o cabelo num rabo-de-cavalo alto, olhando acanhado para o mais jovem.
– Não sabia que prendias o cabelo.
– Prendo enquanto estudo... Às vezes fica quente demais para ter o cabelo na testa.
Afonso pestanejou e iniciou um “pequeno loading” até sorrir e ir até ao brasileiro, segurando-o pelos ombros para perguntar com todo o interesse:
– Estudar? O que estás a estudar?
O moreno piscou e coçou a nuca.
– Ah, é... Eu não disse. – sorriu num pedido de desculpas – Eu estudo música desde o semestre passado... Eu quero ser professor.
– Ahh ainda bem! Fico feliz por ti! – disse com a maior sinceridade do mundo e já que estava tão próximo, não se conseguiu conter e abraçou-o mais uma vez.
Luciano retribuiu o abraço, apertando de leve o menor contra si. Era bom ter Afonso consigo outra vez, ainda mais quando era ele a iniciar os abraços.
Desejava tanto poder abraçá-lo sempre...
– Obrigado. – sorriu e se afastou um pouco para encará-lo, mas ainda com os braços na cintura do português – Ahn... Melhor começarmos a arrumar as coisas... A não ser que você queira passar a noite inteira aqui me ajudando... ou me abandonar, né? – riu.
– Estou de férias, tenho todo o tempo do mundo, não te vou abandonar. – sorriu um pouco e viu que Pongo se aproximava de novo, por isso apertou o abraço – E agora quero dar banho à fera.
Ele riu outra vez, mas demorou para soltar o português.
– Bem, vou deixar você dar “banho à fera”. – sorriu – As coisas do Pongo estão no armário debaixo da pia. Se precisar de ajuda, grita.
– Eu não vou precisar de gritar, ele porta-se bem, não porta? – esfregou o pêlo de Pongo junto ás orelhas e levou-o até à casa de banho.
Como Luciano já esperava, o português estava bem enganado. Mal a banheira ficou cheia, o labrador saltou lá para dentro e fez questão de provocar um pequeno maremoto.
Ao ouvir o barulho de água caindo no chão, Luciano suspirou.
– Não subestime o Pongo... – pegou a coleira dele de trás da porta e foi até o banheiro, prendendo o cão num suporte feito por si – Agora ele se acalma um pouco.
Pongo latiu e sacudiu-se, molhando Afonso junto.
– ...Caozinho parvo que tu és!
E ele abanou a cauda, atirando mais água para todo o lado.
Enquanto Luciano arrumava o apartamento – volta e meia atendendo telefonemas de vizinhos irritados com o barulho que ouviram –, Afonso dava banho em Pongo... e acabava por tomar banho também. O cão gostara demais de si, e sempre que Afonso se aproximava, Pongo lhe lambia o rosto ou o pescoço, e gania quando o português se afastava.
Não é necessário dizer que eles se apaixonaram um pelo outro.
Após o banho, Pongo ficou muito mais tranquilo, e foi razoavelmente fácil para que o europeu lhe secasse o pelo com uma grande e felpuda toalha, e assim que tudo terminou, Pongo lambeu o rosto de Afonso mais uma vez e seguiu para o quarto de Luciano, onde se deitaria aos pés da cama e adormeceria.
Luciano, ao notar o silêncio, deixou os livros onde estavam e foi até o banheiro, suspirando ao ver o piso, e Afonso, molhado.
– Acho que você vai querer tomar um banho, né? – bagunçou os cabelos, cansado – Desculpa por isso... O Pongo amou você, só isso explica toda essa excitação do seu lado.
Afonso acenou com a cabeça e sorriu:
– Não tem mal, ele é um amor. – aproximou-se do brasileiro e esticou o braço, acarinhando-lhe levemente a zona das olheiras que o moreno tinha, passando depois a ajeitar-lhe o cabelo num leve cafuné – Eu vou primeiro limpar a casa de banho e depois trato do meu banho.
O mais jovem sorriu perante o carinho. Sentiu falta de ter os dedos de Afonso percorrendo seus cabelos.
E ele ainda tinha cheiro de flor.
– Se você insiste. – sorriu outra vez – Eu vou pegar uma toalha.
Afonso assentiu e pôs-se a limpar o banheiro. Como estava quente, abriu a janelinha para uma brisa poder entrar, e não demorou muito para que o local estivesse devidamente seco.
Luciano, que havia começado a preparar o jantar, retornou ao banheiro quando viu que Afonso havia terminado a faxina, e estendeu uma toalha fofinha e uma muda de roupas quentes e secas.
– E-eu trouxe algumas roupas minhas... uma bermuda e uma camisa... Desculpa se ficar grande, eu não tenho nada menor.
O lusitano sorriu e pegou na roupa, agradecendo a brincar:
– Não faz mal, eu tenho um irmão gordo que usa roupa ainda maior e quando me empresta fico a nadar nelas.
Luciano riu e retribuiu o cafuné.
– Não diga isso de seu irmão.
– Por que não? Ele é um chato. – mostrou a língua e fechou os olhos, inclinando levemente a cabeça para o carinho.
– Mas se não fosse ele, nós não estaríamos aqui... – Afonso abriu os olhos, porém Luciano se afastou – Preciso ver o jantar antes que queime... – disse e seguiu para a cozinha.
O mais velho suspirou e fechou a porta para ir tomar banho.
Já debaixo da água quentinha ele questionava-se quais seriam os sentimentos do brasileiro em relação a si...
Afonso estava disposto a arriscar mas precisava de um mínimo motivo que fosse para se poder confessar...
Luciano, na cozinha e tentando não deixar o espaguete queimar, pensava o mesmo. Não acreditava que, depois de um ano, voltaria a ver – e tocar – Afonso. Aquilo tudo parecia um sonho do qual ele não queria acordar, mas ele tinha imenso medo de se declarar.
Afonso não estava com Arthur, ele mesmo dissera, mas o que garantia que Afonso o amava? E que a noite de amor que tiveram significou algo para o português?
Suspirou, cansado e triste. Talvez tê-lo encontrado não tivesse sido assim tão bom.
Afonso demorou um pouquinho mais no banho porque era minucioso ao tratar do seu cabelo.
Depois de sair e se secar, vestiu-se, confirmando logo que as roupas de Luciano lhe eram largas... mas surpreendentemente aconchegantes pois tinham o cheirinho do brasileiro.
Prendeu o cabelo outra vez, ainda molhado, e saiu da casa de banho.
– Acho que se me mexer muito vou ficar sem calças. – comentou a brincar quando encontrou o brasileiro na cozinha.
Luciano se virou num susto, e sorriu ao ver Afonso em suas roupas. Não admitiria, mas aquele era um desejo seu.
– Posso emprestar um cinto para você, se quiser.
– Se não der muito trabalho... – riu um pouco e ficou a segurar nas bermudas com uma das mãos para que não caíssem.
O moreno terminou o molho e puxou Afonso pela mão delicadamente, seguindo para o seu quarto.
Pongo nem se mexeu quando a luz foi acesa, e Afonso pode constatar que o brasileiro não gostava de arrumar a cama.
– Eu sei que tenho um cinto-- aqui! – sorriu e emprestou para o português.
– Obrigado. – sorriu e empenhou-se na árdua tarefa de segurar as calças e colocar o cinto ao mesmo tempo – Quando mandaste o Pongo para a caminha, era esta a caminha? – perguntou a brincar.
Luciano sorriu acanhado.
– Na verdade ele dorme comigo.
– Bem, pelo menos não dormes sozinho e ficas com a cama quentinho~
– Só é horrível quando ele começa a roncar ou a me expulsar da cama com as patas. – suspirou – Não foram poucas as vezes em que eu acordei no chão ou tive que ir dormir no sofá. – riu – Somos quase um casal de velhos, sabe?
– Após que és a velhinha que implica. – sorriu de lado e finalmente terminou de colocar o cinto, "É porque ele é um anjinho a dormir. – apontou para Pongo, que estava todo enroscado e nem parecia o mesmo animal energético de antes.
Luciano fez biquinho e colocou as mãos nos bolsos da bermuda.
– Assim você me ofende, chefinho. O reclamão da floricultura era você. – implicou e em seguida emendou – O jantar está pronto... É o mínimo que eu posso oferecer depois de você ter dado banho ao Pongo... Ah! Se quiser, posso lavar suas roupas. – claro que, além da gentileza, aquela era uma desculpa para ver Afonso mais vezes antes do europeu voltar para Portugal.
– Já disse que não sou chefinho, seu parvo. – cruzou os braços e de forma infantil mostrou-lhe a língua – Isso seria óptimo... A tua t-shirt é quase um vestido. – abriu os braços para mostrar isso.
Luciano riu e deu um passo em frente, enlaçando Afonso pela cintura.
– Certo, certo... Vamos jantar?
Ele segurou-o pelos braços, num meio abraço, como se fosse para dançar.
Olhou para cima de forma a pode-lo encarar:
– Estás mais alto...
O brasileiro piscou, mas em seguida suavizou suas expressões. Sua mão percorreu delicada e calmamente a cintura de Afonso por sobre sua camisa, pousando-a sobre a barriga do europeu, ocasionalmente trazendo-o para mais próximo.
– E você mais magro...
A mão de Luciano era quente mesmo por cima do tecido fino da t-shirt e o português sentiu a sua pele arrepiar-se ao lembrar da última vez que o brasileiro lhe fizera aquilo.
Deixou que Luciano o apróximasse e ficou junto dele, encostando a cabeça no peito dele.
– Estou igual.
Afonso ouviu Luciano suspirar, e logo o brasileiro se afastou, para descontentamento de ambos. O moreno nada disse, apenas maneou com a cabeça que o europeu lhe seguisse, e eles foram para a cozinha.
Luciano os serviu de espaguete com molho à bolonhesa, sorrindo outra vez.
– A casa é pequena, como você viu... desculpa não ter uma mesa.
O português decidiu-se a parar de tentar aproximar-se dele, uma vez que o brasileiro sempre se afastava de si.
– Oh, e achas que isso faz alguma diferença? Ate no chão como se for preciso?
O moreno sorriu outra vez, e eles voltaram para a sala. Sentaram lado a lado e começaram a comer e a conversar.
Luciano contou o que havia feito naquele ano que ficaram afastados. Comentou de seus estudos, de como achara Pongo – o coitadinho havia sido abandonado com uma ninhada, mas os demais filhotes foram adotados antes –, e do seu trabalho como professor voluntário numa escola carente.
Afonso não tinha muito a dizer, mas contou as novidades: do casamento entre Bella e Hansen, de como suas sobrinhas estavam lindas e grandes, que a floricultura ia bem...
– Sabe? Me encontrei com o Martin esses dias por aí...
O português pestanejou:
– Com o Martín? Que é feito dele?
Ele deu de ombros.
– A última vez que eu o vi, estava procurando emprego. Pelo que eu soube de uma ex-namorada dele, e sim, ele estava namorando uma menina enquanto estávamos juntos aqui no Brasil, ele foi demitido da Agência em Portugal. Não deu certo no mundo da moda.
– Entendo... Cada um tem o karma que merece, não é verdade? – suspirou e terminou de jantar, pousando o prato vazio sobre o sofá – Obrigado pelo jantar, estava muito bom.
Luciano riu e terminou seu espaguete, sujando a boca de molho.
– Está satisfeito? Quer mais? Tenho refrigerante e suco, quer qual?
– Estou satisfeito e não quero mais nada, obrigado. – sorriu e pegou no guardanapo, limpando-lhe o canto da boca.
O moreno corou de leve. Afonso havia se aproximado inocentemente de si para ver bem o molho em sua boca, uma vez que a lâmpada não alcançava toda a extensão da pequena sala. Ter o europeu tão próximo de si o incitava a diminuir a distância até torná-la nula, finalmente beijando o mais velho.
– Afonso, eu... – uma declaração não era algo fácil de se fazer, e o brasileiro apenas suspirou – Acho melhor eu levar você de volta para o hotel... – deu um meio sorriso – Já anoiteceu e daqui a pouco seu irmão arromba a minha porta insinuando que estou abusando sexualmente de você.
O pequeno português mordeu o lábio inferior, não se querendo afastar dele e querendo beijá-lo novamente... Colocou uma mão na nuca dele e manteve-o perto.
– N-não... Eu quero ficar contigo...
Luciano fechou os olhos, apertando-os bem. Conseguia sentir a respiração quente do europeu próxima de si, e faltavam poucos centímetros para que se beijassem...
Mas ele se afastou.
– Ahn... Sua família deve estar preocupada...
Entendendo que Luciano talvez quisesse mesmo afastar-se de si, o português não voltou a insistir e levantou-se.
– S-Sim...Tens razão...
O brasileiro baixou o rosto, odiando-se por perder aquela rara oportunidade. Entretanto, Luciano não acreditava que os sentimentos de Afonso por si haviam mudado, e acreditava que o português apenas sentira saudades de sua companhia como amigo. Afonso era uma pessoa querida, mas talvez dependente, e magoava os sentimentos do sul-americano ao imaginar que o mais velho só quisesse sua atenção amigável.
Ainda doía não ser correspondido.
– Eu vou pegar as chaves... – murmurou e se levantou, seguindo até seu quarto.
– Okey... – murmurou e foi até à janela, observando a paisagem enquanto esperava pelo moreno.
Afonso entendia que era normal que o brasileiro já não gostasse de si depois de tanto tempo sem se falarem mas mesmo assim...desejava saber em que passo estavam.
Quando Luciano retornou, entretanto, Afonso não teve coragem de lhe questionar os sentimentos, baixando os olhos para não precisar encará-lo.
O moreno lhe ofereceu um casaco, dizendo que a noite estava fresca, mas ele recusou gentilmente.
Saíram em silêncio, caminhando da mesma forma. Luciano imaginava que havia ofendido o europeu, pois sabia que ele não gostava de ser contrariado, e se culpava por isso. Desejava poder revelar seus sentimentos, mas tinha medo de se magoar outra vez.
Ao chegarem ao hotel, Luciano tentou sorrir.
– Foi um prazer revê-lo, Afonso.
Por outro lado, Afonso sorriu timidamente e apesar de ser um sorriso pequeno, não deixava de ser verdadeiro.
Exactamente o mesmo sorriso que tinha na foto que o moreno ainda tinha na carteira.
– Digo o mesmo. Foi uma boa surpresa encontrar-te.
Estavam em frente ao quarto do europeu, mas Afonso ainda não abrira a porta porque ainda desejavam ficar juntos.
– Bem... Um abraço de boa noite, como antigamente?
O português corou um pouco e abriu os braços para que o moreno o viesse abraçar.
O maior abriu um largo e sincero sorriso, não contendo a sua felicidade ao ter seu pedido aceito.
Deu um rápido passo para frente e enlaçou Afonso pela cintura, suspirando contente ao tê-lo perto de si.
Afonso suspirou de contentamento e apertou o abraço, levantando o brasileiro um pouco do chão por uns momentos.
Luciano riu um pouco e, ao se afastarem, ajeitou uma mecha do cabelo de Afonso, aproveitando para acariciar a orelha do menor.
– Então... Tenha bons sonhos, Afonso...
Aquele singelo carinho fazia o português fechar os olhos em contentamento e relaxar um pouco.
– Para ti também...
O moreno se afastou um pouco, podendo encarar Afonso.
– Afonso, eu--
– Onde estavas com o meu irmão?
Luciano deu um salto ao ouvir aquela voz e olhou pelo ombro assustado, apenas relaxando quando António sorriu, mostrando que estava só a brincar.
– Há quanto tempo!
O espanhol nem chegou a responder pois Sofia passou a correr por ele e saltou para o colo do brasileiro:
– TIO LUCI!!
O brasileiro sorriu ao ver sua amiga, abraçando-a apertado.
– Bia, meu deus! – riu – Guria, você está linda! E tão grande... – puxou o cabelo dela para trás, pondo-o atrás da orelha – E eu adorei seu cabelo curto.
A pequena riu e beijou-lhe a testa, perguntando inocentemente aquilo que toda a gente, em especial Afonso, queria saber:
– Por que é que foste embora, tio?
O mais velho piscou, sorrindo acanhado perante a pergunta que não desejava ter de responder. Doía demais.
– Ahn... Bia, o tio prefere não falar sobre isso...
Como sempre curiosa, Sofia insistiu:
– Ah, tio! Diz-me!
Lovina, que havia posto Marisa para dormir, sorriu e tentou fazê-la desistir da pergunta, mas o brasileiro cedeu:
– Meu vovô estava muito doente, Bia, e eu precisava vê-lo.
A pequena pestanejou e encarou-o com uma enorme curiosidade.
– O teu avozinho? E como é que ele está?
O semblante de Luciano chamou a atenção de Lovina, que se intrometeu e disse à filha que deviam ir dormir. Sofia protestou, mas cedeu quando Luciano prometeu visitá-la outra hora.
Novamente a sós, Luciano pareceu ainda mais distante, magoado.
O pequeno lusitano aproximou-se dele e esfregou-lhe o braço carinhosamente.
– Estás bem?
O moreno olhou para Afonso, sorrindo timidamente.
– Só estou cansado... – mentiu – Estudei a noite inteira e tive aula pela manhã. – riu.
– De certeza? Sabes que se precisares de alguma coisa podes contar comigo, ok? – suspirou e resistiu ao impulso de se aproximar mais.
Luciano acenou com a cabeça, e voltou a abraçar o mais velho.
– Obrigado... Tenha uma boa noite, Afonso.
Afonso suspirou e retribuiu de imediato o abraço, fazendo-lhe carinho nas costas lentamente.
– Tu também, Luciano.
O moreno pensou em continuar com o abraço, mas se afastou. Se despediram outra vez e Luciano esperou Afonso entrar no quarto, indo embora em seguida.
O português não fez muito... Mal entrou no quarto caiu na cama e foi dormir, cansado da viagem e das emoções que sentira.
~※~
No quarto ao lado, a italiana cutucou seu esposo, acordando-o:
– Nino? Que achas que vai acontecer com eles agora que se encontraram?
O espanhol abriu um olho e rebolou para o outro lado para a poder encarar.
– Quem? O quê?
– Ora, quem... Afonso e Luciano! Achas que eles vão ficar juntos?
António bocejou e esticou o braço para a abraçar.
– Não sei, por quê?
Ela suspirou, falando baixinho:
– Porquê eu sei que eles se amam.
Ele pestanejou e puxou-a por perto.
– Como tens a certeza disso?
Ela acomodou-se nos braços do esposo, um sorriso singelo e puro delineando o rosto cansado.
– Sabendo... Não notas os olhares, a timidez deles quando juntos... Do sorriso do teu irmão junto do Luci?
O mais velho começou a mexer-lhe distraidamente no cabelo.
– Sim mas... Eu acho que o meu irmão é demasiado... Tímido para fazer alguma coisa.
Lovina riu baixinho, logo girando o tronco para o outro lado para ver suas filhas, que dormiam profunda e calmamente na cama ao lado. Sorriu ao ver isso e voltou a encarar o esposo, beijando-lhe castamente os lábios.
– Então acho que teremos de dar um empurrãozinho a eles, hn?
Ele semicerrou os olhos.
– Um empurrão? Ao meu irmão? Tenho de fazer um teste ao Luciano antes--
– António... Não.
– Mas--
– Não.
Suspirou:
– Mas como saberei se ele fará meu irmão feliz?
Lovina rolou os olhos, encarando o espanhol em seguida. Ela até responderia sarcasticamente, mas estava tão esperançosa e feliz com a ideia de Afonso finalmente encontrar a felicidade que apenas sorriu:
– Ele já faz.
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