O Som Do Coração
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Capítulo XXVI
O português só acordou na manhã seguinte com o sol quente a bater-lhe na cara porque não tinha fechado a cortina.
Por um momento ficou confuso... Sentia o cheirinho de Luciano por perto mas ainda estava demasiado lento para perceber de onde vinha.
Rolou pela cama de casal vazia além de si, abraçando-se num travesseiro e bocejando. Foi com certo estranhamento que notou suas roupas largas, demorando alguns segundos a mais do que o necessário para se lembrar do dia anterior: um cão enorme e peludo, um reencontro (in)esperado... E um lindo e gentil brasileiro a lhe emprestar as roupas.
– R-roupas! – ele exclamou e ajoelhou-se na cama, olhando para baixo ao perceber que ainda estava com as roupas do mais jovem.
Isso explicava o cheiro delicioso de canela, assim como o fato de ter dormido muitíssimo bem. Sorriu abobado, percebendo que apenas isso lhe acalmava e alegrava.
Bateram à porta, e o português a abriu com um sorriso no rosto, mais contente do que anteriormente. Ao ver seu irmão, o sorriso não enfraqueceu, mas ele fingiu bufar.
– Que queres tão cedo?
Antônio franziu o cenho e fez biquinho, chateado com a recepção. Mas, logo percebeu a alegria do mais velho, piscando curiosamente.
– Que foi? Estás tão radiante.
– Estou normal, parvo.
– Não, não estás. – sorriu de lado e cruzou os braços, – Estás como uma miudinha de 13 anos~
Afonso rolou os olhos e deu-lhe uma palmada no braço, tentando ocultar o sorriso que insistia em aparecer, e resmungando com o seu irmão por ele ser idiota.
– Bem... A Lovi mandou avisar que vamos à praia. E que não tens escolha e vais conosco. – mostrou-lhe a língua infantilmente, sendo rapidamente retribuído – Podes ficar debaixo do guarda-sol com a Mari, ela não pode ficar exposta mesmo.
Como ele esperava, Afonso começou a reclamar mais ainda.
Gostava imenso de praia e adorava o mar mas preferia aquelas praias quase vazias durante o Inverno, comuns do lugar onde morava, e sinceramente achava impossível que houvesse uma praia vazia num ponto túristico do Rio.
– Eu não quero ir.
O mais jovem suspirou, esfregando a mão direita na testa. Havia avisado sua esposa de que Afonso recusaria o “convite”, porém enfrentar a ira da italiana era mais perigoso do que o mau humor de seu irmão.
– Afonso... Eu sei que não gostas de lugares cheios, mas estamos contando contigo. – ele foi sincero, não havia um traço de implicância ali – Nós estamos preocupados contigo, hermano, e vimos nessa viagem ganha uma oportunidade de nos aproximarmos outra vez de ti. A Bia e a Mari sentem muito a tua falta, e olha que a Mari só te conheceu mesmo depois... depois que o Luciano foi embora. – olhou para o corredor, já que ouviu a risada alta de Sofia no quarto ao lado – Mas a Bia sente mais... não foram poucas as vezes que ela disse-nos que viria ao Brasil ver o Luciano para levá-lo para ti. – outro suspiro, e um pedido – Por favor... Fica só dez minutinhos com elas. Eu alugo quantos guarda-sóis quiseres.
O português sentiu-se um pouco culpado por isso. Não tinha sido sua intenção magoar Bia mas foi algo que não conseguiu evitar. O português tinha uma certa tendencia a isolar-se quando não estava bem...
Suspirou profundamente:
– Ok... Vou só vestir os calções de banho.
Antônio sorriu largamente, entrando no quarto do irmão para abraçá-lo.
– Obrigado, obrigado! – ele riu e apertou o abraço antes de se afastar – Amo-te, irmão!
Antes que Afonso pudesse dizer algo, o espanhol correu para seu quarto:
– O tio Afonso vai conosco!
E as meninas:
– Ebaa!
O português suspirou novamente mas sorriu um pouco. Adorava a sua família.
Vestiu-se rapidamente, na verdade, deixou ficar a t-shirt de Luciano -pois gostava dela por mais que ficasse como um vestido- e vestiu uns calções de banho.
A família se reuniu no corredor, Sofia ajudando Marisa em seus passos hesitantes. Eles seguiram primeiramente para o café da manhã, que era oferecido pelo hotel. Ninguém questionou Afonso pela roupa larga, mas todos suspeitam.
Após quase uma hora depois de se encontrarem, seguiram para a entrada do hotel, preparados para seguir até a praia.
Qual não foi a surpresa deles – exceto Lovina, que já esperava – ao ver Luciano no hall?
– Ah, bom dia.
– TIO! – Bia foi a correr até ele e como sempre saltou para o seu colo – Vens connosco para a praia? Vens? Por favor, anda!
O brasileiro coçou a nuca e sorriu sem graça, um pouco acanhado de estar junto àquela família outra vez. Sentia-se um completo estranho.
– Desculpa, Bia, mas o tio Luci veio convidar o tio Afonso para um passeio... – ele olhou para o português e corou um pouco ao perceber que ele ainda usava a sua camisa. Fazia-o lembrar de um certo sonho que tivera anos antes. – Você me empresta seu tio?
Diferente do que imaginavam, Sofia não insistiu para que Luciano e Afonso ficassem consigo, e ela sorriu idêntica a mãe quando saltou do colo do moreno.
– Sim! Tio, não vás a praia conosco. Vai passear com o tio Luci!
E Marisa, que concordava sempre com a irmã, disse:
– É!
O português corou visivelmente – e Lovina deu uma cotovelada leve ao seu marido para que ele olhasse também.
Como todos o ficaram a encarar, Afonso encolheu-se um pouco.
– E-Eu vou... Mas Luci, tens de conhecer a Mari de novo, ela está maiorzinha.
O sorriso que Luciano exprimiu fez Afonso corar ainda mais, e o brasileiro aceitou de bom grado conhecer a sobrinha caçula do mais velho.
Marisa não se assemelhava muito à irmã, mas era tão bonita e gentil quanto. Um pouco mais tímida que a primogênita, a criança enrubesceu de leve quando o rapaz desconhecido se aproximou, mas foi só Sofia dizer quem ele era que a pequenina sorriu, pedindo colo:
– 'Iu Lu!
Luciano riu, tendo uma imensa vontade de morder as bochechas robustas e rosadas da menininha, abraçando-a delicadamente.
– Oi, Mari. Você está grandinha, hein?
Ela esticou os bracinhos e puxou-lhe o cabelo:
– Eu sou grande! – ela disse, a frase sendo proferida com vários erros por causa da idade.
Sofia escalou para o colo de Afonso, querendo também atenção. Mal o mais velho a ajeitou no colo ela sorriu:
– Tio, Tio! Posso dizer-te um segredo?
– Acho que sim. – o lusitano pestanejou e deixou que ela murmurasse alguma coisa ao seu ouvido. Depois de a ouvir, suspirou – Não, Bia.
– Mas-–
– Bia, não mesmo... Eu não posso fazer isso.
Ela tinha-lhe pedido para convencer Luciano a voltar para Portugal e Afonso, por mais que gostasse que ele voltasse, não podia fazer isso.
Luciano olhou para Afonso, mas logo desviou o olhar para a italiana:
– Certo, certo. Bia, Mari, vamos à praia antes que o sol fique muito forte. – pegou a caçula no colo e Sofia correu para o pai – Bom passeio aos dos e... – se aproximou do cunhado, lhe sussurrando – Vás trocar de roupa. Não estás apresentável para um encontro.
Afonso corou até as orelhas e resmungou baixinho. A italiana riu-se da reação dele e despediu-se dos dois, apressando-se a ir ter com o marido. O seu sorriso travesso aumentou quando ouviu Afonso dizer ao brasileiro:
– Eu vou só trocar de roupa e já volto...
Luciano acenou para a família que partia e depois se voltou ao europeu mais velho, assentindo com a cabeça. Esperou no hall que Afonso trocasse de roupa, que levou uns vinte minutos. O português estava tão nervoso com seu “encontro” que não sabia qual roupa usar, e levou mais tempo do que o necessário para prender o cabelo no elástico que o brasileiro lhe emprestara na noite anterior – seu laço estava babado, afinal.
Voltou tão ansioso quanto uma adolescente em seu primeiro encontro com o cara mais popular do colégio, e sorriu timidamente quando perguntou para onde iriam.
– Pensei em levar você para conhecer o Pão de Açúcar... M-mas se você não quiser, tudo bem! E-eu vejo outra coisa para fazermos, então...
– O guia turístico és tu. – disse a brincar – Vou para onde me levares... Então... Vamos lá conhecer o Pão de Açúcar.
Verificou se não se tinha esquecido de nada e depois aguardou pelo brasileiro para saber por onde tinham de ir.
O mais jovem riu e deu um passo em frente, baixando o rosto timidamente.
– P-posso te dar um abraço de bom dia?
Desta vez Afonso não abriu os braços nem esperou pelo abraço. Ele mesmo aproximou-se do brasileiro e o abraçou-o:
– Bom dia~
Luciano sorriu encantado, abraçando cuidadosa e amorosamente Afonso, sentindo o cheiro agradável do português perto de si.
Ah, como o amava.
– Bom dia.
Eles se afastaram após um tempo, quando Luciano percebeu os olhares maldosos das outras pessoas. Sorriu ao menor.
– Vamos? Precisamos pegar um ônibus... A não ser que queira caminhar por uma hora. — riu.
– Não me importava, sinceramente. Mas acho melhor ir de autocarro. – disse a brincar e agarrou no pulso do brasileiro – Vamos lá, então~!
Luciano riu e parou de caminhar, puxando Afonso para perto. Claro que o português corou, ainda mais quando o moreno segurou sua mão.
– Certo, baixinho, mas está indo para o lado errado.
Apertou um pouco a mão dele, sempre quentinha e resmungou amuado:
– Eu não sou baixinho!
Luciano riu, puxando o menor para a direção certa, hesitando antes de lhe soltar a mão.
– É menor que eu. – voltou a sorrir, implicando com Afonso.
O português resmungou outra vez, mas o moreno apenas ria, e ambos ficaram a implicar um com o outro até chegarem na parada, onde uma senhora sorriu ao ver Luciano.
– Lulu!
O brasileiro sorriu e a abraçou.
– Oi, vó! – ele se afastou e puxou Afonso pelo pulso – Vó, eu quero te apresentar o Afonso.
A senhora, muito diferente de Luciano – loira e de olhos azuis –, sorriu.
– Esse é o seu namorado?
Luciano corou até as orelhas, e baixou o rosto, acanhado.
– N-não... E-ele é só um amigo...
– Ah... – olhou para Afonso – Que pena...
O português ficou igualmente envergonhado com o comentário e esticou a mão para a cumprimentar:
– P-Prazer em conhecê-la, senhora.
Ela riu, mas não tinha o bom humor de Luciano.
– Senhora não! Me chame de Beatriz, por favor. – sorriu e abraçou o português, não se importando com o acanhamento dele – Lulu, leva o seu amigo para jantar lá em casa dia desses, sim? Ah! Meu ônibus! – riu e embarcou, dando tchauzinhos aos jovens.
Luciano coçou a nuca.
– D-desculpa por isso...
– T-Tudo bem. Ela foi simpática. – comentou, sem saber muito bem o que dizer mal o autocarro onde a senhora ia arrancou – É tua avó paterna ou materna?
Luciano acenou para um ônibus, e eles embarcaram.
– Materna. Não cheguei a conhecer meus avós paternos, eles faleceram antes dos meus pais se conhecerem. – sorriu e pagou as passagens.
– Entendo. – suspirou e fez uma nota mental para pagar os bilhetes da volta – É que ela não tinha nenhuma parecência contigo.
Luciano riu e explicou após se sentarem, Afonso na janela:
– Minha mãe é mestiça de alemã com indígena, e eu mestiço de indígena com negro. Sou mestiço do mestiço. – riu – Claro que minha avó não gostava do meu pai, mas ela não podia falar muito...
Por curiosidade, Afonso perguntou:
– Por que não? Não gostava dele?
Luciano balançou a cabeça:
– Porquê meu pai era negro, e minha avó era muito racista... E homofóbica... – suspirou – Já estamos chegando.
Ele então começou a juntar os factos.
– Então... Quando foste para Portugal com o Martin ela não aprovou ou--? Foste sem ela saber?
Luciano soltou um suspiro, erguendo-se do banco para acionar o sinal de parada. Afonso seguiu-o depressa, ainda mais porque vários outros turistas iam descer ali. Agarrou-se na barra da camisa do brasileiro, que só respondeu a pergunta quando haviam atravessado a rua, e Afonso já podia ver os morros do Pão de Açúcar e seu bondinho.
– Ela nem quis saber. – disse, a tristeza evidente em seu semblante – Eu estava renegado.
– Eu... Não sabia. Lamento imenso...Não queria tocar num assunto desconfortável. – murmurou baixinho, encarando o brasileiro preocupado.
Beatriz tinha sido simpática consigo então ele não entendia o que se passava.
O mais jovem sorriu, abraçando rapidamente Afonso pelos ombros, soltando-o quando chegaram na imensa fila para entrarem.
– Não se preocupa... Já passou. – garantiu e apontou para um dos morros, onde havia pessoas escalando – Está vendo aquelas pessoas? Elas escalam por aqui sempre... Alguns são meus colegas de faculdade.
– Eu tive um caso parecido em casa, na realidade... – O português olhou na direcção em que Luciano apontava – E nós vamos escalar?
Luciano preferiu não perguntar sobre aquilo, pelo menos não naquele momento.
Sorriu perante a pergunta e apertou a ponta do nariz de Afonso, que corou e franziu o cenho.
– Nah, nós vamos pegar o bondinho. Você vai amar a vista!
Afonso tentou morder-lhe a mão mas como não conseguiu, colocou-se em bicos de pés para apertar o nariz dele.
– Ok~
Ambos riram, e Luciano comprou as entradas, ignorando completamente os protestos de Afonso.
Caminharam até o primeiro bondinho, que começou a subir quando encheu.
– Olha... Daquele lado, o Rio, e deste, a praia. – sorriu.
O português teve um pouco de dificuldade em ver porque era demasiado baixo, e como uma criança, dava pequenos saltinhos.
– Que bonito!
Luciano sorriu, se aproximando do menor para não se separarem pelos turistas.
– Temos que pegar outro, mas logo chegaremos...
Afonso acenou com a cabeça e continuou a tentar ver por entre as cabeças dos outros turistas, segurando no braço de Luciano para não se afastar.
Ao perceber que Afonso não conseguia ver bem o trajeto – e ainda dizia não ser baixinho! –, Luciano, da forma mais “educada” que a situação permitia, enfiou-se entre os turistas, puxando o português delicadamente pela mão, e conseguiu chegar até a janela, pondo Afonso à sua frente e ficando atrás do europeu. Como havia muitos passageiros no bondinho, Luciano teve de se acomodar ali, pousando as mãos no corrimão em frente ao corpo de Afonso, dando-lhe um quase abraço.
– Pronto, agora você consegue ver bem?
Ele corou ao sentir o mais novo assim tão perto de si. Mas a presença de Luciano fazia-lhe bem e quando deu por si já tinha relaxado no semi-abraço e se encostado levemente ao peito dele.
– Já...
Infelizmente a viagem de bondinho era rápida, e logo eles tiveram que seguir para outra fila e embarcar no segundo bondinho. Enquanto conversavam, Luciano foi mostrando os pontos que conhecia bem, explicando a história de cada um deles.
Afonso jamais vira urbanização e natureza tão bem equilibradas num único cenário, e ele estava fascinado. Era belíssimo!
Chegaram, enfim, ao topo do Pão de Açúcar, e Luciano sorriu ao ver a satisfação nos olhos de Afonso.
– Luci! É tudo tão lindo! – o português exclamou, ignorando o sol forte e o calor infernal.
Ele podia ver o mar, os barcos e até mesmo o aeroporto ali perto, tendo a sorte de ver um avião pousando. Aquele lugar era lindo e, embora diferente de Portugal, ele se sentiu em casa.
– Lindo demais... – murmurou, um sorriso de pura satisfação delineando os lábios finos e rosados.
Luciano não prestava atenção na vista. Já a conhecia de cor, e desejava olhar apenas para Afonso. Vê-lo tão leve, sereno e empolgado fez seu coração bater mais forte, contente por proporcionar alegria ao mais velho.
Não pensando em seus atos, e nem numa possível rejeição, o brasileiro enlaçou Afonso pela cintura ao pôr-se ao lado dele, e beijou delicadamente a bochecha direita do europeu. Claro que, ao perceber o que fizera, ele se afastou bruscamente, acanhado e corado.
– Ahn... e-eu vou comprar uma água de coco, tá? J-já volto.
O lusitano virou o rosto, sem entender de onde viera aquele beijo, e ficou igualmente corado.
– O-ok!
Era quase tão... natural e correcto estar junto do brasileiro que Afonso tinha de se lembrar constantemente que não estavam juntos nem tinham nenhum tipo de relacionamento. Apenas um passado complicado que ainda não estava bem resolvido.
Afonso queria deixar a limpo o que tinha acontecido, mas, ao mesmo tempo, preferia evitar esse assunto e poder fingir que estava tudo bem...
O brasileiro mais que depressa se afastou, indo até a tenda mais próxima para comprar os cocos. Coçou a nuca enquanto aguardava ser atendido, ralhando consigo mesmo em pensamentos.
Como pudera não resistir? E se estragasse tudo como da última vez? Afonso não o amava, não havia motivos para se humilhar, e aquilo só lhe causaria dor...
Entretanto, Luciano não queria se afastar do europeu, e desejava aproveitar as últimas horas que restavam para ficar com ele. Ao menos como amigo.
Voltou até onde Afonso estava e lhe entregou um coco.
– Aqui está.
O português pegou na bebida e agradeceu, avisando-o de imediato:
– Eu pago o almoço, ok? Já chega de pagares as minhas coisas.
Luciano mostrou-lhe a língua e encostou-se a um muro, logo sendo imitado pelo europeu, que ficou a observar a vista.
Como sempre, estava quente no Rio de Janeiro, e logo se tornou insuportável ficar no sol. Percebendo que a camisa de Afonso, assim como a sua, colava nas costas por causa do suor, Luciano bagunçou os cabelos e tomou a mão do menor.
– Vem... Tem uma loja aqui que tem ar-condicionado. Vamos sair do calor.
– Vamos lá. – para não o deixar escapar outra vez, Afonso entrelaçou os seus dedos nos do moreno e apressou-se a acompanhá-lo.
Chegaram na loja, suspirando ao sentirem o ar gelado entrando em contato com o corpo quente. Como tudo no Rio, a loja estava lotada, mas conseguiam aproveitar o frescor ali oferecido.
– Aqui é a loja de lembranças... – disse e depois colou a boca na orelha de Afonso, sussurrando – Aqui é tudo caro. Se quiser algo, depois procuramos em outro lugar por menos da metade do preço, ok?
Involuntariamente, Afonso arrepiou-se.
Os lábios carnudos de Luciano assim perto da sua orelha... Mordeu o lábio inferior e suspirou:
– Ok...
Luciano sorriu, o que aumentou o embaraço de Afonso. O brasileiro resistiu a vontade de morder o lóbulo do mais velho e se afastou, começando a caminhar pela loja.
– Até parece que são o nosso animal nacional. – disse ao pegar num tucano de pelúcia. Havia vários tucanos, de madeira, pelúcia ou pedra para venda. – Mas são fofos.
Afonso riu:
– São uns amores. Mas acho-te mais parecido com uma onça do que com um tucano.
Luciano ergueu o olhar para Afonso, um sorriso sacana sendo dirigido ao mais velho.
– Uma onça? Eu dizia sobre o meu país, não sobre mim. – ele riu – Mas sou assim tão ágil? – piscou-lhe o olho, provocando-o.
Afonso levantou uma sobrancelha – apesar de ter corado – e sorriu de lado:
– Não exactamente. Referia-me mais ao facto de seres como um gato gigante que passa a vida a ronronar e tem as patas grandes. – levantou a mão, ainda entrelaçada na sua, para provar isso – Ou talvez um piriquito, por estares sempre a cantar.
Luciano devolveu o sorriso, apertando a mão macia e pequena de Afonso antes de baixá-las.
– E você parece um gatinho assustado... Mas é tão manhoso quanto diz que sou.
Luciano pode observar as bochechas do menor ficarem cada vez mais vermelhas.
– S-Sou nada!
O moreno deu de ombros e soltou a mão de Afonso quando alguns turistas chegaram mais perto. Estranhando o comportamento de Luciano, Afonso voltou sua atenção para os tucanos de pelúcia, sorrindo como um bobo. Oh, eram tão fofos!
Ficaram por quase meia-hora ali, mas logo estavam cansados de verem a mesma coisa sempre, e o corpo úmido de suor começava a ficar frio. Luciano foi o primeiro a reclamar e ambos resolveram almoçar.
A volta foi mais demorada do que a ida, porque muitas famílias resolveram ter a mesma ideia que os dois. O português percebeu que o Luciano risonho havia ido embora outra vez, embora ele continuasse gentil e amoroso. O brasileiro por quem se apaixonara.
Almoçaram num restaurante perto da praia, e entre alguns copos de cerveja, o ânimo do mais jovem retornou aos poucos. O sorriso dele era o de sempre, sedutor e inocente. Contraditório.
E aquilo apenas confundia ainda mais a mente e o coração do pequeno europeu.
Pelo fim da tarde, resolveram caminhar pela praia, e poucas pessoas continuavam na areia, a maioria jogando vôlei. O mar era agitado, mas não menos bonito, e ambos andavam lado a lado, nem muito próximos e nem muito afastados. Com sorte, Afonso sentia sua mão roçar na de Luciano, mas tinha medo de segurá-la outra vez.
– Uma vez você me disse que gosta do mar. – Luciano disse de repente, e Afonso olhou para si.
O moreno sorria e parecia sereno, mas o português franziu o cenho ao notar algo de diferente em seu semblante.
– Luci?
Foi mais rápido do que conseguira acompanhar: Luciano meteu as mãos nos bolsos da calça de Afonso, jogou a carteira dele na areia, tirou seus sapatos e pegou Afonso no colo. O português se debateu, mas não conseguiu evitar que Luciano o carregasse até o mar, mergulhando-os enquanto continuavam abraçados.
O mar não estava frio, não quando comparado ao da sua terra, mas, mesmo assim, a diferença de temperatura fê-lo apertar mais o brasileiro, abraçando-o pelo pescoço. Mal Luciano se levantou, a água ficando quase a meio do peito, Afonso resmungou:
– Luciano da Silva, és um homem-morto.
Apesar de reclamar, Luciano sabia que ele não estava a falar a sério pois o sorriso o denunciava que não se importava nada de ficar ali.
– Quando você conseguir alcançar meus cabelos sem ficar na ponta dos pés, eu começo a ficar com medo de você. – ele implicou, soltando o tronco do europeu para que pudessem nadar livremente – Não se afaste muito, a correnteza aqui é forte.
– Sim mãe. Eu vou ter cuidado. – disse ironicamente e saltou para as costas dele, despenteando-o – Assim já te chego ao cabelo.
Luciano riu e mergulhou, fazendo Afonso soltá-lo para não o afogar. Em seguida, nadou até o europeu e o pegou no colo ao enlaçá-lo pela cintura.
– Isso é roubo, não vale.
O português corou outra vez, mas não se afastou ou reclamou de ser pegado ao colo. Afinal, gostava da proximidade com o brasileiro.
– Vale sim. – como ficava um pouco mais alto, tornou a despenteá-lo – Chego aqui também.
– Claro, com a minha ajuda. – ele implicou e fez Afonso se lembrar de cada vez que o ajudara por o mais velho ser muito baixinho. Aquilo rendeu meia hora de implicância mútua, e logo o sol começou a se pôr.
Por mais que quisessem continuar na água – Afinal, Luciano não o obrigara a tirar a camisa e permanecera com a sua; ver o brasileiro sem roupa era a última coisa que Afonso desejava –, estava anoitecendo e não era muito seguro deixar as carteiras, celulares e os sapatos na areia – isso se já não tivessem sido roubados. Saíram da água aos risos, Luciano tentando fazer cócegas em Afonso e o português a fingir irritação. Era bom poderem ser tão espontâneos e íntimos um do outro, e eles ficaram com um gostinho de que, se namorassem, seriam assim sempre.
– Luci, chega! – o português riu assim que pousou os pés na areia, mas como uma onda quebrara no mesmo instante, Luciano não o ouviu.
O brasileiro tentou puxar Afonso para si ao agarrar-lhe o pulso, porém o mais velho perdeu o equilíbrio ao sair da areia dura para a fofa e pendeu para frente. Por estarem cansados da natação e ainda estarem se acostumando com a diferença de peso que tinham em terra, Luciano acabou tropeçando, e ambos caíram na areia fofa e quente, Afonso por debaixo de Luciano, e o moreno entre suas pernas.
Inicialmente, Afonso não percebera o que tinha acontecido. Num momento, Luciano estava em ali perto e no outro estava em cima de si.
A situação só começou a fazer sentido quando, após ficar a encarar Luciano por imenso tempo, ele reparou que o moreno começou a corar bastante.
– V-Você está bem?
Os olhos de Luciano eram mais escuros – e mais bonitos – do que Afonso lembrava. Ter o corpo do moreno tão próximo de si, o calor agradável e a umidade trocada, mexia com o menor, e logo Afonso sentiu-se despertando certa região.
– S-sim... – ele murmurou, percebendo que estavam ainda mais próximos do que imaginava ao sentir a ponta do nariz de Luciano na sua.
Faltava milímetros...
O moreno piscou, sentindo todo o seu corpo estremecer ao sentir o do português junto do seu. Visto daquele ângulo, ele era muito mais excitante.
– Afonso... – Luciano baixou o rosto um pouco, chamando o mais velho baixinho, a mão esquerda apertando de leve a coxa direita dele, as respirações mescladas. Afonso chegou a fechar os olhos, mas logo o tom de voz de Luciano mudou, e o brasileiro olhava para a direita enquanto rosnava entredentes – Pega as nossas coisas e vai para a calçada. E não olha para trás.
O português não o entendeu.
– L-Luci?
– Vai!
O mais depressa que pôde, Afonso levantou-o e fez o que o mais novo lhe mandara. Queria muito olhar para trás e ver o que se passava mas preferiu obedecer à ordem.
Luciano permaneceu na areia por um tempo, os olhos fixos e irritadiços no grupo de adolescentes que os encaravam com malícia, maldade.
Esperou até que eles se afastassem, e seguiu apressado até Afonso, pegando-o pelo braço esquerdo.
– L-Luci?
O moreno nada disse, apenas fechou a mão em torno do braço de Afonso, apertando os lábios numa linha fina.
Apenas quando se afastaram significativamente da praia, escondidos ao lado de um prédio, que Luciano soltou um suspiro, puxando Afonso para um abraço apertado e trêmulo. Ele estava apavorado.
– Desculpa, desculpa! – houve um sutil aperto no abraço, e o moreno beijou a testa de Afonso – Eu fiquei com tanto medo que eles fizessem algum mal para você! Eu morreria! Morreria! Desculpa, desculpa...
Afonso ficou de imediato preocupado pois ainda estava confuso. Mesmo assim, abraçou o brasileiro e acarinhou-lhe as costas devagar.
– Luci... Tem calma, o que é aconteceu? Não entendi nada...
Luciano tremeu um pouco, e não conseguiu soltar Afonso.
– Aqueles adolescentes babacas estavam nos olhando com tanto nojo e maldade... Aqui acontece muito desses idiotas espancarem e até matarem por preconceito... – baixou o rosto, trêmulo – Eu não podia arriscar que machucassem você!
Afonso suspirou e segurou a nuca do mais novo, fazendo-o esconder-se no seu ombro e iniciando um leve cafuné.
– Tem calma... Já passou e nós estamos os dois bem... Shh... – beijou-lhe a cabeça e apertou o abraço – Calma...
O moreno relaxou um pouco, e o suspiro dele em seu pescoço fez Afonso se arrepiar. Era uma área sensível, afinal.
Luciano se afastou aos poucos quando já estava escuro, e respirou profundamente.
– Vem... Vamos voltar para o hotel. Precisamos de um bom banho. – sorriu.
O português abanou afirmativamente com a cabeça pois agora que a sua roupa tinha secado a areia que estava colada começava a desprender.
Sacudiu o seu cabelo.
– Vamos... Tenho um deserto na cabeça.
O brasileiro tentou rir, mas não conseguiu.
Não voltaram a dar as mãos, e seguiram até o hotel em silêncio. A areia comichava, o tecido das roupas fazendo o sal do mar roçar sobre a pele irritava, mas o mergulho com Luciano havia despertado mais dúvidas em Afonso: eram mesmo só amigos? E, se não fossem aqueles meninos, Luciano o teria beijado?
– Está entregue. – o moreno sorriu, parado em frente a porta do quarto de Afonso – Desculpe qualquer coisa...
– J-Já vais embora? – perguntou baixinho e mordeu o lábio inferior – Podes tomar banho cá, tenho a tua roupa aí...
Luciano balançou a cabeça.
– Desculpa, mas o Pongo ficou o dia inteiro sozinho.. E se eu não passear com ele, ele come o sofá. – riu e coçou a nuca, acanhado – Mas... Você aceita jantar comigo? Eu peço para a Patrícia ficar com ele hoje...
O português não fazia a mais pequena ideia de quem era Patrícia mas a ideia de poder jantar com o brasileiro...
– A-Aceito...
O sorriso que o mais jovem lhe lançou fez Afonso também sorrir.
– Então... Eu pego você às oito, pode ser?
– Pode. Mas com uma condição. – sorriu de lado e cruzou os braços, deixando o moreno curioso.
– Qual condição?
– Sou eu que pago e ponto final.
– Mas o convite é meu! Não é justo você pagar.
Afonso lhe mostrou a língua.
– Então não vou. – claro que era mentira. Afonso estava ansioso para ver Luciano novamente. Ele só queria retribuir o favor.
Suspirando, o moreno cedeu.
– Tá. Então, até as oito. – sorriu e deu um beijo na bochecha do menor antes de ir embora.
Um pouco mais nervoso agora que tinha expectativas de ver Luciano outra vez, Afonso foi tomar um banho rápido, demorando-se apenas por causa do seu cabelo.
Depois de se vestir e ficar pronto, telefonou a António para o avisar que não jantaria com eles e como seria de esperar, o seu irmão implicou com ele.
Em cinco minutos, Antônio estava em seu quarto, resmungando sobre Afonso não estar com a família.
– Antônio... Eu quero ficar junto do Luci antes de voltarmos amanhã. – disse baixinho, acanhado. Era a sua última noite ali, e queria aproveitar ao máximo a companhia de Luciano.
O mais jovem suspirou, sorrindo em seguida.
– Realmente amas o Luci, hn?
– Eu--
– Escusas de me mentir. Já estás todo vermelho.
Afonso tapou as bochechas e resmungou:
– Não estou.
O mais novo sorriu de lado.
– Já disse, não te adianta mentir.
O menor corou ainda mais e baixou o olhar.
– S-se tens tanta certeza, não te preciso responder.
Antônio riu e abraçou o irmão, contente por ele finalmente ter sido sincero com seus sentimentos.
No mesmo instante, bateram na porta, e foi o espanhol quem atendeu. Ao ver Luciano, que corou ao ser recebido pelo espanhol e escondeu uma sacola, Antônio fingiu não saber de nada, e disse:
– Voltem antes das dez. Temos muita coisa a fazer amanhã.
O brasileiro intimidou-se pela forma como o mais velho tinha falado – por mais que fosse a brincar e que António estivesse só a divertir-se com a desgraça alheia.
– S-Sim, senhor!
– Óptimo. Irmãozinho, estás dispensado.
Afonso apareceu e passou para o lado de Luciano, muito apressado, sem saber como o cumprimentar e encarou o irmão:
– Eu sou mais velho. Eu mando em ti e não o contrário.
– Mas és demasiado ingênuo. E já tenho duas filhas, sou mais maduro que tu~ – implicou, recebendo uma língua de fora do irmão – Vês? – riu e Afonso bufou, puxando Luciano pela mão.
Apenas quando já estavam na rua é que o português começou a resmungar, e Luciano riu, forçando-o a parar de caminhar ao puxá-lo para perto de si.
– Calma, ele só se preocupa com você. – sorriu.
Não se opôs ao “puxão” e deixou-se ficar perto dele, resmungando meio a brincar:
– Eu é que me devia preocupar. Se não fosse a Lovina aquele parvo nem sabia tomar conta de si e... É o meu irmão mais novo, a responsabilidade de tomar conta da criança em ponto grande é minha.
Luciano riu outra vez, não tendo medo de beijar a bochecha de Afonso novamente.
– Isso é fofo. Mas... Vamos jantar? Estou faminto.
O português resmungou em contradição ao “fofo” e esticou-se por um momento para retribuir o beijo.
– Vamos lá Sr. Esfomeado.
O moreno corou um pouco, se lembrando de todas as vezes em que desejara que Afonso errasse sua bochecha e o beijasse na boca.
– Hn... Tem uma pizzaria muito boa aqui perto, pode ser?
– És o meu guia turistíco, vou onde me levares. – sorriu e começou a caminhar – É por este lado?
Sorriu e balançou a cabeça.
– Sim, é por esse lado. – disse.
Não demoraram a chegar na pizzaria, e Afonso percebeu que Luciano era bem conhecido por lá, uma vez que sabia o nome de todos os trabalhadores dali.
Após pedirem os sabores de pizza, Luciano deu a sacola para Afonso.
– Eu te comprei um presente...
O português pegou timidamente no saco:
– Um presente? N-Não precisavas de gastar dinheiro comigo...
Abriu-a e espreitou para ver o que tinha dentro.
De dentro do embrulho, Afonso puxou um fofo tucano de pelúcia, ainda mais bonito que os que vira na loja do Pão de Açúcar.
– É para você não se esquecer de hoje. – e dele, mas Luciano não conseguiu dizer isso.
O português abraçou o peluche e corou.
– Ele é fofo, obrigado! Não vou esquecer nunca.
Luciano sorriu, e em seguida a pizza foi servida.
– Espera, deixa eu servir você... – pegou um pedaço de pizza e serviu o mais velho – Eu achei que você tinha gostado dos tucanos, porque segurou um por um bom tempo...
Agradeceu e encarou-o confuso:
– Segurei?
Voltou a guardar o tucano dentro do saquinho para que não se sujasse.
Piscou.
– Não gostou? Posso trocar por alguma outra coisa, se quiser!
– Não! Eu gostei! – sorriu – Só não quero que fique sujo com pizza!
Sorriu, suspirando aliviado. Ficou contente por Afonso gostar do presente.
Jantaram calmamente, conversando sobre trivialidades – e, embora não dissesse, Afonso ficou aliviado ao saber que Patrícia era a prima de 16 anos do brasileiro –, mas nunca falando do passado deles. Havia medo ali.
Após o jantar, resolveram caminhar pela praia, e o cheiro do mar alegrava o português. Por causa da iluminação, pouco se via as estrelas, mas a lua estava linda.
Sentaram-se na areia, de frente para o mar, em silêncio, até Luciano arriscar perguntar:
– Afonso? O que causou as cicatrizes nas suas costas?
A pergunta, assim do nada, deixou o lusitano surpreso. Encarou Luciano por um momento, este não olhando para si porque observava o mar, e logo olhou em frente novamente.
Confiava em Luciano e o moreno já as tinha visto... Não havia nada a esconder por mais que o passado magoasse.
– Também tenho algumas no peito e a do olho... Foi tudo um acidente com uma mesa de vidro...
– Um acidente?
– Sim... O meu pai... – suspirou profundamente e dobrou as pernas, pousando o queixo no joelho – Ele tinha problemas com a bebida e por vezes tornava-se violento. Nunca chegou a bater directamente em mim ou no António mas houve uma noite em que eu pensei que ele ia fazer alguma coisa ao meu irmão porque ele levantou a voz e a mão e... – esfregou a nuca – Meti-me à frente e acabamos por cair os dois numa mesa de vidro antiga que partiu e bem... Eis as cicatrizes.
Luciano mordeu o lábio inferior, resistindo a vontade de abraçar o português. Ainda não sabia por que o pai do português o tratava daquela forma, mas já bastava de reviver o passado triste dele.
– Meu avô morreu. – Afonso piscou, encarando o mais jovem – Ele estava com câncer e eu nem sabia...
– C-como... o que aconteceu?
Luciano suspirou e coçou a nuca.
– Como eu disse, minha avó era muito preconceituosa e homofóbica... Quando descobriu minha sexualidade, as coisas ficaram complicadas. Ela me renegou como neto e meu avô lutou muito para que ela me aceitasse de volta na casa deles, onde morei desde que minha mãe faleceu... – outro suspiro – Quando ele me ligou naquele dia, foi para me pedir para voltar, porque estava morrendo... Apenas meu tio conseguiu falar comigo, mas só descobri o que estava acontecendo depois... Depois que nos despedimos... – Afonso escutou tudo em silêncio – Ele morreu assim que minha avó me abraçou, me aceitando de volta.
Afonso não resistiu à vontade de o abraçar. Inclinou-se um pouco para o lado e encostou-se nele, dando-lhe um meio abraço.
– Eu lamento imenso...
Luciano sorriu um pouco, se encolhendo.
– Para ganhar minha avó, perdi meu avô... A vida não é justa, hn?
O lusitano arrastou-se para trás de Luciano e abraçou-o pelas costas, deixando-o entre as suas pernas e pousando o queixo no ombro dele.
– Não é mesmo...
O brasileiro relaxou um pouco, mas falar daquilo ainda doía. Sempre amou o avô, e sua única recordação era o violão que ele lhe dera.
Afonso, então, suspirou, e começou a cantar baixinho:
“Tu estás livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos”
Luciano olhou pelo ombro e sentiu o abraço ser um pouco mais apertado, o que o fez relaxar e encostar-se no português que continuava a cantar.
“Tu estás só e eu mais só estou
Que tu tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta...”
Luciano prestou atenção na letra, e seu coração começou a palpitar. Aquela música falava de amor... E o moreno podia jurar que falava sobre eles.
Ao término, o moreno, sempre olhando para o mar, questionou:
– Afonso... Alguma vez você me amou?
Antes, entretanto, que Afonso pudesse responder, o brasileiro se ergueu, nunca o encarando.
– Já passou das dez... Preciso levar você para o hotel.
– Mas a pergunta--
– Esquece. – pediu, já começando a caminhar. Não queria saber a resposta.
O baixinho não se levantou de imediato porque pensou que Luciano ia voltar atrás... Mas não voltou.
A pergunta fez o seu coração ficar aos saltos, mas rapidamente ele sentiu-se desolado quando o brasileiro o ignorou.
Suspirou e foi em silêncio atrás dele.
Seguiram em silêncio até o hotel, Afonso caminhando um pouco mais atrás de Luciano. O medo se instalara novamente, e doía.
Ao chegarem no hotel, Antônio veio preocupado. Já era quase onze horas.
– Onde estavam? O que fez com o meu irmão?
– D-desculpa! Perdemos a noção do tempo!
Afonso deu um murro leve no ombro dele.
– Não fez nada, deixa de ser parvo.
O mais novo fez beicinho:
– Mas eu estava preocupado!
Luciano só faltou fazer uma vênia, porque se desculpou milhares de vezes, explicando todo o caminho que fizeram, omitindo a conversa na praia.
Antônio riu e balançou a cabeça, dando tapinhas no ombro esquerdo do mais jovem.
– Tudo bem, Luciano... Bem, agora que entregaste o meu irmão, podes ir embora. Eu vou dormir, boa noite. – se despediu e foi para o seu quarto.
Luciano suspirou e coçou a nuca.
– Bem... Até uma próxima, então...
– Até à próxima... – murmurou baixo e olhou para baixo. Não se queria despedir dele... Mas faltava-lhe coragem para poder ser sincero com os seus sentimentos. – A-Alguma vez vais voltar a Portugal?
Luciano piscou antes de também desviar o olhar para baixo.
– Só fui para Portugal por causa do Martin... – a segunda parte foi uma meia verdade: – Não há nada para mim lá...
O coração do português deu um pequeno aperto mas ele levantou o olhar para o conseguir encarar e verificar se ele estava a falar a sério.
As dúvidas que tinha em relação aos sentimentos de Lucano eram cada vez maiores mas à medida que o tempo passava era como se tivesse cada vez menos a perder.
Afinal, se Luciano nunca mais regressasse a Portugal pouco mais falariam depois disso.
Ganhou coragem e respirou fundo, segurando levemente o braço dele:
– L-Luci...?
Luciano estava tremendo. Ele estava quase se declarando ao mais velho, mas tinha medo. As pessoas ficam ridículas quando apaixonadas, e ainda mais quando com medo.
– V-vamos... Nos falar, hn? Por e-mail...
O baixinho acenou com a cabeça e apertou um pouco o braço.
– Luci... Eu... – respirou fundo outra vez e falou rápido de seguida – Ouve, sei que agora é capaz de ser tarde demais e talvez até deixe tudo estranho entre nós mas... Eu-- Eu apaixonei-me por ti, Luci. Há m-muito tempo na verdade... – mordeu o lábio inferior e desviou o olhar para o chão.
Luciano piscou, encarando Afonso, as bochechas rosadas. Ele não conseguia acreditar...
– C-como?
O europeu encarou o mais jovem, ainda com medo.
– Eu amo-te... Q-quando dormimos juntos, significou para mim... Eu já te amava, Luci...
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