O Som Do Coração
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Capítulo XXIV
Fevereiro enfim havia chegado, e o frio continuava intenso.
Afonso lia tranquilamente em sua sala naquela manhã de domingo, tendo em mãos um dos livros que Luciano lhe dera no Natal de 2011. Não tinha notícias do brasileiro desde o início do ano anterior, mas o português não deixava de pensar o mais jovem. Um exemplo disso era que a caixinha de tic-tac estava intacta, sempre consigo.
A campainha soou, e Afonso arrastou-se até ela. Imaginava que era Francis a convidar-lhe para jantarem, e já pensava em como dizer “não” sem ser rude a seu melhor amigo.
– Hermano! – Antônio abraçou-o mal a porta foi aberta, e Afonso piscou ao ver a família inteira ali.
– Q-que se passa?
Lovina carregava a pequena Marisa no colo, a caçula já grandinha e robusta. Sofia, que havia cortado os longos cabelos, abraçou o tio pelas pernas mal entraram em casa.
– Hermano! Nem sabes! – o espanhol sorriu, segurando o mais velho pelos ombros – Ganhamos uma viajem, Afonso!!
– U-Uma viagem? – continuou a encará-lo sem entender e o espanhol abanou-o pelos ombros, demasiado feliz para se conter.
– Sim! O meu chefe ofereceu-nos viagens!
Afonso segurou-lhe os braços para ele parar quieto e fez cafuné em Sofia.
– Viagem onde?
– Para o Brasil, tio! – Sofia disse alegremente – E tu vais conosco!
Afonso pegou nela ao colo.
– Obrigado pelo convite mas--
– Tio... Não vais dizer que “não” outra vez, pois não?
A pequena não entendia porque é que ultimamente o seu tio tinha voltado a ser como antes e quase não saia de casa.
– Bia... Eu não posso deixar a Colubris.
Lovina, passando a curiosa Marisa para o colo de Antônio, colocou as mãos na cintura e bufou, os olhos verdes demonstrando aquele brilho irritadiço que conheciam.
– Afonso Luís Barros Moreira. – Antônio e as meninas riram, uma vez que a italiana só dizia o nome completo de alguém quando não estava com o melhor dos humores – Nós ganhamos uma viagem em família. As meninas não contam no pacote por terem menos de sete anos, e tu vais conosco porque és da nossa família! – deu um passo em frente e depois suspirou, o abraçando pelo pescoço. Andava tão preocupada com ele... – Vá lá, Afonso... Essa viagem não será a mesma coisa sem ti.
– M-mas a Co--
– Dane-se! – as crianças riram e Lovina franziu o cenho, deixando claro que elas nunca poderiam repetir aquilo – Precisas de férias, Afonso! E será só uma semana, não é como se tivesses muitos clientes!
– M-Mesmo assim. Eu não posso fechar a Colubris nem tirar férias e--
– A-fon-so, não é um pedido. – ela sorriu maliciosamente – É uma ordem.
Afonso piscou e em seguida suspirou. A ideia de ir para o Brasil, o país de Luciano, não trazia muitos pensamentos positivos a si, mas ele acabou cedendo.
– Quando é a viagem?
Bia deu um gritinho de felicidade e a sua mãe sorriu triunfante:
– Para a semana, cunhadinho~
Afonso suspirou, e Antônio o abraçou pelos ombros, Marisa querendo ir para o colo do tio depressivo.
– Vamos viajar essa sexta-feira, Afonso. E voltamos segunda-feira pela manhã. Não vais ficar tanto tempo assim com a floricultura fechada. – sorriu.
– É! E vais dormir comigo! – Sofia disse, o cabelo curto sendo afagado pela mãe.
– Não, querida, o Afonso vai ter um quarto só para ele. Mas se quiseres dormir com ele, tudo bem.
– Posso, tio? Posso? – perguntou, fazendo olhinhos de cãozinho abandonado.
Afonso pegou em Marisa, aconchegando-a no seu colo e sorriu a mais velha:
– Claro, sabes bem que sim.
– Eba! – ela sorriu e começou a correr pela sala, alegre.
Marisa, quer adorava copiar a irmã, disse “báá” e bateu as palminhas, rindo enquanto a mais velha voltava e tirava a caçula do colo do tio, levando-a para perto da televisão.
– Olha, Mari, é aqui que o tio guarda nossos filmes. – ela começou a explicar, e já sabendo ligar o DVD, colocou um filme.
Lovina, sorrindo perante a esperteza das filhas, se aproximou do cunhado.
– Então? Queres almoçar o que?
– Vocês e essa mania de se convidarem para comer cá... – Afonso riu, porém Lovina ignorou.
– Tás quieto que serei eu a cozinhar, parvo.
Afonso sorriu e abanou com a cabeça:
– Nem pensar! Na minha cozinha só eu posso cozinhar. Por isso--
– Já sei, já sei. – o seu irmão mais novo sorriu de lado – Bacalhau para toda a gente.
– Ora nem mais.
– E eu ainda pergunto. – a italiana sorriu, e logo a casa virou uma confusão.
Sofia queria bolo, Marisa pedia a mamadeira. Antônio tentava fazer o irmão ceder, uma vez que queria preparar paella, mas Lovina dizia que prepararia uma bela macarronada.
No fim, jantaram paella, macarronada, bacalhau e bolo.
~※~
Bella terminava o jantar quando sentiu uma cólica forte.
Após o casamento, o casal de pombinhos viajara – com a ajuda de todos os amigos, que contribuíram com as passagens e estadia – para a Holanda, onde Hansen apresentou para sua esposa seu país natal. A belga se apaixonou pelas cores, flores e pessoas de lá, e chegou a brincar que poderiam morar naquele país.
Voltaram apenas um mês depois, quando completou cinco meses de gestação. A barriga chamava a atenção de todos, mas Bella se achava a mulher mais linda do mundo.
Como Enzo – descobriram o sexo do bebê depois da lua de mel – requeria muitos gastos e cuidados, Hansen passou a trabalhar fora, como contabilista. Sempre se dera bem com dinheiro e matemática, o que o fez crescer rapidamente na agência onde passou a trabalhar. Por destino, acabou na agência de modelos de Martin, mas o argentino, devido a seu comportamento, não durou muito, e logo Amália conseguiu levá-lo para cama, o despediu.
Desistiram de manter a casa como uma pensão, e procuravam uma casa menor e mais barata de se manter, visando um futuro maravilhoso para Enzo.
– H-Hansi! – Bella gritou ao sentir a segunda cólica, deixando o prato de salada cair no chão e quebrar, abraçando a barriga com força – Hansen!!
O holandês veio do jardim a correr mal ouviu-a chamar pela segunda vez.
Ao vê-la agarrada à barriga, entrou em stress.
– B-Bella--! O que foi?"
Bella arfou de leve, e Hansen correu ao seu encontro.
– Hansen... Vai n-nascer!
Hansen empalideceu:
– Quando??!
– Agora!
– Mas-- Mas--!
– LEVA-ME.AO.HOSPITAL!
A meia hora que se seguiu foi uma correria só: Hansen procurava o enxoval do bebê, tentava acalmar a esposa e chamar um táxi, tudo ao mesmo tempo.
Ao chegarem no hospital, Bella foi levada às presas para a sala de parto, e o ansioso holandês ligou para o único amigo que conseguiu pensar:
– Afonso... A B-Bella vai ter o nenê agora! Eu estou desesperado!
Como quase seria de esperar, o lusitano deu um berro e disse-lhe:
– TEM CALMA! VAMOS JÁ PARA AI!
Numa questão de minutos, todos os amigos mais próximos do casal foram avisados e por coincidência encontraram-se todos à porta do hospital.
Nervosos e ansiosos, quase que obrigaram a enfermeira a dizer onde estava o holandês e foram até ele.
Hansen estava se preparando para ficar com Bella, mas tinha as pernas bambas. Quando Afonso se aproximou, o holandês engoliu seu orgulho e o abraçou, assustado.
– Meu filho vai nascer!
Afonso sorriu um pouco e deu-lhe palmadinhas nas costas, sendo quase engraçada a diferença enorme de alturas.
– Tem lá calma, parvo. Está tudo bem!
Ele acenou com a cabeça e seguiu a enfermeira assim que ela o chamou.
Afonso foi para junto de Natália e Lovina, que vinha sozinha por ter deixado as meninas com António.
– Ele está bem?
– Nervoso...
A italiana sorriu, cruzando de leve os braços.
–– Coitado... Pai de primeira viagem é assim mesmo... – riu – Afonso, te lembras do Antônio no parto da Bia?
– Claro, ele desmaiou.
Natália levantou uma sobrancelha, com algum divertimento ao ouvir aquilo e assustou-se ao ser abraçada por trás por Elizabeta.
– Como é que está o Hansen? E a Bella?
Afonso disse que apenas sabia do nervosismo de Hansen, uma vez que não puderam conversar muito.
Os amigos seguiram até a sala de espera, onde aguardaram por quase uma hora. Então, um sorridente, mas pálido, holandês surgiu:
– Nasceu! Meu filho nasceu!
Todos eles, reunidos na sala, bem... Exepto Natália, foram até ao holandês para o abraçar.
– Parabéns Hansen!
– Como é que o pequenino é?
– É parecido com a Bella ou contigo?
– Podemos vê-lo?
O loiro não sabia a quem dar atenção primeiro. Nunca haviam visto Hansen sorrir tanto, e toda aquela alegria genuína era muito bem recebida pelos amigos. Eles mereciam toda a felicidade do mundo.
– Ele é a minha cara! – disse enquanto puxava Afonso pelos ombros, abraçando-o junto ao peito – É um rapagão forte e robusto! – seu sorriso era largo e sincero, mas ele ainda tremia de nervosismo – E claro. Se eu voltar sem vocês, a Bella me põe para dormir no sofá.
Lovina riu ao ver que o lusitano lhe dava novamente palmadas nas costas, um pouco atrapalhado por estar a ser apertado e só faltava mesmo Hansen começar a rodar com ele pelo ar.
– E-Eu sou o pai mais feliz do mundo!
– Já sei, já sei! Mas estás a me sufocar, parvo!
Pousou a cabeça no ombro do pequeno português e ignorou a reclamação:
– E tenho o filho mais lindo do mundo!
O pequeno português bufou, mas em seguida riu e abraçou o amigo, contente pela felicidade dele.
– Venham! Venham conhecer meu filho!
Mesmo que não quisessem – Natália não gostava do ambiente do hospital – foram quase obrigados a entrar para o quarto pois Hansen quase os levou a rasto.
Mal Lovina viu a amiga na cama foi até ao seu lado.
– Parabéns amiga!
Bella segurava Enzo com orgulho junto ao peito, radiante.
– Obrigada... Ele é pesado... – riu, beijando a cabeça do bebê, que mamava. Hansen sorriu e sentou-se ao lado da esposa – Estou tão feliz!
– Pesado? Então é igualzinho ao pai. – Afonso implicou a brincar e espreitou pelo ombro de Lovina e Elizabeta para ver a criança – Mas a beleza é toda da mãe.
Hansen franziu o cenho:
– Ele é a minha cara!
– Tem os lábios da Bella. – a húngara comentou após uma análise ao rosto do pequeno.
Bella riu e acrescentou:
– Mas o feitio é do Hansen.
Enquanto discutiam sobre o menino e a quem ele havia puxado, Afonso se afastou um pouco de toda a confusão, caminhando até a janela e olhando para a neve que caía. Enzo nasceu no dia vinte de fevereiro de 2013, às 21h16 como prova de que o amor, quando verdadeiro, sempre perdura.
~※~
António olhou pelo ombro e suspirou ao ver que o seu irmão parecia encolhido e que era arrastado por Sofia.
– Vamos tio! A mamã disse que o mar é quente aqui no Brad-- Brau--
– Brasil?
– Isso mesmo!
Afonso deu um meio sorriso. Não estava assim tão empolgado para ficar mais de dez horas num avião e sair do frio para o calor infernal.
A viagem foi maçante fisicamente, mas era a mente do português que mais sofria... Lembrava-se muito de Luciano, e só de estar no país do moreno tornava as coisas ainda mais nostálgicas.
– Afonso, tu ficas no quarto 512, e nós no 513, ok? – Lovina disse ao chegarem no hotel, dando o cartão magnético para o cunhado.
– O-ok... – ele murmurou e pegou na banda magnética para abrir o seu quarto e arrastar a mala consigo.
A primeira coisa que fez foi ir à janela ver a paisagem do Rio.
Era um lugar lindíssimo, ele pensou. Mas Luciano continuava sem sair da sua cabeça. Decidido a tirar o moreno da sua cabeça, o que Afonso queria era explorar a cidade. Sabia que o Rio podia ser perigoso mas muito sinceramente? Ele não ligava.
Aproveitou que sua família estava ocupada e saiu para a cidade ensolarada e quente, sorrindo um pouco ao notar que Luciano combinava com aquele país.
Caminhava devagar e com as mãos nos bolsos, aproveitando para ir ouvindo o que alguns trausentes diziam com aquele sotaque que ele achava amável.
O cheiro de mar, o sol ardente... Tudo naquela cidade era bonito, e aquela tarde em especial parecia ainda mais bela: o sol brilhava, e como havia chovido muito na semana anterior, tudo estava ainda mais verde.
– É uma pena que ficaremos só três dias...
Mal suspirou, Afonso foi empurrado para trás, caindo de bumbum no chão, e um monte de pelo encostou em seu rosto.
Um grande cachorro, de pelos castanhos, simplesmente pulou sobre si, lhe lambendo o rosto.
– Pongo! Que feio, garoto! Já disse para não fazer isso! – o dono do cão tirou-o de cima de Afonso, pedindo desculpas – Desculpa, ele pode ser grande, mas ainda é um filhote... – uma mão foi estendia – Você se machucou? – e, assim que o português, que olhava para o cachorro, aceitou a ajuda, o tom de voz mudou: – A-Afonso?
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