O Som Do Coração
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Capítulo XXIII
Podia parecer que não, mas já tinham passado quatro meses desde que Luciano se tinha ido embora.
Ao princípio foi difícil lidar com o silêncio da Colubris mais uma vez mesmo que Lovina tivesse regressado ao trabalho. Afonso andara cabisbaixo por muito tempo, não tendo vontade para fazer nada mais para além de trabalhar, dormir e comer. Aquele dia não era exepção. Arrumava as flores por tipos dentro dos respectivos cestinhos quando ouviu o sininho da porta e levantou a cabeça.
– Boa tar-- F-Francis?
O francês estava lindo, como sempre, os cabelos longos presos num rabo-de-cavalo baixo por uma fita anil. Ele seguiu diretamente até o português, que estava sozinho na loja principal – Lovina regava as plantas na estufa.
– Afonso. – ele disse e apoiou os cotovelos no balcão e se inclinou para frente, fazendo Afonso corar um pouco – Como estás?
O português desviou o olhar. Nunca mais falara com ele desde aquela noite e não se sentia capaz de o encarar.
Como típico lusitano que era, deu a resposta de sempre:
– Vai-se indo...
– Sei... – o loiro comentou, começando a brincar com uma rosa de pétalas murchas, que seria descartada – Eu soube que o Luciano voltou para o Brasil... E quis saber como estavas...
Afonso deu de ombros levemente e virou-lhe costas para poder arrumar a estante atrás de si enquanto terminava de colocar as flores nos lugares correctos.
– Estou bem.
Francis maneou com a cabeça, sabendo exatamente como seu amigo estava. Para se distrair, passou a brincar de bem-me-quer, mal-me-quer.
– Sei... – murmurou outra vez, e ergueu os olhos das pétalas rosadas – Quando eu o vi pela última vez, não imaginava que ele fosse voltar para a América... Se não eu não teria sido tão rude com ele.
O lusitano olhou pelo ombro, encarando-o com curiosidade:
– Rude?
Ele balançou a cabeça, deixando a rosa sobre o balção outra vez.
– Na noite que fui conversar contigo... Pelo que soube foi a noite que o Luciano partiu... Ele foi até a casa do Arthur e lhe deu um murro bem-dado no nariz, não notastes que estava inchado? Luciano não sabia que eu estava por lá, e assim que me viu, pediu-me desculpas... – Francis sorriu de lado, baixando o olhar – Eu gritei com ele pela violência, mas ele não se importou com minha rispidez... Apenas olhou para o Arthur e disse para ele não te ferir nunca mais... – voltou a encarar o amigo – Quando eu perguntei o que ele queria dizer com aquilo, ele me pediu desculpas mais uma vez e foi embora... E eu liguei uma coisa a outra: do Arthur voltar várias vezes para casa cheirando à flor; teus olhares para ele nos nossos encontros; um ou outro arranhão que eu sabia não ter feito... Então fui até a tua casa, e confessaste para mim...
Afonso ficou estático no final da explicação.
Não fazia ideia que tinha sido Luciano a causar tudo aquilo para... o defender.
Levantou o olhar para conseguir encarar o francês, mas até acreditar nele parecia impossível.
– O-O Luci--ano, fez mesmo isso?
– Não fiques brabo com ele, Afonso... Luciano não sabia que eu estava por lá, ele não tinha intenção de que eu descobrisse o que estava a acontecer... – com cuidado, pegou na mão de Afonso, temeroso de uma rejeição – Tua cunhada – o português piscou, uma vez que Lovina detestava Francis – explicou-me o que Arthur fez contigo, e foi fácil ligar os pontos: Luciano se importa muito contigo.
O português olhou para a mão e esteve quase para a soltar, no entanto, ficou quieto e desviou o olhar.
– Isso não justifica nada do que o que eu fiz e que podia ter evitado.
Francis piscou os olhos, apertando a mão do mais jovem.
– Afonso... Eu te perdoo, assim como tenho certeza de que o Luciano também. Basta tu a te perdoares... Olha para mim... – o português manteve-se sem o encarar, mas o francês não ligou – Eu vi o quanto vocês se gostam, e me surpreendeu que o Luciano tenha ido embora, mas acredito que não foste o culpado.
– Se fui culpado ou não, não faz diferença agora... – o lusitano suspirou e encarou-o – Ouve Francis... Eu... Eu errei contigo, mais contigo do que com qualquer outra pessoa e não me vou perdoar por isso.
– Eu sei. Eu sei que erraste, mas não foste o único.
Afonso o encarou mais uma vez e pendeu o rosto para a esquerda, visivelmente perdido.
– Como assim?
Francis deu um meio sorriso, um sorriso triste e cheio de amargura. Não combinava consigo, um homem tão gentil e alegre.
– Arthur não traiu-me só contigo. Ele conheceu um puto de vinte e poucos anos numa festa e estava se envolvendo com ele... Alfred, acho que este era seu nome. – suspirou – Arthur vivia reclamando que eu estava a trabalhar demais, que eu não o amava... Mas acredito que ele era o único que não amava alguém naquele relacionamento... e nem a si mesmo. – soltou-lhe a mão – Saber que tu estavas a trair-me doeu mais do que saber que Arthur transava com um puto inocente que sequer sabia da minha existência... porquê és meu melhor amigo, apesar de estarmos um tanto afastados... Mas... – deu outro sorriso – ...ainda gosto imenso de ti. E gostaria que me perdoasse...
Afonso saiu de trás do balcão e atravessou para o outro lado, aproximando-se do loiro para o abraçar.
Podiam chamar Francis de pervertido ou até mesmo tarado mas a verdade é que ele era uma das pessoas mais simpáticas e verdadeiras que o português conhecia.
– Tu não tens culpa de nada. Eu sei que errei e tive uma atitude péssima contigo...
Francis retribuiu o abraço, descansando o queixo no topo da cabeça de Afonso. Não tinha culpa do português ser baixinho...
– Não vou mentir-te e dizer que isso não dói mais... – Afonso se encolheu – Mas quero resolver-me contigo... e quero tua amizade de volta, Afonfon~
O menor beliscou-lhe levemente o braço, o que fez Francis rir um pouco e apertar o abraço.
– Ela é toda tua, apenas com uma condição.
O loiro pestanejou:
– E qual a condição?
– Tens de me deixar oferecer-te uma flor.
Francis piscou e sorriu um pouco, afastando-se para encará-lo nos olhos. Como era de sua natureza, acabou brincando:
– Estás a flertar comigo, Afonfon?
O português corou e voltou para trás do balcão estendendo-lhe uma rosa bem amarela e grande:
– Deixa de ser convencido, parvo.
O francês riu e aceitou a rosa, porém voltou a segurar a mão de Afonso.
– Vocês ainda vão se ver... Tenho certeza.
O baixinho suspirou e tornou a dar de ombros levemente:
– Não importa... Eu só quero que ele esteja bem.
Afonso achava que talvez Luciano já nem se lembrasse de si ou talvez tivesse encontrado outra pessoa melhor pois se houvesse alguma coisa que ligasse o brasileiro a Afonso, ele podia simplesmente telefonar para dar notícias.
Francis sorriu outra vez, vendo seu amigo contornar o balcão e voltando a retirar os espinhos das rosas, tendo cuidado para não se magoar. Afinal, não havia mais um gentil brasileiro para lhe cuidar dos ferimentos.
O francês observou o trabalho tranquilo e relaxante de Afonso por meia-hora, mas logo olhou para seu relógio de pulso, suspirando.
– Tenho um cliente em dez minutos... – disse e ergueu o olhar para Afonso, que também o encarava – Sabes... amanhã é o meu aniversário...
– Eu sei. – Afonso sorriu um pouco e pegou noutra rosa, desta vez branca – Os meus parabéns adiantados. – estendeu-a para o francês.
Ele riu outra vez, pegando a segunda rosa.
– Em vez de rosas, podias me oferecer a tua companhia amanhã. Vou fazer um jantar em minha casa, teu irmão vai com a família...
– Oh... Eu... – coçou a nuca, pensativo por uns momentos, e depois suspirou – Obrigado pelo convite mas... Eu não sou pessoa de sair, sabes disso...
– Não é necessariamente sair... vais jantar comigo e nossos amigos. – ele fez biquinho, um traço infantil de sua personalidade que apenas Afonso conhecia – Vá lá, é meu aniversário... E farei bacalhau só por tua causa.
– Tu não fazes bacalhau, tu assassinas bacalhau. – disse por implicação uma vez que o bacalhau que o francês fazia, apesar de ser bom, não era tão bom como de Afonso. – Eu não posso mesmo ir... desculpa. Não tenho tido cabeça para estar no meio de muita gente junta...
O mais velho suspirou.
– És um insensível. – então, deu de ombros e se inclinou para frente, dando dois beijinhos em Afonso – Estou indo. – disse e pegou seus presentes, colocando-os no bolso frontal de sua camisa social – Fiquei bem?
O baixinho apenas rolou os olhos com aquele comentário e depois sorriu:
– Ficaste bem.
– Merci~ – Francis sorriu mais uma vez e se encaminhou para a porta. Antes de sair, avisou: – Se mudares de ideia, sabes onde moro.
Acenou afirmativamente com a cabeça e acenou:
– Eu sei... E obrigado... Pela segunda oportunidade.
Francis voltou a sorrir, mas apenas abanou com a mão para se despedir.
Afonso, então, voltou ao seu trabalho, esquecendo-se de que Lovina estava na estufa, apenas despertando-se de seus pensamentos quando a italiana berrou, correndo ao seu encontro:
– Hansen e Bella vão se casar!!
Afonso deu um salto quando a mais nova lhe agarrou nos ombros.
– Casar, Afonso! Eles vão casar!
– O Hansen?!
– Sim!
– E a Bella?
– SIM!
O português riu:
– Já não era sem tempo!
Lovina explicou o que havia entendido de Bella: Elizabeta viajara até a Holanda no mês anterior e procurou em cartórios e centros de adoção pelo nome da belga. Acontece que os pais de Hansen nunca chegaram a mudar para o papel que Bella seria sua filha adotiva – o que teoricamente era ilegal – e que a belga continuou com o nome de sua falecida mãe biológica, e seu pai continuava um mistério. Como não havia documentos que comprovassem a adoção, Bella e Hansen não eram vistos como irmãos perante a lei, e o holandês aproveitou-se da situação para propôr ao seu grande amor.
– Eles vão se casar em novembro!
– Um casamento durante o Outono! Tão romântico. – Afonso comentou, referindo depois que fazia questão de oferecer um ramo a Bella – E como está o bebé deles? Já sabem se é menino ou menina
Lovina balançou a cabeça para os lados, empolgada demais para voltar ao trabalho.
– Ainda não, mas Bella disse-me que tem consulta em duas semanas! – ela rodopiou como a jovem que era, e depois abraçou o cunhado – As coisas estão a se resolver! Para todos!
Afonso abriu a boca para comentar alguma coisa mas deixou-se ficar calado. Retribuiu o abraço e sorriu um pouco:
– Pois é...
Quem sabe se para si não estavam a resolver também. Arthur já não era um problema porque nunca mais se tinham falado, Francis quis a sua amizade de volta e Luciano... Nunca mais o veria.
Mas tudo bem... Estava tudo resolvido.
~※~
Era uma fria manhã de Setembro.
Matthew sentava-se disciplinadamente em seu novo sofá, no pequeno e nem tão organizado apartamento que dividia com Alfred. Seu irmão mais velho, que havia se envolvido com um inglês resmungão e praticamente bipolar, saía do banho naquele exato momento, enrolado apenas numa toalha branca.
– Hey, Mattie... Que estás a fazer? – questionou ao ver seu irmãozinho analisando o papel de sempre. O número do telefone de Michelle.
– A-ah! Al! – o mais jovem sorriu acanhado, dobrando o papel com calma, mantendo-o escondido entre as duas mãos – N-não é nada!
Alfred jogou-se ao lado do irmão, pouco se importando que a toalha havia subido e que suas partes íntimas estavam a mostra. Matthew desviou o olhar, ruborizado.
– Esse é o telefone da tal Manuella, não?
– Michelle.
– Ui~ – ele sorriu malicioso, abraçando o irmão pelos ombros com um braço só – Então esse é o telefone dela?
– É...
– E porque estás a olhar para ele? Podes contar-me Matt. Eu sou um herói e posso ajudar-te.
O mais novo olhou para ele de lado. Toda a ajuda de Alfred sempre lhe trazia mais problemas do que aqueles que já tinha e isso só piorava mais ainda porque o estadunidense tinha a mania de ajudar toda a gente.
– Al, não prec--
– Não é a rapariga com quem tens trabalhado? – Matthew suspirou e concordou. Já fazia dois meses desde que conhecera Michelle, e trabalhavam juntos todos os sábados... e aconteceu de Matthew se apaixonar por ela. – Mas hoje é domingo, vocês não trabalham-- ooh~ – ele voltou a sorrir, apertando a bochecha do mais novo – Estás apaixonado!
– N-não!
– Estás sim! – Alfred sorriu abertamente e o canadiano quase que se encolheu. Nada de bom podia vir daquele sorriso – Podias-- Podias convidá-la para sair!
O mais novo resistiu ao impulso de rolar os olhos e suspirou:
– Não. Ela deve estar ocupada.
– Nunca vais saber se não ligar~ – comentou, levantando-se, e dando uma bela e dispensável visão de seu traseiro para o irmão, e seguiu para seu quarto, de onde berrou: – Só não a traga aqui. Hoje é minha vez de trazer uma garota.
Matthew piscou e se ergueu, indo até onde o mais velho estava.
– Não estavas com aquele Arthur?
Alfred estalou a língua e começou a procurar uma cueca limpa. Se não fosse Matthew a lavar suas roupas, Alfred não as teria.
– Cansei daquele bipolar. No início o jeito dele era fofo, mas depois cansei-me. – pegou uma camisa com a estampa do escudo do Capitão América, vestindo também um jeans surrado – Dei um pé nele ontem, e hoje vou sair com uma tal de Ya-- Ya-- sei lá, mas ela é russa e tem os maiores peitões que já vi!
O canadiano respirou fundo:
– Quando ele esteve cá em casa pareceu-me simpático. Acho que não devias fazer isso. Ainda para mais com uma pessoa cujo nome nem sequer sabes.
Tal como esperava, foi ignorado.
Alfred terminou de se vestir e pegou seus pertences – celular, carteira e mp3 player –, ajeitando de qualquer forma seus curtos cabelos loiros. Despediu-se de Matthew com um aceno e uma brincadeira de mau gosto: “Se pegares nos peitos dela, me diz como são.”.
O canadense soltou outro suspiro e voltou para o sofá, abrindo mais uma vez o papel onde Michelle anotara seu telefone meses antes. Por mais que trabalhassem juntos e se vissem toda semana, Matthew desejava vê-la fora daquele clima, e que eles pudessem ser mais do que apenas companheiros de projeto.
– Não sou homem para ela... – ele murmurou e voltou a guardar o papel, pegando seus pertences e saindo de casa, resolvendo ir até a biblioteca pública estudar.
O ar da cidade durante pela manhã fazia-lhe bem e ele gostava. O orvalho frio era-lhe agradável. Decidiu ir pelo caminho mais longo, aproveitando para se perder em pensamentos.
O seu coração deu um pulo quando ouviu uma voz familiar a chamar:
– Matt!
Ele parou de andar e olhou para trás:
– M-Michelle?
Michelle sorria delicadamente, os longos cabelos castanhos soltos, mas protegidos por uma touca vermelha que combinava com o casaco da mesma cor. Estava frio e úmido, mas o sol raiava sobre eles, sem força para aquecê-los.
– Oi, Matt! – ela disse, o apelido fazendo-o corar até as orelhas. Correu até o mais velho, que enrubescia ainda mais a cada segundo, e questionou: – Onde vais no domingo?
– A-ah... Oi, Michelle. – sorriu – E-estou indo estudar na biblioteca...
O sorriso dela aumentou:
– Mesmo? Coincidência, estava a ir para lá também! Precisava de encontrar uns livros com referências... – explicou por alto, falando apressadamente porque sabia que aquilo provavelmente não interessaria ao loiro – E bem... Posso acompanhar-te?
O rosto de Matthew ficou com a mesma cor que a touca de Michelle, e o coração do jovem canadense parecia querer subir até sua boca, tão afetado que estava. Michelle era uma moça bonita, gentil e talentosa, mas fora a inteligência dela que mais o cativara.
Estava perdidamente apaixonado por ela.
– A-ah! – ele sorriu, novamente apertando a alça de couro que transpassava seu peito, demonstrando seu nervosismo – C-claro que sim! – enrubesceu ainda mais, se é que era possível, ao perceber que falara um pouco alto demais, e logo voltou a diminuir o tom de voz: – C-claro... Será um prazer.
– Então vamos~ – tornou a sorrir e recomeçou a caminhar ao lado dele. Gostava da calma e da timidez dele, dava-lhe um charme diferente.
O canadiano acenou com a cabeça e apressou-se a acompanhá-la, incerto sobre o que dizer.
Acabou por dizer a primeira besteira que lhe veio à cabeça:
– Pensei que fosse o único a visitar a biblioteca num domingo...
Michelle deu uma gargalhada e levantou o rosto para o encarar.
– Estás enganado. Há sempre pessoas a fazerem trabalhos para entregar no dia seguinte.
– D-desculpa-me a ignorância. – ele sorriu acanhado e coçou a nuca, tendo de olhar para baixo, uma vez que ela era pequena. E aquilo o fazia corar mais: os cílios compridos e castanhos, a pele morena, os olhos grandes e brilhantes tendo que se erguer para encará-lo... ela ficava ainda mais bonita, e ele cada vez mais acanhado – E-estou indo apenas estudar... e-eu não tinha nada para fazer em casa...
– Pensei que tinhas como part-time cuidar do teu irmão. – ela disse na brincadeira por já ter ouvido o canadiano reclamar das aventuras de Alfred.
– A-Ah, não... Ele hoje foi sair.
– Hn... – ela sorriu, algo que sempre fazia o coração de Matthew acelerar – Saiu com o tal Arthur?
Matthew balançou a cabeça para os lados, comentando por cima que Alfred agora estava se envolvendo com uma russa. Quando Michelle lhe questionou o nome da moça, o canadense corou novamente e desviou o olhar, envergonhado ao dizer que Alfred não sabia.
– Al pediu-me para que eu não volte cedo hoje...
– Por quê não?! – ela franziu o cenho, e o maior riu:
– A-ah... Ele vai levar a moça lá em casa...
Michelle tornou a rir:
– O teu irmão deve ser um cromo de primeira.
– Não deve, é mesmo. – coçou a nuca, um pouco atrapalhado e ao chegar à entrada da biblioteca, abriu a porta e deixou-a passar.
Michelle agradeceu, esperando que Matthew fechasse a porta delicadamente e se aproximasse de si mais uma vez. O cheiro de livro fez o canadense sorrir, algo que a mais jovem apreciava com gosto. Não era um sorriso estonteante quanto o de Luciano, mas também não tinha aquela malícia sacana do de Martin/Santiago. Era um sorriso doce, delicado, e puro... puramente gentil.
Caminharam por entre as prateleiras cheias de livros, separando-se e voltando a se encontrarem por entre cada corredor, sorrindo ou rindo sempre que se viam. Quando Michelle teve dificuldade em retirar um livro de uma prateleira alta, Matthew foi gentil em lhe buscar o que queria, entregando o livro grosso e de capa dura à moça.
– Cá está. – ele disse sorrindo, verificando que ela tinha tantos livros quanto si – Queres ajuda?
– Não preciso, obrig-- – não terminou a frase pois mesmo assim o canadiano pegou em alguns livros e ajudou-a a carregar os mais pesados.
– Não custa nada. – sorriu educadamente e caminhou para a zona das mesas, escolhendo uma junto à janela.
Michelle sentiu-se aquecida com o gesto de Matthew. Conhecera-o com ele a ajudando, e ele continuou a ser gentil e solidário com ela.
Sentou-se em frente ao canadense, para que, enquanto ele estivesse lendo sobre Fernando Pessoa, pudesse observá-lo melhor, discretamente. Notou que ele também tinha cílios longos, loirinhos e delicados; como as bochechas dele eram salientes e rosadas naturalmente, mesmo que sua tez fosse clara e macia – ou parecia ser, uma vez que nunca trocaram um beijo na bochecha sequer –; como seus lábios finos e rosados se moviam lentamente enquanto ele lia sem verbalizar.
Matthew era fofo, bonito...
– Michelle? – o chamado a tirou de seus pensamentos, e ela corou ao perceber que encarava Matthew – Está tudo bem? Tenho algo no rosto? – questionou enquanto passava a mão direita pelo rosto, tendo de retirar seus óculos de armação fina.
Continuou a encará-lo por mais uns segundos. Ainda não o tinha visto sem óculos e agora que pensava nisso, queria ver.
Pegou nos óculos que ele tinha pousado sobre a mesa e limpou-os, usando as mangas da sua camisola.
– Não, mas tinhas a lentes sujas...
– Ah... – Matthew sorriu e pendeu a cabeça para a esquerda, delicado – Obrigado, eu quase nunca noto... Sabes como é, uso óculos desde criança, então já acostumei-me com eles.
Michelle constactou rapidamente que ele ficava mais fofo ainda sem óculos. Sorriu e devolveu-os.
– Nunca usaste lentes?
Matthew balançou a cabeça para os lados, sorrindo sempre. Agradeceu pela limpeza inesperada de suas lentes e voltou a vestir os óculos.
– Não... Óculos são mais práticos... E as crianças adoram. – disse, se referindo às crianças do hospital. Elas sempre pediam para usar seus óculos, deixando o pobre canadense a apertar os olhos para poder enxergar para onde ia.
Antes que se pudesse controlar, Michelle comentou:
– Ficas bem sem óculos também.
E quando se apercebeu do sucedido, corou até ás orelhas e pigarreou, voltando a folhear o livro onde procurava referências para desenhos.
Matthew também corou, baixando o rosto para as poesias de Pessoa enquanto tentava controlar seu nervosismo. Não é como se Michelle estivesse flertando consigo, mas o canadense não estava acostumado a receber elogios. Sempre vivera na sombra de seu popular e estonteante irmão, e ter uma pessoa que reparava apenas em si o fazia feliz. Feliz até demais.
– O-obrigado, Michelle... – sua voz saiu mais trêmula e gaga do que o de costume, e ele tentou focar-se nas poesias, acanhado ao perceber que não estava dando certo. Ergueu-se um tanto atrapalhado e fazendo barulho, fazendo Michelle olhar para si – D-desculpe... V-vou buscar um café para nós, s-sim?
Ela distraíu-se por uns momentos, encantando-se com as feições delicadas e amorosas dele até pestanejar e corar ligeiramente.
– P-Pode ser, muito obrigada.
Matthew saiu da biblioteca, atravessando a rua para chegar até o café que ficava ali em frente. Ao fazer os pedidos, lembrou-se de que Michelle adorava café com creme, e pediu este extra.
– Matthew, pare de agir como um bobo. – pediu a si mesmo, baixinho, tentando controlar seu nervosismo – Foi só um comentário inocente...
Suspirando, comprou os cafés, e um bombom para ela, e deixou a cafeteria, seguindo calmamente até a biblioteca.
Mal ele se sentou à sua frente, ela sentiu o cheirinho do café.
Estavam practicamente sozinhos e a bibliotecária nem ligava para eles uma vez que falavam baixo então Michelle sentia o ambiente ainda mais aconchegante. Não era exactamente fã de literatura porque preferia livros técnicos a grandes clássicos mas admirava quem tinha paciência para ler.
E Matthew era estudante de literatura. Quem sabe se não seria como um Mr. Darcy ou um Carlos da Maia!
Ele pousou os cafés sobre a mesa e pegou no seu, e Michelle logo sorriu como uma idiota:
– O de creme é p-para mim?
– S-sim... Percebi que gostas de creme, então... – ele sorriu, e Michelle voltou a enrubescer.
Martin nunca reparara que Michelle gostava de creme, e apenas tomara café com Luciano uma vez, então não tinha como o brasileiro saber de sua preferência. Matthew, um rapaz tão tímido e que conhecia a tão pouco tempo, ter reparado em seus gostos, mesmo um tão sutil quanto creme no café, fê-la feliz.
Matthew a fazia feliz.
– E-eu gosto imenso do café ali da frente. E-e eu trouxe-te isso... – disse baixinho ao lhe estender o bombom – E-espero que g-gostes de chocolate br-branco...
A rapariga pestanejou várias vezes ao olhar para o doce , tentando racionalizar porque é que o loiro estava tão atrapalhado.
Nem percebeu que ela mesma corava também.
– Eu- Eu amo chocolate... Muito obrigada!
Matthew, tão vermelho quanto as rosas que Martin costumava lhe dar, sob o nome de Santiago, pousou o bombom sobre o livro aberto de Michelle, entre as páginas. Estava acanhado demais para entregar o doce em mãos, e acreditava ter exigido muito de si naquele dia.
Cheio de vergonha, baixou o rosto e focou-se nas palavras do poeta português, percebendo que não só as cartas de amor que eram ridículas, mas também as ações de quem estava apaixonado.
Ela tornou a agradeceu e mordeu o bombom antes de tomar o café, para ficar com a boca doce. O chocolate era avelado e cremoso por dentro, mesmo do tipo que ela gostava.
– Deve ser o melhor chocolate que comi nos últimos tempos! – esticou a mão que tinha a outra metade – Queres provar?
Matthew voltou a erguer o rosto, piscando perante o convite. Maneou a cabeça para cima e para baixo, aceitando provar o doce.
Por não saber como se comportar, pegou o bombom da mão de Michelle e mordeu um pequeno pedaço para si, sorrindo antes de devolver para ela.
– Realmente, é muito bom.
– Não queres mais? – sorriu um pouco – Para a próxima trago eu o lanche, ok?
O canadense riu um pouco, ouvindo um “shh” depois. Baixou o tom de voz mais ainda e sorriu a mais nova, tendo de se inclinar para frente, sobre a não tão larga mesa, para que pudessem se ouvir.
– O doce é teu, Michelle. – sorriu outra vez, ainda com o bombom estendido – Oh! Mas eu faço bolinhos deliciosos! Tens de experimentar!
– Mesmo? Então eu quero provar!
Ambos sorriram um pouco e depois o canadiano voltou a sentar-se direito.
– B-Bem... Vou-me calar para não te atrapalhar...
A morena piscou, vendo Matthew se ajeitar sobre a cadeira, os olhos, escondidos pelos óculos e pela franja loira, sendo voltados para seus livros. O canadense fazia algumas anotações, mas volta e meia erguia discretamente o olhar, voltando a baixá-lo ao ver que Michelle continuava a olhar para si.
– Matt? – o apelido veio natural, e Matthew ergueu o rosto. Michelle enrolou a ponta do cabelo mais uma vez e desviou o olhar antes de convidar: – A-aqui está um pouco... parado... – o loiro piscou – Não queres, sei lá, passear pelo parque?
O loiro encarou-a em silêncio por uns momentos, tentando perceber se tinha ouvido bem ou se seria só a sua imaginação.
Ao ver que Michelle parecia nervosa, sorriu amigavelmente:
– C-Claro! Teria todo o gosto.
Michelle sorriu aliviada, fechando seus livros com certo entusiasmo entanto se dava ao prazer de observar melhor o distraído canadense. Não era de agora que tinha a impressão de já conhecer o mais velho; quando Matthew a abordou na rua e cuidou de si, chegou a questioná-lo sobre isso, mas ao ouvir a resposta negativa, deixou os pensamentos de lado.
Os amigos retiraram alguns livros, Matthew insistindo para carregar alguns de Michelle em sua pasta até ela ceder, e voltaram às ruas. Era um dia agradável, embora frio, e os dois logo voltaram a conversar sobre suas escolhas profissionais e o motivo de terem deixado seu país de origem: ela corria atrás de um sonho, ele de outro.
– Michelle? – o canadense chamou depois de um tempo – Acredito que choverá... – anunciou e apontou para uma nuvem enegrecida.
A rapariga olhou para cima.
– Provavelmente... Mas hey... Aquela nuvem é bonitinha.
– Hum? – também ele olhou na mesma direcção e depois de um tempo a tentar perceber, riu – Parece um urso.
Eles sorriram, porém Matthew logo voltou a falar, segurando, meio sem perceber e sem segundas intenções, a manga do casaco de Michelle.
– Acho melhor voltares para casa, Michelle.
– Por quê? – ela perguntou com imensa curiosidade – Pode não chover agora!
Mal terminou a frase, um trovão pôde ser ouvido, e no segundo seguinte começou a chover forte. Matthew e Michelle fizeram um careta inicial pela água estar muito gelada, e depois sorriram. O canadense lhe tomou a mão e ergueu a pasta de couro sobre a cabeça da mais jovem, tentando protegê-la da chuva, e correu com ela até a entrada de uma loja, que ficava protegida por uma marquise. Várias outras pessoas, pegas desprevenidas pelo temporal, faziam o mesmo.
– O que estavas a dizer? – ele tomou coragem para brincar, arfando enquanto ainda segurava a morena pela mão.
Michelle riu um pouco e com a mão livre sacudiu o cabelo:
– Nada, não disse absolutamente nada.
Apertou um pouco a mão do canadiano. Era quentinha e estava seca ainda, o que lhe dava um conforto enorme.
Matthew empurrou-a delicadamente para ao lado e colocou-se em frente dela de costas para a rua.
– Pronto, assim não te molhas mais.
Michelle sorriu outra vez, o coração acalentado ao sentir a mão de Matthew. Era macia, quente e maior que a sua, o que lhe deixava com um gostinho de carinho e proteção.
– Tens o cabelo encharcado... – ela murmurou, uma vez que Matthew preferira protegê-la e acabou com os cabelos molhados.
O canadense sorriu, e Michelle mordeu o lábio inferior quando o contato entre suas mãos cessou.
– Dá-se um jeito. – garantiu, abrindo sua pasta de couro e procurando alguma coisa. Puxou de lá um laço branco e puxou os cabelos molhados para trás, penteando os fios com os dedos. Prendeu-o num rabo-de-cavalo baixo, e duas mechas mais curtas acabaram por escapar da fita. – Pronto.
Michelle, que não havia visto o mais velho de cabelos presos antes, piscou os olhos e deu um passo em frente, encarando o maior com curiosidade.
– S-sim? – Matthew corou perante a proximidade, Michelle pousando as mãos em seu peito enquanto procurava a posição certa para olhar para si. Ela estava próxima demais – Michelle?
– Matthew... Por acaso o restaurante que trabalhas chama-se Mon Coeur?
Ele balançou a cabeça.
– S-sim, por quê?
A lembrança daquele jantar desastroso com Santiago, Martin, voltou mas ela não desviou o olhar.
Então era dali que o conhecia. Ele tinha sido o pobre empregado que apanhara com as culpas todas!
Michelle suspirou brevemente:
– Eu sabia que te conhecia de algum lado...
– Michelle?
Ela sorriu e colocou uma das mechas soltas de Matthew para trás da orelha dele, fazendo-o corar mais um pouco. Não era comum se tocarem tanto.
– Uma noite fui jantar no restaurante em que trabalhas, e foste tu a servir-me. – Michelle suspirou oura vez e se afastou.
Matthew pediu desculpas por não se lembrar muito, afinal tinha inúmeros clientes cada noite, mas ela garantiu que não tinha problema. Comentou por cima de seu ex-namorado, e logo o canadense piscou:
– É-és a amiga do Luciano?
– Conheces o Luciano? – perguntou surpresa pela coincidência.
Ouvir falar do brasileiro ainda a magoava mas era uma coisa bem pequena agora. Quem sabe se não foi uma paixão passageira?
Matthew abriu um largo sorriso, sempre tímido e delicado.
– Oh! Luciano é um grande amigo meu! – ela piscou – Morávamos na mesma pensão, mas mudei-me algumas semanas depois que ele voltou ao Brasil... Gostamos muito-- d-digo, nos dávamos muitíssimo bem. – sorriu acanhado – Eu sabia que teu nome não me era estranho... Luciano falava-me de ti, do teu namorado... – então ele se lembrou de um detalhe, e coçou a nuca – D-desculpa, eu soube do que o Martin fez a vocês...
Michelle abanou negativamente com a cabeça e murmurou:
– Isso está... No passado.
Instintivamente encolheu-se um pouco pois esse assunto, por mais que dissesse que estava no passado, ainda magoava pensar.
Envergonhado por trazer lembranças tristes à quem gostava, Matthew voltou a segurar a mão de Michelle, acariciando delicadamente o dorso da mão dela.
– Desculpa-me... Não quis entristecer-te outra vez...
– Não tem mal. – sorriu um pouco – Não tens culpa nenhuma...
– M-mesmo assim! – as pessoas ao redor começavam a olhar para o possível casal, e Matthew corou mais um pouco – V-vou comprar um guarda-chuva e levar-te em casa.
– N-Não é preciso gastares dinheiro comigo, a sério! – segurou-lhe levemente no braço não fosse o canadiano ir mesmo e suspirou.
Matthew sorriu outra vez, algo que fazia o coração de Michelle acelerar devido a pureza do gesto, entrelaçando seus dedos nos dela.
– Não é incômodo algum, Michelle... Será um prazer, tenhas certeza.
– Nah, deixa estar. – murmurou envergonhada e começou a brincar com os dedos dele – Eu gosto de chuva, faz-me lembrar a minha terra natal, sabes? Chuva tropical e tudo mais...
– Eu entendo, mas Portugal tem um clima diferente de Seychelles, bem sabes... – poder tocar nela fazia daquele dia o mais feliz da sua vida – Ainda acabas doente.
Meio sem reparar, ela ergueu o rosto e o encarou:
– Ias cuidar de mim, não ias?
O loiro sorriu ternamente e baixou-se um pouco, beijando-lhe a testa.
– Claro que ia.
Michelle enrubesceu, sentindo a boca quente e macia do canadense em sua pele. Ela pensou que não queria aquele carinho naquela região, porém não tomou coragem para erguer-se na ponta dos pés e alcançar os lábios de Matthew. Conheciam-se há pouco tempo, mas criara um grande afeto para com o mais velho: Matthew era gentil, inteligente, bonito, fofo e tinha um enorme coração. Ela nunca iria se esquecer da alegria das crianças hospitalizadas ao ver o tímido canadense, que era como um irmão mais velho para elas. Santiago – ou Martin – sempre fora mesquinho, e ela ainda se lembrava da grosseria dele com pessoas que julgava inferior – como os gentis garçons e com o pobre Alberto, que sempre fora dedicado. Eram tão diferentes...
Sobre Luciano, pensava com grande carinho do amigo, porém sentia mais saudade do brasileiro do que alguma vontade de ficar com ele. Luciano simplesmente sumira do mapa após viajar de volta para o Brasil, e qualquer esperança que ela possuía de, talvez, ser correspondida pelo sul-americano esvaía-se aos poucos. Com Matthew, entretanto, era diferente, uma vez que sempre sentia vontade de vê-lo, assim como aquele dia estava sendo divertido e ela se imaginava beijando-o debaixo da chuva.
– E-então...
– Mas eu prefiro visitar-te por querer, não porque estás constipada por ser teimosa. – sorriu.
Michelle corou um pouco mais e ganhou coragem para dar um passo em frente e se encostar no peito dele e o abraçar com o braço livre.
– Sou assim tão teimosa? – fechou os olhos ao sentir o calor do loiro e suspirou.
Por aquela Matthew não esperava. Fazia algum tempo desde que se conheceram, mas tirando raras exceções, jamais se tocaram, e agora estavam abraçados, de mãos dadas e Michelle tinha o rosto contra o seu peito! Seu coração acelerou tanto que tinha medo que ela pudesse escutar.
– U-um pouco... – apesar do acanhamento, retribuiu o abraço, trazendo-a mais para perto. Como a chuva diminuía, as pessoas começavam a deixar a marquise, e os amigos ficaram sozinhos em frente a loja fechada – Podias dar-me a honra de levar-te em casa...
Michelle riu um pouco e aconchegou-se, não tendo vontade nenhuma de se afastar do mais velho.
– Eu não me importo que me leves a casa, só não quero é que gastes dinheiro num guarda-chuva.
– E pretendes molhar-te ainda mais? – seu acanhamento aumentou quando Michelle pousou o queixo em seu peito e olhou para cima, o olhar castanho fazendo-o corar ainda mais.
– Matt? Tens o coração aos pulos...
O pobre canadiano corou até as orelhas e pigarreou, desviando o olhar.
– I-Isso é porque... hum... Viemos a correr e eu não estou habituado a f-fazer esforço físico.
Ela também desviou o olhar. Aguardava uma resposta diferente, talvez.
– Leva-me em casa.
Matthew suspirou e fez-lhe um leve cafuné, aproveitando a proximidade por mais uns momentos antes de se afastar e estender o braço para ela agarrar.
– Vamos lá, mademoiselle.
– Merci, monsieur. – disse com um sutil sorriso, encolhendo-se ao lado de Matthew ao sentir a chuva, que agora caía sem tanta força.
Caminharam um tanto apressados até o prédio onde Michelle morava, e assim que se viram cobertos pela marquise da entrada principal, sorriram um ao outro.
– Estás entregue. – Matthew não queria se despedir, ainda mais que não podia voltar para casa, mas fazia o que achava certo – Obrigado pela companhia hoje... Foi muito bom passar o dia contigo.
– Obrigada e igualmente. – disse mas não largou o braço, mantendo-o próximo até ganhar coragem para perguntar: – Queres subir? Posso fazer um chocolate quente e arranjar algum filme. Ainda está a chover demasiado para voltares...
– A-ah, e-eu não te quero incomodar...
Michelle sorriu, abrindo o portão do prédio enquanto puxava o mais velho consigo até o elevador. Matthew ficava tão bonito corado!
– Não é incômodo~ – riu – E não podes voltar para casa, pois não? – mal entraram no apartamento, ela voltou a abraçá-lo pelo tronco, o calor do corpo dele a aquecendo. E o coração dele passou a bater ainda mais forte – E tens de descansar da “corrida”... Ou teu coração sai pela tua boca.
– T-T-Tens razão! – disse atrapalhado e não hesitou em retribuir o abraço mal pousou os livros em cima do balcão – S-Sou péssimo em desporto. O m-meu irmão é que gosta disso.
– Preferes exercitar a mente, hn? – ela sorriu e pôs-se na ponta dos pés, começando a tirar a jaqueta dele – Tens de tirá-la ou acabas constipado...
Observou com algum divertimento a forma com o que o loiro ia ficando mais envergonhado. Era adorável.
– S-Sim, é mais isso. – ele murmurou baixinho.
Michelle se demorou para deslizar a jaqueta pelos braços de Matthew, os olhos castanhos fixos nos do canadense, que podia ser comparado a um tomate maduro devido seu acanhamento. Ela não estava acostumada a conviver com um rapaz tão tímido, e aquilo mexia consigo.
– Se dás-me licença, vou trocar de roupa... – ela murmurou e deu um passo para trás, abraçando a jaqueta de Matthew.
– N-não! E-está tudo bem, eu aguardo.
– Nem pensar! Estás em minha casa e as regras são minhas. – sorriu e foi pousar o casaco dele junto ao aquecedor, que sempre ficava ligado nos dias frios – Senta-te, fica à vontade.
– Mas... Estou um pouco molhado... – ele suspirou, olhando para o pequeno sofá dela.
– Não te preocupes, é sério. – suspirou – Queres alguma coisa quente para beber?
Matthew coçou a nuca, porém preferiu aceitar o convite de bom grado, uma vez que sabia que Michelle iria lhe oferecer mil coisas até que ele cedesse.
– Aceito uma xícara de café, por favor.
Ela sorriu e lhe agarrou a mão, puxando-o delicadamente até a cozinha.
– Vais tomar o melhor café do mundo! – sorriu enquanto tirava o seu casaco e sua touca, prendendo os cabelos num rabo-de-cavalo alto – Matt, querido-- – o apelido o fez ficar atrapalhado, e Matthew bateu a coxa na mesa da cozinha – oh, machucaste?
– N-não, estou bem. – sorriu – Ias dizer--?
– Ah, podes fazer-me o favor de pegar o pó de café? Está na prateleira à tua esquerda... – pediu enquanto colocava a água para aquecer.
Muito apressadamente, o loiro espreitou para a prateleira e coçou a nuca:
– E-Eu não estou a ver o café...
Michelle deu uma gargalhada:
– Matthew... À esquerda, não direita.
– A-ah! – ele se atrapalhou todo e pegou o pote de café, apressando-se para entregá-lo a mais jovem.
O que ele não esperava era escorregar no tapete da cozinha, e embater de frente com Michelle.
– D-desculpa-me! – pediu assustado e pousou o pote na bancada da pia – E-estás magoada?
Instintivamente segurou nele para que também não caísse e abanou com a cabeça.
– N-Não eu estou bem.
E outra vez, ele estava demasiado perto só que agora Michelle tinha receio de avançar mais pois não queria ser rejeitada de novo.
Matthew começou a rir nervosamente, tanto pelo vexame de ter caído sobre Michelle quanto por estarem próximos outra vez. Podia sentir o calor dela junto ao seu corpo úmido, assim como perfume de rosas dela.
– E-eu estou sempre a cair. – ele começou a se explicar – A-ainda surpreendo-me de não ter derrubado nada no restaurante, assim como nuca te ter levado ao chão... – Michelle tinha lindos olhos, ele sempre pode afirmar, mas agora que estavam perto... eram ainda mais bonitos – S-sou um atrapalhado mesmo, hn?
– Ou só distraído. – ela comentou e também ficou envergonhada quando ele lhe colocou uma mecha de cabelo, que caia do rabo-de-cavalo, atrás da orelha.
– Ou azarado.
– Ou sonhador... – murmurou baixinho, encarando os olhos claros dele.
Mantinham o olhar fixo no outro, e ao perceberem que não existia menção de um afastamento por ambas as partes, Michelle apertou de leve as roupas de Matthew, que acariciou sua bochecha.
– Ou apaixonado... – ao declarar-se, o canadense piscou e corou, baixando o rosto – E-eu não devia ter dito isso, desculpa-me...
Michelle corou adoravelmente e sentiu o seu coração aos pulos. Percebendo que Matthew se ia afastar, puxou-o para mais perto.
– N-Não, não desculpo.
Colocou-se na ponta dos pés e segurou as bochechas dele, puxando-o um bocadinho para baixo e juntando os seus lábios de leve aos dele.
Matthew fechou os olhos assim que sentiu a boca de Michelle na sua. Soltou um suspiro baixo e puxou a mais jovem pela cintura para mais perto, mantendo a carícia num simples selinho. Ainda era tímido demais para aprofundar o beijo.
– E-eu... – ele não sabia o que dizer, e nem o que fazer – F-fui muito... D-desculpa, eu não--
– Matt?
– Sim?
– Beija-me...
De forma engraçada, Matthew abanou afirmativamente com a cabeça e deu um leve aperto no abraço, mordendo-lhe o lábio inferior com suavidade ao iniciar outro beijo.
Foi Michelle quem aprofundou o beijo, segurando o canadense pela nuca enquanto ele o abraçava carinhosamente. Até mesmo o beijo de Matthew era gentil!
– Hoje pela manhã... – ele disse entre arfadas, após se separarem para respirar – Eu quis te ligar e me declarar, mas não tive coragem... – sorriu acanhado – Sempre pensei que eras demais para mim...
Michelle riu um pouco e encostou-se junto ao pescoço dele.
– Pensaste mal... Eu achava que era mais o contrário.
Ele piscou, acariciando as costas dela enquanto ouviam a chaleira chiar.
– Por que dizes isso? És tão bela que eu tinha vergonha de me declarar para ti...
Michelle ficou bem mais vermelha e fez um barulhinho, escondendo o rosto no ombro dele.
– N-Não sou nada!
Matthew riu e se afastou um pouquinho, erguendo o rosto dela pelo queixo. Quando se encararam, sorriu amavelmente:
– És sim... És a rapariga mais bela que uma vez já vi! – declarou, logo se inclinando para beijá-la mais uma vez.
A morena abraçou-o pelo pescoço e sentiu-o sorrir quando ele a levantou um pouco do chão.
Quando se afastou para respirar outra vez, encostou a sua testa na dela e suspirou profundamente, feliz da vida.
– Michelle... A água já ferveu... – mencionou quando o chiado da chaleira ficou muito alto.
Muito a contragosto, Michelle afastou-se dele e foi apressada até fogão, desligando-o e tirando a chaleira para pousar no balcão, sacudindo as mãos depois por quase se ter queimado.
– Vais é ter de esperar que arrefeça.
Matthew lhe tomou a mão, beijando delicadamente.
– Não te preocupas, eu posso fazer o café enquanto tomas teu banho. – sorriu – Só não quero que te constipe.
– Eu não vou ficar doente. – mostrou-lhe a língua e ao passar por ele beijou-lhe levemente a bochecha – Então eu já volto.
O mais depressa que conseguiu, foi buscar o seu pijama e tomar o banho, mortinha por voltar para junto dele.
Enquanto ouvia o chuveiro, Matthew preparou como pode o café. Assim como Michelle, não usava a cafeteira na hora de preparar a bebida, mas não tinha certeza se ela gostava de café forte como si. Optou por fazer um mais suave, sorrindo ao encontrar creme na geladeira.
Preparou o café e serviu, voltando para a sala quando ouviu a porta do banheiro se abrindo.
Michelle saiu vestindo uma camisola que ia até a metade de suas coxas, uma vez que o sistema de calefação a permitia usar vestes mais frescas em casa, e tinha os cabelos soltos e penteados. Claro que o canadense corou ao ver as pernas da mais jovem, tendo de desviar o olhar para a mesa de centro, onde estavam as bebidas.
– E-espero que gostes do meu café...
Ela sorriu e abraçou-o pelas costas, segurando na sua chávena. Ah, ele tinha posto creme novamente!
– Tenho a certeza que está óptimo!
Matthew também sorriu, dando um beijo na bochecha dela antes de provar seu café. Apesar de não muito forte, estava gostoso. Michelle sentou-se ao seu lado, os pés descalços sendo posto sobre o sofá, virando-os para a esquerda. Juntou seus joelhos nos de Matthew, que ainda estava corado.
– Que foi? – ela riu – Vais dizer-me que ainda estás acanhado na minha frente!
Ele assentiu:
– B-bem, não estou acostumado a ter belas raparigas a mostrar as pernas para mim. – coçou a nuca.
Michelle começou a rir a bandeiras despregadas e encostou-se no ombro dele.
– Que exagero! Eu ando tantas vezes de vestido.
– S-sim, mas nunca ficaste assim tão perto de mim...
Michelle sorriu maldosa, tentada a provocar o mais velho. Mordeu o lábio inferior e pousou sua xícara na mesa, beijando abaixo da orelha do canadense, sensual.
– E isso te provoca, Matt?
Matthew encarou-a um pouco surpreendido.
– E-E-Eu não diria provocar-- – sentiu-a sorrir e quase virou o café quando a morena se sentou no seu colo. Engoliu em seco – T-Talvez...
Michelle sorriu outra vez, tirando a xícara da mão de Matthew e se movendo provocante sobre ele ao deixar o café na mesa.
– Isso é uma coisa boa, não? — comentou, os lábios provocando o pescoço de Matthew.
O canadense, arfando, afastou-a um pouco.
– M-Michelle... És linda, sou doido por ti... Mas não quero apressar nada...
A morena tornou a sorrir porque aquela delicadeza e gentileza dele era tão genuína...
– Não estás a apressar nada.
Matthew piscou, as bochechas coradas. Embora Michelle quisesse – assim como ele queria – havia um porém:
– M-Michelle... E-eu não sei fazer isso.
Foi a vez dela piscar.
– Não sabes fazer o que?
O canadense engoliu em seco, já esperando que ela risse de si como todos, mas admitiu:
– Eu sou virgem.
Mas Michelle não riu.
A sua expressão tornou-se mais calma e ela tirou-lhe o cabelo da frente dos olhos, pondo as mechas loiras e macias atrás da orelha do mais velho.
– Não tem problema, Matt.
Michelle inclinou-se para frente, capturando os lábios de Matthew com mais delicadeza, mas continuou a provocá-lo.
– M-Michelle... – o loiro chamou baixinho, segurando a menor pela cintura – Eu amo-te.
Foi a vez da morena se sentir um pouco acanhada. Mordeu-lhe o lábio inferior e suspirou:
– Eu também te amo.
O canadense sorriu acanhado e puxou a mais jovem para mais perto, beijando-a com carinho e delicadeza, permitindo que ela desabotoasse sua camisa enquanto lhe subia a barra da camisola.
~※~
Elizabeta regressou a casa naquele dia completamente exausta do seu trabalho. Sobrava sempre burocracia chata para si.
As luzes da sala estavam acesas mas não havia nem sinal da sua namorada:
– Natalia? Onde estás?
Um barulho desconhecido foi ouvido da cozinha, e, desconfiada, a húngara seguiu devagar até lá, pegando um vaso da mesa da sala para se proteger de um possível ataque.
– Quem está aí? – questionou, porém o barulho apenas continuou como resposta.
Apertando o vaso com força, Elizabeta chegou na cozinha, surpresa ao não encontrar nada além da luz acesa e um grande embrulho no chão. Chamou por Natália mais uma vez, porém apenas suspirou ao não ouvir a namorada. Curiosa, ajoelhou-se em frente da caixa, deixando o vaso no chão, e puxou a tampa.
– Meu deus! – ela sorriu quando um pequeno e engraçadinho filhote de cão pulou da caixa para seu colo, o pelo amarelo cheiroso e penteado – Oh, és um amor! – disse entre sorrisos enquanto o cão lhe lambia.
– E tu és uma barulhenta. – ela virou o rosto para a esquerda ao ouvir a voz de Natália – Se fosse um ladrão, terias dito tua posição a ele.
A morena riu e levantou-se, segurando o cãozinho no colo.
– Eu sei que tu salvar-me-ias, não preciso de me preocupar. – abraçou o cãozinho com força, que logo lhe lambeu a bochecha – Quem é este amorzinho?
Natália mantinha os braços cruzados, o semblante sério como sempre. Embora mais jovem que Elizabeta, sua eterna seriedade lhe dava uns anos a mais, e muitas vezes achavam que a russa era a mais velha.
– Nosso filho.
– O n-nosso filho? – pestanejou surpresa pela resposta e sorriu de lado – É loiro como tu.
– E barulhento como tu.
Elizabeta caminhou até ela e sorriu:
– Então é o nosso filho mesmo, sem dúvida.
A russa sorriu de canto ao ganhar um beijo de Elizabeta, assim como uma lambida do filhote. Segurando a morena pela cintura, encarou-a:
– Liz, nós não temos tempo para um filho... – suspirou – Mas acredito que somos felizes sozinhas. Não precisamos de uma criança para ter uma “família”...
– Eu sei... – Elizabeta sorriu um pouco e encostou-se no ombro dela, observando o cãozinho a abanar a cauda contente com todo o carinho – Como o vamos chamar?
Natália deu de ombros.
– Não sou boa nisso. Mas gosto de Dimitri.
– Então que seja Dimitri. – esfregou as suas bochechas nas do cãozinho e relaxou o corpo no abraço da namorada – É o melhor filho do mundo~
A russa sorriu, acarinhando os pelos claros do filhote, que latiu e abanou o rabo em alegria. Era um filhote de golden retriever esperto e brincalhão, e Natália se apaixonara por ele assim que o viu.
Após a conversa com Elizabeta no dia em que Hansen e Bella noivaram, Natália ficou sem jeito por ter sido grossa com a namorada. Amava Elizabeta mais do que qualquer coisa no mundo, porém não acreditava que tinha jeito para ser mãe. Eram ocupadas demais, e a russa jamais cuidara de uma criança, o que a assustava.
Pensara naquilo por duas semanas, e quando resolveu passear pelo centro, apaixonou-se pelo cãozinho que estava para ser adotado. Pensou que cuidar de um animalzinho seria tão difícil quanto cuidar de um filho, porém teria um pouco mais de liberdade. Quem sabe, num futuro não muito distante, poderiam adotar um bebê?
– Só uma coisa: ele dorme na cozinha.
Elizabeta sorriu.
– Certo, certo.
Mas é claro que o cãozinho dormiria na cama com elas.
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