O Som Do Coração
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Capítulo XIV:
Não era muito tarde da noite quando Bella acordou, sobressaltada. Os olhos verdes fitavam os lençóis sobre seu colo, o peito movendo-se em sintonia com a respiração descompassada e pesada.
Era a décima vez que sonhava com a noite de Natal. E, como sempre, a jovem acordava assustada, agoniada, magoada.
– I-irmãozão...
Bella saiu depressa da cama e correu para o corredor, batendo suavemente na porta do quarto de Hansen antes de abri-la.
– I-irmão? Irmão, eu tive outro pesadelo...
– Entra.
Bella abriu a porta e quase que de forma infantil correu até ele.
– Desculpa...
O holandês sentou-se na cama e fez sinal para ela se sentar ao seu lado.
– O que aconteceu? Vem cá... Já passou.
A loira aconchegou-se no abraço de seu irmão, sentindo o cheiro dele – forte e marcante – lhe acalmar aos poucos.
– S-sonhei outra vez... com aquilo.
Eles jamais davam nome àquele incidente, e só a entonação da palavra “aquilo” deixava Hansen a par do que afligia a irmã. Mais que nunca eles estavam próximos.
– Shh... Foi um sonho apenas, ok? – beijou-lhe a testa – Estou aqui agora.
Bella acenou com a cabeça e ficou sem saber muito bem o que fazer ou lhe responder.
O mais velho, delicadamente, puxou-a para o seu colo e voltou a deitar-se, cobrindo ambos.
– Consegues voltar a dormir? Ainda é cedo...
Ela ergueu o rosto na mesma hora em que Hansen baixou o dele, e eles ficaram próximos. Encabulada, Bella voltou a baixar o rosto e acomodou-o na curvatura do pescoço do mais velho, abraçando-o apertado.
– Acho que sim... – disse baixinho – S-só dá-me um abraço apertado...
O holandês sorriu um pouco e na brincadeira deu-lhe mesmo um abraço bem apertado. Bella corou e até guinchou por não estar a contar com aquilo.
– I-irmãozão! Não consigo respirar~
– D-desculpa! – pediu, também atrapalhado.
Estava sentindo-se um idiota: esquecia-se de que não podia matar aquela vontade louca que tinha de manter Bella próxima a si. Não podia simplesmente abraçá-la, beijá-la...
Afrouxou o abraço e enrubesceu.
– N-não tem mal... – disse, sorrindo de leve – Obrigada.
– D-De nada... – murmurou e abraçou-a decentemente, aconchegando-a junto a si – Bons sonhos...
Beijou-lhe a testa e suspirou.
– Bons sonhos. – sorriu e procurou a mão do irmão, entrelaçando seus dedos nos dele.
Ele sorriu um pouco e apertou a mão dela em resposta, brincando com os seus dedos e depois de dar um suspiro profundo e cansado, fechou os olhos para adormecer.
Bella ainda demorou para adormecer. Ficou observando atentamente seu irmão e arriscou tocar seus lábios nos dele, sentindo seu coração pular uma batida ao vê-lo se remexer antes que pudesse concretizar seu ato.
Soltando um suspiro de alívio, Bella percebeu que Hansen ainda adormecia profundamente, e logo também dormiu.
~※~
Michelle suspirou mais uma vez, um pouco preocupada, na verdade, encarando Santiago, que bufava e resmungava sozinho.
– Está tudo bem?
– Sim. – respondeu o outro, mesmo sendo claramente mentira – Tive só uns problemas na pensão onde estou hospedado, isto já passa.
– Pensão? – a moça piscou os olhos, encarando o namorado, curiosa – Pensei que estavas a morar num hotel, Santiago.
O argentino, logo que percebeu o deslize que cometera, tentou se ajeitar:
– A-ah, sim. É que aquele hotel mais parece uma pensão, tamanha bagunça. – resmungou – Ontem à noite ficaram de me levar uma encomenda e até agora não chegou, por isso estou irritado. – Martin sorriu para Michelle e deu um beijo na bochecha dela – Desculpe meu mau humor, amor.
Michelle abanou com a cabeça e suspirou – outra vez.
– Tudo bem... – já estava habituada aquele mau humor, mas felizmente Martin nunca descarregava em si porque caso fizesse isso ela muito possivelmente ia acabar por discutir com ele também. Aproximou-se do argentino e esfregou-lhe os ombros – Acalma-te.
– Estou calmo! – ele disse num meio resmungo, e Michelle suspirou mais uma vez, desviando o olhar para frente.
– V-vamos tomar um café?
O mais jovem mordeu o lábio subtilmente, sentindo-se um pouco mal por lhe ter respondido daquela forma.
– Vamos, eu pago uma batida de morango para você.
Michelle maneou a cabeça, mas nada disse.
A verdade era que a jovem estava realmente se cansando daquele namoro. Estava apaixonada por Martin e se entregara a ele algumas vezes, mas o mau humor constante do argentino conseguia diminuir as poucas qualidades dele e como trabalhavam juntos e passavam boa parte do dia numa sala fechada, a futura estilista estava chocada com a maneira grosseira e desprezível como o modelo tratava as pessoas que julgava “inferior”.
Em comparação, Michelle estava cada vez mais próxima de Luciano, e sentia-se um tanto dividida: via no amigo um parceiro ideal, embora soubesse que este namorava – e estava apaixonado por seu chefinho.
– Uma batida de morango para a moça e uma xícara de café para mim. – pediu ao garçom de um café que costumavam ir, o semblante desgostoso de sempre.
O empregado apontou os pedidos, já acostumado com aquele tipo de tratamento, logo regressando para o balcão.
Martin apoiou o queixo na mão e suspirou irritado. Estava furioso com Luciano, este não lhe atendera nenhuma das suas chamadas nem respondera a sms apesar de ter ficado a dormir fora de casa!
A hipocrisia da situação passava-lhe ao lado, ele não entendia que fazia justamente o mesmo.
Enquanto o modelo resmungava em pensamentos, pensando em como brigaria com Luciano e já pronto para mandá-lo dormir na sala mais uma noite seguida – que se danasse o frio! Queria que Luciano adoecesse! –, Michelle sentia-se ainda mais desconfortável ao lado do namorado.
– O que foi, querida? Está tão quieta.
Michelle respirou fundo, muito fundo. Era preciso ter uma paciencia enorme com Santiago.
– Não tenho nada a dizer.
Martin suspirou, porém logo sorriu.
– Está de TPM, amor?
A morena encarou-o com cara de poucos amigos:
– TPM? Não sou eu quem está de TPM. – murmurou irritada e só não continuou porque chegou o seu batido, que ela prontamente bebeu para ficar calada.
O argentino franziu o cenho, bebericando seu café e logo fazendo uma careta ao perceber que ele estava demasiado amargo.
– Caralho! – Michelle piscou ao ouvi-lo falar um palavrão – Garçom, venha aqui.
O garçom se aproximou, era jovem e parecia ser seu primeiro dia. Seus olhos castanhos estavam voltados para baixo e apenas pelo tom que Martin usara consigo o rapaz estava apavorado e envergonhado.
– Você tem um saco de merda no lugar do cérebro? Eu pedi um cappuccino, e não um café expresso! – empurrou a xícara em direção ao rapaz, porém usara muita força e a xícara caiu ao chão, aos pés do rapaz – Fique feliz que eu estou de bom humor e não vou reclamar ao seu gerente, seu verme incompetente! Agora me traga meu café!
O empregado murmurou um pedido de desculpas e baixou-se para apanhar a chávena que partira em dois bocados.
Michelle olhou para o loiro estupefacta, nem querendo acreditar que aquilo tinha acontecido. Não era a primeira vez que Martin reclamava com os empregados, oh longe disso, mas desta tinha ido longe demais.
– Santiago... Isso foi desnecessário.
– Desnecessário? Michelle, você que é gentil demais com esses empregadinhos de quinta! – resmungou – Eles tem de se pro em seus devidos lugares e fazer o único trabalho que conseguem direito! É pedir muito?
O jovem garçom magoara-se tanto com as ofensas de Martin que chorava em silêncio, os olhos marejados acabando por lhe trair e, assim que ele se ergueu, o pobre coitado bateu a cabeça na mesa, que tremeu e derrubou o copo de Michelle, que rolou com sua bebida cor-de-rosa até o colo do argentino.
– Filho da pu--
– Santiago!
Michelle estava simplesmente cansada de tudo aquilo.
Achava o argentino um rapaz lindo, talentoso e realmente se apaixonara por ele. Entretanto, cada dia que se passava o modelo estava cada vez mais mesquinho, esnobe e grosseiro. Crescia rapidamente dentro da Agência, era o queridinho de Amália, porém Michelle estava farta daquele comportamento digno de pena.
Erguendo-se, a moça ajudou o garçom e lhe murmurou milhares de desculpas, envergonhada com o comportamento de seu namorado.
– N-não tem culpa, senhorita. – o garçom garantiu, e Michelle lhe limpou as lágrimas.
– Perdoa-me. – pediu outra vez e retirou de sua carteira algumas notas – Pela batida e pelo incômodo. – em seguida, seguiu em direção a porta.
– Michelle! – Martin berrou e rosnou para o garçom, que agora era consolado por colegas e outros clientes, e deixou uma nota sobre a mesa, pagando seu café.
Correu atrás da namorada e lhe segurou o braço, um tanto enraivecido.
– Michelle, volte aqui!
Afastou o seu braço e rodou para o encarar.
– Não volto! Solta-me!
Retomou o seu caminho em passos apressados, tentando ganhar distância dele.
– Espere!
– Santiago... Chega.
Martin voltou a franzir o cenho, e segurou mais uma vez o pulso de sua namorada, encarando-a irritadiço:
– “Chega”? Como assim “chega”?
– S-Santiago, estás a magoar-me--
– O que você quer dizer com isso? Responda-me!
– Santiago!
– Martin? O que você está fazendo com a Michelle?
Os namorados piscaram os olhos, e olharam para o mesmo lugar ao mesmo tempo, perplexos com a presença de Luciano.
O moreno encarava os dois com uma expressão confusa: por quê seu namorado estava magoando sua amiga?
Aproveitando que Martin estava distraído, Michelle afastou o seu braço.
– Pára com isso Santiago!
O argentino empalideceu e olhou de Michelle para Luciano várias vezes. No entanto, para Luciano não foi díficil juntar todas as peças do puzzle.
As conversas que tinha tido com Michelle, as inumeras noites fora que Martin tinha passado, o facto de não existir nenhum “Martin” na agência... O brasileiro sentiu que o seu coração estava a ser esmagado e sentia-se um completo idiota por não ter desconfiado de nada.
Forçou um sorriso e encarou Martín.
– Então este é o “famoso” Santiago?
– Luciano, me deixa explicar...
Martin tentou se aproximar do namorado, que negou o contato ao dar um safanão no mais jovem.
Michelle piscou e começou a ficar confusa.
– Santiago, de onde conheces o Luci?
– Michelle, querida, eu--
– “Querida”? – o brasileiro riu sem achar graça, seus olhos umedecendo – Você ainda tem a cara de pau de chamar a Michelle de “querida”?
– V-vocês se conhecem?
– Seu canalha filho da mãe! Nós somos amigos! – Luciano rosnou, e Michelle interveio:
– Luci! Por que estás a tratar o meu namorado assim?
Embora estivesse com raiva do argentino, Michelle não podia simplesmente permitir que Luciano, seu amigo querido, fosse descortês com Santiago.
Luciano esfregou o dorso da mão direita por sobre as pálpebras e venceu o nó em sua garganta, o coração apertado e doendo a cada batida.
– Acontece, Michelle, que seu amado “Santiago” – ele fez aspas com os dedos – é o meu namorado-- EX–namorado! Martin.
A morena franziu o sobrolho, sem entender imediatamente o que ele queria dizer com aquilo. Porém lembrou-se de imediato de certa vez Luciano ter perguntado por um “Martín”. Afastou-se do argentino, encarando-o com uma expressão chocada:
– C-Como foste capaz...
– Amor, espera, eu--
Martin viu Michelle caminhar de costas até Luciano, dando a mão ao moreno. Os olhos claros do argentino demonstravam sua confusão.
– Amor? Não me chames isso! – ela rosnou, e Luciano lhe apertou a mão.
– Mas eu amo você, Michelle. Você sabe e--
– Ah, é assim? E eu, Martin? Você não me ama mais? – o brasileiro segurava o choro – Por que não terminou o namoro? Seu merda, eu ia entender!
– Mas eu amo você, Luciano! Eu amo os dois!
Luciano ia-lhe dizer que era impossível amar duas pessoas ao mesmo tempo mas manteve-se calado. Seria muita hipocrisia da sua parte.
A morena não conseguiu segurar o choro.
– Isso não faz sentido! Mentiste-me! Até com o teu nome me mentiste!
– Michelle, meu amor – cada palavra era uma facada no peito de Luciano – eu não menti o meu nome! – tentou se concertar – A Amália disse que “Santiago” seria o meu nome a partir daquele dia que nos conhecemos, e esse é o nome que tenho usado.
– S-seu nojento! – seu choro aumentou, e Luciano abraçou-a pelos ombros, tentando consolá-la.
– Vamos embora, Michelle. – o brasileiro pediu, e a moça concordou.
Ao ver os mais velhos se afastando, Martin começou a ficar com medo. Medo de perdê-los.
Ele queria os dois. Michelle para casar, Luciano para transar.
– E-esperem!
Os morenos continuavam em frente, Michelle chorando enquanto Luciano segurava as próprias mágoas. Tinha sido traído, mas...
Estavam perto da pensão, e Luciano rumou para lá sem dúvidas. Queria sumir, queria um abraço, queria acalmar Michelle. Martin os seguia, implorando perdão aos dois.
– Luci, Michelle! – ele chamava, e Luciano abriu a porta da pensão.
Por sorte os únicos presentes na pensão eram os irmãos, devido ao horário de estudo e trabalho dos demais hóspedes. Bella, que veio receber Luciano com um abraço, piscou confusa ao vê-lo abraçado a uma moça desconhecida que soluçava.
– Bella, traga um copo de água com açúcar para a Michelle, por favor. – deu um sutil empurro em Michelle, e Bella a confortou, mesmo que não estivesse entendendo coisa alguma.
Hansen franziu o cenho ao ver Luciano subindo as escadas, Martin atrás do namorado.
– Luciano, por favor! Escute-me!
Luciano chegou ao seu quarto, e logo retirou sua mala de cima do armário, jogando-a na cama e começando a pegar seus pertences.
– Luciano!
– O que você quer me dizer, Martin? Que você é um puta dum canalha que está me traindo com minha amiga? – o moreno rosnou, as lágrimas lhe fugindo – Eu não seria um hipócrita culpando a Michelle, porque ela é tão vítima quanto eu, mas você? Martin, eu não sabia que você podia ser tão cuzão!
O argentino, enfim, franziu o cenho e segurou com força o braço de Luciano enquanto este socava as roupas na mala.
– Não fale assim comigo.
– E você quer que eu fale como? – tentou se soltar, porém o loiro lhe machucou o braço.
– Pois agora você vai me escutar.
Cerca de meia hora depois, Luciano desceu as escadas, a mala na mão esquerda e a mochila e o violão nas costas. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, e Bella correu em seu socorro.
– L-Luci, o que...
Luciano balançou a cabeça em negação. Michelle contara tudo para Bella e Hansen, e o holandês se ofereceu para levar a moça em casa, uma vez que ela não tinha condições de ficar sozinha. A belga sentiu-se um pouco enciumada, mas queria falar com o brasileiro.
– Eu vou embora, Bella. – ele murmurou, e a belga lhe tomou o rosto com ambas as mãos.
– P-por quê?
– Eu não posso mais ficar aqui. O Martin disse que não vai deixar a pensão, e eu não quero olhar para a cara dele.
A loira mordeu o lábio inferior. Não queria perder seu amigo.
– M-mas e...
– Nós vamos nos ver sempre, Bella. – tentou sorrir – Eu adoro você, mas não posso e não quero mais ficar aqui.
Bella balançou a cabeça.
– E-eu entendo-te.
O brasileiro a abraçou, beijando-lhe o rosto.
– Um conselho: se declare para quem você ama. Você vai se surpreender.
O barulho da porta sendo fechada chamou a atenção dos amigos, e eles olharam em direção a esta, deparando-se com Hansen.
O holandês piscou os olhos e encarou a irmã.
– De que é que ele está a falar?
– Luci! Prometeste-me! – a voz da belga tornou-se chorosa.
– Bella. Do que ele está a falar? – insistiu, e a belga balançou a cabeça, passando a lacrimejar – Estás apaixonada?
– N-não, eu--
– Está. Ela está apaixonada.
– Luci! – Bella lhe de um tapa no braço, e Hansen franziu o cenho.
– Diz-me!
Bella negou com a cabeça e, em prantos, seguiu para seu quarto, trancando-se nele.
~※~
Afonso estava preocupado. Já havia passado das duas da tarde e nada de Luciano aparecer para o trabalho.
Chovia bastante, e um vento gélido fazia-se presente. O português verificava as horas de dois em dois minutos, e estava trabalhando no mesmo ramo fazia mais de duas horas, algo que não lhe custava vinte minutos.
Não é que Luciano fosse excessivamente pontual. Por vezes chegava dez minutos mais tarde, outras vezes dez minutos mais cedo... Mas isso não incomodava o português por isso nunca achou necessário reclamar.
Porém, quando se atrasava mais que isso, Luciano ligava sempre a avisar e a explicar o atraso. Coisa que desta vez não fez.
Afonso não queria ser uma mãe-galinha mas estava realmente tentado a telefonar ao brasileiro... Teve uma ideia melhor e no lugar disso ligou para a pensão. Ficou mais preocupado ainda ao não obter resposta.
Pousou o ramo no balcão e começou a andar aos círculos pela floricultura. A chuva tinha acentuado e fazia imenso barulho ao bater no telhado.
Eventualmente teve de se voltar a focar -ou a tentar- no trabalho e ficou na Colubris até depois da hora e ainda nem sinal de Luciano.
Mal chegou a casa, acendeu a lareira, preparando-se para a noite fria que aí vinha.Ligou a televisão para ter barulho e fechou as cortinas para não se assustar com os clarões dos relampagos. Fez só uma sopa para si e levou num tabuleiro para comer no sofá. Ia esperar pelo final da hora de jantar para ligar a Luciano.
Ainda aquecendo-se com a sopa, Afonso ouviu a campainha soar. Atrapalhando-se um pouco em pousar a bandeja sobre a mesinha de centro e deixar o edredom de lado, o europeu ergueu-se e foi até a porta, nem se dando ao trabalho de verificar o olho mágico.
Ao abrir a porta, Afonso piscou: encharcado e de cabeça baixa, Luciano estava parado à sua frente, carregando uma mala numa mão e o estojo do violão na outra.
– Desculpa... Eu não tenho para onde ir...
Afonso nem sequer pensou nas suas acções. Puxou Luciano para dentro, com um pouco de força, e fechou porta logo que conseguiu.
Abraçou Luciano com força. Não queria saber se ficava molhado ou se molhava o chão.
– O que é que te aconteceu? Eu estava a morrer de preocupação! – disse sem medir as suas palavras e olhou para cima para conseguir encarar o brasileiro.
Os olhos vermelhos e inchados que ele tinha e a sua expressão desolada deram um aperto no coração do lusitano.
– L-Luci? O que foi?
Luciano não queria incomodar ou preocupar Afonso. Forçou um sorriso e apertou com força a alça de sua mala, o tecido molhado rangendo.
– O Martin estava me traindo. – sua garganta voltou a se fechar num nó, e ele respirou profundamente – Nós terminamos e eu deixei a pensão. – engoliu o choro – E-eu não tinha para onde ir, posso passar a noite aqui? E-eu juro que amanhã eu encontro outro lugar para ficar.
O lusitano encarou-o sem acreditar. Aquilo era horrível! Agarrou-lhe no pulso e arrastou-o até à frente da lareira.
– Podes ficar o tempo que quiseres, Luciano. Não tem problema nenhum. – suspirou, a sua expressão era de pura preocupação – Queres falar? Ou-- Preferes um tempo sozinho? Tens de cuidar de ti. – acarinhou-lhe a mão fria e molhada – Não podes ficar molhado...Ainda adoeces. Eu vou encher a banheira com água quentinha e preparar alguma coisa para comeres, depois falamos, ok? Não aceito um “não” como resposta...
Luciano achava uma graça quando Afonso falava apressado. Entretanto, não estava com ânimo para nada.
Concordou com a cabeça e deixou suas malas num canto da sala, longe da carpete, e murmurou mais uma vez:
– Desculpe o incômodo.
– Já disse que não é incómodo.
Encheu a sua banheira enorme com água quentinha e espuma, pondo ali perto as maiores e mais fofas toalhas que encontrou. Foi buscar também umas pantufas que lhe eram grandes e deixou lá para que Luciano ficasse mais confortável.
Quando achou que estava cheia o suficiente, chamou o brasileiro:
– Faz como se estivesses em casa, sim?
Não conseguiu evitar acarinhar-lhe levemente a bochecha antes de sair para lhe dar privacidade e ir para a cozinha aquecer um pouco mais de creme de cenoura.
Após tomar um banho quente e demorado – banhos eram bons para colocar os pensamentos em ordem –, Luciano seguiu até a sala, onde Afonso arrumava o sofá para si.
– Vem... Precisas comer... – chamou, porém o mais jovem balançou a cabeça, sentando-se no sofá.
– Estou sem fome, obrigado.
Afonso colocou uma mão na cintura e sentou-se ao lado dele com o tabuleiro no colo.
– Não vais ficar sem comer. Come só uma ou duas colheradas, vá...
Um pouco por brincadeira, encheu a colher de sopa e levou-lha à boca como fazia quando Sofia se recusava a comer.
Luciano piscou e até “fugiu” da colher, porém acabou por ceder.
– Vês? Não doeu, doeu? – o europeu sorriu e tentou levar mais uma colherada até a boca de Luciano, porém o mais jovem recusou.
– Eu posso fazer isso... – disse e pegou a colher, comendo aos poucos.
O português levantou-se e num instante foi vestir o seu pijama e um casaco mais confortável, deixando o brasileiro comer sossegado.
Quando voltou ao seu lugar, aguardou em silêncio que ele terminasse e começasse a falar quando estivesse pronto.
Luciano limpou seus lábios com um guardanapo cedido pelo português, e em seguida estendeu a bandeja para Afonso.
– Estava delicioso.
Afonso nada disse e pegou a bandeja, erguendo-se para levar a louça suja até a cozinha. Mal deu as costas para Luciano, entretanto, sentiu a mão do mais jovem lhe segurar a barra da camisa, e o menor piscou.
– Luci?
Ele não olhou para trás, uma vez que sentiu que Luciano apoiava a testa em suas costas.
– Sabe, chefinho? – sua voz estava estranha, baixa e cheia de mágoa – A traição não foi a pior coisa. A gente já não estava bem desde que saímos do Brasil... Mas doeu vê-lo trair também uma pessoa importante para mim e fazê-la chorar na minha frente... – apertou a camisa do europeu – E o que ele me disse... Ele disse que ainda gostava de mim, mas que não queria mais nada comigo além de sexo. Porque ele não queria ser visto com um homem. – Afonso pode ouvir que ele chorava – Ele deixou de me amar porque eu sou homem, chefinho.
Afonso sentiu o seu coração apertar com aquilo... Luciano era tão boa pessoa... Era injusto aquilo acontecer com ele.
Pousou desajeitadamente o tabuleiro e virou-se ao contrário, sentando-se sobre os joelhos no sofá.
– Luci... – murmurou e puxou-o para um abraço, deixando a cabeça do brasileiro apoiada no seu peito – Não chores Luci... Ele não merece isso...
Afonso sentiu sua camisa umedecendo.
– Ele magoou tanto a Michelle... E eu... E ele ainda me disse que gostaria de ficar comigo sexualmente!
Apertou mais o abraço, dobrando um braço para lhe fazer cafuné.
– E-Eu nem sei o que te dizer... Eu sei que dói, Luci mas... Não chores por quem não vale as tuas lágrimas...
Luciano soluçou de leve.
– Desculpa... eu não consigo parar.
– Tudo bem...shh... – beijou-lhe a cabeça e ajeitou a sua posição, sentando-se direito.
Com o movimento de Afonso, Luciano afastou-se e esfregou os olhos, pensando que assim o europeu não fosse ver suas lágrimas. O brasileiro soluçava baixinho, e sua cabeça doía.
Afonso suspirou e esticou o braço para lhe tirar o cabelo da frente da cara. Odiava, de verdade que odiava, vê-lo assim só que não havia nada que pudesse fazer a não ser deixar o brasileiro chorar até acalmar.
Então, decidiu ficar quietinho ao seu lado.
O brasileiro encarava o chão. Estava se sentindo envergonhado por ter chorado de maneira tão infantil na frente de Afonso. Imaginava o que o português pensava de si, e mais do que nunca, ele queria sumir.
– D-desculpa. Molhei sua camisa.
O português olhou para baixo e esticou a camisa.
– Deixa lá, água seca. – levantou-lhe delicadamente o queixo e limpou-lhe as lágrimas com o polegar – Estás mais calmo? Precisas de alguma coisa?
– Não, obrigado. – Luciano desviou o olhar outra vez.
Não queria que Afonso visse que estava magoado, mas também não desejava que ficassem em silêncio.
Reunindo coragem – por quê quando estamos tristes as coisas parecem ainda mais difíceis de serem ditas? –, o brasileiro respirou fundo e tentou evitar que as lágrimas voltassem a cair.
– Sabe? Eu me sinto tão idiota... – soluçou – Eu me senti péssimo quando beijei você essa manhã... Eu fui procurar o Martin com aquela sensação de que eu havia traído ele e eu ia contar tudo e pedir desculpas... – mordeu o lábio para não chorar. Estava difícil – Mas daí eu descubro que ele não apenas beijou outra pessoa, mas também transou e pensava em se casar.
Afonso suspirou.
– Eu devo-te também um pedido de desculpa. Não devia ter-te beijado sabendo a tua situação. – fez menção de se afastar, não por querer mas sim por achar que talvez fosse isso que Luciano desejava – Ele-- Ele tencionava manter isso em teu segredo?!
Mal o português se mexeu, Luciano lhe segurou a mão. Não queria que o mais velho ficasse longe de si. Principalmente agora.
– Sim... – suspirou, agora mais chocado do que triste – Eu não sei como, já que ele usava seu nome artístico para namorar a Michelle, o tal Santiago – Afonso lembrou-se imediato de quem ele falava – mas pensava em se casar com ela. – outro suspiro – Eu não sei se ele realmente gosta... gostava, sei lá, da Michelle ou se ele desejava se casar com uma moça para que sua bissexualidade não viesse à tona e isso acabasse com a sua carreira. – riu sem achar graça – Mas ele disse que ainda queria se encontrar comigo, que nós podíamos ser amantes.
Apertou-lhe a mão de volta, como confirmação que não ia a lado nenhum.
– E que vais fazer Luci? Achas que a Michelle o perdoa? Ou se tu o perdoas?
Ficou a brincar com os dedos do mais novo, distraído. Ele não era ninguém para julgar ninguém mas na sua opinião aquilo que Martin fez não se faz a ninguém.
Mas no fundo, não era aquilo que ele e Arthur faziam? Com a diferença que havia consciência da traição por parte de Afonso.
Agora começava-se a repugnar consigo próprio.
Luciano balançou a cabeça, ainda fitando o chão.
– Não. Nem tanto por mim, porque eu... – mordeu novamente o lábio inferior – Eu gosto do Martin. de verdade, eu ainda gosto dele. Mas eu... eu não estava mais apaixonado por ele, e acredito que nem mais o amava... – outro suspiro. Estava suspirando demais naquela noite – Mas eu pensava que fosse só uma fase, porém sempre que ele me expulsava do quarto, me negava carinho, ia tomar banho depois de irmos para a cama... Isso magoava, mesmo que eu estivesse confuso. – tomou coragem e encarou Afonso – Mas me trair... trair uma pessoa que eu adoro, foi o pior.
Afonso apertou ainda mais a mão de Luciano.
– Quanto à Michelle... Ela já tinha ido embora quando eu saí do quarto, e ela não atende o telefone.
O lusitano respirou fundo. Ver Luciano assim tão frágil mexia consigo de forma inexplicável. Não conseguia compreender como é que Martin pode ter feito uma coisa daquelas, mas, novamente: não podia julgar.
Lembrou-se de uma conversa que tinha tido antes com o moreno e murmurou inocentemente:
– Adorar? Foi por isso que disseste que tinhas um amor impossível? – ficou pensativo por um momento – Se souberes onde ela mora eu posso te levar lá se quiseres.
Luciano não entendeu que Afonso pensava que ele gostava de Michelle, pois se sim, já se teria declarado ao mais velho.
– Não quero importuná-la. Vou dar um tempo e esperar que ela queira falar comigo... – murmurou – Eu espero não perdê-la.
O lusitano suspirou sentindo-se idiota pelas coisas que sentia. Acarinhou a mão do brasileiro e soltou mais um suspirou.
– Então não a deixes fugir.
O mal-entendido havia sido feito, e o brasileiro, inocente e lerdo por natureza, não notou aquilo. Percebeu que a mão de Afonso tornou-se um tanto trêmula, então Luciano a apertou entre as suas, encarando os dedos macios do português.
– Eu não pretendo deixar. – o mais velho sentiu o peito comprimir. Por quê? – Ela é importante para mim.
O português mordeu o lábio e olhou para baixo também. As mãos de Luciano eram grandes e estavam sempre quentinhas... Afonso gostava delas. Sentia os calos por o moreno passar horas e horas a tocar violão mas mesmo assim eram macias e agradáveis.
– Entendo... Devemos sempre correr atrás de quem gostamos...
Luciano deu um meio sorriso e concordou com a cabeça. Em seguida, inclinou-se para frente e beijou a testa de Afonso.
– Eu nem sei como te agradecer... Parece que eu conheço você há anos. – ele resistiu em beijar o menor outra vez – Você é um ótimo amigo.
Amigo...
O português não conseguiu evitar corar um pouco mas manteve o seu olhar baixo.
– E-Eu não fiz nada, parvinho. Tu chegaste ás tuas conclusões sozinho. – murmurou e levantou a cabeça para o encarar.
A sala só estava iluminada pela luz da lareira, mas eles conseguiram se encarar perfeitamente. Naquela meia-luz os olhos deles estavam ainda mais escuros, e com um brilho misterioso e belíssimo.
– Certo... Mas você realmente é um amigão para mim.
Afonso sorriu um pouco e cutucou-lhe o nariz levemente.
– Tu também significas muito para mim... – comentou distraído e depressa emendou, corando mais ainda – A tua amizade significa muito para mim.
Amizade...
Era difícil se manter apenas amigo de alguém que se gostava muito, porém Luciano esconderia seus sentimentos caso isso permitisse que ele ficasse sempre ao lado de Afonso. O português era importante para si, e o brasileiro preferia mantê-lo como amigo do que perdê-lo para sempre.
Dando um meio sorriso – fraco, tristonho e falso –, Luciano agradeceu mais uma vez a amizade e o carinho do mais velho, que enrubesceu ainda mais.
– Não há de quê, parvinho. – Afonso sorriu.
Ambos resistiram a vontade de pular sobre o outro e beijá-lo com desejo, e Afonso ergueu-se.
– Está tarde...
Não foi necessário que ele terminasse a frase. Luciano concordou com a cabeça e acomodou-se no sofá, que viria a ser sua cama pelos próximos dias.
– Um beijo de boa noite? – Luciano questionou, e Afonso sorriu outra vez.
– Claro.
Aproximando-se do sofá, Afonso beijou castamente a testa de Luciano, que sorriu mais verdadeiramente e imitou o gesto.
– Boa noite, chefinho.
– Boa noite, parvinho.
E, com um sorriso no rosto, eles se despediram, Luciano cobrindo-se no sofá que não o deixava esticar as pernas e Afonso seguindo para seu quarto.
~※~
Já era noite quando Hansen decidiu insistir mais uma vez que Bella deixasse seu quarto.
Após descobrir que sua irmã realmente amava alguém – e que Luciano sabia disse e ele não –, a belga trancou-se no quarto e sequer aceitou as refeições que seu irmão lhe trazia.
– Bella? – Hansen podia ouvir movimento dentro do quarto – Bella? – pela milésima vez naquele dia, ele girou a maçaneta. Trancada a chave.
– Deixa-me!
Hansen respirou bem fundo – ela conseguiu ouvir lá de dentro.
Aquilo estava a começar a deixá-lo nervoso. Era realmente necessário tanto drama? Sim, custava-lhe saber que ela gostava de outra pessoa e que estava a fugir de si mas não era preciso ignorá-lo daquela forma.
– Bella... Abre a porta.
– Não!
– Anda só buscar o tabuleiro com a comida.
– Não quero!
– Bella! – chamou mais alto – Olha que eu vou arrombar a porta!
Aquilo não funcionou, Bella apenas retribuiu o grito:
– Se assim o fizeres, odiar-te-ei para sempre!
Hansen piscou. Sua irmã jamais fora grosseira consigo, e ele apenas conseguia culpar aquele que ela amava. Ele estava roubando Bella de si, e a estava fazendo o odiar.
Ele detestou quem quer que fosse.
– Pois eu não saio daqui até tu abrires a porta.
Perante o silêncio da irmã, Hansen sentou-se no chão, as costas na porta do quarto de Bella.
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