O Som Do Coração
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Capítulo XV:
Bella caminhava de um lado ao outro de se quarto, soluçando baixinho.
Ela nunca pensara que pudesse sentir tanta raiva de Luciano! Como ele tivera coragem de lhe trair e dizer ao holandês que estava apaixonada? Claro, ela estava com tanta raiva que ignorava – ou havia esquecido – que Luciano apenas lhe dera um conselho de se declarar para Hansen.
Chorando, magoada e assustada, a belga limpou o rosto como pode, vestiu seu casaco e pegou uma mala pequena de cima de sua cama, seguindo para a porta.
Ao abri-la, entretanto, ela não contava que seu irmão realmente estivesse a sua porta, lhe esperando. Quando sentiu a porta abrindo, Hansen ergueu-se de imediato e encarou o semblante choroso de Bella. Franziu o cenho ao vê-la de casaco, e sentiu o coração acelerar ao ver que ela segurava uma mala.
– Bella... – ele deu um passo a frente, ela recuou outro – Para que essa mala?
A belga desviou o olhar para o chão. Não conseguia encarar Hansen.
– Vou-me embora. Não posso mais viver cá.
Ficou a encará-la, mudo. Ela não se podia ir embora assim do nada, por um motivo tão idiota.
Cruzou os braços e bloqueou a passagem do quarto.
– Bella... Tu não confias em mim? É isso?
Bella não disse nada. Não havia o que se dizer.
Hansen continuou com o olhar fixo na figura pequena a sua frente, o estômago revirando, o coração acelerado, o medo de perder Bella para sempre fazendo-o perder a paciência.
– Diz-me. – ele tentou manter a voz calma, mas estava falhando – Diz-me quem é ele.
– Não.
– Diz-me.
A loira balançou a cabeça, voltando a lacrimejar.
– Não posso. Me vais odiar.
Hansen piscou e segurou a irmã pelos ombros, tentando fazê-la lhe encarar. Sem sucesso.
– Não me digas que... Amas aquele Felipe?
Bella ergueu o rosto, incrédula:
– O que? N-não!
– Então é quem? Ainda gostas do Antônio?
A mais jovem fez uma careta. Sempre considerara Antônio seu amigo, porém seu irmão morria de ciúmes dos dois, mesmo após o espanhol casar-se com Lovina.
– C-claro que não! – ela garantiu, perdendo também a paciência.
Hansen, então, aumentou o tom de voz, uma vez que Bella estava sempre se esquivando.
– Então diz-me!
A belga tentou fugir da verdade. Deixou sua mala cair no chão e espalmou as mãos no peito do irmão, tentando empurrá-lo. Porém Hansen estava tão magoado, temendo perder a mais jovem, que não permitiu seu afastamento.
– Diz-me! Quem tu amas?
Sua voz se tornou mais firme e desesperada, e Bella cedeu:
– Tu! Eu amo-te! – a loira passou a chorar outra vez, a voz enfraquecendo aos poucos – Eu amo-te... Amo-te, amo-te, amo-te...
Hansen encarou-a em choque, o seu coração quase saindo pelo peito com aquela revelação assim tão bruta e inesperada... Então era de si que ela gostava?
Não lhe conseguiu dar uma reposta imediata e o silêncio causado foi assustador para a loira.
Bella tentava ocultar as lágrimas com as mãos e foi como se tivessem esmagado o seu coração quando ouviu o mais velho rir. Olhou para cima, em pânico. O holandês quase nunca ria assim e fazê-lo justamente naquela situação era... Doloroso.
Apertou as mãos num punho, sentindo-se humilhada e tentou tirá-lo da sua frente. Mas, delicado como sempre, o loiro segurou-a e fê-la levantar o queixo.
– Não me vais deixar aqui depois de uma coisa dessas, pois não?
A expressão confusa dela aumentou e antes que pudesse tentar fugir de si novamente, Hansen baixou-se um pouco e beijou-a.
Bella sentiu seu coração pular uma batida, e ela apartou o beijo rapidamente, deixando Hansen confuso. A belga cobriu a boca e encarou o irmão. Estaria ele brincando consigo?
Desta vez era ele quem tinha uma expressão mais confusa ainda e foi corando progressivamente até ficar rubro.
– Eu-- – afastou-se também um pouco e desviou o olhar, murmurando – Faz muito tempo que eu... Gosto de ti de outra forma só que... Eu não devia ter rido, desculpa. Só achei engraçado porque andei todo este tempo a achar que me odiarias caso eu... Me declarasse e... Desculpa.
A menor piscou gradativamente seus olhos, encarando o semblante do irmão por algum tempo. Ele ficava simplesmente adorável com o rosto corado, e descobrir que Hansen gostava de si de outra forma e que ele desejava beijá-la fez o coração de Bella aquecer-se, derreter-se e apaixonar-se outra vez.
Então ela sorriu-lhe.
Tomando o irmão pelas mãos, a belga puxou Hansen para dentro de seu quarto e fechou a porta – tendo de chutar a mala para um canto quando esta trancou a porta na metade do caminho. Eles não desviavam o olhar um do outro, e assim que estavam devidamente fechados no quarto da belga, Bella retirou seu casaco e abraçou o irmão pelo pescoço, apertando-o de leve.
– Amo-te. Eu sempre te amei. – ela enrubesceu também, mas agora não tinha motivos para mentir – Desde criança, ainda com a mamãe e o papai conosco... Eu sempre te amei...
Ele abraçou-a pela cintura e puxou para mais perto, levantando-a um pouco para que a diferença de alturas não fosse não tão grande.
– Eu não posso dizer que te amo à tanto tempo assim. – sorriu atrapalhado, mas feliz da vida – Mas desde que a mãe morreu eu... Comecei a sentir-me diferente e...
Hansen tinha seus dezesseis anos quando a mãe deles falecera, vítima de leucemia. Bella culpava a doença pelo comportamento às vezes grosseiro de Abigaël. Naquela época, a belga era uma pré-adolescente que fazia jus ao seu nome, e aquela fase mais moleca estava um pouco reprimida.
O holandês se apaixonou por ela ao vê-la com um lindo vestido florido, entre as tulipas da mansão, que logo seria a pensão.
Bella sorriu, afastando-se um pouco apenas para encarar os olhos verdíssimos de Hansen. Assim que seus olhares se encontraram, a loira fechou seus olhos e inclinou-se para frente.
– Amo-te.
Ela repetiu e estremeceu ao sentir seu irmão a apertando um pouco mais, colando os corpos. Então, Bella tomou coragem e, sem fugir, entrelaçou seus dedos direitos pelos cabelos macios de Hansen e o beijou timidamente.
O mais velho não conseguiu evitar sorrir um pouco e baixou-se ligeiramente para que ela não tivesse de se esticar tanto.
Repetiu o gesto e acarinhou-lhe a nuca, mantendo-a assim perto de si. De forma tímida aprofundou um pouco mais o beijo.
Bella suspirou profundamente, permitindo que seu irmão aprofundasse o beijo.
Puxou o mais velho para mais perto e gemeu baixinho entre o beijo quando Hansen lhe acarinhou as costas, uma de suas zonas erógenas.
Acanhada, se afastou um pouco.
– D-desculpa...
Hansen deu um pequeno sorriso e tornou a puxá-la para outro beijo. Após tanto tempo a controlar os seus sentimentos tudo o que menos queria era afastar-se dela. Os seus lábios sabiam a baunilha, talvez por causa do batom que ela sempre usava, e aquilo dava ainda mais vontade de a beijar.
Ela suspirou, sentindo seu irmão conduzir-lhe em direção a cama. Bella permitiu que Hansen a deitasse, e puxou o mais velho para si e o acomodou entre suas pernas, a barra de seu vestido subindo um pouco.
Hansen cessou o beijo para poder respirar e desceu um pouco o rosto, beijando levemente o pescoço dela. Ela cheirava bem, um cheirinho adocicado a perfume que o holandês gostava imenso.
Bella suspirou profundamente e assim que o holandês lhe mordiscou a jugular, ela não conseguiu evitar outro gemido.
Afastando-se de leve, Hansen encarou a irmã nos olhos, e ela enrubesceu mais ainda.
– Bella, eu...
A belga sorriu timidamente, acarinhando os lábios do irmão com seu polegar esquerdo. Apertou de leve suas pernas na lateral dos quadris de Hansen e acomodou-se sob ele, deslizando sua mão para a nuca do mais velho e o puxando para baixo mais uma vez.
– Sim. – ela declarou, beijando o irmão de novo.
Lentamente, tanto por medo de assustar Bella por causa de toda a situação que ela tinha passado como para aproveitar cada toque e carinho, Hansen puxou-a um pouco para cima pela cintura e depois escorregou as mãos mais para baixo, acarinhando-lhe as pernas até à dobra do joelho.
Cada toque, cada beijo e cada suspiro incentivava Hansen a avançar. Bella parecia induzir-se pelos carinhos do irmão, e cada peça de roupa retirada era uma excitação a mais para ambos.
Após muitos afagos, os irmãos já se encontravam nus, e o holandês se afastou um pouco para contemplar a beleza de Bella, que corou mais um pouco e sorriu acanhada.
– N-não me olhes, irmãozão!
Ele sorriu um pouco e beijou-lhe a clavícula, mordiscando de seguida.
– Não me chames isso, chamares-me de “irmão” agora soa estranho. – disse em tom de brincadeira e deixou-lhe um leve chupão perto do ombro – Mas eu quero olhar para ti.
A belga soltou outro gemido, mantendo o rosto de Hansen próximo ao seu colo ao segurá-lo pela nuca. Hansen sorriu e prosseguiu com suas mordidas, descendo as carícias até o seio direito da mais jovem, passando a brincar com o bico róseo e rijo.
– E-e... – outro gemido – C-como eu te devia chamar...?
Hansen não conseguiu evitar outro riso, achando a timidez de Bella uma graça. Ele não sabia que aquela era a primeira vez de sua irmã, nem que ela não sabia o que fazer.
– Pelo meu nome. – ele murmurou ao pé de seu ouvido, gostando de brincar com o lóbulo pequeno e delicado dela.
– H-Hans-- – Bella mordiscou o lábio inferior ao sentir a mão de Hansen descendo e descendo.
Assim que o mais velho esfregou seus dedos sobre a intimidade nua e úmida de Bella, a jovem apertou os dedos sobre os ombros de Hansen – que lhe beijava os seios outra vez – e arquejou, gemendo baixinho:
– H-Hansen!
O holandês suspirou em contentamento, por a ouvir gemer, ainda que baixo.
Subiu as suas mordidas e beijos até à orelha dela e sentiu que a belga lhe apertava um pouco mais os ombros. Preocupado que tivesse a fazer alguma coisa que ela não quisesse, afastou-se um pouco para a encarar.
– Tudo bem?
Bella abriu um pouco os olhos, a face retorcida em prazer. Sem conseguir verbalizar coisa alguma, tomou coragem e levou a mão esquerda até sobre a direita de Hansen, movendo-a e fazendo o irmão deslizar os dedos sobre seu clitóris, não resistindo e gemendo um pouco mais alto.
– A-Assim...!
O holandês gemeu baixo, gostando daquele lado da loira que ele não conhecia ainda. Pressionou mais os seus dedos, procurando forma de ouvir mais aquela voz meiga e agora suplicante.
Arrastou o seu corpo um pouco mais para cima e passou a deixar marcas pelo pescoço dela.
A loira gemia – talvez se esquecendo de que não podia fazer barulho – e se contorcia, voltando a abraçar Hansen, agora pelo tronco, ao perceber que ele a tocaria onde ela desejava. Bella mantinha os olhos fechados e os lábios entreabertos, gemendo ao pé do ouvido do holandês sem perceber que aquilo o deixava louco.
De tão úmida que Bella estava, os dedos de Hansen deslizavam com facilidade, o que o permitia por mais pressão em suas carícias, fazendo a belga se retorcer.
– H-Han--!
Arranhando as costas do irmão desde os ombros, a loira moveu mais rapidamente seus quadris antes de fechar as pernas e gemer contra a jugular do irmão. Se não fosse o gemido cheio de prazer unido aos espasmos e o líquido quente e de cheiro forte escorrendo pelas pernas de Bella e molhando sua mão, Hansen pensaria que sua irmã desejava parar as carícias. Entretanto, a confirmação de que ela atingira o orgasmo por culpa sua o excitou ainda mais.
– Bella...
Um pouco mais alterado do que desejava, Hansen voltou a abrir as pernas de Bella, empurrando a perna esquerda da mais jovem ao apoiar sua mão na coxa dela. Ainda ofegante, a belga permitiu os movimentos do irmão, abraçando-o pelo pescoço mais uma vez.
Excitado, ansioso e faminto, o holandês não conseguiu se conter e após acomodar sua glande na entrada de Bella, penetrou-a numa estocada firme e certeira.
O gemido de resposta, falho e doloroso, e uma certa barreira natural dela o assustou, e Hansen ergueu o olhar para encará-la.
Não podia ser...
– B-Bella... Tu eras... – ele piscou, atrapalhado e nervoso – T-tu nunca...
A belga, ainda arfando devido a dor, balançou a cabeça para os lados, os olhos fechados:
– E-eu nunca... – respirou profundamente – N-nunca consegui me entregar a ninguém... E-eu sempre f-fui tua...
O holandês corou adoravelmente e segurou-a pela cintura, acarinhando-lhe as laterais do corpo com os polegares.
Devia ter sido mais cuidadoso mas... Agora já era.
Ao notar que ele se tinha atrapalhado, Bella respirou fundo, tentando acalmar a respiração e moveu um pouco as ancas, incentivando-o a continuar.
Fora a vez de Hansen gemer, suas sobrancelhas sendo franzidas enquanto ele rangia os dentes.
– D-desculpa-me... – ele disse num meio gemido e segurou firmemente a irmã pela cintura, iniciando seus movimentos.
Bella arqueou as costas e agarrou nos cabelos da nuca do mais velho, puxando-o para um beijo necessitado que foi de imediato retribuído.
Apesar da dor, ela sentia que o loiro estava a se bem cuidadoso e por isso decidiu confiar nele para guiar os seus movimentos.
Ainda havia o desconforto, a ardência da fricção continuava. Entretanto, sexo não era apenas a penetração. Os beijos, os gemidos, o amor... Aquilo tudo fazia a dor sumir, e logo aquela fricção se tornou o puro prazer, e Bella gemia docemente:
– M-mais!
O holandês obedecia aos pedidos dela, sempre tendo atenção para certificar-se que ela estava bem. Gostava de a ter assim pertinho de si e a fazer aqueles barulhos adoráveis.
Tirou uma mão da cintura dela, deixando-a guiar os movimentos e agarrou-lhe na mão, acarinhando levemente os seus dedos.
No meio do clima, a belga demorou para perceber que estava de mãos dadas com Hansen, embora retribuíra o contato imediatamente, por reflexo. Por ser a primeira vez da mais jovem e pelo fato de ela ser um pouco tímida, o holandês preferiu manter-se sobre ela, impedindo qualquer constrangimento.
Bella, entretanto, não ligava muito para aquilo naquele momento.
Primeiro ela inclinou-se para frente, tomando os lábios macios e com gosto de tabaco de Hansen, fazendo seu irmão recuar para que não acabassem por se bater e se machucar. Em seguida, usou a mão direita como apoio e segurou a nuca do maior com a esquerda, empurrando a cabeça do holandês para o lado, invertendo as posições e sentando-se ao colo dele.
A nova posição permitia que Hansen a penetrasse ainda mais fundo, e um gemido mais agudo escapou por seus lábios rubros por culpa das mordidas que trocaram.
Hansen estaria a mentir se dissesse que não gostou daquele movimento inesperado. Gemeu rouco, baixo, lutando contra a sua vontade de a puxar para baixo com mais força. Ele tentava ser o mais delicado possível porque tinha muito medo de a magoar, mas ela parecia desafiá-lo, mesmo que sem intenção, e o holandês não resistiu em segurá-la pela cintura e fazê-la mover-se um pouco mais rápido.
Pega de surpresa, Bella não conseguiu fazer muita coisa a não ser gemer adoravelmente e obedecer ao irmão, movendo-se rapidamente sobre seu colo.
Antes com as mãos nos ombros de Hansen, Bella agora segurava o rosto do mais velho com ambas as mãos. Ela desejava beijá-lo – sempre desejara aqueles lábios finos e com eterno gosto de tabaco, e agora que ela os tinha não queria perder um beijo sequer –, porém estava tão excitada e sua respiração encontrava-se tão falha que a belga só conseguia roçar seus lábios nos do irmão, a respiração quente e entrecortada deles se mesclando. Baunilha e tabaco.
Mantendo as mãos na cintura de Bella, e volta e meia lhe acarinhando as coxas, Hansen conseguia a façanha de fazer sua virilha esfregar deleitosamente no clitóris da irmã, e logo a loira voltava a estremecer, arranhando de leve a nuca do holandês.
– Hans...! – ela chamou antes de se inclinar para frente e morder com vontade a jugular de Hansen.
Não demorou meio segundo, e Hansen conseguiu ouvir Bella gemer contra seu pescoço outra vez, e a prova do orgasmo escorrer por entre as pernas dela, envolvendo seu pênis e molhando também suas pernas.
A sensação prazerosa de conceder o orgasmo para Bella, sua Bella, foi o limite de Hansen. Ainda sentindo os espasmos provenientes do clímax da irmã, o holandês puxou-a para um beijo e, em suas últimas estocadas, fortes e firmes, ele também atingiu seu prazer máximo, ejaculando antes de tombar para a direita e trazer a menor consigo, ambos exaustos.
A belga enroscou-se junto dele, abraçando-o pelo tronco para o manter perto de si. O corpo do mais velho era quente e confortável e Bella sorriu ao ouvir o coração dele bater perto dos seus ouvidos.
A respiração de ambos ainda era ofegante e o holandês ainda mal conseguia falar por isso retribuiu o abraço e começou a brincar com os cabelos dela.
O carinho fez a belga sorrir ainda mais, o calor e o prazer fornecido por Hansen ainda percorria seu corpo, e Bella não conseguia acreditar que sua primeira vez fora tão especial.
E nem que seu grande amor era correspondido.
Apoiando-se em seu cotovelo esquerdo, Bella encarou Hansen nos olhos, acarinhando-lhe o peito nu com os dedos direitos.
– Hans? – esse seria seu apelido a partir daquele momento – Estavas a ser sincero quando dissestes que gostas de mim?
Ele abriu os olhos para a encarar e esticou o braço para lhe tirar o cabelo da frente do rosto.
– Claro que sim. Eu nunca avançaria contigo se não estivesse a ser sincero.
Bella sorriu antes de se inclinar para baixo e tomar os lábios de Hansen, seu novo vício.
– Amo-te, Hans~
O holandês sorriu e abraçou-a pelo pescoço, trazendo-a para o seu peito.
– Eu também te amo, Bella. – murmurou depois de se afastar do beijo para respirar.
A belga ajeitou-se no abraço e suspirou em contentamento, sentindo o forte cheiro de sexo misturado com o de fumo. Sorrindo, ela beijou a bochecha de Hansen e sentiu seu irmão lhe cobrindo com o edredom.
Ele tinha sono mas não queria dormir... Suspirou profundamente e apertou o abraço mantendo-a perto de si.
Beijou-lhe a testa e murmurou:
– Boa noite...
Sorrindo ternamente, a belga beijou o pescoço do mais velho e murmurou outra vez que o amava, adormecendo em seguida.
O holandês ficou a observá-la dormir por uns momentos, feliz da vida por finalmente a poder ter ao seu lado sem medo que ela o odiasse.
Não demorou muito para adormecer também.
~※~
Afonso, como sempre, acordou cedo no dia seguinte. Só se lembrou que Luciano estava em sua casa quando chegou à sala e o viu dormir todo enroscado no cobertor.
Foi fazer o pequeno-almoço, o mais silenciosamente possível. Para si, fez apenas um pouco de leite com chocolate mas para Luciano preparou um pão com Nutella e outro com queijo e fiambre por não saber o que ele costumava comer.
Seguiu para a sala e ajoelhou-se em frente ao brasileiro, acarinhando-lhe levemente a bochecha.
– Luci...? São horas de acordar...
Luciano apertou os olhos antes de abri-los, demorando para se situar na casa de Afonso.
– Hn... Bom dia, chefinho.
O português sorriu um pouco e afastou-lhe o cabelo da testa.
– Trouxe-te o pequeno-almoço, come enquanto eu tomo banho.
O brasileiro sentou-se no sofá e coçou os olhos, sonolento.
– Obrigado...
– De nada. – levantou-se e foi ao seu quarto buscar roupa, bocejando pelo caminho enquanto procurava inutilmente ajeitar o seu cabelo.
De seguida foi para a casa de banho tomar o seu banho.
Luciano levantou-se e seguiu para a cozinha. Entretanto, ficou acanhado sobre o que podia ou não comer, então acabou por ficar parado, encarando a comida.
Afonso demorou um pouco mais do que o necessário a tomar banho porque tinha de secar o seu cabelo e tentar “domar a juba” para ela ficar apresentável.
Depois de terminar, saiu da casa de banho e passou pela sala para ir até ao quarto novamente.
– A casa de banho está livre.
O mais jovem continuou encarando a comida, o que chamou a atenção de Afonso.
– Luci? Que houve?
Corando, balbuciou:
– Não sabia o que eu podia comer...
O lusitano encarou-o por um momento e depois começou a rir:
– Podes comer o que quiseres, faz como se tivesses em casa. – foi ao quarto e voltou com um laço para prender o cabelo– Eu não te quero a passar fome! – começou então a apontar para os armários da cozinha – Ali tem bolachas, naquele são as massas e arroz... – continuou a enumerar onde estavam todo o tipo de ingredientes e também os utensílios de cozinha.
Luciano prestou atenção em tudo, tentando memorizar cada lugar.
Assim que o português sentou ao seu lado, baixou a cabeça e pegou um pão, mordendo-o e murmurando de boca cheia, ainda um pouco deprimido.
– Não quero incomodar... Prometo achar um lugar para ficar o quanto antes...
O mais velho abanou com a cabeça.
– Não incomodas e se fizeres isso vou ficar ofendido. – pegou no seu copo de leite e bebeu de uma vez.
O moreno piscou e voltou a baixar a cabeça, os olhos fixos no pão com Nutella.
O que devia fazer? Não queria ser um estorvo na vida de Afonso, mas ele acabara por gostar daquela pequena demonstração de afeto. Afinal, aquilo significava que o europeu gostava de si ao ponto de querê-lo por perto.
– O que tem no pão? É bom.
O português voltou a pestanejar.
– Hum...Chocolate.
Levantou-se e foi lavar o seu copo, passando depois um pano pelo balcão para limpar as migalhas.
– Tá... Mas e o que mais? – mordeu novamente o pão, imaginando atrapalhar – Não tem gosto só de chocolate...
Afonso olhou pelo ombro para o encarar, uma expressão de pura confusão plantada no seu rosto.
– Mas tem só chocolate mesmo.
Luciano enfiou o último quarto do pão na boca e piscou ao ver o pote de Nutella, lendo o rótulo.
– É chocolate com avelã.
O outro riu ao entender e voltou a concentrar-se no balcão.
– Obviamente. Aqui só se consome o melhor tipo de chocolate.
Luciano se levantou e levou seu prato para a pia, já sabendo que, mesmo que insistisse, Afonso não o deixaria lavar a louça.
– Eu gosto de avelã. Minha mãe era alérgica.
Ele de imediato pegou no prato para lavar.
– Curioso... – comentou – A minha também era.
O mais jovem mordeu a ponta do polegar por um momento, logo pondo a pedra de seu colar na boca outra vez.
– Era chato, porque a mãe tinha que usar luvas para me fazer doces com avelã até que eu tivesse idade para cozinhar... – a pedra rolou por sua língua, batendo em seus dentes e fazendo um barulho característico – Mas ela nunca deixou de fazer nada com avelã para mim...
O português ficou calado por uns momentos e arriscou perguntar algo que já lhe tinha passado pela cabeça antes:
– Luci...? Desculpa se a pergunta é indiscreta, eu... Eu não me queria meter na vida... Só que... A forma com que falas da tua mãe... Está tudo bem com ela?
Ao ouvir um longo e baixo suspiro escapar dos lábios de Luciano – lábios que o europeu estava tentado a morder mais uma vez –, Afonso sentiu-se arrepiar, nervoso ao acreditar que estava invadindo a privacidade do mais jovem e que ele podia não gostar.
Já havia aberto a boca para se desculpar e dizer que não era nada da sua conta quando Luciano declarou, rápida e puramente:
– Ela morreu quando eu tinha nove anos.
O português levantou o olhar para o encarar mas a expressão de Luciano mantinha-se igual, distante.
Suspirou profundamente e olhou para baixo:
– Lamento imenso...
Luciano encostou-se na bancada da pia, cruzando os braços.
– Tudo bem... Já passou...
Voltou a suspirar. Ele sabia o quanto aquilo devia doer... Era um dos assuntos que sempre era melhor evitar.
– Desculpa... Eu não me volto a meter na tua vida. – limpou as migalhas de cima da mesa e retomou ao quarto para fazer a cama.
Luciano suspirou e seguiu para o quarto de Afonso, batendo na porta e ficando no corredor.
– Chefinho? Está tudo bem...
– Não sou “chefinho”. – o português olhou pelo ombro sorrindo um pouco e voltou a suspirar – Sim, tudo bem. Só me sinto culpado por tocar num assunto delicado, desculpa.
Luciano também sorriu, cruzando novamente e encostou-se no marco da porta.
– Dá nada. Só tenho lembranças incríveis da mãe.
Afonso terminou de fazer a cama em silêncio e procurou na gaveta da sua mesinha de cabeceira por algo. Quando encontrou o que procurava – uma fotografia antiga de uma senhora de cabelo longo e olhos muito verdes com Afonso ainda pequenino e sorridente ao colo – entregou a Luciano.
– Eu entendo... Pensar nela acalma-me... Sempre.
Observando atentamente a foto, o brasileiro sorriu.
– Você é a cara da sua mãe. Tem o sorriso dela...
O mais velho corou um pouco e abanou negativamente com a cabeça:
– N-Nada a ver. O António é mais parecido com ela que eu.
Luciano riu e balançou a cabeça também:
– Nah. Vocês tem a mesma covinha na bochecha esquerda. – piscou-lhe o olho e em seguida estendeu a foto para Afonso.
Assim que o europeu recuperou a foto, Luciano lhe puxou pelo pulso para perto, sempre sorrindo. O primeiro pensamento de Afonso foi que Luciano o beijaria, porém o brasileiro apenas puxou o mais velho até a sala, onde o soltou e passou a futricar as calças que vestira no dia anterior, procurando algo em sua carteira.
– Achei! – ele riu ao encontrar uma foto, mostrando-a para Afonso: no colo de seus pais, estava o bebê Luciano, de apenas meio ano de vida – É a única foto de nós três... Meu pai morreu na semana seguinte.
– Lamento imenso... – repetiu, ainda encarando a foto.
Havia pessoas que sofriam tanto durante a sua vida... Observou bem o pequeno Luciano e sorriu um pouco, dizendo apenas por brincadeira:
– Já eras gorducho na altura? A tua mãe era muito bonita.
Mais uma vez Luciano apertou sua própria barriga, murmurando:
– Só não estou tão forte porque parei de jogar e nadar... Mas eu não 'tô gordo. – fez bico – Não tenho lembranças do meu pai... – sorriu – Mas a mãe dizia que ele era um bom homem. – apontou para a foto – Minha mãe é filha de índio com alemã, meu pai era negro. Já viu que o namoro não foi bem-visto pela minha avó, mas...
O português abanou com a cabeça com um certo divertimento por ele se preocupar tanto com a sua “gordura” e depois levantou os olhos da foto para o encarar.
– Por que não? É conservadora?
O mais jovem coçou a nuca, procurando as palavras certas.
– É. Podemos falar isso. – suspirou – Minha família é do sul do Brasil, e lá eles são um pouco mais... “brutos”. Não que sejam grosseiros ou mal-educados, mas eles tendem a manter as tradições e são poucos os mais liberais. – acarinhou a foto na mão de Afonso, sorrindo outra vez. Aquele sorriso que encantava o europeu – O engraçado é que ela se casou com meu avô, um indígena, mas não queria a mãe com o pai por ele ser negro.
Afonso não conseguiu evitar rir com a hipocrisia, e voltou a encarar a foto. Luciano tinha o sorriso do pai, mas os olhos da mãe.
– Talvez tivesse algum motivo para desconfiar dele ou qualquer coisa. As pessoas de idade tem sempre uma mente mais fechada. – entregou-lhe a foto e sorriu um pouco – Herdaste os olhos bonitos dela.
Luciano piscou e enrubesceu lentamente, desviando o olhar enquanto pegava a foto e guardava na carteira.
– Obrigado...
Afonso achou adorável que ele tivesse corado e teve uma vontade enorme de lhe apertar as bochechas e beijá-lo de novo mas... não podia.
– De nada, acho. – bocejou e espreguiçou-se, ainda não tinha espantado bem o sono e comentou: – Não me apetece ir trabalhar.
Luciano riu e deixou sua carteira sobre a mesa de centro, começando a ajeitar a sua cama improvisada, dobrando os lençóis e os empilhando num canto do sofá.
– Simples: não vá trabalhar.
Afonso deu uma gargalhada e sentou-se no parapeito da janela à espera dele.
– A Colubris não abre sozinha, parvo.
O mais jovem sorriu, sereno.
– Não. Mas eu posso abrir ela enquanto você descansa. – encarou o menor – É o mínimo que eu posso fazer para recompensar você.
Aquele sorriso fazia o seu coração acelerar um pouco.
Olhou pela janela e como chovia tanto... Enfim, ele era o patrão.
– Agradeço mas não... Tu estás cansado também e... Hoje é sexta feira. Podíamos tirar o dia de folga?
Luciano piscou, em seguida rindo.
– Você é o chefe, chefinho. – sorriu – Então o almoço é por minha conta.
– Okey, quero provar essa feijoada~ Mas faço eu a sobremesa. – saltou para o chão e pegou numa vassoura – Vou limpar a lareira para poder acender à tarde, se precisares de alguma coisa, chama.
O brasileiro se espreguiçou e coçou os olhos. Antes de qualquer coisa – afinal ainda era cedo para começar a fazer o almoço –, iria se lavar e se trocar. Como ainda estava um pouco tímido na casa de Afonso, optou apenas por tirar o pijama, deixando o banho matinal para mais tarde.
Luciano detestava a sensação de estar sujo, porém seu acanhamento era ainda maior que sei desconforto.
Após devidamente vestido – com uma camisa de flanela sobre uma de manga curta, uma vez que não estava assim tão frio –, Luciano seguiu para a sala e observou Afonso limpar a lareira, coçando a nuca em seguida:
– Chefinho? Posso ver na geladeira e nos armários se tem os ingredientes que eu preciso?
Levantou-se muito rápido, porque se assustou com a voz dele por estar demasiado concentrado e tossiu por causa de uma nuvem de cinza que se levantou junto.
– Já disse para fazeres como se estivesses em casa, sim?
Luciano se aproximou de Afonso e ajudou-o a sacudir as cinzas de sobre sua roupa, dando leves batidinhas. Brincando, riu:
– Uia. Quer dizer que posso andar por aí sem camisa?
Afonso corou um pouco só de imaginar e pestanejou, rindo um pouco depois:
– Não quero nudismo na minha casa, obrigado.
O brasileiro voltou a sorrir, oferecendo ajuda para que Afonso levantasse.
– Viu? Então não posso “fazer como se estivesses em casa”. – tentou imitar o mais velho, rindo em seguida.
Aceitou a ajuda e levantou-se, sacudindo as cinzas do cabelo.
– Adorável, mas eu não falo como um alentejano. – disse a brincar.
Luciano piscou os olhos.
– Como um o que? Isso é de comer?
O português ficou a encará-lo confuso mas desmanchou-se a rir:
– Não! Mas fazem comida boa-- São os habitantes do Alentejo, uma zona a sul de Portugal.
O mais jovem piscou outra vez, rindo em seguida.
– Aah! – sorriu – Mas eles falam engraçado como você?
O mais velho corou e fez beiço.
– Eu não “falo engraçado” tu é que falas. Os alentejanos falam diferente de nós aqui no norte.
O brasileiro lhe fez cócegas.
– Você fala engraçado sim~ – riu.
Começou a rir ás gargalhada e a corar mal as cócegas começaram.
– N-Não falo nada! C-Cócegas não!
Lembrando-se do resultado das últimas cócegas que fizera em Afonso, Luciano parou com a brincadeira e murmurou um pedido de desculpas.
– Vou procurar os ingredientes.
Acenou com a cabeça e sentou-se no sofá.
– E eu vou ler quanto tu fazes isso, empregadinho. – pegou num dos livros que Luciano lhe tinha dado de prenda: o último pois já havia lido os outros.
– Yes, my lord. – Afonso ouviu da cozinha, rindo em seguida.
Após uma hora, um cheiro maravilhoso de feijão sendo cozido invadiu a casa do europeu, e Luciano chamou:
– Chefinho, onde está o sal?
O português aproximou-se dele, pousando o livro sobre a mesa e quis espreitar para a panela, mas como o brasileiro era demasiado alto, segurou-se na cintura dele e poiou a cabeça no ombro esquerdo, sorrindo ao ver o aspecto da feijoada.
– Parece boa... – afastou-se para lhe chegar o sal – Aqui está.
A forma como Afonso se aproximou de si deixou Luciano embaraçado, mas contente. Gostava de ter o menor por perto.
Ao pegar o sal, temperou o feijão e provou, estendendo a colher para Afonso experimentar.
– Vê se está bom de sal.
O português bufou na colher para o caso de estar demasiado quente e provou.
– ...Hum~ Está tão bom!
Aquele lindo sorriso de Luciano voltou, e o brasileiro continuou cozinhando.
– Agora eu cozinho o feijão por um tempinho e depois despejo as carnes. – fechou a panela – Pode começar a sobremesa~
– Sim, chefe. – sorriu e foi buscar os ingredientes para fazer um simples bolo de chocolate.
Mas para seu embaraço, nunca conseguia chegar ao armário de cima onde tinha a farinha. Suspirou e subiu para cima do balcão, ficando de joelhos para chegar à porta.
Porém, ao abrir, o pacote caiu abaixo e por estar aberto, fez uma nuvem de farinha pela cozinha toda.
– ... ups.
Luciano começou a tossir, desligando o fogo por precaução, balançando as mãos em frente ao rosto por culpa da farinha. Quando Afonso olhou para si, começou a rir: o brasileiro tinha o cabelo todo coberto pelo alimento, estando quase que completamente branco.
– Está rindo – tossiu outra vez – de que?
– De ti! Estás todo branco! – sentou-se no balcão e continuou a rir feito idiota – Brasileiro enfarinhado~
– P-para de rir! – o mais jovem pediu, porém sua expressão atrapalhada só piorou o estado de Afonso, que riu ainda mais – C-chefinho...!
De nada adiantava: um brasileiro fofo, com uma expressão fofa e coberto de farinha era engraçado demais para que Afonso resistisse. Curvando o tronco para frente e abraçando a própria barriga, gargalhou.
– Você quem pediu. – Luciano advertiu antes de pegar um dos ovos separados por Afonso e quebrá-lo na cabeça do português – Pronto! Portuguesinho cabelo de ovo~
– O-O MEU CABELO! – ele ganiu ao sentir a gema do ovo deixar o seu cabelo peganhento.
Mas Luciano que não esperasse pela demora!
Mal o brasileiro virou costas, Afonso pegou no frasco de chantily e aproximou-se dele sorrateiramente, despejado o doce na sua mão. Saltou-lhe para as costas bateu com a mão na testa do moreno, sujando-o com chantily.
– Mas o-- – mal percebeu o doce escorrendo pela sua testa, Luciano riu e puxou Afonso pelo pulso, devolvendo o chantily ao esfregá-lo na boca do menor – Gosta de chantily, che-fi-nho?
O português reclamou, claro, mas era tarde demais.
Esticou o braço e pegou no chocolate líquido que tinha num frasco para fazer a cobertura e voltou a fazer o mesmo, desta vez esfregando a mão pelos lábios dele:
– Gostas de chocolate, Lucizinho?
Luciano, de bom humor, riu e lambeu os dedos de Afonso enquanto jogava farinha no rosto dele.
– Adoro.
Roubou-lhe o chantily e começou a tentar desenhar um bigode.
– Mas isso faz muito mal~ E de bigodes, gostas?
O brasileiro começou a andar para trás e por estar a segurar o pulso de Afonso trouxe-o consigo.
– Nem pense, chefinho~
– E por que não? Assim um bigode de Salvador Dali--? Luci, cuidado com o sofá--
– N-Não! – deu um passo maior e desequilibrou-se, caindo no sofá.
Afonso, claro, foi junto, e o português acabou por cair sobre Luciano, as testas se batendo. Por instinto, o brasileiro segurou firmemente o mais velho, levando a mão suja de chantily até sua testa, esfregando o local dolorido.
– Ugh... Tudo bem aí? – ergueu a cabeça e encarou o menor, as faces próximas – Você se machucou?
Afonso reclamou baixinho e esfregou a própria testa.
– Não mas-- – quando se percebeu demasiado próximo de Luciano, corou – Mas agora estou cheio de farinha por tua culpa, malvado~
O brasileiro riu e mostrou-lhe a língua.
– Oras bolas. Você quem implicou comigo. – deu de ombros – Nós brasileiros não somos de levar desaforo para casa.
– Os espanhóis dizem que os portugueses são teimosos. E eu não deixo ninguém sair victorioso depois de me sujar o cabelo. – sorriu de lado e deixou-lhe um bocadinho de chantily na ponta do nariz.
Luciano sorriu também e pôs a língua para fora outra vez, tentando lamber o doce de seu próprio nariz, falhando vergonhosamente.
Afonso sorriu e ficou a observá-lo com algum divertimento.
– Assim não vais lá. – comentou e apoiou-se no peito dele como uma esfinge, tirando-lhe a “nuvem” de chantily com a ponta do dedo indicador e comendo-a.
Luciano riu, implicando com Afonso:
– Mas que safado! Suja meu rosto e ainda come o meu doce! – aproveitou que ainda tinha chocolate nos lábios e esfregou-os nos de Afonso, sorridente. – Toma, esfomeado!
Afonso encarou-o um pouco surpreso, corando bastante ao sentir os lábios dele tão perto. Encarou-o timidamente, sem ter muito bem a certeza do que o outro estava a pedir... Fechou os olhos e mordiscou-lhe o lábio inferior, lambendo-o subtilmente por ser doce e cheio de chocolate.
O brasileiro não sabia se piscava, fechava os olhos, mantinha-os abertos ou suspirava. No fim, fez tudo em sequência – arregalando bem os olhos antes de piscá-los e fechá-los – e também mordiscou o lábio inferior de Afonso.
– Você também tem chocolate na boca... – ele murmurou, como se Afonso lhe cobrasse uma explicação.
Luciano havia feito uma brincadeira no meio de outra. Estava tão acostumado com aquele tipo de piada no Brasil, que sempre terminava em risos ou tapas falsos, que não imaginava que o europeu fosse levar a sério.
Que se danasse. Afonso tinha lábios macios e viciantes, e se a brincadeira terminou naquilo, não seria o brasileiro a reclamar.
– Mas eu não comi chocolate. – murmurou no mesmo tom e suspirou, não resistindo em acarinhar a bochecha do moreno e levantar-lhe um pouco o rosto para o conseguir beijar.
Mais um suspiro escapou de Luciano, que, timidamente, levou sua mão esquerda até o rosto de Afonso, entreabrindo seus lábios para aprofundar a carícia, a mão direita descendo até a cintura do mais velho para mantê-lo firme sobre si.
O português deixou-o “liderar” o beijo, tentando sempre manter Luciano o mais junto a si possível.
Virou-se um pouco e lentamente inverteu as posições, trazendo o brasileiro para cima de si.
Luciano surpreendeu-se com a ação de Afonso, porém apenas conseguia pensar nos dois, sobre o sofá, se beijando. Aproveitou-se de que Afonso era pequeno e afastou as pernas dele sem deixá-lo desconfortável, acomodando-se mais uma vez sobre o português.
O beijo intensificou-se, os braços de Afonso mantendo Luciano perto de si pelo pescoço, as mãos do brasileiro percorrendo timidamente – Luciano sentia-se nervoso perto de Afonso – a lateral do corpo e as pernas do mais velho, parando apenas quando achou um espaço entre o corpo esguio do português e o sofá, abraçando Afonso pelo tronco e o puxando para cima, beijando-o com um pouco mais de necessidade...
Até a campainha tocar.
Luciano foi o primeiro a apartar o beijo, a respiração ofegante. Murmurando outro pedido de desculpas, saiu de cima de Afonso e seguiu para a cozinha, ligando o fogo e despejando as carnes no feijão, o corpo quente e o coração descompassado.
O português ficou um pouco atrapalhado, ainda no sofá. O seu coração aos saltos parecia que ia sair do peito e ainda conseguia sentir os lábios do brasileiro e...
A campainha tocou de novo.
Esquecendo-se da farinha que tinha por todo o cabelo ele foi abrir a porta, deparando-se ninguém mais ninguém menos que... Arthur.
– Af- Afonso? Que te aconteceu?
Afonso piscou os olhos. Não esperava ver Arthur tão cedo. Na verdade, ele nem esperava se encontrar com o inglês – ainda pensava nos lábios macios e viciantes de Luciano.
– Arthur? Que estás a fazer aqui?
Ignorando a mudança de assunto do português, Arthur simplesmente abriu passagem e adentrou a casa de Afonso, logo verificando farinha, ovo e chocolate por todo lado.
– Passei na Colubris, mas estava fechada... Afonso, entrastes numa guerra?
Luciano, que não encontrava concha para o feijão, surgiu na sala, tão sujo quanto Afonso.
– Chefinho, onde eu posso encontrar--
Ao deparar-se com Arthur, esses se encararam e o britânico franziu o cenho, olhando para Afonso em seguida:
– Que este puto está a fazer aqui?
Afonso suspirou e fechou a porta, caminhando para o lado de Luciano. Não gostava nada da forma que Arthur lhe falava...
– Ele está a viver comigo por enquanto.
O inglês fez uma expressão desconfiada como se desconfiasse disso.
– E a farinha?
– Eu deixei cair ao chão enquanto fazíamos o almoço e--
Arthur cruzou os braços e resmungou qualquer coisa, mudando de assunto de imediato:
– Enfim. Limpa-te e veste-te, vens almoçar comigo."
O português engoliu em seco e abanou negativamente com a cabeça.
– Hoje não, lamento.
O loiro piscou, incrédulo. Afonso jamais negara qualquer coisa para si.
Cruzando os braços e desviando a atenção para Luciano – que segurava inocentemente uma colher de pau, usada para mexer as carnes na panela –, o britânico franziu as espessas sobrancelhas e praguejou:
– Não me vai dizer que é por causa desse aí.
Luciano sentiu-se ofendido, claro, e desviou o olhar para o chão.
– Chefinho? – murmurou – Pode ir com ele... eu estou bem.
Afonso franziu o sobrolho e abanou com a cabeça:
– Não, agradeço o convite Arthur, mas eu hoje fico. – aproximou-se de Luciano e suspirou – Pode ficar para outro dia?
O brasileiro continuava de cabeça baixa. Não gostava de Arthur, e este o estava ofendendo novamente.
Arthur, entretanto, mantinha o semblante raivoso:
– Não me digas que-- Estás a me trocar por este... Este... Este negro?
O lusitano respirou fundo para manter a calma.
– Arthur, chega. – encarou-o severamente, não tendo problemas em manifestar o seu desgosto com aquele comentário – E se estiver?
– Como podes me trocar por ele? Afonso, eu te conheço desde sempre! Agora que esse negro chegou tu nunca mais saiu comigo!
Após o comentário racista do britânico, Luciano apertou com ainda mais força o cabo da colher, os olhos ainda fixos no chão.
– Com licença. – ele murmurou, visando se afastar dali, porém Afonso lhe segurou a mão.
– Não! Luci, fica.
O brasileiro ergueu o olhar e deu um meio sorriso, soltando sua mão.
– A feijoada vai queimar...
Afonso tornou a agarrar-lhe a mão.
– Não vai. – encarou Arthur, que agora o fuzilava com o olhar – O Arthur já estava de saída, não já?
O loiro rangeu os dentes, porém se conteve a ajeitar seu paletó e dar meia volta, deixando a casa enquanto batia a porta da frente com força.
Afonso e Luciano, de mãos dadas – bem, Luciano ainda não se atinara de segurar a mão do menor –, ouviram o carro ligar, e em seguida acelerar bruscamente.
Só depois de se fazer silêncio é que Afonso soltou outro suspirou e rodou o corpo para encarar Luciano:
– Eu... Desculpa-me por isto...
Afonso viu o mais jovem balançar a cabeça para os lados, em negação.
– Você não precisa se desculpar. – murmurou, soltando-se mais uma vez e seguindo para a cozinha.
Verificou que a feijoada estava pronta e desligou o fogo, deixando a colher sobre a bancada da pia. O português seguiu-o, mordiscando o lábio inferior enquanto se colocava na ponta dos pés para abraçar Luciano por trás, a cabeça tentando alcançar os ombos dele. Entretanto, Luciano era muito mais alto que si, o que fez Afonso desistir, porém sem cessar o abraço.
– Estás bem?
A resposta não demorou a vir, os olhos ainda atentos à panela tampada.
– Sim. – um minuto de silêncio, um aperto por parte de Afonso – Está tudo pronto... Não quer tomar um banho antes do almoço?
Não o largando, Afonso suspirou e só depois de outro aperto é que o soltou.
– Vai tu primeiro, eu demoro muito... – caminhou até outro lado da cozinha e pegou numa vassoura.
– Certo... – aproximou-se de Afonso e tirou alguns pedaços de casca de ovo do cabelo dele, aproveitando e ajeitando os fios – Desculpa a bagunça. – ele sorriu – Eu não demoro.
O português encarou-o mas não conseguiu sorrir porque aquela situação o tinha deixado irritado, melhor, a atitude de Arthur tinha irritado.
– Não tem mal. E-- As toalhas estão no armário da direita atrás da porta da casa de banho.
Luciano acenou com a cabeça, afastando-se em seguida.
Afonso suspirou e passou a arrumar a cozinha, bufando de vez em quando.
Quando o brasileiro voltou, o chão da cozinha já estava limpo e a mesa posta. O português não o viu mas ouviu a porta e sorriu um pouco:
– Não andes descalço, o chão está todo sujo.
O moreno olhou para o chão e riu, um sorriso sereno nos lábios.
– Sujo? Onde?
– No chão, o chão está sempre sujo. – pousou a vassoura e encarou-o – Vamos almoçar? Não temos é sobremesa...
Sentando-se ao lado do mais velho, Luciano disse inocentemente:
– Já comemos a sobremesa. – se referiu ao beijo.
Mas Afonso, um pouco lento, não entendeu:
– Qual sobremesa?
Luciano encarou as rodelas de laranja e corou, pigarreando ao mudar de assunto:
– N-nada!
O português continuou a encará-lo confuso mas como o brasileiro não disse mais nada ficou sem entender mesmo.
– Tenho de fazer outra sobremesa maior. – disse pensativo – Talvez sem cobertura.
– Eu gosto de mousse... – Luciano disse timidamente, comendo.
– Então faço mousse~ De chocolate? – serviu-se e começou a comer, provando a tão bem-falada feijoada brasileira. – Ah, está tão bom~ És um cozinheiro aprovado!
Luciano sorriu, mordendo uma linguiça.
– Você adora chocolate, né? – em seguida, ele alargou o sorriso, as maçãs coradas – Obrigado... Mas você devia ter provado a da minha mãe! Ela sim era uma cozinheira de mão cheia!
O português corou um pouco e acenou afirmativamente com a cabeça, é, ele tinha um fraquinho por doces.
Ver Luciano sorrir fê-lo sorrir também:
– Tenho a certeza que ela ia amar a tua culinária, se foi ela que te ensinou, ensinou muito bem.
O maior voltou a agradecer, e eles ficaram em silêncio por um tempo – Luciano ainda engolindo os desaforos de Arthur e Afonso deliciando-se com a comida preparada pelo brasileiro. Após um tempo, o europeu soltou um suspiro de satisfação e sorriu:
– Está tão bom~
Luciano sorriu e disse tranquilamente:
– Se quiser, cozinho todos os dias. Não sou um chef, mas me viro.
– Agradeço a proposta mas eu gosto de cozinhar também~ Vamos ter de dividir a tarefa. – disse num tom brincalhão – Não costumo partilhar a minha cozinha mas tens autorização total para a usares quando quiseres.
– Vou aceitar isso como um elogio, chefinho. – riu.
Afonso já ia reclamar – pela milésima vez – que não era “chefinho”, mas o telefone tocou. Pedindo licença, levantou-se e foi atender.
– Hermano?
– Antônio? Que foi?
– Nada. A Nina resolveu fazer um álbum novo de família e estamos a te convidar para jantar aqui hoje.
Afonso ganiu.
– Outro? – ok, ele sabia que agora havia um novo membro na família mas... – Eu odeio fotos António... Tenho mesmo de ir?
O seu irmão riu, quase à gargalhada:
– Já sabia que me ias dizer isso~ E sim, tens!
O português revirou os olhos, em seguida girando o corpo e vendo Luciano terminando o almoço. Mordeu o lábio inferior e falou num tom mais baixo:
– Antônio? Ouve bem: o Luci está a morar cá por uns tempos.
Houve um silêncio por um momento e depois António começou a fazer drama:
– POR QUÊ? DESDE QUANDO? ATÉ QUANDO? ELE TENTOU ALG--
– António! Deixa de ser idiota!
O berro de Afonso chamou a atenção de Luciano, que encarou curioso o mais velho. Dando um sorriso acanhado e nervoso, o português foi para um canto mais afastado da sala e começou a explica a situação, a voz baixa.
– Ouve: o Luci... O namorado dele... – suspirou – Estava a trair o Luci, e ele não tem onde ficar...
– M-MAS HERMANO-–! E TU?!
– Eu o quê?
– ONDE TU FICAS?
Afonso rolou os olhos e espalmou a mão na testa.
– No meu quarto.
– TU-– TU DORMES COM O LUCIANO?
– NÃO!
Uma outra voz, feminina, foi ouvida no fundo:
– Tónio? Com quem estás a falar?
– COM O MEU IRMÃOZINHO! ELE PERDEU A INOCENCIA DELE!
Afonso já estava completamente corado, mas a situação piorou quando ouviu Lovina falar:
– Tônio... Teu irmão não é virgem há anos.
– O QUE? COMO ASSIM? – voltou-se para o telefone: – AFONSO, TU JÁ TRANSA?
Afonso corou até ás orelhas:
– António... Eu sou mais velho que tu!
– MAS- MAAAAAAS- HERMANO! COM QUEM PERDESTE A TUA INOCENCIA?
O português respirou fundo:
– IRMÃO IDIOTA! EU NÃO TE VOU DIZER COM QUEM PERDI A MINHA VIRGINDADE!
A palavra “virgindade” chegou aos ouvidos de Luciano com um baque, e o brasileiro acabou por se afogar e cuspir o resto de suco que havia em sua boca no prato vazio, tossindo em seguida. Limpou a boca como pode e se levantou, tentando entender com quem Afonso falava sobre ter perdido a virgindade.
– NÃO ME DIGAS QUE FOI-- EU CAPO O ARTHUR SE FOI ELE!
Não era segredo para ninguém que Arthur e Antônio se detestavam. O britânico sempre fora descortês com o irmão caçula de Afonso e achava o espanhol irresponsável por ter sido pai cedo.
Luciano, confuso, chegou na sala e encarou Afonso.
Afonso rosnou e berrou de volta:
– NÃO TE VOU DIZER, CARALHO! – suspirou – Só vou se o Luci puder ir. – fez bico.
O português não tinha visto Luciano por estar de costas para a porta e António não ia deixar o assunto fugir assim.
– AFONSO, DIZ-ME QUE É MENTIRA! TU AINDA ÉS MUITO NOVO PARA PERDER A TUA INOCÊNCIA!
Ele respirou fundo, bem fundo. Por vezes desejava ser filho único.
– ANTÓNIO! TU ÉS MAIS NOVO QUE EU, TENS DUAS FILHAS, PORQUE RAIO SOU “EU” NOVO DEMAIS PARA PERDER A MINHA INOCÊNCIA?
Houve um silêncio do outro lado, Lovina comentou mais qualquer coisa e António voltou a “falar” aos berros:
– FOI O ARTHUR, NAO FOI? ANDAS ENROLADO COM ELE?!
– EU NÃO ANDO ENROLADO COM O ARTH-- ANTÓNIO, PÁH, PEDE À LOVINA PARA NÃO METER MAIS LENHA NA FOGUEIRA E RESPONDE À MINHA PERGUNTA!
– QUE PERGUNTA?
– O LUCI PODE IR OU NÃO?
Um momento de silêncio e outro berro:
– PODE. MAS VENHAM ÀS SETE.
– POR QUE ESTAMOS A GRITAR AINDA?
– NÃO SEI.
– TU ÉS TÃO IDIOTA. ATÉ LOGO! – desligou-lhe o telemóvel na cara e ficou a resmungar sozinho – Idiotaidiotaidiotaidiota. – atirou o aparelho para o sofá e ao rodar nos calcanhares viu Luciano e corou até ás orelhas – Er-- Hoje vamos jantar a c-casa do António.
Luciano balançou a cabeça, um pouco surpreso com a reação de Afonso.
– Só me prometa que não vamos falar sobre a sua virgindade... ou falta dela.
O português sentia a sua cara aquecer apesar de saber que devia ser impossível ficar mais vermelho ainda.
– C-Claro que não! O meu irmão é que deve ter batido com a cabeça na parede muitas vezes quando era criança e agora fecha mal a porta.
Um silêncio perturbador fez-se presente, e Afonso começou a apertar a ponta de seus dedos. Sorrindo, Luciano deu de ombros e seguiu para a cozinha, indo lavar a louça.
– Deve ser legar ter irmãos.
– Quando eles estão calados e não são idiotas, até que é. – suspirou – Eu vou tomar banho e já volto.
Foi ao quarto pegar em roupa e depois dirigiu-se à casa de banho, ia demorar por ter de limpar o seu cabelo direito.
Luciano riu do comentário de Afonso, logo prestando atenção na louça a ser lavada.
Gostaria de ter um irmão ou uma irmã, tanto fazia se fosse mais velho ou mais novo, alguém que ele pudesse contar e amar sem medo. Dizem que amor de irmão é complicado, mas ele via tantos bons exemplos de fraternidade: Alfred que, mesmo às vezes esquecendo seu irmãozinho nos lugares, se preocupava única e exclusivamente com Matthew e jamais fazia as refeições sem o mais jovem; Hansen e Bella, que ele nem suspeitava estarem namorando, eram unidos e gentis um com o outro; Afonso e Antônio, o mais jovem sempre preocupado com o português, mesmo que de uma forma engraçada... E as melhores: Sofia e Marisa. Ainda não conhecia a caçula dos Carriedo, mas só a demonstração de amor que Bia tinha pela irmã... Era encantador!
Com um sorriso bobo no rosto, a música fluiu naturalmente:
“Meu irmão,
Faz muito tempo faz
Que eu não te canto
Uma canção.
Que eu não te conto uma aventura,
Um sonho, uma ilusão.
Que eu não me sento calmamente
Junto com você.
O tempo passa...”
O português terminou o seu banho passado quase meia hora.
A sua cabeça andava longe, a pensar em muita coisa ao mesmo tempo sem necessariamente fazer sentido. Primeiro, havia o facto de ter beijado Luciano e segundo, aquela reacção parva de Arthur.
Afonso era uma pessoa demasiado tolerante e calma mas não suportava comportamentos exagerados como aquele.
Suspirou profundamente e secou-se, vestindo-se de seguida. Quando saiu da divisão ouviu Luciano ainda a cantarolar na cozinha e sorriu.
Não se importaria nada de o ter consigo todos os dias...
Seguiu calmamente até a cozinha, tentando ser silencioso. Um cheiro agradável de chocolate pode ser sentido, e o português já começou a salivar.
– Luci? – espiou pela lateral do corpo dele – Que estás a fazer?
O brasileiro encerrou a música e riu, girando o corpo para a esquerda enquanto mexia algo no fogão.
– A sobremesa. – sorriu – Estou fazendo brigadeiro de panela para nós.
– ...C-Chocolate... – Afonso murmurou, encarando o doce a ser mexido lentamente. Ah, tinha tão bom aspecto... – Mas-- Eu disse que tratava da sobremesa, não precisavas do trabalho mas-- Brigadeiro..
Luciano riu outra vez, afagando os cabelos de Afonso inocentemente.
– Eu sei, mas eu preciso te recompensar de alguma forma... Estou incomodando.
O português fechou os olhos em contentamento pelo carinho e fez uma expressão amuada:
– Eu já disse que não me incomodas...
– Não foi isso que você disse esses dias. – implicou.
Afonso ergueu o olhar e piscou, confuso. Luciano suspirou e sorriu.
– Eu estava brincando. – garantiu, e desligou o fogo – Você tem granulado ou vai assim mesmo?
– Acho que tenho.
Subiu novamente para cima do balcão – desta vez abriu a porta com cuidado para que não caísse – e pegou no frasquinho do granulado, entregando-o ao moreno.
– Aqui está.
O moreno pegou o frasco e sorriu, em seguida pegando Afonso pelo tronco, o abraçando e o trazendo para baixo.
– Chefinho, eu sei que a casa é sua, mas... – apertou-o de leve contra si – Deixa que eu pego as coisas nos armários de cima, certo senhor macaco?
As bochechas do menor tingiram-se de vermelho e ele segurou-se nos ombros de Luciano.
– Eu não sou “chefinho” – resmungou – Está bem, Sr. Tucano, eu deixo.
Luciano piscou e em seguida começou a fazer biquinho, chamando a atenção de Afonso.
– Luci? Que 'tás a fazer? – ergueu as sobrancelhas e encarou o maior, que continuava com suas caretas.
– Se sou um tucano, preciso de um bico.
O mais velho riu e esticou os braços, apertando-lhe as bochechas para fazer uma “cara de peixe”.
– Precisas de um bico maior~
O brasileiro riu e acenou com a cabeça, desfazendo o abraço para despejar o granulado no brigadeiro.
– Tucanos são bonitos... mas nunca vi um ao vivo. – sorriu.
Pôs-se atrás dele, observando o chocolate com muita atenção, como se ele fosse fugir a qualquer momento.
– Nem eu. Mas gostava, são passarinhos engraçados.
– Passarinhos? – ele riu – Tucanos não são assim tão pequenos. – terminou de mexer o brigadeiro e encheu a colher com o doce, estendendo-a para Afonso – Cuidado que ainda está quente.
– Tu também não és pequeno.
Se fosse um cãozinho, teria abanado a cauda em satisfação por poder comer o doce. Sorriu e soprou a colher, provando de depois.
Luciano ficou atento às feições de Afonso, tentado a beijar o menor mais uma vez quando esse sujou o canto da boca com o brigadeiro, lambendo em seguida.
– Ficou bom?
Acenou afirmativamente com a cabeça e sorriu.
– Está óptimo~!
Se Afonso soubesse o quanto Luciano adorava aquele sorriso... Sorriria mais ou menos?
– Que bom. – sorriu também usando a mesma colher para pegar um pouco mais de doce e comeu também – Será que da próxima vez eu ponho mel?
O português pestanejou.
– Põe o que quiseres desde que fique bom nada mesma. – ficou pensativo por uns momentos e depois perguntou: – Que vamos fazer durante a tarde?
O moreno ainda tinha chocolate na boca, engolindo para poder responder:
– Sei lá. Podemos ver algum filme... Ou arrumar a casa... Ou contratar stripers.
Afonso cruzou os braços e suspirou.
– Que tal a primeira opção?
– Droga. Eu queria as stripers. – brincou, rindo em seguida – Podemos comer pipoca? – fez olhinho de cachorro.
O português riu e deu-lhe uma chapada leve no braço.
– Mais doces? Ainda temos o brigadeiro, mas tudo bem.
Luciano corou um pouco e coçou a nuca.
– Desculpa... É que eu adoro pipoca.
Ao vê-lo ficar tão adorável, o português sorriu abertamente e esfregou-lhe o braço.
– Então fazemos pipocas~
O moreno, então, sorriu. Ah... Como Afonso adorava aquele sorriso!
– Eu faço a pipoca e você escolhe o filme?
– Okey, devo ter alí algum documentário sobre bacalhaus~ – disse na brincadeira e foi para a sala, limpando o resto de farinha que tinha ficado no sofá e comentou de lá – Mas trás o brigadeiro também~
Luciano riu e procurou pelos armários o milho para pipoca, logo fazendo uma grande bacia.
– Topa ver um filme de terror?
– Pode ser.
Baixou um pouco as persianas da janela para que ficasse mais escuro e não deixasse a luminosidade entrar. Pegou no primeiro filme de terror que encontrou e esperou pelo brasileiro.
Após terminar a pipoca, Luciano levou a bandeja para a sala, levando refrigerante também.
– Que filme vamos ver?
Afonso atacou a pipoca e mostrou a capa do DVD para o mais jovem. Ah, Luciano tinha um segredo: tinha medo de fantasmas.
– Deve ser legal. – sorriu torto.
– Não cheguei a ver até ao fim, adormeci a meio. – riu e aconchegou-se no sofá, pegando no cobertor para tapar ambos numa espécie de casulo.
Aumentou o volume da tv e roubou mais pipocas.
O filme começou. A história era muito clichê: um bando de adolescentes numa cabana abandonada no meio da floresta, bebendo, transando e fazendo festa... Até alguém resolver ler um livro proibido e libertar alguns fantasmas ou demônios, Luciano não entendeu ao certo.
Claro que o brasileiro já estava encolhido no canto do sofá, apavorado com os fantasmas.
O português, por sua vez, estava quase a dormir. Porém, sempre que Luciano dava um pequeno salto, ele encarava-o confuso até perceber que o outro estava assustado.
Com um pequeno sorrisinho malicioso, Afonso lentamente esticou o braço e agarrou num pé do moreno, fazendo-lhe cócegas.
A primeira reação de Luciano foi dar um grito, assustando-se com a brincadeira de Afonso. Em seguida, ele começou a encolher as pernas e a rir, tentando fugir das cócegas.
– P-para, c-chefinho!
– Tu tens medo de fantasmas é? – o seu sorriso aumentou e ele puxou a perna de Luciano para mais perto, prendendo-lhe o pé para continuar com as cócegas.
O mais jovem corou levemente, tentando se soltar de Afonso.
– N-não tenho! – puxou sua perna, não conseguindo se mover muito por culpa da força do português – M-me solta!
Afonso sorriu e continuou com a tortura, achando as expressões de Luciano uma graça. O moreno se contorcia, ria e se balançava, numa tentativa inútil de terminar com tudo aquilo.
– C-chefinho!
Luciano aumentou seu tom de voz, que também se tornava aguda, e puxou bruscamente sua perna, acabando por se desequilibrar e cair do sofá, suas pernas voltadas para cima.
Afonso sibilou ao ouvir o baque quando o moreno caiu de costas no chão de madeira. Apesar de ter um grosso tapete, o português gatinhou até ao lado das pernas dele e esticou uma mão para o ajudar a levantar-se.
– Luci! Tu estás bem? Bateste com a cabeça? Pescoço? Dói-te alguma coisa? D-Devo chamar o 112?
Luciano soltou um gemido de dor, aceitando a ajuda de Afonso para se levantar.
– Pelo seu comentário, acho que você está falando de chamar a emergência, mas... – outro gemido, agora ao afagar um galo na cabeça – ...não precisa. – sorriu – Eu estou bem.
– Não estás não! – resmungou e procurou pelo galo dele, tendo cuidado para não pressionar demasiado – Se calhar era melhor por gelo...
– Estou bem e-- ai! Isso dói!
O mais velho suspirou e beijou-lhe a nuca no lugar onde tinha o galo.
– Desculpa... Eu não queria que te magoasses...
O beijinho singelo do europeu fez Luciano corar ainda mais, sorrindo acanhado em seguida.
– Tudo bem. – arrastou-se para o sofá, sentando ao lado de Afonso no mesmo instante que uma jovem bonita era assassinada pelo monstro – Ah! Eu estragar torcendo por ela... – suspirou – Ela era a mais bonitinha.
– As bonitinhas morrem sempre todas. – o português comentou e depois suspirou – Estás mesmo bem?
Num momento de idiotice – ou talvez fosse só irracionalidade –, Afonso passou um braço pelo ombro do brasileiro e arrastou-o para o seu peito, arranjando forma de se deitar no sofá para ver o filme.
Puxou pelo cobertor e tapou ambos, acomodando Luciano no seu peito.
O moreno não podia corar mais, e agradecia pela sala estar escura. Seu coração batia a mil, e ele estava acabado... porém se aconchegou naquele abraço, suspirando baixinho.
– Estou ótimo. – sorriu.
Estava realmente ótimo.
– De certeza? Eu posso ir buscar gelo se for preciso. – o português murmurou, passando um braço pelo tronco do mais novo e fazendo-lhe festinhas no cabelo com a mão livre, tendo cuidado para evitar o galo.
Também o seu coração batia descompassado e ele respirou fundo, em contentamento por estar tão próximo do brasileiro.
Luciano retribuiu o abraço, voltando a mover seus braços para baixo das costas de Afonso. Ergueu também a cabeça, encarando o mais velho para lhe sorrir:
– Não precisa, chefinho.
Deu-lhe uma palmada leve na cintura:
– Já disse que não sou “chefinho”. – fez o seu tradicional monólogo sobre nem sequer ser pequeno para ser “-inho” e ajeitou-se para que não ficasse deitado sobre os braços de Luciano e os deixasse dormentes – Se precisares de alguma coisa diz, combinado?
Ele moveu a cabeça, concordando. Em seguida, acomodou-se no peito de Afonso, olhando para a televisão.
Apertou levemente o abraço a cada susto – que não foram poucos –, mas a proximidade do europeu lhe acalmava, e o medo era menor.
Ao princípio Afonso, que achava graça por o moreno ter medo daquilo, acarinhava-lhe as costas sempre o sentia dar um apertão. No entanto, o filme era tão cliché que mais uma vez o português acabou por adormecer.
A respiração calma de Afonso chamou a atenção de Luciano, que desviava o olhar do final do filme – todos acabaram mortos, e o personagem principal era o monstro.
Ao perceber o menor adormecido, Luciano sorriu, levando a mão esquerda até a franja comprida do mais velho, afastando os fios macios e cheirosos de sobre os olhos de Afonso.
Tê-lo assim, tão sereno e próximo de si, fazia Luciano se sentir leve... E apaixonado. É, o moreno estava apaixonado por seu chefe, e o término de seu namoro com Martin o impelia a beijar Afonso sempre que quisesse – e isso significava todo instante –, entretanto, sabia que o português gostava daquele grosseiro irritante, o que o fazia desistir de se declarar. Embora tivessem se beijado algumas vezes – ele ficava alterado só de se lembrar –, tinha medo de ser rejeitado, e preferida manter sua amizade com Afonso do que arriscar perdê-lo para sempre.
Suspirou.
Afastou-se de Afonso e cobriu o corpo pequeno dele com as cobertas, deixando-o descansar.
Seguiu para a sua mala e procurou meias limpas, querendo aquecer seus pés. Em seguida, foi lavar a louça.
Quando Afonso acordou, quase hora e meia depois, achou estranho o silêncio da sala e a ausência do calor do brasileiro.
Levantou-se com preguiça, espreguiçando-se durante muito tempo para ganhar coragem para se levantar.
Espreitou pelo sofá:
– Luci?
A resposta não tardou a vir. Sentado no parapeito da janela, olhando o crepúsculo, Luciano afinava as cordas de seu violão.
– Estou aqui, chefinho.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Fez um pequeno bico e sentou-se na outra ponta da janela.
– Por que não me acordaste? Fiquei sem ver o final do filme outra vez.
O brasileiro sorriu, tocando algumas notas aleatórias.
– Desculpa. – cantarolou alguma coisa. – Você parecia cansado... E estava tão fofo... Não tive coragem.
– Eu não estava cansado. – retorquiu e depois pestanejou, corando mais do que aquilo que gostaria de admitir – Eu não sou fofo!
Luciano riu, ajeitando sua posição.
– Eu te acho fofo. – e então começou a cantar:
“Bem mais que o tempo
Que nós perdemos
Ficou pra trás
Também o que nos juntou”
O mais velho abriu a boca para reclamar novamente mas como Luciano começou a cantar preferiu não interromper.
Encostou a sua cabeça na janela e ficou a vê-lo e ouvi-lo.
Habituado a tocar, Luciano não precisava encarar as cordas, mantendo os olhos escuros fechados.
“Ainda lembro
Que eu estava lendo
Só pra saber
O que você achou
Dos versos que eu fiz
Ainda espero
Resposta...”
O português mordeu o lábio e de fininho foi arrastando-se para o lado até conseguir ficar perto de Luciano e se encostar no seu ombro.
Luciano sorriu, porém não conseguiu encostar sua cabeça na de Afonso, ou não poderia tocar.
“Desfaz o vento
O que há por dentro
Desse lugar
Que ninguém mais pisou”
O português fechou os olhos em contentamento. Gostava de ter Luciano por perto, de o ouvir cantar, de sentir o seu calor...
Sentia-se com remorsos por se tentar aproximar dele... O moreno tinha acabado de sair de uma relação de uma forma brusca e pelos vistos gostava da sua amiga Michelle... Afonso não queria acabar magoado novamente mas... O carinho dele era tão bom...
A voz de Luciano era calorosa, e Afonso gostava de sentir o corpo dele vibrando enquanto ele cantava.
Ao encerrar a música, Luciano sorriu e abraçou o menor pelos ombros.
– Se eu te incomodar cantando, me avisar, ok?
Ele riu um pouco e retribuiu o abraço, passando um braço pela cintura do mais novo.
– Não incomodas... Eu gosto de te ouvir cantar.
Luciano alargou o sorriso. Era bom poder abraçar Afonso.
– O seu Miguel me deu a liberdade de escolher cinco músicas por noite, e eu preciso ensaiar... – piscou – Mas prometo não tocar depois das nove!
Afonso abriu um olho e olhou para cima para o conseguir encarar.
– Podes tocar quando quiseres exepto entre as cinco e as sete da manhã.
O moreno piscou de novo, rindo.
– Não me diga que você é um vampiro e só dorme por duas horas.
Afonso suspirou levemente. Por vezes havia noites em que eram mesmo só duas horas.
– Nãh, eu na verdade sou um vampiro e essa é a hora em que bebo o sangue das minhas victimas.
O brasileiro primeiro piscou, e em seguida gargalhou:
– Bem que notei. Você adora morder!
Corou um pouco e encarou-o:
– Isso não é verdade!
– Verdade! Você me mordeu bastante e-- – percebeu que aquilo era constrangedor, e coçou a nuca – V-vou me arrumar para o jantar...
– Tu é que disseste que eu beijava mal. – reclamou, com uma expressão amuada e pestanejou em seguida – Okey.
Luciano se levantou e deixou o violão perto de Afonso. Procurou roupas que considerasse decentes e murmurou, antes de seguir para o banheiro:
– Eu menti.
Afonso sorriu vitorioso e saltou para baixo da janela.
– É bom saber~
Afonso ouviu a porta sendo fechada, e alargou o sorriso, seu coração aos saltos.
Luciano achava que ele beijava bem! Luciano gostava de seus beijos!
Foi abrir o resto das janelas da sala e ajeitar o seu cabelo -que estava um pouco no ar por se ter deitado- e aguardou no sofá o regresso de Luciano.
Enquanto esperava – Luciano também tinha problemas com seu cabelo cacheado –, Afonso observava o violão do brasileiro. Era de madeira escura e bonita, mas simples, as cordas pareciam ser velhas, mas conservadas e seu som continuava belíssimo.
Hesitou por um momento, mas não resistiu em tocá-lo, passando seus dedos pelas cordas, fazendo barulhos desconexos.
Era incrível a capacidade que Luciano tinha de transformar ruídos em música, e o português se deliciava com o dom do mais jovem.
– Foi um presente do meu avô. – ouviu a voz do brasileiro, e se assustou, afastando-se do instrumento – Ganhei um ano antes da mamãe falecer.
Corou um pouco, como uma criança apanhada a mexer num brinquedo alheio e coçou a nuca, atrapalhado.
– É uma guitarra lindíssima.
Luciano sorriu, acarinhando rapidamente a orelha esquerda de Afonso.
– Obrigado. Eu não vivo sem ele.
O português riu com aquele carinho por ter feito cócegas e levantou-se.
– De nada. Vamos?"
– Vamos. – sorriu, deixando seu violão sobre o sofá.
Seguiram até a porta e Luciano vestiu sua jaqueta, oferecendo ajuda ao mais velho para que ele se vestisse.
Afonso agradeceu a ajuda e deixou que Luciano lhe vestisse o casaco.
Indicou qual o caminho para a garagem e depois de terem entrado no carro – Afonso logo ligando o ar-condicionado por causa do frio –, o português avisou-o:
– Se o meu irmão se atrever a mostrar-te fotografias nossas antigas, por favor, recusa!
– Certo, sem fotos do chefinho pelado. – riu.
O português sorriu de lado.
– Essas não são tão más comparadas como as de carnaval dos últimos anos, acredita... E eu não sou “chefinho”.
– Essas eu vou fazer questão de ver, chefinho. – implicou.
Afonso corou.
– N-Nem penses! Eu tinha bebido demais quando tiraram aquelas fotos e o António mostra-as a toda a gente para me envergonhas, ugh!
Luciano riu e inclinou-se para o lado, dando um beijo rápido na bochecha de Afonso – algo que viria a ser um costume seu.
– Eu estou brincando. – sorriu – Eu não quero fazer nada que te magoe.
Encarou-o de lado, um pouco atrapalhado pelo gesto, e sorriu.
– É bom que estejas. Pode ser que hoje o meu irmão idiota decida ficar calado e quieto.
Luciano sorriu outra vez, olhando para frente.
– Não tem problema eu ir? Acho que seu irmão não vai com a minha cara...
O português riu e abanou com a cabeça.
– Ele é assim com toda a gente mas depois de ganhar confiança contigo te garanto que és capaz de te dar bem com ele. Vocês são ligeiramente parecidos até.
– Você fala tão bem – fez sinal de aspas com os dedos – do seu irmão que até me senti ofendido de ser comparado com ele. – brincou e Afonso deu a partida no carro, manobrando para sair da garagem.
– É por implicação. – sorriu um pouco – Ele só me envergonha por isso é justo que fale “bem” dele.
As ruas estavam praticamente vazias por causa do mau tempo e Afonso preferia conduzir assim.
– Viste ainda à pouco? O parvo é mais novo que eu, tem duas filhas e fez drama por eu “não ser inocente”.
O moreno sorriu. Acreditava que havia um motivo para Antônio agir daquela maneira, mas preferiu encerrar o assunto. Dando-se a liberdade, ligou o rádio do carro e ficou ouvindo as músicas portuguesas.
Chegaram na casa de Antônio em menos de vinte minutos, uma vez que o espanhol morava num bairro mais afastado. Afonso estacionou o carro perto de uma árvore – preferia não “brigar” com o irmão por um local na vaga dele – e pegou Luciano pelo braço, andando até a porta. Tocou a campainha e aguardou.
Claro que, ao ver seu irmãozinho agarrado no brasileiro depravado e estuprador – o “malvado” Luciano estava corado até as orelhas pelo gesto de Afonso –, fez um escândalo:
– Irmão! O que estás a fazer com esse tarado?!
Afonso deu-lhe uma chapada na nuca.
– António! Estás a ser mal-educado."
O mais novo fez biquinho e observou bem o brasileiro com se julgasse todos os pormenores dele.
– Mas-- Irmãozinho-!
– Pede desculpa!
Como uma criança que acabou de ser censurada, António cruzou os braços e encarou o brasileiro:
– Desculpa..."
Os três olharam para o corredor quando ouviram Lovina falar:
– A mim parece-me que o Luciano é mais inocente que o Bacalhau Ambulante.
– H-Hey--
– TIO AFONSO! TIO LUCI!
Qualquer clima ruim que havia se formado para Luciano foi dissipado quando Sofia veio correndo lhe abraçar. O brasileiro desfez o contato com Afonso para agachar-se e pegar a menina no colo, trocando beijinhos e cumprimentos com ela.
Sofia era o mais próximo que Afonso conseguiria de ter uma irmãzinha.
– Oi, Bia! – o brasileiro sorriu largamente – Como você está?
Antônio cruzou os braços e fez beiço outra vez. Por quê sua filha e seu irmão gostavam tanto daquele estrangeiro?
– Eu estou bem~ E tu? – deu-lhe um beijinho na bochecha e apontou para o corredor – Anda ver a minha irmãzinha, anda!
António deu espaço para eles entrarem e fechou a porta, observando os dois lusófonos com atenção. O português cruzou os braços e fez uma falsa expressão amuada:
– E eu não sou ninguém?
Luciano girou o corpo e riu, logo sendo recebido por Lovina, que lhe deu um meio abraço e um beijo na bochecha – o máximo que ela se permitia. Assim que a italiana cumprimentou o cunhado, Sofia remexeu-se no colo do brasileiro e chamou por ele e por Afonso, indicando o quarto onde Marisa estava adormecida.
Calmamente, Luciano e Afonso entraram no aposento, o brasileiro com Sofia no colo. Ao ver a pequena menina, o moreno sorriu:
– Ela é tão linda! E tão pequena...
– Mas ela vai ser grande um dia, tio Luci. Foi o papá que disse~ – murmurou baixinho para não fazer barulho.
Afonso baixou-se um bocadinho e ajeitou as cobertas do berço, aconchegando a mais nova melhor.
– Tenho certeza que sim. – o brasileiro sorriu, jogando Sofia de seu braço direito para o esquerdo, podendo apoiar a mão livre na grade do berço, encarando a neném adormecida. Tinha traços de Antônio, mas era idêntica a Lovina.
Espreitando por detrás da porta, Antônio observava atentamente o brasileiro, apenas esperando quando ele fosse atacar sua filha ou seu irmão, podendo, então, pegá-lo no flagra e expulsá-lo de sua casa... Porém nada aconteceu. Afonso e Luciano se entreolharam e sorriram um ao outro, e Sofia conversava com os tios amigavelmente, abraçando o moreno pelo pescoço enquanto contava que emprestaria todos os seus brinquedos para a irmãzinha e que cuidaria dela, porque a mamãe havia dito que Marisa era uma menina frágil.
O espanhol piscou ao ver um semblante sereno em seu irmão, e percebeu o quanto Luciano fazia bem ao português, de alguma forma que Antônio desconhecia.
Suspirando, fez proposital barulho e entrou no quarto.
– A Nina está servindo o jantar. – fez bico ao olhar para Luciano, que lhe sorriu – Vamos?
Sofia acenou com a cabeça e esticou os braços, indicando ao pai e ao brasileiro que queria o colo de Antônio. O sul-americano riu e entregou a menina para um confuso espanhol, que sentiu uma amizade pura nos olhos de Luciano.
– Papai, quando a mana vai acordar?
– Não sei. – ele sorriu e seguiu em direção a sala de jantar – A mamã tem de dar o mamá para ela...
Sozinhos no quarto, Luciano voltou a se aproximar do berço, sorrindo.
– Chefinho? Você já pensou em formar uma família?
Afonso suspirou levemente, com um pouco de tristeza, mas não deixou de fazer um pequeno sorriso.
– Eu adoro crianças... Ter uma casa cheia delas, duas ou três, seria um sonho tornado realidade mas... – acarinhou as bochechas de Marisa, com cuidado para não a acordar – Duvido que venha a acontecer.
Luciano deu um meio sorriso.
– Idem. – ele murmurou.
Afonso lhe ia dizer alguma coisa, porém Lovina chegou.
– O jantar está servido.
– Já vamos... – mais uma vez ajeitou as cobertas de Marisa apesar de esta já estar bem tapada.
Ao passar por Luciano, segurou-lhe nos braços e guiou-o como um pinguim até à cozinha que cheirava a lasanha.
Antônio rosnou baixinho ao ver seu irmão agarrado, novamente, com Luciano, mas nada disse.
Afonso fez questão de sentar ao lado do brasileiro, que sorria timidamente.
– O cheiro está ótimo, Lovina. – disse educadamente.
A italiana, que adorava ter a sua comida elogiada, ainda para mais um prato tradicional do seu país, sorriu abertamente e sentou-se à frente de Afonso, deixando Sofia ficar em frente a Luciano por insistência.
– Obrigada! Mas espero que o sabor esteja melhor ainda.
– Sempre está. – Antônio garantiu, sorrindo a esposa.
Lovina riu e começou a servir a todos, uma vez que pois irmãos geralmente sujavam tudo na hora de puxar a lasanha para o prato.
Tirou também para Sofia e depois na brincadeira repetiu o gesto para Luciano, sentando-se finalmente quando terminou:
– Esses dois daí... – apontou para Afonso e depois António – São crianças gigantes.
Enquanto os irmãos diziam um “hei!” em uníssono, Luciano riu timidamente, acabando por concordar – e levando um chute por debaixo da mesa por Afonso.
O jantar ocorreu tranquilamente: todos conversavam e a lasanha foi toda, para a alegria da italiana.
Após a sobremesa – torta de maçã –, Luciano pediu licença e seguiu para o banheiro. Aproveitando-se da distração de sua família, Antônio seguiu o brasileiro e se escondeu em seu quarto.
Quando Luciano passava pelo corredor, puxou-o pelo pulso e o jogou na cama, pegando sua lanterna de emergência e ligando a luz na cara do mais jovem.
– Quais são tuas intenções com o meu irmãozinho?
O moreno piscou, não conseguindo enxergar.
– Quê?
– O meu irmãozinho. – repetiu e semicerrou os olhos, observando o brasileiro – Quais são as tuas intenções com ele? Foste tu que tiraste a pureza dele?
Luciano corou até ás orelhas e abanou com as mãos:
– Não! Eu não fiz absolutamente nada! Ele é apenas meu c-chefe e amigo!
– Não acredito nisso. Dá-me provas. O meu irmão nunca trouxe ninguém com ele cá casa.
Por um momento, o brasileiro sentiu-se especial. Se nem mesmo o amor de Afonso – Arthur – havia sido convidado para aquela casa... ele era diferente. Não era?
Suspirou, dando um sorriso torto.
– Provavelmente ele está com pena de mim.
A sinceridade e a tristeza na voz de Luciano fez Antônio recuar, piscando seus olhos verdes – mas de uma tonalidade mais clara que os de Afonso – enquanto desligava a lanterna.
– Pena?
Luciano balançou a cabeça, o mesmo sorriso triste desenhado em seus lábios escuros.
– Eu me mudei para Portugal porque meu namorado... ex-namorado, é modelo e assinou um contrato de um ano com uma agência daqui e... – coçou a nuca – Comecei a trabalhar com o chefinho-- Afonso porque a Bella, dona da pensão onde nós estávamos hospedados, disse que a Lovina estava de licença por culpa da gravidez e... Você já sabe. – outro sorriso tristonho, logo Luciano desviou olhar para a esquerda, encarando uma foto dos irmãos sobre o criado-mudo – O namoro acabou, eu deixei a pensão... E seu irmão me estendeu a mão. – Luciano estava tão agradecido – Somos apenas amigos, Antônio. Apenas... amigos...
O espanhol continuou a observá-lo quieto nem sequer duvidava da sinceridade das suas palavras. Porém, algo não batia certo. Afonso nunca faria tanto por alguém só por pena e o mais novo começava a achar que ele era caidinho por Luciano e não o contrário. Ou talvez...
– Quem tem penas são as galinhas. – murmurou distraído e sentou-se ao lado dele, apenas em silêncio por uns momentos antes de voltar a falar – Olha...O meu pequeno irmão é muito importante para mim e eu não quero que ninguém o magoe, entendido?
Luciano concordou, a cabeça baixa. O espanhol suspirou e se levantou, estendendo a mão para o mais jovem.
– Essa conversa nunca aconteceu, certo?
Aceitou a ajuda.
– Certo.
– Optimo. – ele sorriu, desta vez amigavelmente – Senão a Lovi mata-me por fazer isto ás pessoas. – espreguiçou-se e depois estalou com os dedos – O Afonso alguma vez te mostrou as fotos do coelho?
Luciano piscou, corando um pouco.
– N-não, e eu prometi não ver nada.
Antônio encarou o mais jovem e voltou a sorrir, dando tapinhas nas costas dele.
– Sei, sei... Vamos, devem ter achado que tu te afogaste na sanita. — disse e seguiu em direção a sala.
Mal voltaram, Afonso puxou seu irmão prum canto.
– Que fizeste com o Luci?
Antônio riu enquanto observava o brasileiro brincar com Sofia, e Lovina dar de mamar a Marisa.
– Nada. Apenas conversamos. – sorriu ao ver sua filha rindo com o moreno – Gosto dele.
O olhar de desconfiança do português era muito semelhante ao que o seu irmão tinha feito momentos antes a Luciano.
– Ainda à pouco estavas a ser mauzinho e agora “gostas dele”?
António sorriu de lado.
– Isso são ciúmes?
O mais velho pestanejou e corou um pouco, cruzando os braços amuado:
– Não, não mesmo.
Antônio riu, logo tomando um pouco de vinho.
– A Bia gosta dele. – disse baixo – E parece que ele está a cuidar bem de ti. – implicou.
Corou mais ainda e cruzou os braços.
– Eu sei tomar conta de mim, idiota.
Antônio sorriu.
– Sei que sabe. Cuidastes de mim...
O português piscou e baixou o olhar, mordendo o canto da boca.
– Antônio? O... O pai voltou.
– Como?
– O pai...Voltou. – levantou os olhos para o encarar e disse de rajada – Ele esteve na floricultura e disse que queria conhecer as netas mas é claro que eu tinha de falar contigo primeiro. Desculpa não ter dito mais cedo, não tinha bem a certeza de como te contar...
Antônio apertou a taça com tanta força que Afonso teve medo dele quebrá-la. Sendo silencioso – algo incomum do espanhol –, puxou seu irmão pelo pulso e seguiram até o quarto, deixando Luciano brincando com Sofia enquanto Lovina insistia para o brasileiro segurar Marisa.
– Fecha a porta. – pediu enquanto caminhava de um lado ao outro de seu quarto.
Afonso obedeceu e sentou-se na cama. Aquele nunca era um assunto fácil.
– Diz-me... O que ele...
– Ele só quer conhecer a Bia e a Mari. – sua voz saía baixa, e Antônio teve certeza de que o encontro não fora fácil – Diz que tem esse direito.
O espanhol esfregou a mão direita pelos cabelos, e espiou pela janela.
– Eu não o quero perto das minhas filhas.
– Foi o que eu lhe disse.
António olhou pelo ombro e encarou o irmão mais velho:
– Ele insistiu?
– Sim... – acenou com a cabeça – Mas eu disse-lhe só lhe dava alguma resposta depois de falar contigo, obviamente.
O espanhol mordeu o canto da boca por um instante.
– Como foi que ele te achou? E por que voltou depois de tantos anos? – suspirou e sentou ao lado do irmão – Ele praticamente nos abandonou...
Afonso suspirou.
– Eu não sei. – olhou para baixo e começou a brincar com a ponta da sua camisola – Talvez tenha perguntado pela Colubris ou qualquer coisa. Não é muito difícil encontrá-la.
O mais jovem voltou a suspirar, abraçando o irmão pelos ombros.
– Vamos torcer para que ele não volte. Não nos faz falta.
Encostou-se no ombro dele e encarou-o:
– É capaz de voltar para saber qual a reposta mas... Não o quero voltar a ver.
Antônio encarou o menor e ponderou por alguns segundos. As lembranças do passado lhe bombardearam a mente, e ele apertou de leve o irmão.
Encarou a frente.
– Eu falo com ele. – Afonso lhe encarou – Sabe onde ele está hospedado?
Afonso abanou negativamente com a cabeça e suspirou.
– Não precisas de fazer isso, eu falo com ele.
– Mas Afonso, eu--
Afonso deu um meio sorriso.
– Tens de cuidar das meninas.
O espanhol piscou uma última vez antes de encostar rapidamente sua testa na do irmão.
– Certo... Mas se quiseres, vou contigo.
– Nãh, és um atraso de vida. – sorriu um pouco e despenteou-lhe o cabelo – E eu não o quero perto de ti outra vez.
Ele sorriu, e ambos encerraram o assunto.
– Obrigado.
– De nada. – levantou-se e deu-lhe uma palmadinha na testa – Vamos voltar, antes que a Bia obrigue o Luci a brincar com bonecas.
Antônio riu e concordou com a cabeça. Os dois irmãos deixaram o quarto e seguiram até a sala... onde encontraram uma cena peculiar:
Sentado com Lovina no sofá, Luciano embalava hesitante e cuidadosamente Marisa, os olhos castanhos fixos nos verdes da menina. O bebê bocejava, mas continuava olhando para o brasileiro, que estava nervoso.
Nunca segurara um bebê no colo.
– E-estou fazendo certo? – ergueu o olhar para Lovina, que tinha Sofia no colo, e a italiana lhe sorriu.
– Sim, estás. – garantiu – A Mari é mais quietinha que a Bia, e se tu aguentas essa diabinha, aguentas a Mari.
Luciano sorriu – e Afonso sorriu ao mesmo tempo – e olhou em direção aos irmãos que chegavam, enrubescendo um pouco.
– O-olha, chefinho. Ela gosta de mim. Acho...
– Não sou “chefinho”. – repetiu o mesmo por sabe lá Deus quantas vezes e sentou-se ao lado do moreno. – Deve gostar de certeza. – comentou e acarinhou a bochecha da bébe, sorrindo quando ela lhe agarrou num dedo com as suas mãozinhas pequenas.
Luciano estava encantado com aquela experiência. Nunca estivera com um bebê nos braços, e Marisa era tão quietinha e fofinha que a vontade que o brasileiro tinha de formar uma família crescia ainda mais.
Sem conseguir se conter, começou a cantarolar:
“Dorme, dorme menininha
Eu estou aqui
Vá sonhar
Ainda é tempo, menininha
Vá, vá dormir”
Afonso sorriu quando o ouviu cantar e fechou os olhos por um momento.
O gesto apanhou António desprevenido que olhou para a sua esposa em confusão e não entendeu o sorriso dela, um “eu bem que disse” disfarçado.
Antônio piscou e voltou a encarar o irmão e Luciano, percebendo que havia sim algo entre Afonso e o brasileiro quando o português encostou a cabeça no ombro do sul-americano.
“Sonha sonhos cor-de-rosa
Passeia no céu e no mar
Apanha o mundo
No teu sonho, menininha
E não deixa ninguém roubar”
Tanto Marisa quanto Sofia bocejaram, e o gesto de ambas fez Luciano sorrir e encerrar a canção:
“Olha, não reparta com ninguém
Os teus sonhos de menina
Dorme, dorme
Dorme e sonha menininha
Sonha, é tempo ainda”
Sua voz doce e baixa fez as irmãs adormecerem, e um sorriso ainda maior delineou-se no rosto de Luciano quando Lovina comentou:
– Vou precisar de ti sempre que precisar por a Bia para dormir.
António suspirou e sorriu.
– Ou o Afonso.
O brasileiro pestanejou sem entender e seguiu o olhar de Lovina, corando um pouco ao perceber que o seu chefe estava adormecido encostado no seu ombro.
– D-devo acordá-lo? – questionou num sussurro, porém o espanhol balançou a cabeça negativamente, pegando Sofia no colo.
– Não... – suspirou – Digamos que o Afonso sofre de insônias... – não era bem mentira – Sabes dirigir ou queres uma boleia?
– Sei, mas... – ele não queria usar o carro de Afonso sem permissão – E o chefinho?
– Dorme cá.
Lovina, que pegava Marisa no colo, discordou:
– Não, não! O Afonso vai para a casa dele.
– M-mas Lov--
– E ponto! – o espanhol fez bico, ajeitando Sofia em seus braços e levando a primogênita até o quarto – Luciano, podes levar o Afonso?
Luciano piscou e olhou para o português. Ele parecia tão cansado, mesmo que tivesse dormido pela tarde.
– Posso, claro.
Ela sorriu-lhe e encarou António, que voltava do quarto de Sofia.
– As nossas fotos vão ficar para outro dia.
O mais velho concordou e cruzou os braços, observando o seu irmão dormir calmamente.
– E-E como é que eu o levo?
Lovina sorriu outra vez, beijando a testa de Marisa.
– No colo.
Luciano corou mais uma vez e encarou Antônio, que suspirou.
– Eu te ajudo. – aproximou-se de Afonso e passou o braço direito do menor pelo seu ombro – Opa, ele engordou. – riu.
O brasileiro sorriu e imitou o mais velho, segurando firmemente Afonso contra si, sentindo o corpo quente junto ao seu.
– Obrigado pelo jantar. – sorriu outra vez enquanto Antônio abria a porta.
Não resistindo, puxou as pernas de Afonso para cima e o segurou no colo como uma princesa.
Afonso inconscientemente aconchegou-se junto ao pescoço do mais novo por ser quentinho e este corou ainda mais.
A italiana sorriu de lado, quase que se divertindo com a “desgraça” de Afonso, que ela tinha a certeza que estaria já a reclamar por ser carregado ao colo. No entanto, Luciano nem notou isso, demasiado preocupado em não acordar o baixinho e a tentar mantê-lo próximo de si.
Enquanto Lovina planejava “diabolicamente” – precisava ligar para Bella e Elizabeta! –, Antônio encarava o semblante sereno de Afonso. Aquilo era tão raro que ele até se esqueceu de implicar com Luciano quando Afonso o apertou mais.
– Bem... Vou indo, então... – o brasileiro se despediu, porém Lovina foi mais rápida:
– Espera! – passou Marisa para o colo do pai e correu para seu quarto, voltando com a mesma pressa – Preciso de uma foto.
Luciano piscou e tentou impedi-la de tirar uma foto de si e de Afonso, porém o português se remexeu em seu colo, e o sul-americano olhou para seu rosto, acabando por sorrir ao perceber que ele ainda dormia.
Flash!
– L-Lovina! – censurou timidamente, e Antônio olhou a foto pelo visor digital da máquina.
– Vai para o álbum de vergonhas do Afonso.
Luciano corou, porém o casal sorriu-lhe.
– Venha, eu te acompanho até a porta enquanto o Nino coloca a Mari para dormir. – disse e o espanhol se retirou após despedir-se com uns tapinhas nas costas de Luciano.
O brasileiro pegou os casacos atrás da porta e ajeitou da melhor forma que pode sobre o corpo de Afonso, que parecia ter um sono pesado. Despediu-se de Lovina e seguiu até o carro, demorando para encontrar as chaves no bolso da jaqueta do português.
Ajeitou Afonso no banco do carona – não se esquecendo de pôr o cinto de segurança nele – e deu a partida, tentando se lembrar como chagava na casa do europeu.
Após quase meia-hora, entrou na rua certa e chegou ao seu destino.
Desembarcar Afonso fora mais fácil, e após trancar a garagem e o carro, entrou na casa. Seguiu calmamente até o quarto de Afonso e jogou as cobertas para um canto da cama, deitando o menor.
Ao ser pousado, o português notou a falta do calor e por isso não soltou o meio abraço que dava ao brasileiro, mantendo-o no seu abraço.
– Fica... Quentinho... – murmurou no seu sono sem sequer ter ideia de com quem falava. A sua cama estava fria e aquele calor que vinha de algum lado lhe era agradável.
O brasileiro, claro, corou e ficou todo atrapalhado. Retribuiu o abraço e começou a falar com o português:
– Chefinho... Chefinho, me solte, logo vai ficar quentinho...
O português resmungou e puxou-o para si. Luciano não teve tempo de se segurar e quando deu por si estava a ser abraçado por um koala lusitano que tinha um abraço forte.
Luciano corou mais... se é que era possível.
Tentou afastar o menor de si, porém logo desistiu. Afonso parecia dormir tão bem que ele tinha pena de acordá-lo para se “livrar” daquele abraço.
Também não era como se Luciano quisesse se afastar.
Com uma certa dificuldade, o brasileiro retirou seus sapatos – ele adorava coisas fáceis de vestir e despir – e os de Afonso, jogando-os para o chão, e puxou as cobertas para cima de si e de Afonso. Dando um sorriso sereno, retribuiu o abraço e pensou consigo mesmo que iria para o sofá assim que o português afrouxasse o abraço... porém acabou adormecendo.
A conversa que tivera com António sobre o seu pai fez Afonso ficar com a ideia que ele apareceria a qualquer momento e o medo inconsciente que isso pudesse acontecer, levou Afonso a enroscar-se ainda mais junto a Luciano, escondendo-se no seu peito.
Mesmo que adormecido, Luciano apertou o abraço, mantendo Afonso perto de si, acabando por enroscar suas pernas nas do europeu.
Como seria bom se pudessem ficar assim sempre, principalmente acordados e cientes do que faziam...
Fale com o autor