Notas iniciais
Pedimos desculpas pela demora~ Agora nossos estudos voltaram e eu ainda comecei a trabalhar!! Agradecemos pelas reviews lindas que vocês nos deixam! Beijinhos da tia D.S

Capítulo XI:

Ao despertar na manhã de véspera de Natal, Natália estranhou ver Elizabeta, sua companheira, sentada na ponta da cama a vestir as meias sete-oitavos.

– Que estás a fazer, Liz? – a voz arrastada e sonolenta da russa chamou a atenção de Elizabeta, que sorriu à namorada.

– Hoje a Lovina vai receber alta do hospital, e quero visitá-la.

– Mas é cedo... – a loira esfregou os olhos e se arrastou pela cama, abraçando a húngara por trás e apoiando seu queixo no ombro dela. – Tens mesmo de ir?

Elizabeta voltou a sorrir. Natália era uma namorada ciumenta e possessiva – na verdade ela o era com todos que gostava, tanto que seu irmão mais velho fugiu dela por anos –, mas extremamente carinhosa quando queria. Virando o rosto em direção à namorada, beijou-lhe os lábios alvos e secos pela sede.

– Tenho outras coisas a fazer, Natália. – disse.

Ainda apenas de roupas íntimas, Elizabeta ergueu-se e já ia encaminhar-se ao guarda-roupas para escolher suas roupas quando foi puxada por Natália, sendo jogada na cama em seguida.

– N-Natália--

– Não quero que te vás agora... – a loira disse tranquilamente, porém com um sutil tom infantil em sua voz.

– M-mas eu já logo volto e-- – Elizabeta foi interrompida pela mais jovem, que lhe beijou carinhosamente, fazendo-a suspirar.

Os beijos de Natália, tão quentes e molhados, desceram pelo corpo seminu da húngara, as mãos hábeis e pequenas voltando a despir a parceira.

– N-Natália~ – ela gemeu fraquinho e, perante a insistência da russa, arfou – T-tens cinco muntos...

A russa sorriu e ergueu os olhos azuis até fitar os verdes de Elizabeta. Beijando a intimidade da namorada, comentou:

– Sabes que só preciso de três.

Elizabeta não era uma pessoa acanhada mas Natália sempre conseguia deixá-la atrapalhada e sem resposta.
Arqueou ligeiramente o tronco e usou as pernas para a abraçar.

– Isso não é verdade~ – implicou.

Natália não deixou de umedecer o local quando respondeu:

– Claro que é. – a morena se retorceu, confirmando o que a russa dizia. Sorrindo, Natália declarou – Eu amo-te, Liz.

– E-eu... ah~ a-amo-te, N-Na--!

Quando chegou ao hospital, todos estranharam o comportamento apressado e desajeitado de Elizabeta. A húngara chegara tarde e seus cabelos, presos num rabo-de-cavalo alto, estavam um pouco bagunçados.

Que fazer se Natália usara os três minutos necessários... por quase dez vezes?

– Atrasada, Liza? – Bella questionou – Quase que encontravas o quarto vazio!

Ela corou um pouco e tentou ajeitar o seu cabelo, mesmo que fosse inútil porque nem tinha espelho.

– A-Adormeci.
Elizabeta simplesmente nunca chegava atrasada para nada mas Bella não deu importância e arrastou-a:

– Vem aí a Lovi!
A italiana vinha de braço dado a António, que a questionava constantemente sobre o seu bem-estar.
– Queres que leve a tua bolsa?
– Não...
– De certeza--
– Tomateiro... Mais uma pergunta, sugestão, o que for, eu fico violenta.
– Mas por que-- ok... Eu calo-me. – suspirou e ao ver as duas amigas da esposa sorriu abertamente – Bella! Liz!

As amigas se aproximaram do casal e deram beijinhos doces nas bochechas de Lovina, que continuava um pouco pálida. Questionavam-lhe sobre Marisa, como estava se sentindo, se precisava de algo.

– Meninas... Eu estou a receber alta do hospital, não o contrário. – a italiana riu.

Já na casa de Antônio e Lovina, esta começou a explicar a situação enquanto o esposo ia lhe preparar uma comida leve.

Marisa estava fortalecendo-se rapidamente, uma força nata da família de Antônio, e voltaria para a casa antes do Ano Novo, e não em dois meses, como haviam lhe dito anteriormente. Claro que a menina teria algumas restrições por enquanto, porém a italiana não se aguentava de tanta alegria. Naquela tarde já veria sua primogênita – estava a morrer de saudades de Sofia – e logo teria as duas filhas no colo. Estava tão ansiosa que chegava a enjoar devido a fraqueza.

– E o Luci? – ela questionou ao sentir o curativo sobre o local onde, anteriormente, estava o cano do soro.

– Está bem. – Bella sorriu, ajeitando-se na cama de casal e ficando ao lado da amiga.

– Alguma novidade sobre nosso casalzinho? – a húngara questionou, curiosa.

Bella ficou pensativa e coçou o queixo.

– O Luci ontem saiu de casa no final de jantar e voltou bem mais tarde com um saco que o Afonso mandou.
A atenção das duas morenas aumentou.

– Achas que eles tiveram juntos?
– Como assim?
– Juntos. Tu sabes... juntos!
Ela pestanejou.

– Não faço ideia.

As morenas suspiraram.

– O Nino anda a me encher a paciência sobre isso. – Lovina resmungou.

– Por que, Lovi?

– Pff... Aquele viciado em tomates está preocupado com o viciado em bacalhau e está a achar que o Luci é um lobo mau atrás da menininha indefesa... – rolou os olhos e as amigas riram – Estou a falar sério! – riu também – O Antônio está a passar dia e noite a me questionar o que achei do Luciano; se ele não estava a invadir demais e muito rápido um espaço na família e o que cochichamos quando ele não está comigo.

– Ele é só um irmãozinho preocupado.
Lovina rolou os olhos.

– Até exagera. Ele sabe que Afonso sabe cuidar de si próprio.
A húngara sorriu.

– Talvez o Luci seja mesmo um lobo mau. Muito mau~

As três desataram a rir, a italiana balançando a mão direita em frente ao rosto numa mania sua.

– Mas, quem sabe, esse lobo mau seja a melhor coisa que vai acontecer ao nosso Afonsinho~ – Bella disse entre risadas, abraçando-se ao braço esquerdo de Elizabeta, que também dava gargalhadas. – Que foi? Acho que ele está precisando...

– Precisando? De que, Bella? – Lovina questionou, limpando o canto do olho esquerdo, que estava lacrimejando.

– Ué... daquilo~.

– Daquilo? – a italiana pestanejou, sem entender logo à primeira e Elizabeta sorriu de lado.

– Sim Lovi, daquilo.
– ...Aaah~ Daquilo.
– Daquilo o quê?
As três assustaram-se e olharam para António, que tinha acabado de entrar no quarto.

– Do que estão a falar?

As amigas se entreolharam e, claro, Elizabeta tomou a dianteira:

– Só queríamos saber pela Lovi se tu não estás sentindo “aquilo”...

– Aquilo? Ouvi “daquilo”--

Elizabeta riu e balançou a cabeça.

– Nah. Estás a ficar surdo, papai. – as mais jovens riram escondidas.

Franzindo o cenho, e superdesconfiado, Antônio cruzou os braços e insistiu:

– Certo, mas estou sentindo o que?

– A Liza só me perguntou se não estás sentindo falta dos nossos prazeres conjugais. – a italiana disse sem sequer corar.

O espanhol manteve a postura.
Velocidade de processamento era uma coisa que faltava aos ibéricos e a inocência de António por vezes interferia nisso.
– Prazeres conjugais? – pestanejou – Ah, sim. Tenho saudades de dormir e tomar o pequeno almoço contigo. Odeio dormir sozinho.

Enquanto a italiana levava a mão direita até o meio da testa, Bella e Elizabeta voltavam a cair na gargalhada, causando ainda mais confusão no pobre Antônio.

– Q-que foi? O que eu disse? – questionou piscando os olhos, involuntariamente enrubescendo.

– Nada António. Nada mesmo.
O tom irónico da sua esposa fez o espanhol corar mais ainda e ele sentou-se ao lado dela.
– Digam-me... – amuou.

Lovina riu e acarinhou o rosto de Antônio. Ele tinha o tom de pele um pouco mais escuro que o de Afonso, porém mais claro que o de Luciano. Puxando o espanhol pela nuca, a esposa lhe explicou direitinho a que “prazeres conjugais” se referia.

Foi como se as engrenagens do espanhol começassem a trabalhar. E ele ficou vermelho até ás orelhas.

– Ah... Esses prazeres conjugais... Agora que falaram nisso... – tossiu discretamente e desviou o olhar – Claro que não! Eu sou uma pessoa controlada.

Elizabeta e Bella disseram um sonoro “own~” e riram perante o sorriso bobo de Lovina e a expressão acanhada de Antônio.

– Bem, já que estás em ótimas mãos, estamos indo, Lovi. – a belga disse.

As mais velhas tinham coisas a fazer para suas festas de Natal, e logo convites foram trocados: cada uma queria que as outras fosse passar a festa em sua respectiva casa, porém, no fim, todas decidiram ficar com suas famílias. Lovina ainda precisava descansar – e queria dedicar aquela noite especial com seu esposo e sua filha, uma vez que Afonso recusara veementemente seus convites –; Elizabeta sabia que sua amada – e ciumenta – namorada não se sentiria a vontade com seus amigos, preferindo ficar em seu apartamento bebendo vinho com a russa; e Bella tinha uma enorme família para alimentar e lhe fazer companhia. Ela só desejava poder ter um minutinho a sós com seu irmão para lhe entregar um presente todo especial.

Após Bella e Elizabeta irem embora, Antônio aproveitou seus primeiros minutos a sós com Lovina para lhe mimar à vontade.

– Lovi?

– Hn? – ela sorriu quando percebeu que Antônio lhe dava um sutil aperto.

– S-sobre o que dissestes antes... E-eu sinto falta, mas...

Lovina ergueu o olhar e puxou-se para cima, dando um beijinho cálido nos lábios do esposo.

– Ainda não podemos, Nino... E-eu preciso descan--

– Eu sei! – ele balançou a cabeça em negação e depois tomou a mão esquerda da italiana, lhe enchendo de beijos pelo dorso e pulso – Eu te vou esperar sempre. – garantiu.

A declaração fez a italiana derreter-se, e ela apaixonou-se outra vez por aquele jovem simples, abobalhado e carismático, seu amor desde os dezesseis anos.

– Eu amo-te, meu viciado em tomates.

Rindo, eles se beijaram outra vez, cheios de ternura e paixão.

~※~

Michelle trocou a perna que estava cruzada mais uma vez, sentindo o seu nervosismo aumentar a cada minuto que passava. Santiago mexia tanto com ele que mesmo namorando há meses, sentia-se sempre nervosa por saber que ia estar com ele.
Na sua bolsa estava guardado o presente que lhe ia dar. Tinha imensa pena de não estar com ele no jantar da véspera de Natal, mas ia passar a sua ceia em casa de umas primas.
Um par de braços enlaçou-a pelos ombros.

– Cheguei~.

O coração de Michelle, já arrítmico, quase saltou para sua garganta, num misto de susto e apreensão. O perfume que o argentino usava, escolhido com a ajuda dela, chegou às narinas da morena e lhe causou deleite, o corpo da moça relaxando ao mesmo instante em que Martin lhe beijava a têmpora esquerda.

– Santiago. – Michelle disse enquanto os lábios do loiro cessavam o beijo ao mesmo tempo em que o mais jovem se afastava de si e sentava-se na cadeira à sua frente.

– Desculpe o atraso. Amália--

– Não precisas te desculpar. – ela sorriu, os lábios pintados de vermelho, dando-lhe um ar sensual e maduro – A senhora--

– Senhorita. – o loiro advertiu, piscando-lhe o olho.

Michelle riu ao se corrigir:

– A senhorita Amália tem suas manias, eu sei.

Martin sorriu e chamou o garçom – um momento que sempre deixava a morena um pouco nervosa: ele seria rude outra vez? Um rapaz jovem, loiro e de óculos de armação fina, aproximou-se timidamente da mesa, seus olhos violetas fixos na toalha branca da mesa.

– P-posso ajudar?

Michelle piscou os olhos perante o garçom. A timidez dele era quase palpável, e ela não conseguiu evitar achar isso fofo. Estava tão acostumada com a imponência de seu namorado que aquele jeitinho querido do outro rapaz lhe chamara a atenção.

– Deve. – não fora bem uma grosseria, mas Michelle mordeu o lábio inferior antes de erguer o olhar outra vez e verificar o nome do garçom em sua plaqueta metálica: M. Williams – Para começar, um vinho tinto suave, o melhor da casa, e escargot para mim. Michelle, querida, vai querer o que?

A morena voltou a piscar e desviou o olhar de Matthew até Santiago, sorrindo atrapalhada e verificando o menu.

– A-ah... – correu seus olhos castanhos pelas palavras e apontou um prato qualquer. Estava um pouco nervosa, então tinha o estômago embrulhado.

Matthew anotou os pedidos e pediu licença, retirando-se em seguida.

– Este empregado parece um fantasma.

A voz de Martin assustou-a sem querer pois estava demasiado distraída. Olhou para cima, procurando pelo empregado mas já não o viu.

– Fantasma?

O argentino pestanejou e apoiou o seu queixo na mão, observando a rapariga com atenção e notando-lhe todas as feições. O batom vermelho ficava-lhe mesmo bem...
– Sim, aproxima-se silênciosamente e de um momento para o outro, desaparece~
Michelle sorriu um pouco e abanou a cabeça:

– Mas ele não é um fantasma. Tinha até uma etiqueta a dizer... Hum... Tinha um nome... Ah não me lembro. – deu de ombros e relaxou um pouco, encostando-se na cadeira com as costas.
Matthew apareceu novamente uns minutos depois, pousando os pedidos na mesa. Abriu a garrafa de vinho e encheu ambos os copos, sempre silênciosamente.

– Obrigada. – a educação de Michelle fez Matthew corar um pouco.

Dando um sorriso delicado, o canadense murmurou um “de nada” e afastou-se outra vez, deixando o casal a sós.

Martin, ao aprovar o vinho servido, sorriu e encarou o conteúdo rubro na taça, os olhos claros em seguida encarando os de Michelle.

– Querida. – Michelle gostava daquela mania do argentino de lhe chamar de “querida”. Ela sentia-se amada. Martin tomou a mão esquerda da morena e sorriu outra vez – Você tem belas mãos.

Por aquela Michelle não esperava! Sentia o polegar do mais jovem deslizando sobre sua pele morena, causando-lhe um certo embaraço... e um deleite formidável!

– O-obrigada. – ela disse enquanto corava, o semblante sereno de Martin a fazendo sorrir também.

– Michelle... – ele chamou, tirando do bolso de seu paletó uma pequena caixinha azul-marinho, pousando-a em cima da mesa, em frente ao prato de Michelle – Espero que aceite.

Os olhos escuros de Michelle brilharam em expectativa. Era uma caixinha pequena demais para um colar, o que lhe dava esperanças. Cessando o contato manual, Michelle pegou a delicada caixinha e a abriu.

– Brincos? – sua voz saíra fraca quando ela viu o par de brincos de brilhantes.

– Brincos! – Martin sorriu – Vão ficar perfeitos em suas orelhas, querida.

Michelle piscou e ficou a encarar seu presente. Brincos. Para suas orelhas. Não um anel. Oh, como era boba.

– O que foi, Michelle? Não gostou?

A morena ficou a encarar a joía por uns momentos. Eles eram bonitos, admitia, e tinham aspecto caro mas...
– Adorei! – sorriu – S-Só não estava a contar e fiquei sem palavras. Obrigada, Santiago.
Tentando não mostrar a sua desilusão, tirou os que trazia e colocou de imediato os novos brincos.
– Que tal ficam?

Martin sorriu e segurou a mão de Michelle, beijando-lhe o dorso.

– Ficaram perfeitos, como suspeitei.

A morena sorriu de canto, a desilusão ainda lhe causando um certo desconforto na barriga. Talvez não devesse ter uma visão tão romântica da vida. Quem ainda se casava em pleno ano de 2011?! Besteira sua imaginar que Santiago, um homem tão ocupado, pudesse pedi-la em casamento tão cedo. Era ocupado demais. Jovem demais.

– Obrigada. – ela tornou a agradecer, e o argentino fez sinal com a mão.

Matthew retornou à mesa, a cabeça sempre baixa. Martin não o reconhecia pelo simples fato de que poucos prestavam atenção no jovem norte-americano – com exceção de Luciano e seu irmão, que por vezes o esquecia nos lugares –, e o canadense não reconhecera o argentino porque Martin mal parava na pensão e, quando lá estava, trancava-se no quarto e se negava a fazer as refeições em conjunto dos demais.

Martin não era estranho para Matthew – de onde vira olhos com um ar tão zombeteiro antes? –, porém não era respeitoso ficar encarando um cliente. “Mantenha a cabeça sempre baixa.”, era o que dizia o dono do restaurante, seu patrão.

– O prato principal. – o argentino disse e entregou o menu para o garçom.

Os pedidos foram anotados novamente e o canadense se retirou para a cozinha.

Martin voltou a olhar para Michelle e ambos sorriram, cúmplices. O jantar prosseguiu sem grandes desafetos – por que Santiago não gostava de garçons? –, e logo deixaram o restaurante. O argentino enlaçava Michelle pela cintura, e a morena tinha as bochechas rosadas por culpa do vinho que beberam mais cedo.

Riam, conversavam, falavam bobagem... A mão de Martin era quente, e aumentava aquele friozinho na barriga que a mais velha sentia há semanas.

– Santiago... – ela chamou docemente, corada e acanhada. Estavam em frente ao prédio onde Michelle morava, porém ela desejava que essa noite fosse diferente.

– Michelle? – eles riram assim que o argentino disse o nome de sua namorada.

Michelle, talvez por culpa da bebida, tomou coragem e enlaçou o pescoço do argentino, lhe dando um sutil beijo nos lábios. Em seguida, continuou a beijar seu amado, dos lábios até a orelha esquerda, onde pediu:

– Passa a noite comigo?

O argentino pestanejou confuso por uns momentos mas logo sorriu amavelmente, puxando-a para mais perto.

– Com todo o gosto, querida.

~※~

Luciano estava deitado bem no meio na sua cama, de braços abertos e a encarar o tecto.
Não sabia explicar o motivo, mas tinha um mau pressentimento e sentia-se incrivelmente só. O brasileiro gostava que lhe dessem atenção – afinal, quem não gosta? – e não havia coisa que mais o deprimisse do que solidão. Sobretudo quando precisava de falar com alguém mas não sabia exactamente por quê.
Como Martín não dava sinais de aparecer, ainda tinha pensado em ir conversar com Bella mas não a queria incomodar porque já era tarde.
Suspirou e rolou para o lado, encarando o seu telemóvel que estava em cima da mesinha de cabeceira. Esticou o braço para pegar nele. Sabia que a probabilidade de Mártin lhe atender o telefone enquanto estava no trabalho era quase nula mas... Tinha de tentar.
Porém, mal abriu a lista de contactos, um dos primeiros nomes que apareceu foi “Afonso”.
Voltou a suspirar, desta vez tristemente. Afonso era a pessoa ideal para conversar mesmo sem assunto só que o brasileiro já se sentia idiota o suficiente por ter aparecido em casa dele assim do nada. Se lhe ligasse agora, que diria? “Oi chefinho. Liguei só para ouvir sua voz.”?
– Espere-- O quê? – o brasileiro falou sozinho, ainda a olhar para o aparelho.
Quando o seu próprio pensamento começou a fazer sentido, Luciano corou e sentou-se na cama, esfregando o seu cabelo.
Para que queria ele ouvir a voz de Afonso?
Ah... Talvez fosse por saber que só ia ver o mais velho depois do Ano Novo. Eram quase duas semanas sem o ver, sem o ouvir reclamar, sem se poder abraçar nele enquanto o outro estava ao balcão, sem lhe poder tocar no cabelo e tentar, em vão, soltá-lo...

Ganiu baixinho e apoiou o queixo nos joelhos, tudo aquilo era idiota. Já lhe era doloroso estar tão perto do português e não o poder abraçar sempre que quisesse e ainda ver aquelas marcas que tinha no pescoço... Lembrou-se da reacção que ele tivera quando foi o próprio Luciano a mordê-lo. Inevitavelmente, pôs-se a pensar se ele tinha tido a mesma reacção quando Arthur lhe deixou todos aqueles chupões.
Queria tanto poder fazer o mesmo...
Luciano esfregou a mão direita por seus cachos, os olhos fixos no nome do português na tela de seu celular. Bastava ele apertar um botão que o aparelho discaria para o número de Afonso, então o brasileiro poderia ouvir sua voz...

– Ridículo. – murmurou, pousando o celular sem muita delicadeza na mesa de cabeceira e voltando a se deitar na cama, enrolando-se nos lençóis. – Ridículo.

~※~

Bella lavava a louça quando Hansen chegou à cozinha. O holandês carregava mais alguns talheres e copos, deixando-os sobre a bancada da pia, encarando sua irmã em seguida.

A festa havia sido linda: a pensão muito bem-arrumada, iluminada pelas luzes de Natal, com muitos presentes e comida. Matthew chegou algum tempo atrasado por culpa de seu trabalho como garçom e Ivan surpreendeu a todos ao trazer um “amigo” chinês para o jantar – “Quanto mais, melhor!”, Bella dizia sorridente, equilibrando a bandeja com o belíssimo e delicioso peru. Martin não voltou de seu trabalho, o que entristeceu Luciano. O argentino havia lhe dito que talvez se atrasasse, porém o moreno esperou por seu namorado até sua barriga doer de fome. Com a insistência de todos, ele jantou, porém recolheu-se aos seus aposentos antes de abrir seus presentes. Afinal, ele nem esperava presentes.

– Deixa isso para amanhã. – Hansen disse com a voz baixa.

Bella sorriu enquanto passava a esponja num prato.

– Amanhã teremos o almoço de Natal, as louças precisam estar limpas.

Hansen respirou fundo e caminhou até ao lado dela.

– Então deixa-me fazer. Hoje já fizeste muito.
– Não, não~ – mostrou-lhe a língua, de forma infantil – Eu termino isto aqui. Se quiseres ajudar, leva o saco azul que tem na sala para o quarto do Luciano. Ele esqueceu-se de abrir os presentes dele.
Como contrariá-la não ia dar em nada, o holandês obedeceu. Depois de deixar o saco no quarto do brasileiro – basicamente bateu à porta e pousou-o dentro – regressou apressadamente à cozinha:

– Deixa-me ajudar-te.

Hansen deu um sutil empurrão em Bella com seu quadril, fazendo a mais jovem rir um pouco e retribuir a batida.

– Deixas de ser parvo, irmãozão. – ela sorriu outra vez e finalizou os talheres. Agora só faltavam os copos.

– Bella.

Bella gostava de como Hansen pronunciava ser nome. Era baixo, rouco e de maneira mais lenta do que qualquer outra palavra. Podia-se ouvi-lo separando as sílabas se prestasse muita atenção: “Bel-la”.

– Sou eu~ – a loira continuava contente. Talvez fosse o efeito do vinho, Hansen não tinha certeza – Mas se queres tanto ajudar, secas a louça, se faz favor.

O loiro suspirou mais uma vez e procurou por um pano seco. Depois de o encontrar, voltou para o lado da irmã e foi secando a louça, arrumando-a à medida que terminava.
Fê-lo em silêncio, apenas por costume, mas depois perguntou:

– Precisas que vá buscar alguma coisa de manhã?

Bella terminou a louça e secou as mãos no pano que Hansen segurava, logo batucando o indicador direito sobre seus lábios, o que sempre fazia enquanto pensava.

– Acho que nosso vinho está terminando. – ela riu outra vez, um pouco embriagada – Vinho tinto, por favor.

O holandês piscou e deu um meio sorriso. Bella tinha as bochechas rosadas e aquilo simplesmente a deixava linda. E fofa.

– Vinho tinto. – ele repetiu, e a mais jovem riu outra vez.

Aproveitando-se de que finalmente estava a sós com sua irmã, Hansen deixou as louças de lado e retirou um embrulho do bolso de seu casaco novo – um sobretudo castanho que Bella lhe presenteara logo pela manhã. Bella sempre era a primeira a dar o presente, por mais que Hansen sempre fosse o primeiro a comprar um.

– Feliz Natal.

Bella piscou ao ver o embrulho cor-de-rosa – ela adorava rosa! – e sorriu timidamente, pegando-o e desfazendo o laço. Retirou de dentro do pacotinho um delicado e belíssimo colar, cujo pingente era, definitivamente, uma tulipa vermelha. De prata, a flor tinha sua pétala de uma pedra rubra, enquanto uma outra florzinha, pequenina e delicada, tinha as pétalas de brilhantes.

– I-irmão! – seus olhos verdes brilharam e ela voltou a piscar, encarando Hansen, sem saber o que dizer – E-eu... É lindo! – por impulso, agarrou o colar com força e projetou-se para frente, abraçando Hansen pelo tronco – Muito obrigada! É-é lindo, irmãozão!

O mais velho corou um pouco e deu um passo atrás para se equilibrar. Bella tinha mais força do que parecia.
– De nada, ainda bem que gostaste. – murmurou e retribuiu o abraço, mantendo-a perto de si.
Talvez por impulso, e por ela ser muito mais baixa que si próprio, Hansen pousou o queixo sobre a cabeça dela e suspirou em contentamento. Quem lhe dera poder mantê-la sempre por perto.

Os pensamentos de Bella não eram muito diferentes: gostava da diferença de altura entre si e Hansen e simplesmente amava poder encostar a lateral de seu rosto no peito forte e bem definido do mais velho. Quando mais jovens, o holandês trabalhava na terra, o que lhe rendeu um corpo bonito e fortificado, e mesmo agora que seguiam com a pensão da família, continuava com toda a sua saúde. Bella sempre fora pequenina, e quando criança, gostava de escalar para as costas de seu irmão e ser carregada de um lado para o outro. Claro que aquela era apenas uma desculpa para poder abraçar Hansen sem que sua mãe adotiva implicasse muito. A já falecida Abigaël não olhava com bons olhos a aproximação entre seus filhos. Amava Bella como sua, porém era ciumenta em relação a seu primogênito. Ainda mais depois de abortar o segundo filho. Berg, no entanto, dizia que sua esposa estava sendo boba, e era o mais gentil com Bella.

Afastando seu rosto do corpo de Hansen, Bella encarou os olhos verdes do irmão antes de lhe sorrir, acabando por se afastar decentemente e dar as costas ao mais velho.

– P-podes... – ela corou e ergueu seus fios loiros, deixando seu pescoço à mostra – Podes prender o pingente para mim?

Hansen voltou a aproximar-se dela e pegou no colar.

– Claro... – murmurou, prendendo-o delicadamente.
Demorou um pouco mais que o necessário para o fazer porque as suas mãos tremiam um bocadinho e ele resistia a toda a vontade que tinha de beijar o pescoço fino e branco de Bella.

Assim que o colar fora preso, Hansen não conseguiu evitar – talvez ele nem quisesse? – e deixou que a ponta de seus dedos deslizassem pela nuca de sua irmã antes de baixar os braços. Ele não percebeu, porém Bella corou ainda mais e soltou um suspiro baixo, os fios de sua nuca se arrepiando pelo toque tão desejado.

Tão logo percebeu-se entendendo as ações do holandês com segundas intenções, Bella censurou-se mentalmente e deixou que seus cabelos voltassem a cair por sobre os ombros, girando o corpo outra vez e evitando encarar o irmão.

– Obrigada.

Hansen até chegou a entreabrir os lábios – mas o que dizer? –, porém o celular da belga vibrou de sobre a mesa. Apressada, e contente por se livrar de uma situação constrangedora, verificou a mensagem que recebia de Felipe, convidando-a para um jantar na noite seguinte. Mesmo que não gostasse de deixar a família – Hansen – na noite de Natal, ela respondeu com um simples “ok :)” e voltou-se para o irmão:

– Felipe convidou-me para um jantar amanhã. – o mais velho franziu ligeiramente o cenho. Detestava aquele rapaz – Então... Boa noite, irmãozão.

Hansen suspirou e quase que rolou os olhos, mas conteve-se a tempo.

– Boa noite.
Tinha ficado um pouco irritado por aquele rapaz idiota – que ele nem conhecia – lhe estar a “roubar” a belga e rodou nos calcanhares para voltar para os seus aposentos.

Bella piscou seus olhos e se apressou em seguir Hansen, segurando-lhe a mão direita assim que o alcançou. O loiro virou o rosto em sua direção, um pouco confuso, e a menor sorriu, pondo-se na ponta dos pés para dar um beijo na bochecha do irmão.

– Boa noite. – ela repetiu e deu um beijo na outra bochecha dele – Obrigada pelo colar. – sorriu e apertou de leve a mão do holandês. Ah, como o amava.

Afastando-se depressa, Bella correu escadaria a cima e fechou-se em seu quarto, tomando o pingente da gargantilha na mão esquerda, visualizando-se no espelho de seu quarto como o colar lhe caíra bem. Era lindo, e ganhara da pessoa que mais amava no mundo inteiro.

– Irmãozão...

~※~

Aquele Natal não foi muito diferente para Afonso: recusara todos os convites que seu irmão caçula lhe fizera para cear com sua família, afirmando que Lovina precisava de descanso e que deviam se curtir naquela data especial; assim como agradecera, mas não aparecera, o jantar que Bella lhe convidara.

Estava sentado no sofá, os pés sobre os estofados, em frente a lareira acesa enquanto lia “Os Lusíadas” pela milésima vez. Era quase um ritual seu ler aquele livro todo Natal. Que mal havia? Tinha gente que lia “O Morro dos Ventos Uivantes”, por que ele não podia ler algo melhor?– na sua opinião, claro.

Mal os ponteiros de seu relógio marcaram a meia-noite, Afonso ouviu seu celular vibrar de sobre a mesa de centro. Cheio de esperanças, ele marcou a página que estava a ler e foi verificar a mensagem recebida, já imaginando que fosse de Arthur: “Feliz Natal, chefinho :) Não coma muito ou você vai ficar uma bola de carne. Luci.”.

Pestanejou, encarando a tela do telemóvel.
Não era a sms que esperava mas... Por algum motivo, sentiu o seu coração bater um pouco mais rápido.
Alguém se tinha lembrado de si! Ou melhor, alguém que não a sua família, se tinha lembrado de si.
Quase nunca recebia sms, muito menos de Arthur... Já nem sabia por que esperava.
Com um pequeno sorriso idiota, escreveu rapidamente uma resposta: “Obrigado e Feliz Natal para ti também. Não te preocupes com isso, bacalhau não engorda.”.

Por mais bobinha que a mensagem de Luciano fosse, Afonso não conseguia parar de relê-la. Era, de certa forma, fofa, embora ele ainda não aceitasse o apelido irritante que o brasileiro lhe dera. Não era “inho”!

Como não havia referências sobre o presente que o português lhe dera, cogitou que os presentes ainda não haviam sido distribuídos. Seu celular vibrou outra vez e ele riu ao ler a resposta do mais jovem: “Mas chocolate sim e eu sei que você tem algumas barras guardadas na gaveta da cozinha ;P.”. Luciano era tão... Fofo! Mandou-lhe um “Tu és um parvo :D” e decidiu, por algum motivo, mandar uma sms para Arthur: “Feliz Natal, Arthur.”. Não era sua melhor mensagem, porém nunca sabia o que falar quando estava com Arthur – ou enviar para Arthur. A resposta não viria, porém as últimas mensagens de Luciano lhe apaziguara um pouco a dor de ser, mais uma vez, ignorado pelo britânico: “Não sei o que é 'parvo', mas conhecendo você sei que está me xingando. Queria que tivesse vindo, acho que o Ivan está namorando um chinês :) Boa noite.”, e em seguida: “P.S: eu quis dizer que QUERÍAMOS que tivesse vindo.”.

Afonso não entendeu muito bem o que ele queria dizer com aquilo mas... Não queria terminar a conversa.
Sabia que conversar por sms eventualmente levaria a uma quebra de assunto e... Afonso sentia-se só.
Na verdade, ficou durante dez minutos a olhar para o telemóvel sem saber o que responder e decidiu então marcar o número de Luciano e ligar-lhe.
– Estou? Luci?

Após minutos ponderando se ligava ou não para Afonso, Luciano decidiu mandar aquela sms. Em seu mais íntimo pensamento, desejava ter sido o primeiro a desejar um Feliz Natal para o mais velho, e sentiu seu peito aquecer quando Afonso respondeu. Não havia nenhum “queria estar do teu lado” nem nada do tipo, mas o brasileiro adorava a forma como o mais velho falava. Era fofo, embora nem sempre entendesse o outro.

Quando desejou uma boa noite ao português, Luciano ainda lia as mensagens que trocaram, então percebeu que havia dito que queria que Afonso tivesse passado o Natal consigo. Mais do que depressa se corrigiu, incluindo a todos da pensão. Achando-se um idiota, ele demorou a perceber que seu telefone vibrava constantemente, indicando uma chamada, e não uma sms.

– Alô? Chefinho?

O português encolheu-se no canto do sofá, para ficar mais confortável e respondeu-lhe num tom amuado:

– Quantas vezes tenho de dizer para não me chamares “chefinho”, oh parvo.

Afonso ouviu Luciano rir, o brasileiro ajeitando-se na cama.

– Você não vai me ver por três semanas, então não manda em mim até lá. – ele sorriu e ficou quieto quando bateram na porta de seu quarto. Era Hansen deixando uma sacola, mas como o quarto estava escuro, o holandês não viu que o mais jovem estava acordado – Ué, deixaram uma sacola aqui no quarto... Como você está, chefinho?

– Então mal posso esperar que elas passem rápido para voltar a mandar em ti. – continuou a resmungar, como sempre fazia. Pestanejou, implicando de seguida – Como estou, como? Normal e a empanturrar-me de chocolate. E tu?

Luciano riu outra vez.

– Eu estava deitado. Morrendo de tédio. – por hábito, começou a passar a mão por seus cabelos – Você ainda vai ficar gordo e eu não vou deixar de apertar a sua barriga. – disse entre risos.

– Pensei que a Bella te estivesse a obrigar a comer. – disse, logo voltando a reclamar, falando rápido enquanto lhe explicava que “gordura era sinal de formura” e que não havia problema nem vergonha nenhuma em ser gorduchinho!
Claro que para o efeito ele se pôs a dar exemplos de personagens em livros e essas coisas. E ele falando em livros, nunca mais se calava, na verdade.
Após algum tempo de discurso, suspirou:

– Entendido? Além do mais, chocolate é bom.

– Mas eu nem sei o que é um Adamastor.

Claro que, no meio tempo em que falava sobre personagens rechonchudos, Afonso começou a falar sobre os livros que adorava, e claro que tinha de falar de Adamastor.

– Oi?

– Nada, esquece. – Luciano riu outra vez, o que fez Afonso torcer os lábios num biquinho – Eu também gosto de chocolate.

– Eu sei. Os meus rebuçados de caramelo e chocolate desapareceram do armário no outro dia e eu tive de roubar caixas de Tic Tac. – resmungou mais qualquer coisa e depois estalou os dedos – Recebeste os chocolates que mandei?
Com as sapatilhas, Afonso tinha incluindo uma caixa enorme de chocolate e duas cartas: um postal de Natal seu e um desenho de Bia.
Luciano sentou-se na cama e esfregou os cabelos, balançando a cabeça. Só então se lembrou que Afonso não podia vê-lo, e riu.

– Que chocolate?

– Os que eu te mandei.

– Ah... Eu vim me deitar assim que terminei de jantar. – suspirou e Afonso piscou.

– Mas por quê?

Não que o moreno quisesse falar sobre aquilo, porém ele mesmo desejava conversar com Afonso antes, certo? Que mal havia, então?

– O Martin não veio.

Afonso sentou-se direito no sofá e franziu ligeiramente o sobrolho:

– “Não veio”? Tu estás aí sozinho? O que se passou? Vocês discutiram?

Luciano balançou a cabeça, mais por costume do que para Afonso “ver”.

– Não, não discutimos. Ele me disse que ia vir mais tarde porque a chefe doida dele queria vê-lo e tal, tanto que ele saiu daqui de terno e gravata... – outro suspiro – Mas ele não voltou para o jantar e não atende no celular, então...

O português deu um estalido com a língua. Odiava ouvir aquele tom tão tristonho de Luciano.
– Pode estar muito ocupado no trabalho. – procurou arranjar alguma justificação mas não lhe surgia nenhuma... Para além dos serviços mínimos nos hospitais, ninguém trabalhava na noite de Natal. Ficou pensativo por uns momentos e depois perguntou-lhe: – Vais ficar sozinho amanhã? Se quiseres podes vir cá almoçar.

Afonso pode ouvir alguma coisa se movendo sobre os lençóis, cogitando que o mais jovem estava se arrumando outra vez na cama.

– Achei que isso fosse antiprofissional. – ele implicou, um sorriso faceiro delineando seu rosto.

– Tu já vieste comer cá. – ele soltou num muxoxo, um biquinho em seus lábios.

Luciano sorriu outra vez, erguendo-se da cama e seguindo até a pequena janela de seu quarto, a cidade durante a noite lhe agradava. Abriu o vidro e apoiou-se no parapeito, os olhos pondo-se a observar a rua vazia.

– Hei, chefinho. Já olhou a lua hoje? – ergueu o olhar para a lua cheia – Está tão bonita e brilhante.

– Não sou chefinho. – resmungou – Bem, ainda nem me levantei do sofá...
Por curiosidade, foi até a janela da cozinha e imitou o outro sem saber, mas sem abrir a janela porque tinha a lareira acesa.
– Tens razão. – murmurou – Está mesmo.

Luciano sorriu outra vez, os olhos fixos na grande e brilhante lua daquele céu estrelado. A noite estava tão bonita, embora fria.

– Quando eu era criança, antes de me mudar para o Rio com minha mãe, eu queria ser astronauta. – Luciano sequer sabia por quê estava contando aquilo para Afonso, porém continuou – Minha mãe comprava todas as revistas e histórias sobre isso, e meu maior sonho era viajar até a lua e tocar violão lá. – ele riu – Eu não sabia que o som não se propagava no vácuo, que criança inocente eu era.

Afonso soltou uma gargalhada, abanando um pouco a cabeça.

– É um sonho fofo. Quem sabe se não terás futuro em astronomia? – suspirou e sentou-se no parapeito da janela – A minha mãe dizia que a lua era a inspiração dos poetas porque era ela triste como eles já que quase nunca podia estar com o amado sol. – sorriu um pouco ao lembrar-se disso – E eu tinha sempre pena da Lua.

Embora não soubessem, estavam na mesma posição, ambos sentados no parapeito – Luciano apenas com a perna esquerda, a direita erguida e apoiada no chão – enquanto encaravam a bela lua cheia. E pensando um no outro, de alguma forma.

– É verdade... Uma vez minha mãe me contou uma história: a Lua e o Sol eram humanos que se amavam, porém nunca poderiam ficar juntos. O amor proibido deles lhes custou a vida, e eles se transformaram nos astros... – sorriu para o nada – Continuavam separados, porque ele brilhava de dia e ela sentia-se só à noite... Porém, um feiticeiro muito bondoso, ao sentir pena daquele amor impossível, criou o eclipse, único momento que os dois apaixonados podiam, enfim, se encontrar.
Afonso manteve o seu sorriso e começou a brincar com a ponta do seu cabelo.

– Bem, pelo menos tem uma versão mais feliz. Eu achava que em dias de lua nova a lua desaparecia para fugir com o sol.

O moreno riu.

– Hei... Quem é mais velho entre o Sol e a Lua?

Afonso piscou e balançou a cabeça.

– Não sei... O Sol?

– A Lua. Porque ela pode sair de noite.

O português caiu na gargalhada mais uma vez, cobrindo a boca com a mão direita para não fazer muito barulho. Não que fosse problema, uma vez que estava sozinho, porém apreciava o silêncio.

– És impossível.

– Nah. – ele riu – Minha mãe contava muitas piadas para mim.

– E não conta mais?

Luciano ficou em silêncio por um momento, ainda a sorrir. Não gostaria de conversar sobre aquilo, então fez outra pergunta ao mais velho:

– Conversou com o Arthur hoje?

Fora a vez de Afonso ficar quieto por um tempo, alguns suspiros tristonhos podendo ser ouvidos. Seus olhos verdes desviaram da lua para algumas constelações, e ele conseguiu ver o Cruzeiro do Sul.

– Não. – admitiu por fim, sua voz saindo mais baixa e magoada do que ele desejava. Por que Luciano tinha que tocar naquele assunto quando conversavam tão bem?

– Entendo. – Luciano também desviou o olhar do céu, pondo-se a visualizar a rua vazia e com luzes de Natal – Deveríamos largar nossos amores impossíveis e começar a namorar.

O português corou um pouco e voltou a suspirar tristemente:

– Eu tenho um amor impossível... – sabia que Arthur era doido por Francis e nada mudaria isso – Mas tu não.
Luciano engoliu seu suspiro.

– Você não tem essa certeza. – percebendo que estavam a falar de coisas dolorosas, logo implicou com o mais velho: – Mas se namorássemos, eu, definitivamente, teria que ensinar a você como se beija.

– O-oi?

– Seu beijo é um fiasco.

O português fez uma expressão indignada.

– Hey! Não é nada! – ou era? Ele já nem sabia. – Só dizes isso porque eu consegui ficar com o teu rebuçado.
– Não, seu beijo é fraco mesmo. – implicou outra vez.

Claro que aquilo era mentira. Nunca um beijo mexera tanto consigo.

– Tu me pagas, parvo.

Luciano riu outra vez, espirrando em seguida. Fechou a janela e refugiou-se para a sua cama outra vez, resmungando ao constatar que os lençóis estavam gelados.

– Está tarde... Preciso estar bem-disposto para escutar as desculpas do Martin amanhã... – sorriu para o nada, sem achar graça alguma – Boa noite, chefinho. E obrigado por ter ligado.

Afonso afastou-se também da janela, regressando para junto da lareira.

– Desculpa ter ligado tão tarde, nem tinha visto as horas. – suspirou – Não sou “chefinho” e boa noite, parvo.

Afonso pode ouvir o outro sorrir. Aquilo podia soar impossível, mas parece que algo na respiração muda quando a pessoa sorri. E o português sentia que Luciano estava sorrindo com aquele sorriso bonito, puro e sincero. Mesmo quando ele forçava seus lábios, havia sinceridade naquele gesto: a mágoa torcia a boca carnuda do brasileiro, o que deixava seu sorriso triste, mas não menos verdadeiro.

– Eu não me importo. – ele disse por fim, ajeitando a cabeça sobre o travesseiro gelado – Você pode me ligar sempre. Eu sempre vou atender.

O mais velho riu um pouco, aproveitando para implicar com ele.

– Vou-te ligar ás seis ou sete da manhã para ver isso. – deitou-se no sofá, nada delicadamente, e espreguiçou-se – Depois diz-me se gostaste do chocolate~.

– Isso já é tortura. – ele riu. Gostava de dormir, mas não era preguiçoso como pensavam – Digo sim, se eu descobrir que chocolates são esses. – e, num sussurro, desejou: – Bons sonhos, Afonso.

O português cobriu-se com o cobertor que estava sobre o sofá e sorriu ligeiramente.

– Para ti também, Luci. Dorme bem.

Luciano sorriu outra vez.

Ambos desligaram o telefone ao mesmo tempo, depois de dois completos minutos em silêncio.

Em seguida, cada um deitado em seu local confortável, eles encararam o teto e sorriram, o telefone celular junto ao peito.