Notas iniciais
Hue, demorou mas está aí! Pretendíamos postar esse capítulo no Natal, mas... ugh, pedimos imensas desculpas pelo atraso, a gente jura que foi por força maior ;A; Uma ótima leitura! D.S

A noite do dia 25 chegara.

Apesar do convite, Luciano não apareceu na casa de Afonso para passar o dia. Ah, sim, ele queria, porém Martin chegou logo que raiou o dia, e eles ficaram ocupados demais discutindo para que o moreno tivesse cabeça de ir ver seu querido chefinho.

O jantar com Felipe tinha sido bom – não maravilhoso, mas bom –, e o rapaz trazia Bella para casa em seu carro. A belga usava um vestido verde escuro, os ombros cobertos por um casaco castanho e o pescoço adornado pela gargantilha que ganhara de seu irmão. Por ela, nunca mais tirava aquele colar.

– Obrigada pelo jantar, Felipe. – ela agradeceu educadamente, os lábios torcidos num sorriso amigável.

– De nada. – ele também sorriu, os cabelos castanhos lisos sendo penteados para trás com a mão esquerda – Não mereço um beijo?

Bella piscou e sorriu de canto, dando um sutil beijo na bochecha de Felipe, o que o fez estalar a língua.

– Na boca, Bella.

Apesar de estranhar o pedido, a loira lhe beijou os lábios, mas cessou a carícia quando ele tentou aprofundá-la.

– Boa noite. – ela apressou-se a dizer, sentindo-se incomodada.

– Espera. – Felipe lhe segurou pelos ombros, beijando-lhe a bochecha enquanto trancava as portas do carro sem que ela percebesse – Não me vais convidar para entrar?

A belga encarou-o confusa, não entendendo o que ele queria dizer com aquilo.
– Não me parece boa ideia, está um pouco tarde.

Felipe sorria. Mas ela não estava gostando daquele sorriso.

– Vamos lá... Ninguém vai ficar a saber.

Bella tentou abrir a porta, sentindo seu sangue gelar quando percebeu que estava trancada. Tentou puxar o pino, porém Felipe lhe beijou a nuca e ela sentiu-se ainda mais nervosa.

– Felipe, abre a porta.

– Ah, vamos... Fica mais um bocadinho... – ele pediu, segurando Bella firmemente pela cintura com o braço direito enquanto tentava lhe subir a barra do vestido com a mão live – Estás tão linda.

– F-Felipe, por favor. – ela sentiu os dedos esquerdos dele lhe acariciando as coxas e instintivamente cruzou as pernas. Estava com medo. Muito medo – Por f-favor.

Um puxão forte em seu cabelo fez a belga jogar a cabeça para trás, uma solitária lágrima deslizando por seu rosto. Ela soltou um ganido por culpa da dor, e levou suas mãos até os fios para tentar soltá-los.

– Quem pensas que és? – a voz dele tornou-se rouca e irritadiça, e Felipe começou a falar baixo, próximo ao ouvido de Bella, sua mão tentando forçá-la a abrir as pernas – Pensas que gastei balbúrdios só para que me desses esses beijos fracos? – mordeu-lhe a orelha, ouvindo-a chorar e implorar baixinho – Eu quero mais, vaca.

– Pare! P-por favor,solta-me!

– Abre as pernas!

– Não!

– Estou a mandar! – ele lhe rasgou a alça do vestido, também lhe arrebentando o colar.

– Felipe, n-nã--

O barulho de vidro quebrando fez Bella abrir os olhos, e um puxão ainda mais forte em seus cabelos a fez gemer de dor outra vez. Em seguida, não sentiu mais o corpo de Felipe junto ao seu, e Bella girou o tronco, podendo ver Hansen puxando Felipe para fora do carro, depois de quebrar a janela e destrancar a porta.

– Bella, saí daí. – seu irmão disse enquanto puxava Felipe pelo colarinho da camisa, o rapaz mais baixo se debatendo.

Bella abriu a porta e saiu rapidamente, correndo para dentro da pensão no mesmo instante que o holandês desferia um generoso soco no rosto de Felipe.

– Nunca mais toques nela.

Felipe sorriu maldoso, o nariz sangrando.

– E tu és quem? O chulo dela?

Hansen franziu ainda mais o cenho, desferindo soco atrás de soco no mais baixo, em seguida jogando-o para dentro do carro.

–Desaparece daqui!

Atordoado e dolorido, Felipe limpou o sangue que lhe escorria o rosto na manga de sua camisa e fuzilou o holandês com o olhar, prometendo vingança. Claro que só foi Hansen dar um passo em direção a seu carro que ele acelerou, sumindo em segundos.

Hansen, ignorando sua mão machucada pelos cortes ocasionados pelo soco no vidro que se partira, seguiu até o quarto da irmã, estranhando ao notar a porta trancada.

– Bella?

Ele conseguia ouvi-la chorar, e o que mais desejava era aninhá-la em seu abraço e dizer que tudo ficaria bem. Porém, contato masculino era o que a belga menos queria naquele momento.

– Deixa-me. – ela pediu entre soluços, sentada na cama enquanto encarava seu colar arrebentado.

– Bella, por favor--

– Deixa-me! – tornou a pedir, a voz chorosa soando mais alto.

Hansen encostou a testa na porta e respirou fundo para controlar a sua respiração e se acalmar. Tinha o coração aos saltos e a adrenalina ainda lhe corria pelas veias.
– Por favor Bella... Abre a porta.
– Não!
O holandês sabia que não devia insistir mas... Estava tão preocupado...
– Eu não vou sair daqui até que me abras a porta, nem que tenha de passar a noite aqui.

Hansen ouviu passos se aproximando, e em seguida a porta foi aberta, uma belga assustada, pálida e tentando controlar o choro lhe encarando.

Ela já havia trocado de roupa, porém vergões rubros marcavam seu pescoço nu, e ela sangrava um pouco.
Sem realmente pensar, Hansen entrou e fechou a porta, logo abraçando a loira de forma a trazê-la para perto de si.
Tivera tanto medo que algo pior lhe tivesse acontecido...
Pousou o queixo sobre a cabeça dela depois de lhe ter beijado a testa:

– Já passou...
Bella pensou em afastar o irmão, tanto nojo de si mesma estava sentindo. Porém, a única coisa que conseguiu fazer foi agarrar-se com força na roupa do mais velho e chorar, o rosto escondido no peito de Hansen.
A vergonha, a mágoa, o nojo lhe embrulhava o estômago, e mesmo que quisesse, mesmo que Felipe não fosse importante para si, ela não conseguia parar de chorar.

Hansen respirou fundo e quando sentiu-a a retribuir o abraço, relaxou minimamente apesar de a ter apertado mais um pouco.
– Não chores... Eu não vou deixar que te voltem a fazer mal.

Ela balançou a cabeça, confiando no irmão, porém não desgrudou o rosto do tórax do maior. Além de querer sumir, o corpo quente de Hansen era agradável e abafava seus soluços desesperados.

Assim que conseguiu controlar um pouco o choro, ela deixou apenas a testa colada no corpo do holandês, questionando-lhe:

– C-como é que sabias...?

Hansen piscou no mesmo instante em que percebeu sobre o que Bella queria saber. Como ele sabia que haviam chego? E como ele percebeu que algo estava errado?

– Eu...

Não podia simplesmente admitir para a irmã que a vigiava, que sempre ficava à espreita quando ela saia com aquele filho da mãe, tanto por preocupação quanto por puro ciúmes. Seria a mesma coisa que se declarar, e admitir seu amor estava fora de cogitação. Perdê-la estava fora de cogitação.

– Ouvi o automóvel a chegar e estranhei que estavas a te demorar... – sentiu Bella apertar a camisa em suas costas, voltando a lhe abraçar – Então fiquei preocupado.

Ele a afastou um pouco, tentando encará-la nos olhos. Claro que Bella voltou a baixar os olhos, porém Hansen lhe limpou as lágrimas com a mão sadia.

– Estás magoada... – murmurou num fio de voz, acariciando acima dos arranhões, perto das clavículas.

Bella, então, ergueu o olhar e deixou outras lágrimas percorrerem seu rosto pálido quando piscou. Hansen olhava para os machucados que Felipe lhe fizera, e ela voltou a olhar para baixo, tomando a mão do irmão.

– Também estás.

– Não é nada de especial. – murmurou e apertou a mão dela, que estava mais fria que a sua.
– Tens de tratar isso...
O loiro abanou a cabeça negativamente.

– Primeiro vens tu.
Deu dois passos atrás e sentou-se na beira da cama, trazendo a belga para o seu colo.

– Queres que faça um chá?

Bella continuava quieta, balançando a cabeça em sinal de negação. O que ela mais desejava no momento era tomar um banho e limpar qualquer rastro de Felipe de seu corpo. Ainda sentia a respiração úmida do desgraçado em sua nuca, e estava enojada com isso.

O colo de Hansen era gostoso, quente e protetor. Fazia anos desde que começaram a se afastar, física e emocionalmente, ambos presos em seus sentimentos mais puros e proibidos. Apesar de estar sobre as pernas do irmão, Bella continuava menor que este, então precisava erguer os olhos para encará-lo.

– Quero um duche. – ela murmurou, esfregando o pulso direito por sobre as pálpebras enquanto deslizava para fora do colo de Hansen e se punha de pé.

Hansen viu-a cambalear até o armário, puxar de lá algumas roupas – e deixar que outras caíssem ao chão – e seguir em silêncio até a porta do quarto. Sem esperar qualquer consentimento, seguiu a mais jovem em silêncio.

– Vou ficar aqui. – ele avisou enquanto ela abria a porta do banheiro. – Qualquer coisa, chama.
Ela olhou pelo ombro e acenou afirmativamente com a cabeça.
O olhar abatido que a belga tinha fez o coração de Hansen apertar quase em desespero. Odiava vê-la assim e odiava ainda mais aquele... animal que lhe tinha feito aquilo.
Depois de ela entrar, encostou-se na parede à espera.
– Bella.

Hansen começou a se questionar: e se tivesse declarado seu amor à irmã? Teria ela o aceitado e nada disso aconteceria ou ela teria o abandonado e se casado com outro, a impedindo de conhecer aquele monstro? De qualquer maneira, mesmo que Bella não ficasse consigo, ela não teria conhecido Felipe, e agora não estaria Hansen com a mão suja de sangue seco e nem a belga assustada e uma quase vítima de estupro.

Aquela palavra era tão nojenta quanto a ação.

A porta abriu-se alguns minutos depois, e o holandês pode constatar que sua irmã chorara em silêncio durante o banho. Como os arranhões lhe machucavam e a pele estava sensível, Bella usava uma camisa solta e grande, e Hansen viu que seu corpo estava rubro demais.

– Bella?

Bella balançou a cabeça e seguiu apressada para seu quarto, tendo o irmão atrás de si como um cão fiel. Após fechar novamente a porta, Hansen pegou o kit de primeiros socorros do armário da irmã e foi até ela.

Vê-la tão destruída o fazia querer cuidar dela cada vez mais, trazê-la para perto de si, beijar-lhe os lábios e dizer que a amava. Porém, aquilo também o fazia se lembrar de que Bella era sua irmãzinha, e ele logo desistia daqueles pensamentos bobos.

– Bella? – o maior voltou a chamar, já umedecendo o algodão com o remédio – Podes baixar um pouco a camisola, por favor?

Ela nada disse, apenas obedeceu ao mais velho. Com o quarto bem iluminado, Hansen percebeu que o corpo inteiro de sua irmã estava avermelhado, e ele piscou.

– Bella, o que--

No mesmo instante, ela voltou a chorar, esfregando as unhas pela nuca, braços e colo.

– O cheiro dele não sai. E-eu esfreguei a esponja com força, mas eu ainda sinto o cheiro dele!

Hansen de imediato pousou o algodão e segurou-lhe nas mãos, impedindo-a de se magoar mais.

– Bella... Não... – baixou-se um pouco para a conseguir encarar, mal percebendo que estava tão próximo – A culpa não é tua se aquele grande filho da mãe é um animal. Por favor... Não te magoes mais...

Bella soluçou alto e fechou os olhos, desviando o rosto para baixo e um pouco para a direita. Apertava as mãos e tentava usar as unhas para marcar as palmas, tentando fazer com que aquela dor ardida fosse maior que sua vergonha.

– O que é que eu fiz, irmão? – ela perguntou numa voz chorosa e entrecortada – O que foi que eu fiz para receber este castigo?

Hansen hesitou. Não tinha resposta para aquela pergunta. Não se explicava à vítima porquê um canalha resolve estuprar – ou, no caso de Bella, tentar – justo ela. Estupradores eram monstros, doentes, animais.

Não poderia dizer nada para sua irmã, porque não havia resposta.

– Bella... – foi a única coisa que Hansen conseguiu murmurar antes de se inclinar para frente e...

Ele pensou, ele realmente pensou em beijar a irmã, tentar apaziguar a dor que ela sentia com um beijo cálido em sua boca... Porém a jovem acabara de sofrer por culpa de um homem, que monstro ele também seria se a beijasse?

Tocando seus lábios na testa da mais jovem, Hansen sentia que a estava perdendo, de alguma forma. E se a belga passasse a temer os homens e, por fim, a si?

– Precisamos de tratar tuas feridas. – ele murmurou outra vez, como se sua voz grossa e rouca pudesse assustá-la.

Bella balançou a cabeça e inspirou profundamente, deixando que Hansen passasse o chumaço de algodão pelos arranhões em seu pescoço e ombro. Embora ardesse, o holandês a tratava com tanto carinho que Bella se recusava a reclamar, mesmo que vez ou outra apertasse os olhos e fizesse uma careta.

Após passar a pomada e proteger os machucados com gaze, fora a vez de Bella cuidar de seu irmão.

– Não tem necessidade. – avisou, porém a menor continuou limpando-lhe o sangue e verificando se havia cacos de vidro sob sua pele.

Assim que a belga terminou de enfaixar o punho direito de Hansen, os irmãos ficaram em silêncio. Um silêncio sufocante para ambos.

– Precisas descansar...

Bella concordou, deixando que Hansen lhe cobrisse, acarinhando os cabelos lavados e soltos. Quando mencionou se levantar da beirada da cama, porém, a loira lhe segurou o pulso com delicadeza e sussurrou o pedido:

– Fica comigo...

Ele acenou afirmativamente e deitou-se por baixo dos cobertores. Rapidamente a abraçou pelas costas e puxou-a com delicadeza para mais próximo de si, envolvendo-a num abraço protector:

– Eu não te vou deixar sozinha...

A belga fechou os olhos, deixando o braço direito de Hansen perto de seu nariz, tanto para não magoar a mão do irmão quanto para sentir o cheiro dele, e não o de Felipe. Beijou-lhe o pulso e murmurou:

– Obrigada.

~※~

O mau tempo regressou logo depois do Natal. A chuva e o frio aumentaram à medida que o novo ano se aproximava.
Como sempre, Afonso decidiu ficar em casa, quentinho e aconchegado em casa a ler um dos livros que António lhe dera pelo Natal.
A sua tarde decorria calma e pacífica, até o seu telemóvel tocar. Atendeu-o sem olhar e ficou todo atrapalhado quando ouviu a voz com sotaque inglês do outro lado:

– Afonso?

A reação de Afonso fora imediata: ele sorrira como uma adolescente apaixonada pelo cara mais popular do colégio que tinha seus olhares correspondidos.
– Estou. – disse sem conseguir conter a alegria de ouvir sua paixão do outro lado.
– Desculpa ter desaparecido…Estou perto da tua casa, posso deixar-te a penda de Natal?
Afonso pestanejou e corou, levantando-se num salto.
– C-claro!
– Em cinco minutos estou aí. – ele disse, desligando o telemóvel.
E esses cinco minutos foram passados a arrumar rapidamente a casa para o receber.
Quando Arthur tocou a campainha, Afonso correu desesperado até a porta, ajeitando o cabelo num rabo-de-cavalo alto.
Recebeu o inglês com um sorriso de canto a canto.
– Feliz Natal atrasado, Afonso. – disse e lhe entregou uma sacola, cujo presente era uma gravata.
– O-Obrigado! Entra, eu vou buscar o teu.
Puxou-o pelo pulso mas Arthur resistiu.
– Afonso, eu não me posso demorar.
Afonso piscou. Quem sabe Francis o estava esperando? Ainda sorridente, voltou a puxar o loiro:
– Vem, só um minutinho.
Arthur concordou enfim, entrando e deixando que o português o guiasse.

~※~

Já era noite. Após o jantar do dia 31, todos se reuniram na sala à espera dos fogos. Bella ainda estava abalada com o que acontecera no Natal, porém exibia contente o colar que Hansen lhe dera. Após dois dias sem deixar o quarto, a belga deixou que Luciano entrasse e explicou tudo o que aconteceu e lhe mostrou a corrente arrebentada. Com uma habilidade desconhecida pela loira, o brasileiro lhe arrumou o colar, tendo de deixar a corrente mais curta. Mas aquilo deixara o colar ainda mais belo em seu pescoço.
Faltavam apenas fez minutos para a meia noite, e Luciano encarava o céu estrelado pela janela da sala. Usava o presente que Afonso lhe dera, e ainda pensava em como agradecê-lo. Também pensava em seu namoro com Martin, como aquilo tudo estava sendo difícil e desgostoso.
– Luci? – a belga chamou, preocupada com o amigo.
– Eu estava pensando... – disse e sorriu.
Declarara para a loira que começara a pensar em Afonso de outra maneira, porém não aceitava os conselhos dela de se declarar e largar o namorado. Ainda gostava do argentino, embora não sentisse mais seu coração acelerado quando estava com ele.
Nele? – ela questionou com um sorriso matreiro.
– É.
– Pois eu acho que devidas seguir meu conselho. – disse entanto lhe tocava os cachos. – Luciano também sorriu, um tanto corajoso – Não há nada a temer. – ela sussurrou perto do ouvido do mais jovem, o que restava para que o moreno lhe beijar a bochecha e sair porta fora.
Não tinha nada a temer ou a perder se apenas conversasse com Afonso sobre o que estava sentindo. Quem sabe podiam saber o que fazer? Quem sabe o menor também gostava de si?
Correndo pelas ruas da cidade, o moreno não conseguia conter o sorriso, afoito. Afonso podia amá-lo, certo? Era um rapaz bonito, apesar de tudo...
Quando estava chegando a seu destino, porém, Luciano desfez o sorriso: o carro de Arthur estava em frente à casa do mais velho, e todas as esperanças do brasileiro caíram por terra.
Afonso amava Arthur, apesar deste ser um cafajeste comprometido.
Desolado, deu meia volta e seguiu até a pensão. No meio do caminho, entretanto, encontrou-se com Martin, que voltava da casa de Michelle.
– Luciano? O que faz aqui?
O moreno sorriu torto e seguiu até o namorado, lhe beijando possessivamente e sendo prontamente retribuído.
– Vim te buscar.
Martin segurou Luciano pelo tronco, puxando-o para mais perto. De onde vinha aquela agressividade?
Ao afastar-se para respirar encarou o moreno:
– Por quê?
Luciano não hesitou em lhe responder, mordendo-lhe o lóbulo em seguida:
– Porque nos amamos. – Martin soltou um gemido baixo, abafado pelo primeiro fogo de artifício que iluminou o céu daquela noite – Não nos amamos?
– S-sim... – murmurou, já afetado.
Quando o argentino percebeu, já estavam na cama de um motel qualquer, ele de bruços e Luciano sobre si, lhe mordendo os ombros entanto o preparava.
Talvez não fosse poder fazer sexo com Michelle por um tempo devido as marcas, porém ele não conseguia resistir: o que o moreno fazia com os dedos, a boca e o corpo durante o sexo era tão maravilhoso que deixava Martin sem pensar. Com Michelle, as coisas eram mais românticas e fofas e embora gostasse da performance dela na cama, Luciano era indiscutivelmente melhor.
Quem sabe o brasileiro não dava umas dicas a ela?

~※~

Arthur foi embora cedo, tal como tinha dito e o português voltou a ficar sozinho, sentado-se no parapeito da janela a ver o final do fogo de artifício.
Havia muita coisa na sua cabeça e ele não conseguia deixar de ter um nó na sua barriga.
Quando o fogo cessou, ele caminhou novamente para o sofá mas foi interrompido pelo som da campainha a tocar.
Pensou que fosse Arthur novamente e correu para a porta.
– Tio Afonso!

Afonso piscou ao sentir os bracinhos de Sofia em suas pernas, e logo sorriu ao ver o irmão.
– Já que não vieste até nós, viemos nós até ti~
– Entrem! – pegou em Sofia ao colo e deixou Lovina e António entrar primeiro.
Fechou a porta e aproximou-se da cunhada, que carregava a pequena Marisa embrulhada numa manta.
– Tão bonita!
Marisa surpreendeu os médicos quando demonstrou sua saúde e força. A pequenina, apesar de prematura, engordou e fortaleceu-se com uma rapidez impressionante, e antes do esperado estava junto de sua família. Quem mais parecia orgulhosa da nova Carriedo era Sofia, que mostrava uma foto que seu pai tirara de si e de sua irmãzinha para todos.
– Marisa, querida. Esse é o teu tio Afonso. – Lovina disse baixinho, beijando a testa da neném adormecida – Ignora a aura negra ao redor dele, é depressão.
Afonso fez uma expressão amuada.
– Não é nada, oh viciada em tomates.
Ela rosnou-lhe baixinho, numa meia ameaça que foi ignorada pelo mais velho. Afonso sorria como um grande idiota ao observar a pequena e a procurar traços semelhantes com os dos seus pais.
– Olá Marisa, sê bem-vinda.
Como resposta, Marisa remexeu-se no colo de sua mãe e abriu os olhos, tão escuros quanto os de seu tio. A neném encarou o "estranho" e voltou a se remexer.
– Queres segurar a tua sobrinha? – a italiana questionou, a voz maternal e serena.
– Claro que sim! Bia... Tens de ir para o chão. – deu-lhe um beijo na testa e pousou-a, pegando na recém-nascida.
Era tão leve e frágil que ele teve quase medo de a deixar cair.
– Então, pequenina~?
Sofia abraçou as pernas do tio, tentando espiar a irmã. Gostava de ser mais parecida com seu pai, e a caçula tinha mais traços de Lovina. Eram diferentes, mas Sofia insistia de que eram idênticas.
– A Mari gostou de ti. – Antônio disse, aproximando-se de todos.
Como prova, Marisa moveu os bracinhos, contente pelo colo do tio.
Afonso sorriu, um verdadeiro tio-coruja. Tinha belas sobrinhas.
–– Estou tão feliz por vocês... – ele disse e beijou a testa da neném antes de entregá-la à mãe – Estão com fome? Não esperava visitas, mas tenho alguns doces e--
Sofia o interrompeu, agarrando suas roupas:
– E o tio Luci?
Enquanto Lovina ria, Antônio rolava os olhos.
– A Bia passa a vida a perguntar por esse aí. – o espanhol resmungou.

Completamente alheio ao resmungo do espanhol – estava mais divertido em ver Marisa puxar-lhe o cabelo – comentou:

– O Luci? Não sei, deve estar em casa com o namorado. Por quê?

Lovina embalava Marisa enquanto se aproximava de Antônio.
– Ele ligou-nos no Natal. – disse sorrindo e recebeu um beijo do esposo.
– Mesmo? – o português questionou, surpreso.
– É! – Sofia riu – Para falar comigo! Ele gostou do meu desenho!

Franziu ligeiramente o sobrolho, tentando lembrar-se de qual desenho. A luzinha das ideias acendeu-se.

– Gostou? Ainda bem. Eu disse-te que ele ia gostar.

Então ele tinha recebido o presente? Mas não tinha dito nada a si? Bem... Talvez não tivesse gostado?

Lovina sorriu ao notar a expressão de seu cunhado. Pedindo para que Sofia ajudasse seu pai a trocar Marisa, foi ajudar Afonso com os salgadinhos e, ao vê-lo distraído, lhe questionou:
– Afonso? Sentes algo pelo Luciano?

O português notou o duplo sentido da pergunta mas fez-se desentendido:

– Sim? Ele é meu amigo.
Não lhe sabia responder com sinceridade. Ele gostava de Luciano. O brasileiro era simpático, tinha sotaque adorável, cantava bem, era carinhoso e tinha uma qualidade que Afonso admirava imenso nas pessoas: Luciano era simples.
A forma por vezes fria com que Arthur por vezes o tratava fazia-o repensar bem se aquilo que sentia pelo loiro era paixão ou carência... Sobretudo tendo em conta que o outro era comprometido e a relação consigo nem sequer fazia sentido mas... Com Luciano o caso não era mesmo?
Suspirou e continuou a ajeitar os salgadinhos.
Claro que aquilo não convenceu a italiana, mas ela fingiu desinteresse.
As próximas horas seguiram-se tranquilamente, e Antônio partiu com sua família pouco depois da uma da manhã, pois suas filhas já dormiam no colo do tio.

Afonso seguiu para seu sofá e seus livros, porém começou a pensar em Luciano. Na ligação que fizera no Natal, na brincadeira do mais jovem sobre namorarem, no riso que fazia seu coração derreter... E... Por quê ele dissera que tinha um amor impossível?

~※~

Após deixar as meninas na cama, Antônio votou para seu quarto.
– Os nossos anjinhos estão a dormir~. – disse com um sorriso enorme, fechando a porta do aposento.
Quando virou em direção a sua cama, o espanhol enrubesceu e sentiu seu coração acelerar: vestindo uma bela – e transparente – camisola, Lovina lhe esperava, também sorridente.
– L-Lovi?
Quieta, mas sempre sorrindo, a italiana aproximou-se de seu esposo e lhe beijou a bochecha, sussurrando em seguida:
– O meu tempo de descanso já terminou.

O espanhol pigarreou e abraçou-a pela cintura, aproximando-a mais de si.
– I-Isso é bom. Muito bom. – engoliu em seco mal sentiu os lábios dela no seu pescoço e deu um passo para a frente, deitando-a sobre a cama – Óptimo, na verdade.
Lovina riu. Não era comum Antônio ficar nervoso, mas ela achava graça. Sentiu a mão trêmula de seu esposo lhe acariciando a perna esquerda e gemeu baixinho, querendo incentivá-lo.

O espanhol suspirou e deixou-lhe uma marca leve sobre o pescoço, num sítio que fosse fácil de esconder.
Ajeitou melhor a sua posição, ficando entre as pernas dela.

– Tens a certeza disso?

A italiana acariciou-lhe a nuca enquanto se inclinava para frente e tomava os lábios de Antônio para si, beijando-o com desejo e carinho.
– Toda. – ela murmurou entre arfadas, já sentindo seu amado alterado.
Para enfatizar que o desejava, ergueu a barra de sua roupa e ajeitou-se sob o mais velho, pondo a mão dele sobre sua roupa íntima.

Um suspiro em contentamento, profundo, pode ser ouvido pela italiana, que sorriu de lado como sinal de trabalho bem-feito.
António, com a outra mão acarinhou-lhe as pernas:

– Vamos fazer outra bebé~?
Lovina ainda pensou em reclamar mas podia fazer isso depois.
Puxou-lhe a camisola para cima, de forma a despi-lo e arranhou-lhe as costas levemente.

– Sem piadinhas.

Antônio riu, descendo a roupa íntima de Lovina com mais pressa do que ele queria.
– Eu adoraria fazer outra filha. – murmurou enquanto tinha o resto de suas roupas tiradas.
Ao sentir sua intimidade nua e quente colada a da esposa, ele gemeu.
– Claro, as dores ficam comigo. – reclamou, entreabrindo ainda mais as pernas, ansiosa. – Mas ainda quero um menino. Outro Nino...

O espanhol riu um pouco e esfregou-se levemente nela, sentindo-a arrepiar-se.
– Eu queria que ele fosse parecido contigo~ – chegou-se um pouco mais para a frente e mordeu-lhe a orelha.

Lovina corou um pouco, os olhos verdes brilhando apaixonados.
– A Bia é igualzinha a ti.
– Mas a Mari tem a tua boca...
Eles sorriram antes que a italiana fingisse irritação e puxasse bruscamente o mais velho com as pernas:
– Antônio Hernandes Carriedo – ele amava quando ela falava em espanhol – Faz-me um favor e despacha-te.
O espanhol riu outra vez antes de despir sua esposa completamente.
– Eu amo-te, minha pequena.

Notas finais
Explicaçãozinha: "Chulo" em ptpt seria o nosso "cafetão".