O Som Do Coração
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Capítulo VIII:
Bella desceu as escadas lentamente, perdida nos seus pensamentos e com o coração um tanto acelerado.
Ao chegar à cozinha, acanhou-se mas... Não deixou que o a sua vergonha fosse maior que a curiosidade. Aquilo estava a matá-la por dentro...
– Irmãozão...?
– Hum? Bom dia.
– B-Bom dia... Eu- hum... Fui limpar os vidros do teu quarto e... Onde arranjaste aquelas tulipas lindas?
O holandês encarou-a por cima do ombro e depois olhou para a frente novamente, atrapalhado.
– Eram para oferecer... Mas eu...
– Oferecer?
Um suspiro profundo foi o que obteve de resposta. Ia fazer mais perguntas mas nesse exacto momento o seu telémovel vibrou. Deu um guincho ao ler a sms e disse:
– A LOVI ENTROU EM TRABALHO DE PARTO!
Hansen piscou e quase se engasgou com o café e encarou novamente sua irmã.
– Tens a certeza?
Bella mordeu o lábio inferior e sentiu-se nervosa.
– I-irmão... O bebê não era pra agora... – arfou – É para fevereiro...
O holandês deixou o café como estava e se ergueu, seguindo até o porta-casacos ao lado da porta e pegou o seu.
– Veste-te. Vamos para o hospital agora. – disse e foi para a rua chamar um táxi.
Bella acenou com a cabeça e correu escadaria à cima, embatendo em Luciano, que descia.
– Bella? O que houve, guria? – segurou-lhe pelos ombros e fê-la o encarar – Você está pálida.
– Ai, Luci... A Lovina entrou em trabalho de parto e o bebê não é para agora...
– A nenê vai nascer prematura? – mordeu o lábio e pensou em como Lovina e Antônio deviam estar. E lembrou-se da querida Sofia – Bella, eu posso ir ao hospital?
Ela pestanejou, confusa pelo pedido.
– S-Sim, claro. Foi o Afonso que mandou mensagem por isso ele deve estar lá também. Mas temos de ir rápido!
Por uns minutos, foi uma confusão por todo o lado. Entre vestir casacos e correr para o táxi, Bella e Luciano passavam a vida a embater um contra o outro sem querer.
Quando chegaram ao hospital, cerca de vinte minutos depois, só Afonso estava cá fora com Sofia. A belga correu até ele e abanou-o:
– Afonsinho! Como ela está?!
O lusitano quase que deu um salto, pois não estava a contar com a loira ali.
– E-Ela está bem. O médico veio dizer que ninguém corria perigo e--
– Onde está o António?!
– ...Desmaiou e a enfermeira levou-o para uma maca. – suspirou e encarou Hansen, que dera um estalido com a língua, murmurando alguma coisa sobre “espanhóis mariquinhas”.
Foi então que o português viu que Luciano estava ali também e pestanejou curioso.
– Tio Luci! – Sofia chamou assim que viu o brasileiro, correndo para o seu colo – A mamã vai morrer?
Luciano a abraçou com força e lhe beijou a testa.
– Claro que não, pequenina. Não ouviu o titio Afonso? Sua mamã está bem. – apertou o abraço e olhou para o português, lhe sorrindo e desejando “bom dia” apenas movendo os lábios.
O português retribuiu o cumprimento mas antes que tivesse tempo de dizer mais alguma coisa, Bella voltou a fazer um montão de perguntas, sem sequer dar tempo para responder.
Um médico saiu do quarto onde estava a italiana e aproximou-se de Afonso – que o tinha ajudado a levar António momentos antes.
– Trago notícias.
Todos ficaram apreensivos. Por mais que as novidades fossem boas, um senhor calvo, de óculos grossos e um jaleco vir lhes dizer que havia “notícias” deixava qualquer um nervoso.
– A paciente teve um parto complicado, assim como a gestação. – o pânico fora total, e Luciano instintivamente se afastou um pouco para que Sofia não ouvisse bem – Ela apresentou uma hemorragia significativa e tivemos de optar pelo parto cesária, podendo salvar mãe e filha. – explicou, fazendo pequenas anotações em sua prancheta.
– O que isso significa, doutor? – Bella questionou, agarrando-se ao braço do irmão por nervosismo.
– A bebê nasceu prematura, terá de ficar na UTI pediátrica para ganhar peso e amadurecer os pulmões, mas é uma menina saudável. – todos sorriram de alívio.
– E minha amiga? – ela voltou a questionar.
– A mãe perdeu muito sangue, precisará de uma transfusão, mas receberá alta para o Natal. Algum de vocês possui tipo sanguíneo A positivo?
O brasileiro, que havia se aproximado novamente ao ouvir as boas notícias, comentou.
– Eu sou.
– O senhor importar-se-ia de doar sangue? O processo seria mais rápido do que irmos pedir ao Instituto Português do Sangue.
Olharam todos para Luciano na expectativa.
O brasileiro sorriu e manou a cabeça.
– Mas é claro! Seria um prazer ajudar!
Bella respirou de alívio e foi abraçá-lo.
– Obrigada, Lu-ci-a-no~
Luciano riu e teve de se dividir entre Bella, que lhe abraçava pelo pescoço, e Sofia, que lhe agarrava a cabeça, também agradecendo. Claro que Hansen torceu o rosto perante aquela demonstração melosa de sua irmã pelo brasileiro, porém ele apenas desviou o olhar. Afonso riu disso.
– O tio Luci vai salvar a mamã! – ela sorria, fazendo Luciano corar.
– Calma, Bia. É só uma doação. Sua mamã não precisa ser salva.
– Mesmo assim~ – a menina riu, lhe dando vários beijinhos no rosto.
O médico pigarreou e todos prestaram atenção nele.
– Pode acompanhar-me até a sala própria para doação de sangue, rapaz?
O moreno sorriu outra vez e passou Sofia para o colo de Afonso.
O português pegou nela e o médico perguntou:
– O senhor tem maioridade?
– Er-- Sim...
Ele sorriu um pouco e fez sinal para que o moreno o seguisse.
Luciano acenou para todos e seguiu o médico. Não tinha certeza de qual era a idade mínima para se doar sangue em Portugal, mas já era um doador no Brasil desde que completara seus dezoito anos.
Embora habituado com o processo de doação – questionário, pesagem, exame rápido sobre a taxa de ferro no sangue, etc. –, o brasileiro sempre ficava nervoso quando via a agulha da transfusão.
– Tu estás bem? – uma enfermeira lhe sorriu, afagando o braço de Luciano antes de introduzir a agulha em sua veia.
– E-estou. Só não gosto de agulhas, senhora.
A senhora riu um pouco.
– Não te preocupes, é habitual ouvir isso. Queres que vá buscar alguma coisa para leres?
Luciano sorriu torto e balançou a cabeça.
– Não, obrigado. Eu geralmente fico tonto depois de doar sangue, e ler alguma coisa só vai piorar.
A enfermeira acenou com a cabeça e acenou.
– Se precisares de alguma coisa, chama, ok?
– Sim, senhora. – ele sorriu e deitou a cabeça na maca, evitando olhar o tubo que saía de seu braço esquerdo.
Abria e fechava a mão lentamente para ajudar na doação, logo sentindo-se entediado.
Ele odiava hospitais. Tão brancos, frios, sempre com o mesmo cheiro e sem nada para fazer... Aquele lugar era horrível, e ele queria ir para casa.
Demorou algum tempo para que a enfermeira voltasse. A expressão entediada de Luciano fê-la sorrir um pouco. A gente nova nunca tinha grande paciência para ficar sentada sem nada que fazer.
– Menino Luciano? Já terminou, já podes ir embora.
Luciano retribuiu o sorriso, sentindo o braço dormente quando a enfermeira lhe retirou a agulha e fez um curativo simples.
– Tens de te alimentar bem e ficar de repouso por hoje, ouviste? Estás um tanto magro. – riu.
O moreno riu também e agradeceu, seguindo pelo corredor indicado até seus amigos.
Afonso franziu o sobrolho quando ele se aproximou e foi até ele.
– Luci? Estás muito branco... Sentes-te bem?
Luciano sorriu e ergueu o polegar direito, embora não movesse o braço esquerdo.
– Estou ótimo chefinho. E a Lovina? – questionou.
– Já está a receber tua doação, Luci. – Bella sorriu, agarrada no braço de seu irmão e fazendo carinho nos cabelos de Sofia, que havia dormido em seu colo.
O moreno sorriu perante a cena dos irmãos abraçados, uma vez que sabia que Hansen nutria outros sentimentos por Bella. Era engraçado ver o holandês, que sempre carregava uma expressão feia, corado.
– Que bom, fico feliz.
A belga piscou e franziu o cenho.
– Luci? Estás mesmo bem?
Luciano piscou também e assentiu com a cabeça, confirmando. Sua voz começou a ficar enrolada, e ele coçou a testa.
– Claro, só vou ao banheiro. Agulhas me dão calafrios e--
E lá se ia o brasileiro ao chão.
Afonso esticou-se e puxou-o pelo braço antes que caísse ao chão. Segurou-o junto ao seu peito e abanou-o subtilmente.
– Luci?!
Bella até quis ajudar, porém preferiu não acordar a menina em seus braços, beijando a testa de Sofia quando esta mencionou acordar por culpa do chamado alto de Afonso. Hansen ergueu-se da cadeira e estalou a língua, puxando o desacordado Luciano para cima de seu ombro e resmungou:
– O puto não tomou o pequeno-almoço e doou sangue.
Afonso soltou Luciano, relutante e resmungou baixinho por causa daquele hábito de sair de casa sem tomar o pequeno-almoço. Coisa que o português suspeitava que fosse frequente.
– Talvez devêssemos--
– Hermano! – o espanhol apareceu no fundo do corredor e correu até eles, ignorando a enfermeira que o perseguia. Agarrou nos ombros do seu irmão e abanou-o enquanto fazia perguntas de rajada: – Como está a Lovi? E a bebé? O médico já disse alguma coisa? Posso ir vê-la?
– Antó--
– Diz-me que elas estão bem! Já nasceu--
– CALMA. – Afonso quase que deu um berro e respirou fundo – Já nasceu, estão ambas bem. A Lovina teve de fazer uma transfusão de sangue mas isso já se resolveu também. É melhor falares com o médico e chamar uma enfermeira porque o Luci desmaiou depois de dar sangue.
Antônio piscou ao ouvir as palavras “transfusão” e “dar”. Ainda não tinha percebido o brasileiro desacordado nos ombros de Hansen, assim como não conseguia ver ligação entre os três fatos.
– Quem é o “Luci”? – perguntou.
Bella, já de pé e com Sofia ainda adormecida em seu colo, explicou:
– Luci é o substituto da Lovina na floricultura. O médico perguntou-nos quem podia dar sangue a ela e o Luci se disponibilizou, porque tem o mesmo tipo sanguíneo.
– Mas o puto doou sem comer nada e desmaiou. – Hansen resmungou.
As engrenagens do espanhol começaram então em funcionar. Se por um lado não gostava da proximidade do brasileiro ao seu irmão (tinha ouvido umas conversas entre ela e Liza) por outro estava-lhe grato.
Olhou para Luciano e então reconheceu-o de vista.
– E-Ele está bem? Mas-- Eu preciso de ir ver a Lovi!
– Não sabemos, Tônio... – a belga suspirou – Mas vai ter com a Lovi. Cuidamos do nosso pequeno herói.
– Mas e a--
– Eu levo a Sofia comigo. Fica em minha casa enquanto precisares de ficar aqui. Combinado?
António encarou o irmão e abraçou-o com força.
– Obrigado...
Afonso sorriu e deu pequenas batidinhas nas costas do irmão, o espanhol se afastando em seguida.
– Obrigado. – voltou a repetir e seguiu até Bella, beijando a bochecha de Sofia com muito carinho – O papá logo volta. – sorriu.
Antônio se despediu de todos e pediu informações para um enfermeiro, que o encaminhou até o quarto onde Lovina descansava depois da transfusão.
Hansen, já sem paciência de carregar um brasileiro pesado nos ombros, resmungou para outra enfermeira:
– O puto aqui desmaiou.
A senhora fez sinal para ele a seguir mas mesmo Afonso e Bella foram atrás, até a um quartinho pequeno e livre.
Hansen pousou-o cuidadosamente na maca e a enfermeira questionou:
– Algum de vocês vai ficar a acompanhar?
Bella olhou de soslaio para Afonso, suspirando ao perceber que o português sequer demonstrara desejar ficar com o amigo. Entregou Sofia para o tio e sorriu à senhora.
– Eu fico.
A enfermeira sorriu e disse-lhe o que fazer caso necessitasse de ajuda.
Depois de ela sair, Afonso suspirou.
– Tenho de levar a Sofia para casa... – encarou Bella – Quando ele acordar, liga-me que eu venho vos buscar. – em seguida encarou Hansen – Queres boleia?
Hansen olhou para Bella e para o brasileiro desacordado e no soro.
– Não, eu vou fica--
– Irmãozão, é melhor tu voltares para a pensão. – a belga sorriu de canto e lhe ajeitou o cachecol – Não é tão cedo, mas é capaz do Alfred ainda não ter tomado o pequeno-almoço, como os outros.
– Mas eu--
– Vai. Eu fico bem. – voltou a sorrir e beijou a bochecha do irmão com muito carinho.
O loiro não teve outra escolha a não ser suspirar e concordar.
Afonso, aproveitando que eles estavam distraídos, beijou a testa de Luciano e aconchegou-o com os lençóis.
Embora não gostasse nada da ideia de deixar sua irmã ao lado daquele garoto, Hansen foi o primeiro a deixar o quarto onde Luciano descansava, aguardando Afonso no corredor para que este lhe desse uma carona.
– Bella, qualquer coisa--
– Eu ligo. – ela sorriu e beijou a testa de Sofia – Cuida dela que eu cuido do Luci.
– Hum... Eu... – coçou a nuca e olhou para o tecto – Ele vai precisar de descansar depois... Diz-lhe que ele pode ficar lá em casa se quiser. Na vossa tem sempre muito barulho, não?
A loira piscou e escondeu um sorriso malicioso, voltando a ficar séria e dando um beijo na bochecha do português.
– Digo sim. Ficas bem.
– Tu também. Até logo. – usou a mão livre para a despentear e saiu do quarto.
Teve de aguentar com um holandês resmungão até casa, e aproveitou a situação para implicar com ele sobre os seus sentimentos com a belga.
Luciano despertou meia hora depois, sentindo-se zonzo e estranhando o local onde estava. Ao ver a belga, esta lhe sorriu e afagou seus cachos, tirando o cabelo castanho de frente aos olhos escuros do moreno.
– Hn... Onde estou? O que houve?
– Tu estás a descansar... Desmaiastes ao dar sangue à Lovina.
O moreno piscou e sentou-se na maca, resmungando algo sobre enjoos.
– Lovina--? – ergueu o olhar e encarou a mais velha – Como ela está? E a nenê? E a Bia? Onde está o chefinho?
– Está bem. Também está bem. Está com o Afonso. E foi para casa. – disse com um pequeno sorriso (que podia ser visto como malicioso de certa forma) para saber qual seria a reacção dele.
Luciano voltou a piscar e coçou a nuca, rindo um pouco acanhado.
– Ah, ele foi pra casa.
Bella exaltava-se por dentro.
– Que foi, Luci? Estás bem? – lhe acarinhou os cabelos e o moreno corou.
– C-claro! Só estranhei não ver-- Será que posso ir para casa?
Ela acenou com a cabeça.
– Eu acho que sim. Ah, esqueci-me de avisar... O teu chefinho perguntou se querias ir para a dele. – sorriu “inocentemente”.
Luciano encarou Bella com um brilho infantil no olhar, as maçãs sutilmente coradas – ele ainda estava um tanto pálido.
– M-mesmo? – questionou num misto de descrença e excitação, o coração batendo acelerado.
A belga alargou seu sorriso malicioso. Como Elizabeta, acreditava que havia algo entre Afonso e Luciano, e era fofo ver como o brasileiro reagia perante qualquer comentário sobre Afonso depois do beijo que trocaram. O moreno corava, arfava de leve, ficava ansioso... Era querido, e Bella tinha uma vontade imensa de prender os dois num quarto e só tirá-los de lá quando eles se resolvessem.
– Mesmo~ – riu e sentou-se na maca, ao lado de Luciano – Ele disse-me para, quando acordastes, ligares-lhe para que nos buscasse e--
Luciano coçou a nuca e balançou a cabeça, os olhos fechados.
– Hn... É-é melhor eu voltar para a pensão, Bella. – murmurou.
– Que?! – piscou – Mas por quê?
– Eu... Não quero atrapalhar ele, Bella. A Sofia está na casa dele, não? – encarou a loira, que acenou – Então. Ele já está cuidando da sobrinha, e eu provavelmente vou-- ugh-- ficar enjoado a noite inteira.
Bella suspirou e coçou os olhos, sorrindo em seguida.
– Entendo-te. – Luciano sorriu também – Pois então eu vou ligar ao irmãozão e pedir-lhe nos pagar um táxi e--
Luciano, um pouco abobado e inocente, lembrou-se das tulipas que Hansen ofereceria à belga. Como não se lembrava da belga com as flores, resolveu questionar sobre elas, porém perguntou algo um pouco diferente:
– Bella, você gosta de alguém?
A loira achou que aquilo era uma aplicação práctica do “feitiço que se virou contra o feiticeiro”.
As suas bochechas ficaram vermelhas e ela acenou que não com a cabeça. Não podia correr o risco de ser descoberta!
– N-Não!
Ele torceu as sobrancelhas e segurou a mão de Bella, que tremia de leve.
Se descobrissem que ela amava Hansen, seria seu fim!
– Você está corada...
– É-é do calor e--
Luciano balançou a cabeça e suspirou, apertando a mão da amiga.
– Bella... Dá pra ver que você gosta de alguém. Pode confiar em mim, eu não conto para ninguém.
A belga continuou balançando a cabeça, desviando o olhar para a mão morena que segurava a sua.
Não podia simplesmente contar ao brasileiro sobre o que sentia. As únicas pessoas que sabiam de seu amor platônico pelo irmão postiço eram Elizabeta e Lovina, e mesmo assim foi com muito custo que Bella se confessara às amigas. Embora as morenas tenham lhe dito que a ajudariam a conquistar Hansen, a loira negou e agradeceu. Preferia continuar tendo o holandês apenas como irmão do que perdê-lo para sempre.
Porém... Bella confiava em Luciano – não sabia bem o por quê, apenas sabia que ele era fiel –, e aquele sentimento lhe fazia mal às vezes.
Suspirou.
– Luci? E-escuta.
Bella explicou-lhe tudo: o que sentira por Hansen desde que o conhecera, quando fora adotada; o carinho que nutria por ele; o que mais amava no irmão; o medo que sentia de ser rejeitada caso seu amor fosse descoberto por ele...
Ela temia que seu irmão sentisse nojo de si.
– Por favor, Luci. Por favor, não digas nada a ninguém! – ela suplicou, apertando nervosamente a mão de Luciano.
O brasileiro até cogitou dizer à belga que Hansen sentia o mesmo, porém pensou que ela pudesse não acreditar em si e se magoar ainda mais. Não conhecia direito o holandês, mas acreditava que, pelo mesmo medo que Bella sentia, ele negasse tudo.
Sorriu e puxou Bella para um abraço apertado.
– Eu não vou dizer nada, Bella. Confia em mim.
A loira suspirou e apertou o abraço, deixando que Luciano lhe esfregasse as costas.
– Obrigada...
– De nada. – sorriu e beijou-lhe a testa.
Ficou abraçado a ela durante alguns minutos, até ela acalmar. Luciano gostava imenso de Bella e vê-la assim tão triste, mexia consigo.
Foi a belga quem terminou com o silêncio:
– Luciano... O que se passa contigo e com o Martin?
Com um suspiro que poderia significar tanto tristeza quanto cansaço, Luciano apartou o abraço e esfregou a mão direita pelos cachos grossos e macios, bagunçando-os levemente e bufando.
– Não sei.
Bella piscou, inclinando levemente a cabeça para a esquerda e lhe acarinhando o braço esquerdo, que ainda estava dormente.
– Como assim, Luci?
– Eu... – voltou a suspirar – Eu adoro o Martin desde que nos conhecemos. Nós sempre brigamos muito porquê ele é um cabeça dura, mas nosso namoro sempre me pareceu... sempre foi... – corou – fervoroso. – a belga também corou e pigarreou, acenando com a cabeça para que ele continuasse – Mas uns meses antes de nos mudarmos, ele começou a... sei lá, me evitar, e brigamos feio. – sorriu – Ontem dormimos juntos, então acho que as coisas se resolvem... mas...
A loira repetiu, curiosa:
– Mas...?
Luciano desviou o olhar, corado e confuso.
– T-teve o beijo com o chefinho e...
– E...? – questionava ansiosa.
– Aquilo foi errado, Bella. Muito errado. Senti como se eu estivesse traindo o Martin!
– Mas Luci... Foi só um beijo.
– M-Mesmo assim Bella. Eu não gostaria que o Martín fizesse o mesmo se fosse ao contrário...
Bella encarou-o por um momento e depois suspirou.
– O Afonso falou contigo sobre o assunto? Deu-lhe alguma importância?
– N-Não...
– Então não faz diferença, certo? Beijaste mais gente nesse dia por caridade. – suspirou.
Luciano piscou, e Bella pensou ter notado um brilho cheio de mágoa naqueles olhos castanhos. Talvez devesse dizer para Elizabeta que era melhor desistirem daquilo. Talvez estivessem indo pelo caminho certo.
– Luci? Estás bem?
Balançou a cabeça e sorriu.
– Um pouco zonzo... Quero ir para casa.
Bella retribuiu o sorriso e tirou-lhe o cabelo da frente dos olhos.
– Tudo bem. Vou ligar ao irmãozão para ele chamar um táxi e avisar o Afonso que não precisa de nos vir buscar.
O brasileiro voltou a sorrir e balançou a cabeça.
– Obrigado.
– De nada~ – Bella riu e deixou o quarto para que Luciano se recompusesse.
Seguiu até o fim do corredor e ligou para Hansen, avisando que ela e Luciano estavam voltando para a pensão, mas que ela não tinha dinheiro o suficiente para o táxi.
– Eu vou buscá-los. – o holandês disse num suspiro e a belga riu nervosa.
– Desculpa, irmãozão.
Após encerrar a ligação, chegou a discar o número de Afonso para lhe avisar que Luciano havia acordado e que ele estava bem, mas...
Bella imaginou que aquilo podia ser uma boa coisa: deixar Afonso aflito por mais alguns minutinhos poderia lhe indicar se ele gostava de Luciano de outra maneira.
Sorriu um pouco maliciosa e limpou os números do visor de seu celular, voltando ao quarto onde Luciano estava.
– O irmãozão já vem~. – sorriu e pegou a mão de Luciano, ambos se encaminhando para a entrada do hospital.
Hansen chegou ao hospital em pouco mais de vinte minutos e logo viu a belga e Luciano perto da passadeira.
Depois de terem entrado no carro, o holandês questionou, olhando pelo retrovisor para conseguir ver ambos, uma vez que a loira decidiu ir no banco traseiro junto a Luciano:
– Querem ir comer alguma coisa ou comemos em casa?
O moreno ia dizer que nem fome tinha, apesar de saber que tinha de comer mas foi interrompido pelo telemóvel de Bella, que tocou nesse exacto momento.
Ela sorriu de lado ao ver o nome do português na tela.
Ao perceber que Luciano olhava curioso para seu aparelho, a belga murmurou que não era importante e ignorou Afonso, dando-lhe um gostinho de nervosismo a mais.
Quando chegaram na pensão, Luciano foi ajudado por Bella a subir até seu quarto, deitando-se na cama logo que pode. Estava tão cansado que nem a ouvira dizer que prepararia um almoço reforçado para ele.
Adormeceu logo em seguida.
Bella continuou a ignorar todas as chamadas de Afonso enquanto fazia o almoço. Ela não se divertia com a desgraça alheia mas queria saber até onde poderia ir o relacionamento de ambos. Achava, sinceramente, que faziam um casal bonito e só precisavam de um empurrãozinho. Ok... Um empurrão grande.
Hansen entrou na cozinha tão silenciosamente que quando falou, assustou a loira:
– O Afonso ligou-me agora. Não lhe tinhas dito que já tínhamos regressa--
Foi interrompido pela campainha, que tocvaa insistentemente.
–Epah…– a belga piscou e verificou as horas. Não esperavam por ninguém e não era comum os hóspedes receberem visitas... a não ser que... – Irmãozão? Podes ir à porta? – pediu sorridente enquanto mexia nas panelas, visando não deixar nada queimar.
O mais velho suspirou e caminhou até lá para a abrir. E mal o fez, quase foi derrubado por um pequeno português nervoso que entrou sem esperar autorização – e afinal, o holandês fazia o mesmo quando ia a sua casa – e foi logo até a cozinha, enquanto que Sofia aproveitava para pedir colo ao holandês.
– Bella! Por que não me atendeste?!
Ela sorriu de lado, não conseguindo conter o seu sorriso calculista.
– Ligaste-me? Desculpa, devo ter o telemóvel em silêncio~
Afonso piscou e franziu o cenho, não acreditando muito nas palavras da amiga.
– O Luci--
– Oh? Vieste visitar o Luci? – seu sorriso malicioso aumentou – Está a descansar. Primeiro quarto à direita, ao lado do banheiro~ – piscou.
A sua expressão desconfiada manteve-se pois não entendia a origem daquele sorriso no entanto subiu e seguiu as direcções dela.
Bateu levemente na porta e abriu, espreitando para o quarto escuro.
– Luci?
O silêncio do aposento quase fizera Afonso desistir de entrar. Luciano podia ter ido ao banheiro ou algo do tipo, porém lembrava-se de que a porta ao lado estava aberta e que não havia ninguém a utilizar o banheiro. Soltando um suspiro, o português deu um passo em frente e entrou no quarto de Luciano...
Por deus, ele estava no quarto do brasileiro. Mesmo que fossem amigos – apenas amigos, certo? –, o moreno jamais entrara em seu quarto. Sentia como se estivesse invadindo a privacidade de Luciano ao entrar no quarto que ele dividia com o namorado.
– O que estou a fazer? – murmurou para si mesmo e deu meia-volta, pronto para deixar o quarto.
Mal começou a fechar a porta, ouviu uma voz baixinha:
– Quem é?
Parou e olhou pelo ombro, mesmo não conseguindo ver quase nada para dentro do aposento.
– Luci? Sou eu. Acordei-te? ...Desculpa.
Ficou parado na porta, sem saber muito bem se deveria entrar ou ir embora.
Luciano, ainda zonzo e – para variar – com fome, sentou-se na cama e ligou o abajur ao lado esquerdo, encarando o europeu à sua porta.
– Chefinho? O que foi? – esfregou os olhos e depois voltou a lhe fitar – A-aconteceu algo com a Lovina? Precisam de mais sangue?!
Afonso encarou-o confuso. Luciano achava que ele só se preocupava com ele quando precisava dele?
Suspirou, um tanto tristonho, e abanou as mãos em frente ao corpo.
– Nada disso. A Bella é que se esqueceu de me ligar quando saíste do hospital e eu vim ver se estavas melhor.
Luciano sorriu de canto e suspirou, sentando-se decentemente na cama e deixando um espaço para o português, convidando-o para sentar-se ao seu lado.
– Ah, que bom. Digo... A Bella não te ligou? Devo ter dado tanto trabalho que ela se esqueceu. – coçou a nuca e corou de leve. Detestava dar trabalho. – Mas e a sua cunhada? Vai bem? E a Bia? Onde está?
– Nâh, ela disse-me que tinha o telemóvel em silêncio e não me ouviu ligar. – suspirou e sentou-se ao lado dele – Vai bem, sim. E a Bia estava a tentar esganar o Hansen com o cachecol.
Virou-se um pouco e chamou pela pequena, que em meio minuto apareceu à porta e correu, saltando para cima da cama.
– Tio Luci~!
Luciano sorriu ao ver a pequenina saltando para cima de si. Abraçou-a com carinho e lhe beijou a bochecha.
– Bia~ – riu – O tio Afonso disse que você estava com o tio Hansen. Estou com ciúmes~ – brincou.
A pequena corou um pouco e abanou com a cabeça, abraçando-o apertado pelo pescoço.
– E-Eu gosto dos dois por igual!
O moreno sorriu e lhe soprou o pescoço, fazendo cócegas.
– Gosta, é? E o tio Luci te adora~
Sofia começou a rir e tentou afastar-se das cócegas.
– Pára! Tio chato~
Ele parou.
– Aah, desculpa o tio. – sorriu e lhe acarinhou o cabelo – Chefinho, já conheceu sua nova sobrinha?
Sofia sorriu de lado e foi-lhe fazer cócegas na barriga e o português afastou-se um pouco antes que sobrasse para si.
– As enfermeiras não me deixaram entrar e do vidro lá de fora não consegui ver quase nada.
Luciano riu e retribuiu as cócegas, sempre prestando atenção em Sofia.
– A-ah, entendo. – sorriu.
O português suspirou e ficou a observá-los até que Sofia desistisse das cócegas:
– Tio Luci! Podias vir ver um filme comigo a casa do tio!
Luciano piscou e em seguida sorriu, um pouco ofegante pela guerra de cócegas entre si e a menina e bastante cansado.
– Ah, desculpa, Bia. – olhou de soslaio para Afonso antes de voltar acarar a menina, que já fazia um enorme beiço – O tio Luci não está se sentindo muito bem... Melhor deixarmos para outro dia, que tal?
Sofia aumentou o beiço e cruzou os braços.
– M-mas o tio disse-me que tu sempre vais lá nas quartas-feiras... Eu não estarei lá amanhã!
O brasileiro sorriu torto e coçou a nuca, um pouco perdido sobre o que fazer.
Naquele domingo já era Natal, e muito provavelmente a nova irmãzinha de Sofia passaria o feriado no hospital, o que aumentava as chances de Lovina e Antônio ficarem com a caçula. Luciano não tinha certeza se, embora fosse esperta para a sua idade, Sofia estava entendendo direitinho o que estava acontecendo e se não ficaria magoada se, num momento tão crítico, seus pais ficassem mais atentos à Marisa.
Suspirou e logo voltou a sorrir-lhe:
– Que tal combinarmos uma coisa? Amanhã, você vai lá na floricultura do tio Afonso e eu almoço com você! Podemos comer o melhor cachorro-quente que você vai comer na sua vida inteirinha!
A pequena ponderou por uns momentos:
– Mas... Eu queria que viesses comigo!
Afonso olhou para a mesinha de cabeceira, onde tinha uma foto de Martin e franziu ligeiramente o sobrolho.
– É o teu namorado? ... Ele é me familiar de algum lugar.
Luciano suspirou e coçou a nuca, uma mania sua.
– Mas o tio não-- – Sofia se agarrou no pescoço do moreno e ele corou de leve, em seguida olhando para a foto sobre o criado-mudo, onde ele e Martin estavam sorrindo para a câmera – Sim, é o Martin. – sorriu e retribuiu o abraço da menina – Bem, ele é modelo, você deve ter visto algum trabalho dele por aí.
– Talvez tenha sido isso. – coçou a nuca, achando que havia algo que não batia certo.
– Tiooo! O tio Luci pode vir connosco?
O português pestanejou e encarou ambos.
– Claro que pode mas não vês que ele está cansado?
– Mas o tio Luci pode dormir na tua casa~
Luciano encarou Afonso e corou levemente, pigarreando e desviando a atenção de Sofia para si.
– É melhor eu ficar em casa hoje, Bia...
– Mas eu-- – Luciano voltou a suspirar.
– Chefinho, a Bia pode passar a noite aqui?
– Eu acho... Eu acho que a Lovi não se importaria--
– Eu já fiquei aqui antes, tio! Posso?! Posso?!
Afonso suspirou outra vez.
– Tens de pedir à Bella.
Sofia sorriu e abraçou-se em Afonso.
– Eu pergunto! – riu e saiu correndo do quarto de Luciano, descendo as escadas à procura da belga, que já servia a mesa.
Luciano sorriu perante tanta energia e coçou os olhos.
– Desculpe se fui invasivo, mas não queria chatear a Bia. – começou a mexer no colar de pedra que ele tinha, movendo a corda para a esquerda e para a direita – Gosto muito dela.
O português sorriu.
– Não tem mal. – esticou o braço e fez-lhe cafuné – Como estás?
Luciano enfraqueceu seu sorriso ao sentir o carinho de Afonso. Não que desgostasse, mas aquele toque tão querido e íntimo lhe lembrava do beijo que trocaram no shopping e no beijo negado pelo português.
O brasileiro só não sabia se gostara ou não que Afonso o afastou na segunda carícia. Estava com Martin, porém... Porém ele...
– Cansado. – levantou-se da cama e espreguiçou-se, estalando a coluna – Parece que não durmo há séculos, sabe?
Afonso levantou-se também, ficando um pouco atrapalhado.
– Desculpa... Não te queria incomodar mas como a Bella não me atendeu eu fiquei preocupado e enfim... Bem, vou-me embora. Tens de descansar. Não deixes a Bia ficar acordada até muito tarde, sim? O meu irmão mata-me se sabe.
Luciano piscou e balançou as mãos em frente ao corpo, bastante atrapalhado também. Não queria que o clima ficasse estranho.
– N-não! Eu adorei sua visita! – corou ao perceber o que havia dito e coçou a nuca, atrapalhando-se de novo – Q-quero dizer-- f-fica pro almoço?
– E-eu não--
O moreno tomou-lhe as mãos com carinho e encarou os olhos verdes de Afonso, o olhar pidão.
– Fica pro almoço...
As mãos de Luciano estavam um pouco frias e Afonso apertou-as para as tentar aquecer.
Encarou o brasileiro e corou um pouco. Ele era tão... Adorável...
– M-Mas a Bella já tem de alimentar muita gente. Eu não quero dar trabalho...
Luciano acarinhou as mãos do mais velho com os polegares, lhe encarando fixamente.
– Não vai. – ah, se ele pudesse beijar Afonso outra vez... mas no que estava pensando? – Por favor... Fica mais um pouco comigo...
E não havia forma de Afonso conseguir recusar um pedido daqueles. Não com Luciano a encará-lo assim.
Acenou afirmativamente com a cabeça e colocou-se em bicos de pés para ficar da altura de Luciano.
Eram só uns centímetros, Afonso reparou, que o separavam de Luciano. Fechou os seus olhos por um momento mas antes que tivesse tempo de fazer asneira, virou o rosto e beijou a bochecha de Luciano, afastando-se de seguida.
– Eu vou avisar a Bella, então.
Luciano sentiu seu corpo inteiro tencionar-se com a proximidade de Afonso. Sentiu o calor do corpo dele perto do seu; a respiração morna e com cheiro de laranja – provavelmente por culpa dos doces de fruta que ele sempre come – próximo à sua boca; o aroma de flor que emanava dos cabelos compridos – e Luciano sabia o quão macios eles eram – de Afonso...
Ele quase – quase – fizera a besteira de mover o rosto e fazer Afonso errar o alvo.
– Claro... – sorriu torto – E-eu vou tomar um banho e me trocar, espero você lá em baixo.
– O-Ok... – rodou nos calcanhares e saiu do aposento.
Não sabia o que estava a fazer e tinha vontade de bater com a cabeça na parede. Que atitude idiota tinha sido aquela? Não podia beijar Luciano assim do nada... Por muito que apetecesse...
Sacudiu a cabeça e entrou na cozinha.
– Bella?
A belga, que se dividia em dar atenção à Sofia – que ela tratava como sobrinha – e terminar de pôr a mesa. Hansen até estava ajudando, porém ele tinha um pouco de medo – pavor – de crianças, então sempre ficava afastado quando a pequena estava por ali.
– Sim~? – ela sorriu e, após pôr a última panela na mesa, pegou Sofia no colo – Onde está o Luci?
Afonso corou um pouco e pigarreou.
– Está lá em cima e... Importas-te que almoce aqui hoje?
– Claro que não, Afonsinho~ – riu e beijou a bochecha de Sofia – Onde comem oito, comem dez.
– Deixa-me ajudar-te. Não quero ficar aqui inútil sem fazer nada.
Hansen tossiu discretamente e implicou.
– Como se fosse a primeira vez.
– Shh, cala-te que a conversa ainda não chegou à retrete.
Bella franziu o cenho e bateu o pé direito no chão, pondo as mãos na cintura. Sofia lhe imitou.
– Já chega, parvinhos. – ralhou – Irmãozão, chama os irmãos americanos, Afonsinho, conheces o Roderich, certo? O quarto dele é o 2A. Eu chamo o Ivan.
Afonso e Hansen resmungaram – o primeiro por ter sido chamado “Afonsinho” e o segundo por ter de enfrentar a difícil tarefa de obrigar Alfred a descer – e obedeceram.
O português procurou o quarto que a loira indicara e bateu à porta.
– Roderich? A Bella mandou-me chamar-te para o almoço.
O austríaco atendeu e piscou ao ver Afonso.
– Oh, senhor Moreira. – ajeitou seus cabelos castanhos e suspirou – Agradeço o aviso. Já estou a descer.
Afonso deu um meio sorriso e girou em direção ao corredor no mesmo instante em que Luciano saía do banheiro. Sem camisa.
– A-ah. Eu esqueci minha camisa... – corou de leve – J-já desço.
Afonso corou um pouco e fez tudo por tudo para não olhar descaradamente para Luciano.
– O-Ok. – virou-lhe costas para não ser rude e acabou por quase escorregar no chão molhado.
– Chefinho! – Luciano apressou-se até Afonso e o encarou preocupado – Você está bem? Cuidado com o chão, ele está molhado.
Ah sim... Estava molhado. Bem molhado.
Atrapalhou-se todo e corou.
– Eu-- Eu estou bem.
O moreno sorriu e brincou.
– Vê se não te afoga, ou terei de fazer respiração boca-a-boca. – riu.
– S-senhor Silva! – os amigos olharam em direção à Roderich, que estava ainda mais corado que Afonso – Estás a andar novamente sem camisa por aí?
– Ai, Rod. Deixa de ser fresco, eu recém saí do banho. – bufou – Já estou indo me vestir.
– E-Eu sei nadar. – resmungou, afastando-se um pouco de Luciano – E ele tem razão. Depois ficas doentes!
Luciano rolou os olhos.
– Calma, mamãe – olhou para Roderich – e papai. – encarou Afonso – Fui. – resmungou e foi para seu quarto, fechando-se para poder se vestir.
O português rolou os olhos e desceu.
– O Roderich já vem.
Bella sorriu e acenou com a cabeça enquanto Ivan e Alfred começavam a discutir porque o estadunidense se atravessou na mesa para servir-se enquanto o russo tentava fazer o mesmo. A belga já estava acostumada, porém Hansen já queria arrancar a cabeça de ambos.
– Onde está o Luci? Não vem comer? – a loira perguntou.
Afonso deu de ombros, no gesto típico que podia ser traduzido por “eu não sei” e pestanejou.
– Deve ter-se ido vestir. Já deve descer.
– Certo. – a loira suspirou e serviu Sofia, que lhe pedia um pouco de tudo.
Como sempre, havia uma pequena confusão instalada na pensão. Novamente Alfred juntara todas as mesas para formar apenas uma e, apenas por implicância, sentou-se ao lado de Ivan, que, embora gostasse do mais jovem, achava seu comportamento irritante. Matthew, o tímido canadense, sentava-se entre o irmão e Sofia, que tinha Bella à sua esquerda. Hansen, claro, sentou-se ao lado de sua irmã e Roderich, apenas porque se viu forçado a almoçar em grupo, optou por ficar perto do holandês, que era infinitamente mais calmo que os demais hóspedes. Afonso sentou-se ao lado do músico e uma cadeira ficou vaga entre si e Ivan.
– Mas já começaram a comer sem mim? – Luciano chegou fazendo piada.
Alfred olhou para trás e riu-se – acção que fez Ivan rolar os olhos por achá-lo extremamente irritante e barulhento.
– Tu demoras muito e tínhamos todos fome~!
– Tu és que tinhas fome. O resto das pessoas aguenta bem sem comer. – o russo disse, num tom aparentemente inocente e depois se engasgou quando Alfred lhe deu uma palmada nas costas relativamente forte por não medir a sua força.
– Eu sou livre~ para comer quando quiser!
O português levantou uma sobrancelha mas manteve-se silêncioso, chegando um pouco para o lado para que Luciano tivesse espaço ao sentar-se.
Luciano riu e sentou-se entre Ivan e Afonso, logo engatando uma conversa com o russo. Este, é claro, pediu para que o moreno trocasse de lugar consigo.
– Ah, claro, Ivan. – sorriu e mudou de lugar com o russo, começando a se servir de espaguete – Bella, tudo maravilhoso, como sempre!
A belga sorriu e piscou-lhe o olho.
– Foi o irmãozão que fez o molho~
– Que exagero. Só juntei tudo...
Alfred deu uma palmada em Luciano – por ser quem estava mais perto – e riu:
– Está muito bom, Sr. Tulipas~!
Hansen resmungou alguma coisa e corou, desviando o olhar para seu prato. Claro que Bella achou aquilo tudo muito fofo e sentiu o coração acelerar.
Ao final do almoço, Luciano se levantou.
– Vamos trabalhar, chefinho?
– Mas nem penses! – a belga disse, fazendo Luciano piscar – Tu vais é descansar, senhor desmaio!
Afonso suspirou e levantou-se também.
– Ela tem razão. Não quero desmaios na Colubris por isso vais ficar aqui a descansar.
O brasileiro bufou e voltou a sentar-se, entonando sua voz como uma campainha:
– Chatos~ – cruzou os braços e em seguida sentiu seus cabelos acarinhados por Bella, que havia se erguido e agora estava atrás de si.
– Não reclames, Luci. – ela sorriu – Ficamos preocupados quando tu desmaiaste no hospital. – Luciano percebeu que Hansen torceu o rosto e se afastou um pouquinho do carinho dela – Além do mais, a pequena Sofia precisa da tua atenção o dia todo~.
A pequena levantou a cabeça ao ouvir o seu nome e sorriu.
– Sim~! O tio Luci tem de ver filmes comigo!
Afonso sorriu.
– Então fica decidido. – caminhou até Sofia e beijou-lhe a testa – Porta-te bem, ok? Amanhã venho buscar-te.
– Sim, tio~.
O português acenou a todos.
– Continuação de bom almoço e obrigado pela comida, Bella. E Sr. Tulipa. – sorriu de lado.
Todos riram e desejaram uma boa tarde ao português. Bella enrubesceu de leve e sorriu perante o novo apelido de Hansen e o holandês moveu os lábios, dizendo “eu mato-te” à Afonso.
Sofia deixou seu lugar e subiu ao colo de Luciano, abraçando-se nele.
– Tio Luci, podemos ver “A Pequena Sereia”?
– Claro, mas o tio só tem na dublagem do Brasil. Tem problema?
A menina riu e disse que não, porque queria saber como eram as canções em brasileiro. Os dois terminaram de comer a sobremesa – pudim – e foram até o quarto do brasileiro pegar o pendrive com os filmes e o computador portátil dele, voltando para a sala, a menina no colo de Luciano.
Hansen juntou-se a eles na sala mas ficou noutro sofá a ler, por vezes levantando o olhar e observando os dois a cantar as musícas.
A sua irmã andava de um lado para o outro e passado uns vinte minutos desceu.
– Eu vou sair, não esperem por mim para jantar logo.
O holandês nada disse, apenas soltou um suspiro desesperançoso ao vê-la sair – novamente, tão bonita e arrumada – pela porta da pensão. Luciano, que já sabia dos sentimentos entre eles, estranhou o fato da belga continuar saindo com aquele tal Felipe. Talvez... Talvez ela o estivesse usando para esquecer o irmão?
Após mais meio filme, Hansen se levantou e seguiu para seu quarto, de onde não sairia até o dia seguinte. Não queria ver sua irmã voltar toda contente de um encontro.
Luciano suspirou e percebeu que já estava tarde.
– Vamos lanchar, Bia? O tio vai te fazer um sanduíche maravilhoso! – sorriu.
– Vamos! – Sofia disse e se agarrou outra vez no pescoço do moreno, como um macaquinho – Eu quero com muito fiambre~.
Ele sorriu outra vez.
Depois de jantarem, Luciano deu banho em Sofia – e acabou mais se molhando do que dando banho na menina. Quando ela demonstrou cansaço, Luciano ficou sem saber onde pôr a menina para dormir. Martin logo chegaria do trabalho e Bella ainda não havia voltado.
Com um suspiro, deu de ombros e levou-a para seu quarto, deitando-se com ela na cama.
– Boa noite, Bia. – beijou-lhe a testa e sorriu quando sentiu ela lhe apertar o tronco.
Não houve problemas com Martin.
Ele não dormira em casa.
~※~
– Afonso? Afonsooo!
O português saiu da estufa e foi até a parte frontal da loja. Ainda era cedo, a Colubris ainda nem sequer estava aberta... Ele apenas gostava de tratar das flores enquanto punha os seus pensamentos em ordem. E os seus pensamentos, naquele momento, estavam cheios de uma certa pessoa morena, com um sorriso lindo e um sotaque adorável.
Isto claro, até aquela ouvir outra voz que por vezes lhe aparecia também em pensamentos.
Abriu a porta e pestanejou.
– Art--
Foi projectado para trás e quando deu por si, o inglês estava abraçado em si.
– A-Afonso... O Francis... O Francis deixou-me!
– C-Calma... – retribuiu o abraço e usou a perna para fechar a porta – Como é que sabias que estava aqui?
– P-Por que não estavas em casa e estás sempre aqui- mas- mas- Afonso... Ajuda-me por favor. – choramingou e aconchegou-se no abraço do português.
O português deixou um suspiro frustrado escapar por suas narinas, levando a mão direita até os cabelos rebeldes e de fios grossos de Arthur, a esquerda lhe dando leves palmadinhas nas costas.
Arthur apenas o procurava quando necessitava de alguma coisa e, embora fossem amigos com benefícios, saber que o inglês só ligava para a sua amizade quando Francis o deixava de lado lhe magoava mais do que gostar do loiro e não ser correspondido.
– Diz-me o que se passou.
Ouviu o loiro fungar. Arthur era tão sensível, embora sempre mantivesse uma carranca que adorava apresentar aos outros.
Arthur afastou-se um pouco e limpou os olhos na manga direita, um gesto tipicamente infantil dele.
– O-o Francis... E-eu o vi com uma qualquer num restaurante ontem à noite. – aquilo não significava nada para Afonso. Franis era um advogado disputadíssimo, provavelmente era uma cliente sua. – Q-quando eu fui perguntar do que falavam, ele disse-me que era “confidencial”! E-ele me está a trair, Afonso!
Suspirou novamente e moveu-se um pouquinho, como se estivesse a embalar o inglês ou simplesmente a dançar sem sair do sítio.
Apoiou o queixo no ombro dele e sentiu o cheirinho agradável do after-shave de Arthur.
– Tu sabes que ele costuma ter jantares com os clientes.
– Mas não era UM cliente. Era UMA. E estava toda arranjada e a fazer-lhe olhinhos!
Afonso abanou subtilmente a cabeça. Para alguém que aparentava ser mal-humorado e superprofissional, Arthur era, sem sombra de dúvidas, um pouco dramático. Mas não tanto como certos brasileiros e--
Sacudiu a cabeça mais uma vez como se isso servisse para afastar pensamentos indesejados dali para fora.
– Isso não quer dizer nada. E mesmo que ela lhe estivesse a fazer olhinhos, duvido que o Francis te traísse.
– M-Mas o Sapo--
O português nem o deixou continuar. Conhecia bem aquele argumento e já sabia onde a conversa ia parar... Arthur era... Demasiado inseguro.
– O Francis seria incapaz de fazer isso. Ele é um cavalheiro romântico à moda antiga e nunca deixaria a sua donzela de coração partido por traição. Se ele amasse outra pessoa, dir-te-ia primeiro e resolveria as coisas.
Arthur encolheu-se um pouco e apertou o abraço.
– ..Tu não me acabaste de chamar donzela, pois não?
– Chamei sim~ Às vezes pareces uma.
– Cala-te, idiota. – resmungou e deu-lhe uma palmada leve na nuca, mantendo-se aconchegado no abraço do lusitano.
O português riu um pouco, algo que ele desejava evitar naquela situação não fosse Arthur lhe xingar e dizer o nome da Rainha em vão.
– Estás mais calmo? – questionou ao perceber que a respiração, antes ofegante, do britânico havia estabilizado.
– Quase... – Arthur murmurou, dando um singelo beijo no pescoço de Afonso.
Afonso arrepiou-se, porque aquilo lhe fazia imensas cócegas.
– Quieto.
Sentiu o inglês sorrir, quase maliciosamente, e foi encaminhado para a staff-room.
– Arthur? O que foi?
– Tenho sono.
Deixou-se cair para trás no sofá e trouxe o português para cima de si.
– Eu não posso ficar aqui!
– O teu empregado não tem a chave?
– O Luci? Tem mas--
Arthur franziu ligeiramente o sobrolho, aquela aproximação entre ele e o brasileiro não lhe agradava. Apertou o abraço e aconchegou-o.
– Ainda é muito cedo para abrir. Tem bons sonhos~
– A-Arthur, eu não pos--
Ao sentir as mãos de Afonso em seu peito e o português se inclinando para trás, Arthur soltou um baixo e sutil rosnado e puxou o mais velho pela nuca, mordendo-lhe delicadamente o lábio inferior.
– Não podes ou não queres? – provocou, usando a ponta da língua para afastar os lábios e brincar com a carne macia e fina da boca de Afonso, a mão direita prendendo-o pela cintura – Não me vais dizer que estás caidinho pelo namorado da tua sobrinha.
Se fosse para ser sincero, o português dizer-lhe-ia que não fazia ideia. Talvez até gostasse um pouquinho de Luciano mas era impensável fazer alguma coisa por isso.
Suspirou e desviou o rosto, pousando a cabeça no ombro do inglês para se aconchegar perto do seu pescoço.
– Não é nada disso. Só... Não traias o Francis por algo tão insignificante. – murmurou.
Arthur voltou a beijar o pescoço de Afonso.
– Tu não és insignificante.
Afonso corou e encolheu-se envergonhado. Era tão bom ouvir aquilo...
Suspirou outra vez, a sua pele arrepiando-se por causa dos lábios de Arthur. Este, não se afastou nem um bocadinho e deixou um chupão no pescoço do lusitano.
Perante a permissão de Afonso, Arthur sorriu e inverteu as posições – tarefa difícil, uma vez que estavam num pequeno sofá –, sobrepondo-se ao português e entrepondo-se às pernas dele.
– Tu sabes que não sou nada sem ti. – declarou, sorrindo malicioso ao ver os olhos verdes e escuros de Afonso brilharem, inclinando-se para baixo e finalmente tomando os lábios dele para si.
~※~
Era madrugada quando Hansen ouviu o motor de carro desligar em frente à pensão.
Embora estivesse deitado, continuava desperto, encarando o teto branco e sem adornos de seu quarto. Ao perceber que Bella chegava, levantou-se um tanto apressado e seguiu até a janela, podendo ver a belga se despedir de alguém que continuava dentro do carro e seguir até a porta de entrada.
Hansen vestiu seu casaco – estavam tendo um inverno tão frio! – e deixou o aposento, parando no topo da escada ao ver a loira subindo, apressada e sorridente.
Ao ver o irmão, Bella alargou o sorriso, a mão direita sobre o corrimão.
– Irmãozão? Ainda acordado?
Hansen pestanejou e censurou-se mentalmente. Em que raio estava a pensar?
– Hum... Sim. – decidiu então mentir – Tinha-me esquecido que tinhas sair então ao ouvir a porta abrir vi ver o que se passava.
Bella piscou, parada na metade da escada. Hansen havia se esquecido de sua saída? Estranho...
– Oh, sou eu. – sorriu outra vez e moveu a mecha que lhe caía aos olhos para trás da orelha.
Aquele gesto sutil fazia os músculos do peito de Bella trabalharem, e como ela vestia um vestido mais decotado que os usuais, Hansen pode ver os seios dela tremerem sutilmente.
Malditos hormônios.
– Hn. Estou a ver. – ele murmurou, desviando sutilmente o olhar para os olhos dela outra vez.
A belga voltou a sorrir e terminou de subir as escadas, parando ao lado do irmão – e este pode sentir o perfume forte de Felipe na pele dela – e lhe tomando o rosto com as mãos.
– Tem bons sonhos, ir-mão-zão~ – riu e beijou a bochecha do mais velho, manchando a pele clara com seu batom, seguindo para seu quarto.
Só depois da porta do quarto dela bater é que o holandês suspirou, esfregando a testa. Estava a ser tão idiota...
Rodou nos calcanhares e voltou para o seu quarto.
Sua cama já estava fria, porém seu corpo quente não reclamou ao se encostar nos lençóis. Hansen cobriu-se com os cobertores bagunçados e fechou os olhos, repassando em sua cabeça a noite que a vira se arrumando para outro, assim como o cheiro dele na pele clara e bonita dela. Estava se roendo de ciúmes, embora soubesse que nada poderia fazer. Bella não era, nunca foi e nunca seria sua.
Suspirou e olhou para o vaso ao lado de sua janela. As tulipas vermelhas continuavam belas por culpa do frio, e ele achou-se um tremendo idiota por pensar em oferecê-las para Bella.
Como a amava...
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