Kagome acordou e viu a gatinha enroladinha naquelas roupas e o papel ao seu lado. Inuyasha estava dormindo no futon do chão, mas ela tinha esquecido isso pela curiosidade daquele fato, e acabou acordando-o ao pisar nele.

- Ai... Não pise em mim! Reclamou ele.

- Ah, desculpe... Disse ela sonolenta indo até o canto do quarto, dobrando as roupas de Leona e pegando o papel.

- O que é isso? Perguntou Inuyasha sentando-se onde estava.

- Leona parece ter deixado escrito tudo que queria dizer durante o mês... Fala ela lendo o começo.

"Caríssimos,

Kagome-san e Inuyasha-san, espero que tenham dormido bem essa noite que estive fora. Por favor, Kagome-san, leve minhas roupas para a Sengoku Jidai, acho que é seguro que eu tenha o que vestir lá quando chegar a lua cheia, e claro, longe de Houshi-sama (falando nele, se ele perguntar, eu sou uma velha gorda e feia com bigodes hehehe). Além disso, se não for incômodo, leve sempre com você a minha katana, poderá se proteger com ela se precisar, e se eu puder, certamente a protegerei com esta lâmina, pela honra de meu clã youkai felino, Kagome-san. Desculpe não ter falado muito com vocês, meu tempo era curto, como sempre é. Da outra vez, na Sengoku Jidai, eu não sabia o que falar pra vocês, então simplesmente me escondi, as coisas pareciam confusas e eu precisava pensar.

Não peço mais que simplesmente me levem com vocês nas suas viagens, não se preocupem comigo, saberei me defender, cuidem de sua busca, eu estarei atenta ao momento em que encontrarei o daiyoukai que me interessa. Quando isso acontecer, provavelmente eu os deixarei, precisarei segui-lo, até o dia em que terei forças para confrontá-lo e tentar reverter o meu selamento. Depois disso, não sei se terei mais a liberdade de ir e vir ao Sengoku Jidai, não sei se poderei voltar para a minha Obaa-san, ou se ficarei presa no Sengoku Jidai, mas independentemente do que aconteça, serei sempre grata pela ajuda que vocês me concedem, a Kagome-san, por ter me levado pela primeira vez a esse lugar, onde eu encontrei um fio de esperança para a minha existência frágil até agora.

Sango, você é uma guerreira incrível, não quero te ver triste; Shippou-chan, eu nunca vi uma Kitsune no youkai antes, você é a mais fofa de todas, sério; Inuyasha, apesar de ser um cachorro você é legal; Kaede-obaa-san, você realmente sabe a temperatura certa do leite morno de um gatinho...

Não vou falar aqui tudo que eu teria para dizer em um mês com vocês, porque há muitas coisas que eu queria poder falar. Por enquanto, cuidem dessa pobre e fofa gatinha abandonada... Miau...

Leona"

Kagome terminou de ler para todos, e os demais na Sengoku Jidai pareciam curiosos com o fato de ela ter escrito aquilo, ter se mostrado como Youkai, com o modo como Inuyasha admitiu (não na frente dela) que realmente, teria medo se brigasse a sério com um youki tão pesado, e com o fato de que realmente, ela tinha se sujeitado como youkai às vontades daquele grupo, com um hanyou, e humanos.

Ela simplesmente ficou sentada vendo-os conversando. Não podia fazer mais que isso e miar nessa forma miserável.

Seguiam viagem em busca de Shikon No Kakera, tiveram algumas atribulações, e quando ela menos esperaria, estava diante de uma situação estranha. Via Inuyasha se defendendo pateticamente com Tessaiga de um outro youkai, muito mais forte. Foi pêga por Kagome e juntamente com os outros se protegiam da luta. Não deveriam interferir. Ela só sabia de uma coisa, nunca tinha visto outro youkai que usasse aquele chicote, nunca tinha visto outro youkai com olhos tão frios e indiferentes, nunca tinha visto um youkai que tinha uma espada e não a sacava, e isso significava que aquela lâmina era inútil, não tinha fio... Era Tenseiga, e aquele youkai maldito era o que ela desejava tanto achar... Sesshoumaru. Apesar do braço de dragão, apesar de parecer um garoto, tão jovem... Era o mesmo. Era o passado do inu daiyoukai Sesshoumaru... Aquele maldito que sacrificou seu último suspiro para fazê-la sofrer por uma eternidade terminando com a guerra dos youkais e terminando com a sua hegemonia sobre os humanos para sempre.

Kagome percebia que ela estava tremendo, estava com raiva, e ao mesmo tempo com medo. O que significava aquele monte de reações naquela bolinha fofa de pêlos. Seus olhos brilhavam de ódio, iluminavam a penumbra em que estavam, no fim do dia.

Leona se debatia por não ter naquele momento o poder para fazer aquilo parar. Olhou para o horizonte, e viu que era o momento de se afastar, antes do sol partir completamente, a mochila de Kagome tinha caído longe dali, com a quantidade de escombros que havia por todos os lados, teve a chance de se esconder para a volta do seu corpo, do seu poder... Uma noite perfeita. Ela finalmente tinha encontrado aquele demônio. Andava com passos firmes empunhando a sua lâmina na mão esquerda, era estranho pensar que Kagome realmente levou a sua roupa de motoqueira para Sengoku Jidai, tinha se imaginado naquele tempo estranho com um kimono floral de péssimo gosto, mas se sentia bem mais livre de jeans, e confiante por ter tido a sorte grande naquele momento.

- Leona... Kagome a viu se aproximando deles, mas ela não olhou ao seu chamado, parecia hipnotizada com a cena da luta de Inuyasha e Sesshoumaru, ela não entendeu o motivo da youkai estar desse jeito.

- Ela... é... Miroku parecia impressionado com a figura de Leona, caminhando impetuosamente para o meio daquela batalha sem medo nenhum.

- Leona, não interfira... Falou Inuyasha se distraindo por um segundo, e essa parada chamou por um segundo a atenção de sesshoumaru para o youki denso que se aproximava, flutuando à altura em que ele estava depois de se afastar após o último golpe, ele via aquela mulher se atravessando na frente de Inuyasha.

- Calado, hanyou. Esse é o meu problema. Ela disse enfurecida olhando para os olhos frios e distantes de Sesshoumaru. Por um instante pensou que realmente era uma pena ter descoberto que o objeto de seu ódio era um garoto com uma face tão bela, mas mesmo assim ela não teria pena de retalhar esse rosto se fosse para ter a sua vida de volta.

- Leona, não interfi...

- Inuyasha, cale-se. Eu sei que esse maldito daiyoukai é o seu irmãozinho querido... Disse ela olhando para ele, e ele viu que ela realmente estava possessa de ódio, o youki dela parecia querer sufocá-lo, mas mesmo assim, era como se ela impedisse-o de chegar tão perto da sua atmosfera respirável, ela devia isso a Kagome, por ter lhe dado essa chance.

Sesshoumaru ficou um tanto curioso por ser chamado de daiyoukai, afinal, ele ainda não poderia ser considerado assim, não era tão poderoso quanto pretendia ser. E quem era aquela mulher, com aquela roupa estranha, que emanava uma energia tão carregada de ódio, e ao mesmo tempo podia ter uma presença tão elegante, realmente isso era curioso quando ele simplesmente tinha preocupações mais imediatas com o desejo de ter a lâmina Tessaiga para si.

- Quem é você, mulher? Perguntou ele arrogante como sempre, mas deixando transparecer a curiosidade erguendo uma sombrancelha levemente.

- Eu sou Leona, daiyoukai do clã dos felinos...

- Desculpe, mas você está enganada, menina... — começou Sesshoumaru tocando seus pés no chão e vendo-a a uma distância um pouco menor, um tanto hipnotizado pelo olhar profundo e oceânico dela — O daiyoukai deste clã é Raion.

- Infelizmente, ele não vai ser sempre o daiyoukai do meu clã.

- Não tenho tempo para perder com as brigas de poder do seu clã, saia da frente, tenho que terminar uma briga de irmãos.

- Sesshoumaru... — Apesar do grande ódio do youki dela, era perceptível que havia desespero e tristeza misturados a isso de uma forma muito densa — antes que o Inuyasha termine com a sua raça, preciso que me tire o maldito selo que colocou sobre meus poderes, depois pode voltar à sua brincadeira.

- Não sei de que está falando, saia. Ela realmente estava se irritando com aquele cara, como ele poderia ser tão lacônico e teimoso. Porque simplesmente não concordava para que ela se livrasse logo daquela desgraça?

- Então eu acho que vou ter que te matar de novo. Disse Leona desaparecendo da visão dele por um segundo, e logo depois ele via diante dos seus olhos os dela, imersos em um sentimento profundo de ódio, cultivado por muito tempo, o youki dela era sufocante, mesmo assim o que estava realmente dificultando a sua respiração não era isso, era a força que ela tinha nas garras ao redor do seu pescoço.

- De novo? Ele conseguiu falar percebendo a frase anterior dela, além de que isso poderia resultar em uma chance para algum movimento. Aquela youkai era forte, mais que ele esperaria de uma mulher.

Quando eu te matei, mais de mil anos à frente do que estamos aqui agora, você não tinha esse braço desprezível. Disse ela sem desapertar a sua garganta, movendo silenciosa e rapidamente a lâmina na outra mão e arrancando o braço de dragão que ele tinha substituído do seu perdido, e era possível escutar o tecido da manga da sua veste ir num corte perfeito juntamente com o braço. Sentiu o metal da sua armadura quebrando.

- Leona, você não pode fazer isso... — o grito de Kagome ecoava fracamente de onde ela estava, mas sua boa audição ouvia perfeitamente o que ela dizia, mesmo quando ela abaixou o tom de voz — Nem mesmo tem certeza se vai se libertar quando ele morrer... Nem sabe como isso vai alterar o curso da história... Não sabe se não corre o risco de morrer também...

Ela não sabia mesmo, afinal, ela não sabia o que era que ele tinha feito com ela, não sabia o que aconteceria se ele morresse com a história, se talvez o desastre da guerra não fosse pior, não tinha como saber. Ela via que os olhos dele apesar de sérios, tinham a mesma coisa que ela viu naquela vez, na luta com ele, no final, quando ele tinha visto que não poderia vencer e sobreviver. Ele estava com medo dela.

- Eu não sei o que vai acontecer... Não me importa, viver ou morrer não importa... Eu não vou aceitar que as coisas fiquem como estão, a minha vida foi destruída por esse garoto... — Leona disse jogando o youkai ao chão, a metros de distância, mas ele mal teve tempo de se erguer e ela já estava próxima o bastante pra que ele se ferisse com a sua lâmina. — Não vou ter pena do seu rostinho bonito, Sesshoumaru.

Ele era rápido, mais que ela esperava, não poderia ser diferente, era mais inexperiente e estava apanhando, mas ele era mais jovem agora. O veneno dele a deixava tonta, no seu sistema estava funcionando como álcool, talvez misturado com algumas drogas, não sabia direito. Mesmo assim ainda tinha capacidade de reagir a tempo. Estava equilibrando a disputa, aquele desgraçado... Antes de tantas coisas, como ele conseguia ainda assim ser tão forte? Se distraiu por um segundo, por um momento a sua mão falhava, era como se estivesse impedindo a si mesma de cortar-lhe fora a cabeça, devia ser o efeito desse veneno todo no ar. Sentiu-se presa, e viu sua lâmina caindo. Estava enrolada naquele maldito chicote. Mas o que ele faria agora? Aquela katana não poderia matá-la, ele nem a tinha sacado, e ela sabia porque, uma espada sem fio não servia pra nada, e era estranho que ele a tivesse mantido.

Ela viu de relance que Inuyasha não iria ficar quieto, era natural, afinal, se era pra se meter em uma briga dele pra sair perdendo, que não tivesse feito isso. Mas temeu o momento em que ele tentaria usar o trunfo de Tessaiga. Poderia imaginar o estrago daquela lâmina lendária, de fato, ela já tinha visto aquilo muitas vezes, seu irmão se foi por causa daquilo.

Mesmo que Sesshoumaru estivesse com uma expressão mais confiante naquele instante, ele não tinha percebido a investida que Inuyasha faria, ele aidna estava com os olhos aterrorizados de medo por causa dela. Era estranho sentir que um cara com o potencial que ele tinha estivesse com medo de uma menina como ela, por mais que ela soubesse, que mais de mil anos depois, ele sentira a mesma coisa no fim.

Sentiu a Ferida do Vento passando por ela, sentiu o seu peso caindo, e a luz à sua frente que ia na direção de Sesshoumaru. Estava errado. Era ela que tinha que terminar com a raça daquele inu youkai dos infernos, era ela... E aidna por cima, ela estava sendo defendida por um hanyou, um cachorro... Era irônico.

Não queria ficar inconsciente, tinha que terminar com isso, mas não aguentou a pancada que levou na queda e as feridas infectadas. Acordou alguns minutos depois sentindo que Kagome tratava seus ferimentos, pelo menos um kit de primeiros socorros moderno.

- Kagome-san...

- Leona, está tudo bem? Perguntou ela.

- Porque se intrometeu? Inuyasha não estava de bom humor, ela esperava por isso, mas tinha pensado que não aconteceria um erro como aquele.

- Não tente pegar a presa da Leoa aqui, cachorrinho, aquele maldito me deve por quinhentos anos de sofrimento. Ela disse ignorando se ele gostaria ou não da resposta, Sesshoumaru era o seu alvo, ela tinha um problema pessoal de longa data com ele para resolver.

- Leona... Acalme-se. Reclamou Kagome tentando evitar que ela se mexesse.

- Não vou deixar que ele fuja. Não agora... Dizia ela se desvencilhando. O veneno já tinha sido purificado pela Miko, qualquer outro ferimento era irrelevante, ela tinha uma coisa muito mais importante para resolver.

- Ah... Agora que eu pensei que teriamos uma beldade a mais para nos acompanhar... Começou a choramingar Miroku.

- Houshi-sama, se eu não resolver isso agora, só verá essa beldade uma vez por mês, você não quer isso, não é? Disse Leona de forma que Sango se sentiu um tanto ofuscada, e Kagome viu que ela era assim mesmo, já tinha jogado esse pseudocharme pro lado de Inuyasha antes, ela gostava de testar limites.

- Não, não... Eu... Miroku ficou sem o que dizer para uma mulher, isso era incrível, foi o que os outros pensaram, e Leona ria disso.

- Então, creio que demorarei para reencontrá-los agora. Essa é a minha chance, se não for hoje, vou ter que esperar mais quanto tempo... Eu não vou ficar perdendo tempo com essa oportunidade à minha frente. Disse ela sorrindo e seguindo, pegando a sua lâmina, embainhando-a, e deixando-a com Kagome.

- Leona...

- Kagome, não perca esta lâmina, eu voltarei para buscá-la. Disse ela virando-se e desaparecendo. Correria como o vento, mas encontraria-o. Ele não tinha morrido com o golpe de raspão, ela sabia disso, alguma coisa o protegeu.