O Selo Do Medo
3 Onegai Shimasu
- Das poucas horas de liberdade de Leona nesse mundo. disse a velha tomando seu chá.
- O que quer dizer com isso, Haya-obaa-san?
- Ela quer dizer isso... Dizia uma moça, um pouco mais velha que Kagome, muito bonita, com um jeans rasgado e uma blusa preta, jogando uma jaqueta de motociclista feminina em um canto próximo e sentando-se à bancada da porta para colocar suas meias.
- Quem é você? Perguntou Inuyasha sem a mínima ideia de quem era aquela mulher fazendo cara de bobo.
- Leona, o gatinho assustado. Disse ela rindo da cara dele e mechendo as orelhinhas na sua cabeça. Kagome e ele sentiram um youki poderoso emanando dela, os seus olhos profundos de azul fortíssimo com aquela pupila felina eram hiponizantes.
- Desde quando pode fazer isso? Perguntou Kagome curiosa e vendo que ela era linda.
- Raramente, o que é uma pena. Primeiro dia de Lua cheia... — Disse ela servindo chá para si mesma — ah, como é bem melhor não ser um gatinho... Não sei como não enjoei ainda de leite, bem, não importa. Disse bebendo e não dando muita atenção aos dois que a olhavam.
- Leona... Você passou dois meses fora e falou com eles... Na Sengoku Jidai não consegue se libertar? perguntou a velha preocucada.
- Eu consegui, Obaa-san, também pensei que fosse ter algum problema, mas não...
- Então, porque não falou com a gente antes? Perguntou Inuyasha furioso, afinal, ficou perdendo tempo pensando em que diabos era aquele gato pra nada se ela poderia ter explicado.
- Ei, porque essa fúria toda, Inuyasha, eu nem seu tão bonita assim. Disse ela rindo e ajeitando os cabelos, o que irritou Kagome, mas ela não disse nada.
- Não é isso! — disse ele envermelhando ao ver a cara emburrada de Kagome e olhando pra ela de soslaio, afinal, era mentira isso, ela era uma das mulheres mais bonitas que já tinha visto — Eu perdi tempo pensando em que tipo de ameaça estranha era aquela bolinha de pêlos que você era achando que Naraku poderia estrar por trás disso pra descobrir que você mesma poderia ter explicado tudo isso! Disse ele com uma cara mau humorada.
- Ah, eu percebi que você não é muito de usar o cérebro mesmo, foi divertido te ver com dor de cabeça. Ela disse rindo de uma forma escandalosa, mas elegante. Ela era uma youkai das mais fascinantes que Kagome poderia ver...
- Divertido? Ele perguntou um tanto confuso.
- Sim, claro, um hanyou como você, com a força que eu vi que tem, se forçasse um pouco mais essa cabecinha, seria muito mais bem sucedido em um combate que simplesmente batendo e depois perguntando como sempre...
- Está me chamando de burro? Inuyasha realmente queria brigar com ela agora, por mais que fosse uma mulher bonita, ela era irritante.
- Preguiçoso seria mais adequado... — Disse ela rindo — Não se ofenda, hanyou, estou te elogiando. Tem uma força surpreendente e um grande coração, pode ser melhor que muitos youkais que eu conheci.
Inuyasha ficou em dúvida quanto a isso e não sabia o que dizer, afinal ela sabia ter um jeito um tanto egocêntrico e arrogante, mas mesmo assim conseguia ser elegante e não perder a pose de mulher conquistadora quando falava, isso era estranho. Nunca tinha lidado com alguém assim.
- É uma pena que eu só tenha cerca de doze horas de liberdade por mês, se não poderia achar aquele daiyoukai e terminar com essa maldição de selo. Não seria muito difícil terminar com ele na Sengoku Jidai, ele provavelmente quando jovem era bem mais fraco do que na guerra em que ostentava aquela cara de sábio das montanhas com aquela barba e aquela experiência toda de batalha, até porque, sem experiência, ele não poderia fazer muita coisa com uma katana que não corta nada.
Teorizava ela ignorando os demais. De repente Kagome chegava à conclusão de que ela realmente falava em um dia o que não podia falar durante o restante do mês. E no fim, ela realmente não parecia estar interessada mesmo em Inuyasha, o jeito como olhava para o rosto de Kagome denunciava que estava fazendo aquilo de propósito, como que testando as reações dela.
De repente Kagome se assustou quando ela estava em posição de extrema humildade diante dela.
- Kagome-san... Por favor, não deixe de me levar à Sengoku Jidai, eu preciso ir com vocês... É a única chance que eu tenho de voltar a caminhar por esse mundo e sentir o sol de novo nesse rosto que agora ostento temporariamente. E também... Na Sengoku Jidai, é como se eu tivesse encontrado um lugar em que a minha existência é aceita como ela realmente é.
Ela parecia triste ao terminar, era como se apesar de gostar desse mundo, até pelo modo como agia, acostumada com essa atualidade, até mesmo pela sua vestimenta, era como se na era feudal ela tivesse encontrado um lugar que realmente entendesse que ela não era simplesmente mais uma vida, mas um youkai, um demônio que tinha poderes, que era respeitado e temido. Mesmo que isso fosse difícil de entender para a pele de um gatinho, parece que lá ela encontrou as primeiras pessoas que tentaram entendê-la mesmo que ela estivesse tão fragilizada. Inuyasha nunca pensou que veria um youkai com a força que ela dava a sensação de ter, sendo tão humilde ao ponto de pedir a ajuda de um ser humano, e de quebra, de um hanyou. Mais irônico ainda, um felino que não tinha medo de estar sob a guarda de um canino como ele, o filho de um cara que matou o seu avô, e ele mesmo, que muitos anos depois matou o seu irmão em batalha.
Para Leona, estar perto de Kagome, a Miko reencarnada, era uma chance de dar de cara com aquele daiyoukai que a selou daquela forma, aquele maldito velho, tão arrogante. Aquele que tinha morto seus pais na sua frente, que despertou a sua ira a tal ponto que a sua forma desumana mais ameaçadora ignorou as chances de morrer da mesma forma que seus pais, mas no fim, aquele que ela conseguiu matar, um erro, porque com ele morto não poderia desfazer esse maldito selo. Tinha sua vingança no fim daquela guerra, mas sofria com isso, mais que se tivesse sido piedosa, mais que se tivesse compreendido antes, que vingar a morte dos seus pais não os traria de volta. Essa era provavelmente a sua única chance de desfazer essa situação infeliz em que se encontrava, se é que conseguiria. Mas pelo menos, era um raio de esperança no meio do seu desespero.
- Por favor, não deixem a minha netinha sofrendo... Pediu a velha vendo a expressão de dúvida de Inuyasha e Kagome.
- Tudo bem, mas você sabe, Leona... Nossa busca é outra, o seu caso pode ser mera sorte. Disse Inuyasha se rendendo por fim, e Kagome estava com cara de quem queria aceitar isso, mas parecia temerosa de ele não querer um youkai problemático como ela com eles, pela expressão anterior dele, e ficou feliz quando ele aquiesceu.
- Obrigado, muito obrigado. Disse ela sorrindo e abraçando-os, aparentemente, ela esqueceu que não era um gatinho, e que nessa forma ela nunca tinha chegado tão perto deles, porque os dois ficaram sem jeito com a expressão feliz da youkai, naqueles olhos tão frios e solitários dela e mesmo assim com um sorriso esperançoso.
Depois disso, Kagome decidiu que realmente era tarde e voltaria para casa. A velha perguntou se não queriam ficar com ela, mas ela realmente se sentiria melhor longe do youki pesado de Leona, e viram ela saindo naquela reluzente motocicleta monstruosamente pesada, como se fosse algo normal para ela, assim como era para Kagome pegar a bicicleta. Inuyasha estimou que aquela coisa de metal não poderia ser erguida por uma garota, deveria pesar mais de meia tonelada, mas mesmo assim, ela manejou a motocicleta naturalmente, como se fosse leve como uma pena.
No final da madrugada, depois de rever as pessoas do seu cantinho de diversão humana das noites modernas, ela estava dentro do templo, entrando pela janela do quarto de Kagome. Ela era ágil e silenciosa, sua presença era suave e felina, era natural ela conseguir se esgueirar assim. Olhou para baixo e viu que por pouco não pisou em Inuyasha que dormia em um futon no chão ao lado da cama dela parecendo uma criança. No fim das contas, ele era engraçado, ela pensou. Nunca pensou que estaria se juntando a um time estranho com um Houshi, uma Exterminadora, um filhote de Kitsune, uma Miko, e um hanyou, ainda mais daquele tipo de hanyou em especial.
Aproveitou o pouco tempo que tinha antes do sol aparecer e de ela voltar àquela forma desprezível e deixou a um canto um rolo de papel em que tinha escrito coisas para eles, afinal, só poderia falar depois de um mês, sentou-se ao lado do papel e esperou, logo suas roupas estariam semi-dobradas ali. Ela estava saindo de baixo do tecido da sua roupa, como um filhote de gatinho peludo de novo. Dormiu sobre o tecido enrodilhada em sua cauda, pensando em como era complicado ter que ser assim a sua vida, logo teria quinhentos anos que a sua vida era maldita desse jeito.
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