O Selo Do Medo
2 Obaa-chan
Notas iniciais
- Vamos ver... - começou Shippou chegando mais perto do gatinho - Se você entende o que dizemos vá até Miroku-san. Disse ele apontando para Kaede.
- Que lógica é essa, Shippou-chan? Começou Kagome.
- Não acha realmente que um gato entende o que dizemos, não é? Perguntou Sango.
Ela miou e levantou-se dali sentando-se à frente de Miroku.
– Tá de brincadeira? Disse ele olhando para o gatinho que virou a cabeça para ele e miou de novo como se quisesse responder.
– Eu sabia que tinha algo de estranho nesse bicho. Resmungou Inuyasha.
– Tipo o que? Só porque é um gatinho inteligente? Disse Sango alisando-o.
– Não sei, ele tem cheiro de youkai, mas é só um gatinho que entende o que falamos... Disse ele pensativo.
– Cheiro de youkai? Perguntou Kaede interessada olhando o bichinho.
– Sim, muito forte por sinal. Disse ele como se não gostasse do cheiro dela. Na verdade, ele estava profundamente desconfiado, afinal, não parecia que ela era um youkai, não tinha poder para ser um pela sensação de fragilidade que transmitia, mas mesmo assim, seu olhar medroso para ele tinha um fundo de coragem e enfrentamento, era como se tivesse alguma coisa a mais a saber, até porque, nunca viu um pequeno youkai, por mais frágil que fosse, que não conseguisse se comunicar, somente os monstruosos e irracionais é que não conseguiam até onde ele sabia.
– Mas é só uma gatinha inofensiva, até onde me parece. Disse Kaede olhando com bastante atenção.
– Sei não... Resmungou ele deixando o assunto de lado.
– Mas então, que nome será que ela iria gostar? Pergunta Sango olhando para os outros e vendo como ela parecia somente uma bolinha fofa de pêlos macios andando entre eles e olhando curiosa, de novo tentando pegar Myouga-jiji.
– Vai ser difícil perguntar o nome dela, então teremos que escolher um que ela goste mesmo... Disse Kagome vendo que realmente ela só miava e ronronava ao redor deles.
Eles começaram a citar nomes e definiram ações para sim e não para pelo menos saberem o que ela queria, Shippou tinha se divertido muito com isso. Sim era colocar à frente a patinha esquerda, e não era a direita.
Ela olhava curiosa, parecia que eles tinham gostado do fato de terem um gatinho que entendia o que eles diziam. Mesmo que sendo um filhotinho fofinho ela geralmente fosse admirada, a admiração deles por ela entendê-los era mais interessante ainda, apesar do tal Inuyasha ainda estar desconfiado.
Acabaram deixando a ela o nome de Lan, era o mais parecido com o seu nome que conseguiram depois de muitas tentativas, e de ela ter se cansado de dizer sim e não daquele jeito. Depois de um tempo a brincadeira cansava, mas estava feliz, porque pela primeira vez na forma de um gato ela podia se comunicar mesmo que parcamente.
Depois de algum tempo eles estavam conversando e teorizando sobre pequenos youkais, e a teoria mais aceita até ali era a de shippou, talvez ela fosse um filhote muito muito jovem de um clã de neko no youkais(2) que eram relativamente frágeis. A isso ela sentou-se entre eles e esticou a patinha direita. Realmente não, ela era mais forte que um gatinho. Gatos eram felinos suaves e admiráveis, mas ela era de uma classe mais poderosa. Somente tinha ficado com essa forma por causa de um maldito velho youkai que a selou nessa maldição... Ela não era fraca... Era triste que a vissem assim... Se soubessem quem ela foi mesmo... Será que haveria uma maneira de se livrar dessa maldição, na Sengoku Jidai, muito tempo antes daqueles acontecimentos, talvez se tivesse uma chance de evitar que o youkai que a selou existisse no futuro em que aquilo aconteceu, se é que ela teria tanta sorte assim.
– Acho que ela quer tentar explicar isso se pudermos dar opções pra ela... Disse Kagome vendo ela responder aquele não.
– Esse não quer dizer que você não é um youkai gato fracassado? Perguntou Inuyasha nada gentilmente. Ela fez um rosnado felino de raiva, mas respondeu que sim, a afirmação dele, que ela não era um youkai gato fracassado era verdadeira.
– Então você é uma youkai mesmo? Perguntou Miroku que ainda duvidava dessa tese deles, ela respondeu que sim.
– Mas, porque estava na minha Era, e não na Sengoku Jidai? Perguntou Kagome, percebendo essa distorção de tempo e fato da existência dela lá.
– Miauu... Realmente, ela não poderia explicar com sim e não uma pergunta dessas, mantendo-se sentada perto deles sem se mexer.
– Acho que isso é muito complicado pra sim e não. Vamos tentar diferente... — Começou Sango ajeitando-se para ver melhor a gatinha — Lan, você pertence à Era de Kagome-san?
– Sim.
(nota da autora: o diálogo iria ficar muito ruim de ler comigo explicando patas, então vou escrever respostas dela como sim e não em itálico por hora, mas ela não fala só mia mesmo.)
– Se ela era da sua Era, Kagome, então tem que levá-la de volta... Disse Inuyasha pensativo.
– Não. Não. Ela sinalizou miando um tanto entristecida.
– Parece que ela se sente bem aqui... Disse Miroku vendo a reação dela ao que Inuyasha disse.
– Sim.
– Será que... — Começou Kagome de repente olhando para Inuyasha e Shippou e depois para ela curiosa — Quer ficar aqui porque encontrou outros youkais?
– Talvez. Ela sinalizou isso colocando as duas patas à frente simultaneamente.
– Então quer ficar aqui porque achou outros youkais, mas, o outro motivo, é porque quer os Shikon No Kakera? Perguntou Inuyasha já envolvendo um assunto mais problemático.
– Não. Para ela pedaços do Shikon No Tama, ou ele inteiro não tinham valor, por mais que a joia de quatro almas fosse poderosa, se ela pudesse se livrar da sua maldição, não precisava de nenhum amplificador de poderes pra ser forte.
– Não? Porque então... — Parou pensativo Inuyasha — Como é que eu vou adivinhar o que esse gato quer pra receber uma resposta tão simples... Ah... Droga, é chato falar com alguém assim... Disse ele saindo e ouvindo um miado meio triste.
– Não fique triste Lan, Inuyasha só não é o tipo de pessoa que gosta muito de quebrar a cabeça numa conversa. Disse Kagome vendo que ela miou e veio para perto dela sentando-se e ronronando.
– Parece que o medo dela do Inuyasha está menor, ela até se ofendeu quando ele a deixou "falando" sozinha. Falou Miroku e Sango ria acompanhada de Shippou.
Eles viajavam procurando os Shikon No Kakera, e insistentemente, apesar de ser somente um gatinho frágil, Lan insistia em ir junto deles nisso. Nas paradas de viagem, eventualmente, lembravam-se de falar com ela. Era meio entediante não poder conversar tendo tanto a falar. Queria poder rir de quando eles faziam coisas engraçadas, queria poder fazer comentários quando as coisas pareciam perigosas.
Quando Kagome voltava para a sua era no meio da semana de aulas, pelas contas dela, preferia ficar na Sengoku Jidai. Ali talvez ela fosse descobrir algo para libertá-la do martírio de ter uma noite de liberdade por mês.
– Não quer voltar para a atualidade, Lan? Perguntou Kagome de certa feita. Já tinha passado dois meses fora, e sua boa e velha Haya-obaa-chan deveria estar preocupada, perder a sua única parente no mundo seria o fim, e ela nunca sumiu por muito mais tempo que isso.
– Sim.
– Quer que eu a leve em algum lugar quando estivermos lá?
– Sim.
– Porque está sendo tão legal com esse gato, Kagome? Perguntou Inuyasha vendo ela arrumar as coisas para voltar e falando com a bolinha de pêlos.
– Ela parece tristinha, como se estivesse com saudades de casa. Eu não sabia que ela não era um gatinho abandonado, só pensei que ela talvez tenha uma família que cuide dela lá.
– Sim.
– Viu só? Ela tem mesmo... Uma família... Disse Kagome feliz vendo a gatinha ronronando em torno das coisas que ela não poderia esquecer de levar de volta.
Dois meses, e a única coisa que queria fazer da outra vez, na lua cheia, era se esconder, não conseguiria explicar nada para eles, estava ainda com medo de não mudar da forma de gato inofensivo para a sua forma, fosse a humana ou a original. Agora ela voltaria para a atualidade, veria a sua avó, e tentaria se distrair um pouco do tédio terrível que era a idade feudal, apesar de que, tinha coisas que pareciam ter mais significado ali, ali ela era considerada um youkai, no mundo moderno ela era somente uma menina muito bonita, uma vez por mês, e no geral, um gatinho fofo.
Ao voltarem, ela via o sol se aproximando do limiar do horizonte, logo a lua cheia preencheria o seu espaço, no dia seguinte. Nesse dia ainda, teria que depender da boa vontade de Kagome depois da escola.
Kagome conseguiu um bom termo para que a gatinha a guiasse na bicicleta até a velha casa, ela indicava a direção a ser tomada e logo via o casarão velho e abandonado no limiar da cidade. Kagome pareceu assustada quando parou na frente daquele velho portão caindo aos pedaços e a gatinha passou pelas grades, parando e miando como se a chamasse para entrar.
Kagome tentou mexer o velho portão e entrou, seguindo aquele gatinho. Sentia que Inuyasha a seguia, ele tinha vindo com ela só porque achou que a ideia de levar aquela youkai suspeita a algum lugar era perigoso, mesmo na era moderna.
– O que é isso? Disse ele curioso pousando de um salto do lado de Kagome.
– Não sei ainda. Disse ela seguindo a gatinha que passava pelos cômodos da casa abandonada até uma das partes que parecia habitada e mais bem cuidada na ala inferior, onde não se poderia ver do exterior que existia algum habitante ali.
– Leona... Minha fofura... Eles viam uma velha com orelhinhas e uma cauda acariciando o gatinho entre suas mãos.
– Quem é você, obaa-san? Perguntou Inuyasha curioso, a velha deu um pulo para trás e desequilibrou-se de susto ao ver Inuyasha e a gatinha saiu de perto da velha escalando com suas unhazinhas a roupa de Inuyasha e ronronando sentada ao seu ombro.
– Leona... O que está fazendo? Ela perguntou ainda atemorizada pelo garoto e vendo a gatinha miando feliz ali como se não houvesse perigo algum.
– Desculpe pela nossa intromissão, é que Lan... Er... Leona... — Começou Kagome olhando da velha para a gatinha e voltando a fixar-se na velha, pensando que o nome da gatinha era algo pra se acostumarem depois — Mas, Inuyasha não é perigoso, por favor, não se assuste com a nossa presença, só viemos porque ela nos convidou.
– Inuyasha... — A velha repetiu para si mesma o nome do hanyou, olhando-o mais atenta e vendo que a menina ao seu lado era humana. — Não é perigoso? Humana, mesmo que ele seja somente um hanyou, ele é perigoso sim... Afinal, foi o pai dele que conseguiu matar o meu marido... Disse ela olhando ainda temerosa para ele.
– Obaa-san — começou Inuyasha entediado da cara de medo dela, segurando Leona nas mãos, o que assustou a velha, mas a deixou curiosa quando ele apenas a alisava — eu não sei o que o meu velho fez, isso já deve fazer um tempão mesmo, não me interessa.
– Inuyasha, seja mais educado com os sentimentos dela! Reclamou Kagome.
– Kagome... É óbvio que se da Sengoku Jidai de quando meu velho estava vivo pra poder matar alguém, até os tempos de agora, passou-se tempo demais pra se ficar guardando sentimentos e remorsos e qualquer coisa, é passado, e muiiito passado. Disse ele como se fosse lógico.
– Tudo bem... Inuyasha tem razão... — Disse ela se aproximando um pouco e observando-o sem parecer mais tão assustada. — Mas eu me lembro que a última vez que o vi você era um velho, já deveria ter morrido e não aparecer aqui com a cara que tinha quando era um pirralho. Disse ela.
– Velho? Isso o deixou confuso.
– Seiscentos anos atrás, na grande guerra que exterminou boa parte dos youkais que detinham poder sobre o Japão... — a velha parou e olhou para Leona que miava — Ah, sim... Eu me lembro disso, Leona... Nosso clã foi um dos poucos a ter coragem de lutar com o de Inu Taisho, se não me engano, Inuyasha morreu juntamente com o seu irmão... Pobre menino, um youkai tão lindo morrendo tão jovem...
– Ahm... Não estou entendendo... Começou Kagome.
– Desculpe, vocês são convidados de Leona-chan, entrem, vou fazer um chá pra vocês. Disse a velha indicando cadeiras para eles, e Kagome se divertiu vendo que a velha balançaca a cauda como um gato, apesar de que esses traços não pareciam ser exatamente de gato, mas de algum outro tipo de felino.
– Faz sentido... — Disse Inuyasha depois de alguns minutos bebendo seu chá — Eu vim da Sengoku Jidai pelo poço...
– Poço? Então, você veio do passado? Perguntou a velha.
– Sim... Eu diria que sim.
– Mas, Haya-san, — começou Kagome com outro assunto que lhe parecia mais imediato, ela poderia visitar a velha de novo e descobrir mais coisas depois — se você é uma youkai com forma humana, porque Lan... Ahm... Digo... Leona...
– Lan?
– Não sabíamos como chamar esse gato, então Shippou sugeriu Lan, e ela parecia feliz com isso. Explicou Inuyasha.
– Bom, provavelmente porque era o mais parecido com o nome dela... — começou a velha calmamente — Leona está selada, amaldiçoada... É triste ver isso acontecer com alguém tão jovem, mas ironicamente, mesmo que isso tenha acontecido, ela foi a única sobrevivente para preservar o nosso clã com honrarias, porque simultaneamente ela matou o seu inimigo, aquele maldito daiyoukai... Mas, não vamos falar de coisas tristes... Como Leona encontrou vocês? Perguntou a velha curiosa.
– Meu irmão a achou na rua, e pensou que fosse um gatinho perdido. E quando eu fui a Sengoku Jidai, ela estava na minha mochila escondida. Passou dois meses lá...
– Sengoku Jidai?
– Sim, mas isso foi uma surpresa pra mim, porque só eu e Inuyasha conseguimos passar pelo poço até agora... Disse Kagome em dúvida.
– Você vai para lá porque, Kagome-san?
– Isso é... Eu tenho uma tarefa a cumprir lá.
– Hum... então provavelmente a conexão com a Sengoku Jidai é permitida a você porque tem essa ligação com aquele tempo, e no caso de Inuyasha vir para cá, é porque ele tem uma ligação com esse ládo da realidade...
– Sim, buscar Kagome quando ela não aparece pra ajudar. Responde ele emburrado.
– Mas isso não explica porque Leona consegue passar... Fala Kagome cutucando Inuyasha não cuito contente com o resmungo dele.
– Provavelmente, é porque o vínculo de Leona com aquele mundo, é o daiyoukai que a amaldiçoou, lá ele ainda está vivo. Talvez ele pudesse libertá-la... — Fala a velha vendo curiosa a gatinha colocar à sua frente imperativamente a patinha direita e miar contrariada. — O que significa isso?
– Ela disse que não. Respondeu Kagome.
– Ah... Esse hanyou está ensinando a minha netinha linda a se comportar como um cachorro! Reclamou a velha surpresa e ofendida com Inuyasha.
– Na verdade, a ideia de sinais foi dada por Shippou, uma Kitsune(3) quando percebemos que ela nos entende, pra termos pelo menos respostas de sim e não... Resmungou Kagome impressionada com o desprezo da velha felina por Inuyasha.
Depois de um tempo contando para a velha o que aconteceu com a gatinha na Sengoku Jidai, Kagome percebia que o dia estava terminando.
– Acho que está ficando tarde, tenho que voltar pra casa...
– Não se preocupe, aqui é um bairro tranquilo, nenhum bandido tem coragem de se aproximar da casa "assombrada" — disse a velha com uma risada divertida e matrona, mas parecendo mais infeliz depois — é triste ver que os youkais mais poderosos como o meu clã hoje em dia se perde no tempo "assombrando" casarões que antigamente eram nossos castelos...
Realmente, o reino dos youkais na atualidade era de dar pena, e Kagome pensou se não era solitário para aquela velhinha ali, mas infelizmente, era possível que aquela youkai jamais pudesse passar para a Sengoku Jidai, a era de seu esplendor Youkai, afinal, seria paradoxal se ela se encontrasse consigo mesma no passado. Provavelmente, se Leona era jovem como dizia a velha, ela conseguia passar para lá por causa do vínculo, e porque não era nascida ainda, assim como agora Inuyasha não era mais vivo, então não havia o paradoxo de ele ver a si mesmo ali. Porém, pensando dessa forma, era possível que ela estivesse alterando o curso da humanidade indo até lá, inserindo coisas na história que não tinham acontecido antes. Da mesma forma como, se Leona tivesse como impedir algum fator no passado específico, ela poderia evitar a maldição daquele daiyoukai que a velha Haya falava.
– Oh... Leona-chan, já é hora... Disse a velha vendo a gatinha sair dali pela casa.
– Hora de quê? perguntou Kagome curiosa.
Notas finais
(1) Termo pejorativo para "cara de cachorro" ou similar. Não tenho certeza da grafia com duplo K.
(2) Gatos Demônios.
(3) Raposa.
(4) Grande Leão.
(5) Leoa.
(6) mulher-demônio.
(7) Arvore youkai que usa almas humanas na produção de seus frutos.
(8) Presa Felina.
(9) Leona, a Leoa youkai.
(10) Sandálias tradicionais japonesas, são usadas, por exemplo, pelo personagem Urahara Kisuke de Bleach.
(11) Equivalente a "honorável senhorita" ou "moça", algo assim, porém respeitoso.
(12) Modo carinhoso de chamar pelo pai.
(13) Pai.
(14) Mãe.
Fale com o autor