O Selo Do Medo
1 Neko
Notas iniciais
Espero que fique boa, e gostaria de saber o que seria interessante na história de vocês que lerem pra poder continuar agradando ou melhorando.
Beijos
A cidade reluzia, o som das baladas era contagiante, e o barulho do motor da sua motocicleta esportiva naquele preto brilhante cortava a cidade a uma grande velocidade costurando entre os carros que se dirigiam às boates e festas. Tinha mais uma noite de liberdade. Noite de lua cheia.
Parou no bar de seu costume e escutava a música alta do ambiente, o bom e velho rock'n roll, via as pessoas bebendo, conversando e rindo, as meninas agarradas a seus namorados com expressões felizes, outras sendo cortejadas e pessoas e mais pessoas se divertindo. Desligou o motor e desceu da moto e tirou o capacete jogando os longos cabelos lisos de um dourado acinzentado para trás ajeitando-os um pouco melhor, e passando a mão pela nuca para desprender alguns fios que estavam próximos à gola de sua jaqueta de couro de motociclista.
Era uma bela mocinha de seus aproximados 17 ou 19 anos de olhos profundamente azuis como o oceano. Ironicamente, as vezes ela não gostava de água, mas isso era em ocasiões de sua fragilidade pessoal. Abriu o zíper da jaqueta, dentro do bar estava abafado, estava com uma simplória blusa regata cinza chumbo sem nenhuma estampa, jeans com alguns rasgos e botas de camurça preta confortáveis. Não era o tipo de menina que saia de salto alto para sofrer uma noite inteira num bar em que iriam lhe olhar para vários atributos, e com certeza nenhum desses incluía o modelo de seus sapatos, e sabia muito bem disso sempre que via as próprias curvas suaves e bem feitas de moça.
Mesmo que parecesse tão natural naquele lugar, e que muitos dos seus conhecidos e amigos não reparassem nessas coisas, havia sempre algum novato que repararia no fato de ela ter orelhinhas de gato, apesar de ela disfarçá-las jogando camadas de seu longo cabelo de forma a esconder isso no topo de sua cabeça. Mas uma coisa ela não tinha como esconder, sua pupila era vertical, uma linha que afilava nas pontas superior e inferior dos olhos, como um gato. Era belo, mas estranho para os humanos, então se alguém perguntasse, ela alegaria que eram lentes de contato decoradas.
Sua visão mesmo naquela penumbra era excelente, se sentia no seu ambiente daquele jeito. Sorria e conversava, e seus caninos pontudos suavemente, mas nada além da dentição de um humano relativamente normal emprestavam um ar sutilmente interessante ao seu sorriso. A dentição de um carnívoro predador, era normal que fosse mais agressiva, apesar de ser no seu caso delicada e suave de se ver.
Gostava do efeito que a bebida lhe fazia, como se ao mesmo tempo que lhe aguçasse a percepção e os sentidos, a deixasse meramente vulnerável à situações, era como ter uma percepção mais humana, e era interessante ver o mundo dessa forma, só não era quando ficava tonta, o que depois da primeira vez nunca mais repetiu, eis que só de ver como ficavam seus colegas de bar quando exageravam no álcool pensava em como era deprimente vomitar tudo que ingeriu, deveria ser desagradável, embora ela não soubesse bem se com a sua composição corporal sentiria a mesma coisa. Era provável que isso só se daria com pelo menos vinte vezes mais bebida que no caso de um humano normal, afinal, ela já tinha vencido competições de bebida ali muitas vezes e sem nem sentir tonturas.
Ao fim de mais uma noite, de ter sido cortejada por mais alguns garotos até mesmo bonitos ou inteligentes, e por uma raridade que conseguia ser um pouco dos dois, e sem ter tido seu interesse desperto por nenhum deles, como sempre, ela percebeu que teria que sair. Não poderia arriscar-se a estar ali quando o sol nascesse e sua noite terminasse.
Era irônico que tivesse sua forma mais agradável de ser justamente na noite de lua cheia. Saiu dali pensando nisso, e dirigia rapidamente pelas ruas bem mais vazias em meio ao fim da madrugada, guardando a sua motocicleta e voltando para o velho casarão que agora jazia sem vida ou diversão.
Ao amanhecer era somente um filhotinho de gato cinza de olhos muito azuis miando pela casa, e ouvindo uma velha youkai chamando-a para lhe dar um pouco de leite. Haya-obaa-chan era a única que restou depois daquele tempo, a última youkai... E ela tinha sido reduzida a uma inofensiva filhotinho de gato por causa de um selamento feito por um monge, há quatrocentos anos, no início da era de desenvolvimento do Japão, e desde então, a noite em que deveria estar mais fragilizada, era a noite em que podia se exibir como última youkai do seu clã pela cidade. Um clã que não tinha mais a mesma influência que há seiscentos anos atrás quando ainda podia andar livremente e ver com tristeza que poucos dos clãs mais poderosos dali estavam sendo exterminados, e vendo a última grande guerra entre o seu clã e um forte antagonista. Bom, olhando pela atual ótica de gatinha persa enrodilhada em uma almofada, era natural que cães e gatos se dessem mal, mas era bem irônico que na atualidade não tivesse mais notícias do clã dos Inukkoros(1).
Mais um dia e mais outro se passavam e as coisas não mudariam nesse mundo moderno, afinal, ninguém mais entendia nada sobre youkais, e os sacerdotes de todos os templos tinham conseguido desvirtuar tanto seus conhecimentos que raramente tinham selos que realmente eram eficazes nos seus propósitos como os originais, além de que até aquele momento, nenhum monge nunca percebeu que ela não era só um filhote de gato perdido querendo leite. Realmente, era o fim da picada.
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Estava vadiando como um gato normal pelas ruas por mais um dia. Sentiu uma estranha vibração no ar, mas logo percebeu que era somente mais um grupo de estudantes passando pela rua movimentada no horário de saída da escola. Via as pessoas falando e não conseguia entender porque elas pareciam tão vazias. Era como se de uns tempos adiante, as pessoas tivessem cada vez menos significado para suas vidas, como se simplesmente seguissem o padrão da sociedade. E talvez fosse por querer algo diferente desse padrão entediante que ela passava a sua noite de liberdade em um lugar divertido, com pessoas que tinham uma visão diferenciada das suas vidas.
Um menino que parecia ser do primário parou para alisá-la. Era normal que se sentisse feliz quando uma criança bondosa a tratava como um lindo gatinho, afinal, vendo-se em um espelho, ela era fofa mesmo. Ronronava feliz com isso quando viu que uma menina mais velha se aproximava. Ela tinha alguns traços em comum com o menino, provavelmente era sua irmã.
- Souta! Vamos logo... Reclamava ela.
- Onee-chan, veja... Que gatinho lindo...
- É lindo mesmo, mas... — dizia Kagome parando e alisando o bichinho que ronronava e esticava a patinha prendendo delicadamente as unhazinhas na manga do uniforme dela — Nós já temos um gato em casa.
Realmente, Kagome era irmã de Souta. Tinha boa memória para nomes, bastava ouvi-los uma vez. Sentiu uma presença forte na menina, e ficou curiosa. O cheiro do seu uniforme parecia misturado com várias coisas. Mas uma delas não fazia sentido. Ela disse que eles tinham um gato em casa, mas ela sentia o cheiro de um cão na roupa da menina.
- Não podemos levar ele pra casa? Perguntou o menino. Realmente, ela ficou receosa de ser levada para seja onde fosse na forma de filhote de gato, onde provavelmente tinha um cachorro. Seria estraçalhada.
- Mas nós já...
- Mas é só um filhotinho, pobrezinho, está aqui sozinho.
- Mas e se ele tem um dono?
- Largado assim na rua... Onee-chan, que tipo de dono deixaria um bichinho tão lindo na rua assim?
Ela parecia relutante, mas depois de mais alguns argumentos e os olhos chorões de Souta, o gatinho estava seguro dentro da grade da cestinha da bicicleta de Kagome, miando como se estivesse sendo levada para o inferno. Estava com medo, não tinha como se proteger se eles realmente tivessem um cachorro em casa.
Ao ver a entrada de um templo, pensou aquela cabecinha de gatinho assustado que provavelmente teria mais um sacerdote ou velho metido a sábio que não perceberia que ela não era um gatinho. Realmente, o velho avô deles não percebeu nada, e a mãe deles era gentil e fofa até, mas depois de ter ganho leite e compartilhado de uma porção de ração assim como o outro gatinho tinha ganho também a sua janta, a noite ia caindo e ela ficou com Kagome, que a levou para o seu quarto.
Ali ela podia sentir uma energia muito forte, mas não compreendia o que era aquilo. Era uma sensação que não conhecia. Mas viu então que Kagome a observava de uma forma estranha, segurando-a no colo, escorada à cabeceira da cama. Ela andou um pouco sobre as cobertas, e não sentia o cheiro de cachorro ali, e não tinha nenhum cão no templo, então o que foi aquela impressão que ela teve antes? Talvez tivesse se enganado somente.
- Gatinho estranho... Kagome disse observando-a. Ela parou e olhou para a menina como se tentasse adivinhar o que ela dizia, e Kagome surpreendeu-se com o modo indagador com que o gatinho a olhava.
- RR.. Miau... Deu uma ronronada e miou se aproximando da menina e sentando-se, ainda olhando-a.
- Poderia jurar que há alguma energia youkai nesse gatinho estranho... — resmungou Kagome alisando o gato — Bobagem, é só a minha imaginação, nessa Era eles não existem mais... Disse ela batendo levemente no rosto e ajeitando os cobertores para dormir.
Kagome estava certa, pensava a gatinha, realmente nessa era os youkais poderiam realmente ser considerados como algo que não existia. O mundo foi tomado pelos humanos e pela tecnologia humana de tal forma que eles não tinham mais um espaço. E ela era uma das poucas sobreviventes que poderia ser considerada de fato, os youkais mais fracos e pequeninos ainda existiam em alguns lugares afastados, mas qualquer interferência que eles pudessem fazer era algo que no fim acabavam não fazendo, já que perder seu sossego era pior que fazer os youkais serem valorizados ou temidos de novo.
Os dias passavam, mas aquela gatinha não saiu dali, tinha curiosidade pelo que Kagome chamara em dado momento de Sengoku Jidai. Era um tempo anterior ao dela, o tempo de sua avó e seus pais, um tempo em que os youkais eram temidos, respeitados, poderosos, um tempo de aventuras, de acordo com o que Haya-obaa-san falava antigamente. Agora ela nem se dava mais ao trabalho de falar, era inútil falar para um gato que não poderia lhe responder.
No sábado via uma movimentação estranha no templo, Kagome arrumava uma grande mochila dizendo que iria para Sengoku Jidai. Isso não era possível, ou era? Aquela era uma menina normal, apesar de ser estranha, e não existia tecnologia humana que manipulasse a dimensão do tempo. Isso era algo inevitável.
Mesmo assim, a sua curiosidade era maior, e se espremeu entre coisas e mais coisas naquela grande mochila amarela, queria ver se existia mesmo, a Sengoku Jidai, ou o que ela assim chamava, não poderia ser exatamente o que ela pensava. Provavelmente era o nome de um acampamento de férias ou fim de semana, considerando o tipo de coisas que Kagome levava naquela mochila.
Achou um lugar mais confortável entre roupas dobradas e toalhas de banho enroladas, onde podia evitar de ser espremida por coisas duras na mochila, e sentia o conteúdo sacudir enquanto ela andava e levava a mudança. Sentiu o cheiro da terra do poço que havia protegido no templo. Lendário poço que segundo o avô dela era um lugar onde depositavam ossos de youkais. Um arrepio lhe vinha ao pensar em irmãos youkais de todos os tipos mortos e sepultados sem nenhum pudor nessa cova coletiva.
Sentiu-se estranha, era como se estivesse flutuando, mas logo se sentia no mesmo lugar de novo. Até que a mochila sacudiu novamente. Kagome saía do poço e ela ouvia vozes, várias vozes. A sensação era de que o ambiente era diferente. Começou a se mexer e miar.
- Que barulho é esse, Kagome? Perguntou Inuyasha.
- Onde? Respondeu ela confusa e parando para escutar.
- Na sua mochila... Disse Shippou mexendo nela e a abrindo. De repente um filhotinho de gato peludo e cinzento pulou para fora.
Eles olharam curiosos, mas o gatinho parecia mais curioso ainda ao ver quatro pessoas olhando-o e uma criança que tinha um rabo. Um rabo e cheiro de raposa, energia de um filhote de youkai. Por um momento ela se sentia como se tivesse encontrado um pouco de si. Fazia muito tempo que não sentia novamente uma presença youkai perto dela. Miou.
- Olha só, que fofurinha a Kagome trouxe... Começou Sango aproximando-se e alisando o gatinho.
- Como é que ele chegou aqui? Perguntou Kagome olhando um tanto surpresa.
- O que? Não iria trazer esse gatinho pra cá? Perguntou Miroku olhando, não o gatinho, as curvas de Sango que se abaixara pegando o gatinho no colo.
- Não... Eu... Souta achou ele abandonado no caminho da escola e eu o levei pra casa essa semana. Explicara Kagome.
- Que seja... Disse Inuyasha pegando o gatinho pelo cangote e olhando para os olhos dele de perto. O gato respirou assustado e arranhou sua mão pulando no ar e se escondendo atrás de Shippou ainda ressonando de medo.
- Ai...
- Inuyasha! Você assustou ele... Reclamou Kagome. Ela ouviu o nome do inukkoro, lembrava de ter ouvido esse nome em uma história velha da sua avó. Então era desse cachorro que ela tinha sentido o cheiro antes...
- Que seja, é normal gatos terem medo de cachorros... — Disse Miroku levando um cutucão irritado de Inuyasha. — ou de um descendente de um clã de inu youkais... Disse ele remendando.
- Parece que ele acha que Shippou vai protegê-lo de Inuyasha... Disse Sango rindo.
- Que fofo, ele gostou de você Shippou-chan. Disse Kagome se aproximando do gatinho que ainda olhava com as pupilas largas e brilhantes com muito medo.
No caminho para encontrarem Kaede-obaa-san, o gatinho andava afastado de Inuyasha, perto de Shippou ou mesmo do monge que parecia ser uma pessoa calma pelo modo como falava.
- Estranho... Resmungou Inuyasha que parecia pensativo.
- O que é estranho? Perguntou Kagome.
- Ele... — disse apontando o gatinho que se escondeu atrás do tecido da roupa de Miroku — não parece um gatinho tão inocente assim.
- É só um filhotinho de gato medroso, Inuyasha. Disse Miroku pegando o gatinho e segurando-o o restante do caminho. Ele ronronava feliz por ser alisado e sentir os dedos do que o carregava coçando suas orelhas. Tinha afinal que se comportar como um gato normal, no fim das contas.
Enquanto via aquelas pessoas conversando com uma velha, que pela aparência era uma Miko, olhava para uma pulga gigante youkai, do tamanho da sua patinha, que conversava com os outros no ombro de Inuyasha. Depois de alguns trejeitos de conversa e de ter levado um tapa do cachorro quando sugara seu sangue Myouga-jiji tinha caído ao chão, e como o tal do Inuyasha parecia se comportar de uma forma bem humana até, ela se arriscou, como um gatinho normal, a cutucar Myouga-jiji com a pata e perseguí-lo.
- Socorro... O que é isso... Dizia ele pulando para longe do gatinho e parando sobre a cabeça de Inuyasha, percebendo que o gato não tinha coragem de chegar perto, e apenas sentou-se a uma distância razoável observando-o.
As meninas riam disso e Kagome explicou de novo a história do gatinho ali.
- Ele não tem nome ainda? Perguntou Kaede servindo chá.
- Não, nós não colocamos um nome nele ainda... Disse Kagome.
- Hummm... Disse Inuyasha aproximando a cara do gatinho e olhando-o nos olhos, ele parecia ter se assustado, mas o hanyou não entendeu porque ele não tinha fugido de novo e continuou observando-o.
- O que foi, Inuyasha? Perguntou Sango curiosa com a atitude dele.
- Acho que esse bicho tem cara de ser "ela" disse ele finalmente afastando-se.
- Porque?
- Não sei, seus olhos são redondos... Disse ele sem dar muita atenção pegando alguns dos biscoitos da mãe de Kagome, antes que Kaede decidisse guardá-los por serem uma iguaria da outra Era que deveriam ser saboreados aos poucos.
- Miau... De repente o gatinho parecia concordar com isso ronronando e chegando mais perto, sentando-se ao lado de Inuyasha.
- Acho que aceitamos essa reação como um "sim"? Disse Miroku curioso com a atitude do gato, era como se ele entendesse o que diziam.
- Curioso, parece que ela entende o que dizemos... Comentou Kaede observando o filhotinho ao lado de Inuyasha.
- Vamos ver... — começou Shippou chegando mais perto do gatinho — Se você entende o que dizemos vá até Miroku-san. Disse ele apontando para Kaede.
- Que lógica é essa, Shippou-chan? Começou Kagome.
- Não acha realmente que um gato entende o que dizemos, não é? Perguntou Sango.
Notas finais
(1) Termo pejorativo para "cara de cachorro" ou similar. Não tenho certeza da grafia com duplo K.
(2) Gatos Demônios.
(3) Raposa.
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