O Selo Do Medo
13 Lifelink
- Destino. Disse ela pensando que provavelmente era isso que ele queria dizer, tantos anos depois. Era um pedido de desculpas, colocar ele mesmo no seu destino tanto tempo antes, para que descobrisse que ele não merecia o ódio que ela nutriria por ele, nessa tentativa de fazê-la controlar o impeto orgulhoso que a distanciava tanto do ideal do seu clã. Embora isso fosse bem mais complexo que somente esse pensamento, foi isso que a fez decidir-se, o que atormentaria menos a sua consciência depois.
Sesshoumaru parou a mão no ar por um segundo. O que Leona tinha respondido mesmo? Exatamente o que ele pensava que nunca aconteceria? Era isso mesmo? Deu um sorriso para si mesmo pensando no quão ingênuo poderia ser, esperando que as coisas tivessem uma lógica racional, quando nesse caso, era tudo, menos racional esse tipo de resposta. Desenhou o kanji no ar, e aquela luz no ar somente ofuscada pela lua cheia, foi rapidamente entranhada no interior dela, transpassando-a e fazendo com que perdesse a consciência.
Segurou-a, mas viu que ela abriu os olhos logo em seguida.
- O que pensa que está fazendo tão perto de mim? Perguntou ela com uma expressão assassina. Ela tinha voltado, completamente, era o que o seu sorriso dizia, apesar de ela estar sentindo as costas arderem no desenho, ele estava sendo consumido pelo sol e desaparecendo, restava ali perto da sua nuca somente o kanji desenhado anteriormente no ar, o único que antes não podia ser lido. Ela não precisava se olhar em um espelho para saber. Tinha compreendido o mecanismo daquele selamento perfeitamente durante todo esse tempo estudando-o.
Ele não disse nada, somente se afastou, vendo que ela estava muito bem e já tinha levado a mão à empunhadura da katana ao seu lado em que ele nem tivesse percebido. A velocidade de reação dela tinha aumentado de um instante para outro.
- Ah, hora de me livrar de você. — disse ela esticando a mão em palma para a frente do rosto dele a poucos centímetros — Cancelar Lifelink!
Ela sentiu que alguma coisa tinha dado errado. Não sentiu a energia do seu youki saindo da palma da sua mão, ainda via a energia azulada em torno da sua mão. O que acontecera? Sabia muito bem o funcionamento desta habilidade, fora o fato de que sabia teoricamente, porque na prática nunca tinha tentado isso antes. Sabia que era simples, sua mãe já tinha usado isso várias vezes para curar sua prima e seu irmão e sempre revertia o vínculo em uns dois dias sem dificuldade.
- Porque diabos... Ela começou a praguejar olhando a energia desaparecer da sua mão.
- Não deu certo. Ele concluiu com uma expressão entediada, isso somente a irritou mais.
- O que você fez comigo? Porque não consigo me livrar da droga da sua alma agora?
- Lá vou eu saber, apenas resolva isso! Reclamou ele demonstrando finalmente a sua irritação com o fato.
- Humf... Vou ver Haya-obaa-chan, não morra na minha ausência. Disse ela embainhando a espada.
- Eu é que deveria estar preocupado com você terminar com a minha vida por capricho... Resmungou ele pensando em quem diabos ela pensava ser para poder emitir ordens.
- Na minha era não há perigo de morte para um daiyoukai como eu, você é que tem que se preocupar... Disse ela juntando sua jaqueta e desaparecendo. Corria para o poço. Tinha que encontrar uma solução para esse problema, não estava a fim de morrer por causa do capricho de um youkai mimado como aquele.
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- Haya-obaa-chan... Chamava ela sentindo os raios de sol no seu rosto depois de tanto tempo, passando pelas cortinas da cozinha da velha youkai.
- Leona-chan... Você voltou... A velha parecia feliz abraçando-a e a apertando. Ela estava feliz de poder estar caminhando novamente pelas suas pernas, apesar do custo de ter que engolir o seu orgulho pela última vez e fazer uma escolha desagradável.
- Obaa-chan... — Começou ela depois que recebeu o seu chá e mastigava um cookie feliz de poder ver o dia claro e belo pela janela. — Eu preciso de algumas informações. Disse ela mais séria.
- O que houve, Leona?
- Qual é o dispositivo para desativar o Lifelink? Perguntou ela diretamente, sabia que a velha não gostaria de pensar nesse assunto, e que provavelmente ainda estava brava por ela ter usado isso como mecanismo de chantagem.
- Você sabe muito bem qual é o mecanismo... Está querendo dizer que não desfez o vínculo com aquele youkai maligno? Perguntou a velha assustada.
- Eu tentei, obaa-chan, juro que eu tentei, mas... Alguma coisa não deu certo.
Depois que ela explicou como finalmente estava livre, e a resolução de tudo, até o momento em que ela estava ali, depois de ter falhado ao cancelar a habilidade, a velha deu um suspiro infeliz.
- Leona, deixe-me ver o resquício do selo que ficou com você.
Ela segurou os cabelos com uma das mãos e afastou a gola da jaqueta com a outra, deixando o kanji aparecer.
- Destino. Bom, isso parece a armadilha perfeita pra você, desalmada. Disse a velha cruzando os braços.
- Obaa-chan, eu não sou tão má assim... Reclamou ela.
- Claro que não... Usando algo que deveria servir para proteger e salvar o seu clã em youkais de qualquer linhagenzinha por aí, óbvio que daria nisso. Não deveria ter feito o Lifelink! Não pensou que nunca viu ninguém do clã fazer isso com youkais de outros clãs antes?
- Obaa-chan, eu não tinha muita escolha, eu não poderia simplesmente encarcerar aquele infeliz até que ele resolvesse o selo, eu não tinha força pra isso antes em todo o tempo... E matá-lo simplesmente seria ter perdido a última chance de me libertar porque mesmo que eu descobrisse a resposta, sem ele não teria como desfazer o selamento.
- Desculpas, somente desculpas. Agora aguente, não sei como resolver isso.
- Obaa-chan — resmungava ela um tanto enfurecida com a situação — com que cara espera que eu vá ao Sengoku Jidai explicar isso pr'aquele youkai temperamental?
- Com a mesma cara de sempre. Afinal você tem o maior talento da sua mãe para manter a postura e a elegância encantadora do clã mesmo quando tinha as piores intenções no passado.
- Aquilo é aquilo, isso é isso. Eu não vou me alimentar de uma alma humana encantada por mim, eu vou levar uma notícia dessas pra um cara que vai ficar querendo me matar sabendo que não pode e vai passar o resto da vida pensando que foi um acordo desleal o que eu fiz se eu não cumpri a minha parte.
- E não foi acordo traiçoeiro mesmo? Você não tinha pensado nessa parte antes, só tinha pensado no seu interesse pessoal quando o chantageou... Resmungou a velha achando que era bem feito pros dois, afinal pelo que a neta lhe dizia, parecia que os dois eram tão teimosos quanto pra terem chegado nesse ponto.
- Obaa-chan, porque você está defendendo aquela cria de inu youkai? Perguntou ela muito irritada.
- Não estou defendendo ele, estou te deselogiando... Disse a velha sorvendo mais chá como se não tivesse dito nada ofensivo.
Ela passou algum tempo aproveitando a sua vida ali. Tinha os dias para aproveitar o sol, tinha uma mansão antiga para ver reconstruída, e faria isso por si mesma, queria ver o seu império de volta por si mesma. Via a poeira saindo das esculturas antigas e preciosas da sua família, as pinturas antigas saindo de seus recipientes e repovoando a mansão, passou algum tempo tentando não pensar em nada polindo o chão até que pudesse se ver no reflexo da madeira. Quando terminou de desentortar o portão percebeu que uma coisa não parecia certa ali.
Idaina Raion(4). Aquela não era mais a casa do seu pai, ele não estava mais ali, não era mais o Grande Leão e a sua gatinha não estava mais ali. Os dois tinham se ido dali há muito tempo. mudou aqueles kanjis do pórtico. Mesu Raion(5). Essa era a sua casa.
Via Kagome se aproximando, ela viria novamente visitar Haya-obaa-chan, era uma boa menina.
- Yo, Kagome-chan... Disse ela abanando para ela que saiu correndo e a abraçou.
- Leona. Você conseguiu...
- Sim... Disse ela um pouco insegura, tinha conseguido isso, mas a que preço. Ficar presa a uma alma do Sengoku Jidai, uma que não queria ter perto nem em pensamento.
Elas conversavam entrando na casa e Kagome se sentiu em outro lugar. Como aquele lugar parecia mais radiante com aquela mulher por ali. Leona a levou para os antigos aposentos da sua mãe. Era um lugar lindo. Abriu uma caixa de jóias e várias delas se espalharam pela cama e elas as olhavam.
- Isso tudo era da sua mãe?
- Sim, tudo isso e mais o que tinha sido negociado em um acordo com outras famílias dominantes, mas provavelmente aquelas joias nunca mais voltarão. Disse ela vendo um pingente que parecia combinar com Kagome. Um pingente prateado com um arco e flecha delicados e angelicais.
- Que lindo...
- Combina com você, fique com ele.
- Sério?
- Sim. Provavelmente poderá ser útil um dia.
- útil?
- Sim, foi um presente vindo de casamento para a mamãe, vai te proteger quando precisar dele.
- Presente de casamento? Eu não deveria...
- Kagome... Eu acho que é importante. Fique com ele. Você é a dona dele mesmo...
- O que quer dizer com isso?
- Pensei que soubesse... Quando você vai ao Sengoku Jidai, está alterando a realidade daqui. Em algum momento do passado, você e Inuyasha estiveram no casamento dos meus pais, foi você que deu esse presente para a mamãe.
- Eu... No passado...
- Sim, mas não se preocupe, a realidade humana não parece ser alterada pela sua presença lá. Assim como a realidade youkai não parece ter sido alterada pela minha presença lá. Pelo que percebi, quando voltei da primeira vez, nada tinha mudado nem nas minhas memórias e nem as da Obaa-chan. Já no seu caso, acho que Obaa-chan se lembrou dessa nova memória quando os viu aqui daquela vez, por isso deixou que ficassem.
Leona pegou para si um par de brincos de safiras decorados com o mais fino ouro, e experimentou.
- Ficam ótimos em mim. Chegou ela à conclusão ficando com eles nas orelhas, as gotinhas de safira balançando levemente.
Depois de algum tempo Kagome comentou algo que a incomodava desde que viu Leona ali.
- Não vai mais voltar à Sengoku Jidai agora? Perguntou ela.
- Não, Kagome, não tenho a mínima vontade de voltar para lá. Kagome sentiu que ela dizia exatamente o contrário do que pensava.
- Parece que... Parece que uma parte de você ainda está lá.
- Eu sei, é isso que está me irritando.
- Sabe?
- Claro, afinal... Foi culpa minha não ter conseguido cancelar o vínculo.
- Que vínculo?
- Ah... — suspirou Leona pensando em como essa parte era complicada — Eu usei um vínculo de alma, Lifelink, para chantagear o irmão do seu hanyou de estimação a resolver o problema do selamento dos meus poderes youkai. Só que eu não consegui desfazer isso depois. Não estou interessada em voltar pra lá e ter que dizer que a Obaa-chan disse que não tem nem ideia de como resolver isso e que eu também não... Apesar de eu ter gostado de ter a liberdade de não precisar esconder da humanidade que sou um youkai lá, diferente daqui em que isso só causaria pânico, não vou voltar e comprar mais incomodação com aquele maldito do Sesshoumaru.
- Ah, Leona, não seja teimosa. Pense um pouco, afinal, ele não pode ser tão ruim assim se cumpriu com o que tinha prometido. Você está livre...
- Estou pensando, e não tenho nenhuma conclusão que resolva isso ainda na minha mente.
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