O Retorno de Milena
3 Saudades
Milena quase pode tocar o mar. Está lindo, refletindo a lua naquele exato momento em que voa. Havia muito tempo não vinha à praia de Boa Viagem, bela assim durante a noite. E àquela hora, estava deserta. Poucos carros na rua, um ou outro casal trocando carícias. Estava sozinha.
Caminha na areia em direção ao mar e ergue os braços, respirando aquele aroma salgado.
— Mar Ricardo! Sana thar lit von ahzan! Back von ana!
Aquelas palavras são ditas com ardor. Os olhos de Milena mudam, suas pupilas se dilatam. Sentia o sangue Tremére em seu corpo.
— Gedan dart Ricardo von shar ocará! Paranã-Pukana! Gedan dart Ricardo von shar ocará! Paranã-Pukana!
Uma onda bate aos pés de Milena, mas a água não retorna ao mar. Daquela água, o corpo de Ricardo é formado, nu, de bruços na areia da praia. Milena o toma nos braços e voa.
Ao aterrizar no topo do edifício Pessoa de Melo, Milena relembra o que aconteceu no passado, a morte de Lady Anthonya pelas mãos de Lázarus, a morte de seu amado Ricardo. Novamente estava ali, com o corpo de Ricardo nos braços, e o repousa no chão.
— Desculpe incomodar seu sono, meu amor, mas preciso de sua ajuda.
Milena beija seu rosto e fica de pé. Se aproxima do parapeito do prédio e observa toda a Conde da Boa Vista. Seus olhos captando cada movimento, cada ser humano caminhando por ali. Em cada corpo humano, pode sentir o cheiro do seu sangue correndo nas veias, o cheiro do medo, da felicidade, da distração, do amor, do ódio... Podia ver cada corpo, cada pessoa, ver seus lábios se mexerem em conversas e segredos... Mas não era nisso que estava prestando atenção. Media cada transeunte, cada corpo, fazia uma minuciosa inspeção, até encontrar o tamanho adequado. Observa o Shopping. Voa rapidamente, quão rápido pudesse sem ser vista. Caminhando pela rua ao lado, entra no Shopping, vai direto a uma ala menos movimentada e entra numa loja de roupas masculinas. Tudo isso é feito muito rápido. Mede cada roupa e encontra a adequada. Olhando nos olhos da atendente do caixa, capta imediatamente a atenção dela. Seus olhos ficam verdes brilhantes.
"Eu já paguei por esta roupa."
"Sim, você já pagou." A atendente fala mecanicamente, num transe.
"Obrigada".
Milena se retira, estalando um dos dedos. A moça acorda.
Volta para o prédio, onde Ricardo está deitado. Milena veste-o e repete o ritual do abraço, para acordá-lo. Suas convulsões são fortes e seu corpo se debate, Milena apenas observa. Em seguida, vagarosamente os olhos acastanhados se abrem.
— Saudades, Ricardo. Muitas saudades!
As primeiras palavras são balbuciadas quase inaudíveis.
— Ana ahia! Ana ahia!
— O que viu, meu amor?
— Ana ahia Saraha. Von ana ahia! — Eu vi o Paraíso. Com meus próprios olhos! -
— Eu sei.
O beijo entre eles era algo antes impensável. Como havia aprendido com Lady Anthonya, entre vampiros não há relações de amor, apenas laços de sangue. Mas Milena e Ricardo sentiam algo dentro deles que não podiam sufocar. Algo muito maior do que toda essa loucura que passavam, do que todo o ódio que sentiam, do que a Jyhad e qualquer coisa que lhe dissessem. Algo que fazia seus corações renascerem, como se voltassem a viver. Se nenhum vampiro sentia isso, pois então eles seriam os primeiros.
Os dois estavam juntos, matando saudades que os marcaram durante esse tempo, mas, em breve, os primeiros raios da aurora os atingiriam. Não podiam ficar ali. E Milena sabia disso.
— Nar behav khufu embareh kwes saori. — Precisamos voar antes que o sol nasça! -
Os dois levantam vôo. Em seguida, Lázarus chega e caminha solenemente sobre o local onde os dois vampiros tinham estado à pouco. Como Milena tivera coragem de ressuscitar aquele vampirozinho idiota? Lázarus mau podia pensar. Seus planos poderiam ir por água abaixo. Se já seria difícil convencer Milena a casar-se com ele, quanto mais acompanhada de Ricardo? Precisava de um plano, um plano bastante eficaz. Precisava de ajuda. Uma ajuda muito precisa. Precisava também de alguém, alguém muito influente. Ah, teria de pensar, pensar muito, para que nada desse errado, absolutamente nada. Em tudo isso pensa Lázarus, olhando o lugar onde muitas coisas aconteceram, onde aquela Tremére o humilhou. Mas não ficaria impune. Agora, já não era mais um simples Malkaviano. Tinha muito mais poder do que antes.
— Ahz, Milena. Avon. — Mau, Milena. Um erro. -
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