A mansão continua de pé, apesar de muito antiga. É quase a mesma, a tinta que a reveste mudou, foi revitalizada. Ao muro, uma placa com a inscrição “Propriedade do Estado – Patrimônio Público” fora colocada. Milena sorri, ao contemplá-la.

— Vejo que cuidaram bem de minha casa.

Milena e Ricardo voam por cima do portão e entram na casa. Na sala, os móveis muito bem cuidados. Algumas partes reservadas para visitação pública. A porta embaixo da escada, selada. Os carpetes foram mudados, as obras de arte guardadas na casa foram revitalizadas, as demais foram levadas, provavelmente para um museu. As lembranças de Lady Anthonya estavam vívidas naquele lugar. Milena praticamente podia vê-la caminhar, elegante, pela sala, pelos corredores, subir as escadas num vôo, cheia de classe. Às vezes com ar de ranzinza, mas Milena sabia que ela era doce. Apenas havia sofrido demais após seu abraço, com o abandono de sua senhora, a Baronesa de Chatêau DuMont, a morte de seu esposo, o lord LeBeau, a separação de sua família e posterior morte de seu filho Laurence, a traição de sua primeira aprendiz. Entendia todas as razões de sua amargura. Podia compreendê-la perfeitamente. E podia ver em seus olhos cor de âmbar um grande amor, guardado em seu peito, que queria demonstrar, mas não conseguia. Podia ver tudo isso ali, olhando para a antiga sala, seu antigo lar. Mas todas aquelas lembranças a machucavam muito. Lady Anthonya não estava mais com ela. Nunca mais a veria, por culpa de Lázarus. Mas ele teria de pagar, ah, se teria!

Ricardo escorrega e se deixa cair em cima do sofá.

— Estou muito fraco!

— Você precisa de sangue.

— Por favor, não quero matar ninguém!

— Não vamos fazer isso. Espere aqui, eu volto num instante.

Milena se retira. Ricardo se levanta e olha em volta. Então era ali que Milena morava com sua senhora, a temida Lady Anthonya, sua ancestral. Caminha em direção à biblioteca e abre a porta. Dentro, uma escrivaninha antiga, mas bem cuidada. Uma poltrona, e muitas estantes. Todas vazias. Ricardo volta para a sala e sobe as escadas.

O antigo quarto de Milena está totalmente às escuras. Os olhos dourados de Ricardo, brilhantes no escuro, enxergam cada detalhe do aposento, como olhos de lince. Nas paredes, alguns castiçais sem velas, as cortinas das janelas abaixadas. A cama, coberta por mantas pretas.

Ricardo desce as escadas no momento em que Milena entra.

— Milena, fui à biblioteca, mas não encontrei livros lá.

— Eu sei. Quando pressenti minha morte, deixei instruções para meu servo. Pedi que ele os guardasse no porão e selasse a porta com um feitiço sem sangue.

— E onde ele está?

— Não sei... mas... o cheiro dele aqui não é muito antigo... ele esteve aqui, ainda ontem...

Ricardo nota que Milena está segurando algumas bolsas de sangue.

— Onde esteve?

— Fui a um banco de sangue.

— Você mesmo me disse que não podemos beber sangue morto!

— Não se preocupe. Acabei de fazer uma simples retirada de sangue. Fui ao Hemope, deixei a recepcionista desacordada e peguei um pouco de sangue dela. Bem, como vê, não somente dela. As vítimas vão viver. Quando acordarem, não vão se lembrar de nada. Tome.

Ricardo se transforma, seus olhos dourados ficam mais brilhantes, seus caninos crescem e ele ruge. Pega uma das bolsas e a rasga com os dentes.

— Beba o máximo que puder. Precisamos ficar bastante fortes para lutar. Precisamos também nos abster disso.

Ricardo joga a bolsa vazia de lado e pega outra. Milena olha ao seu redor.

— De volta pra casa.

Ricardo joga a outra bolsa vazia e, quando vai pegar a terceira, olha para Milena.

— Milena.

— Sim?

— Por que foi tão fácil voltar? Por que foi tão fácil nos reconstituir, voltar a viver? Não tínhamos morrido para sempre?

— Eu não sei, Ricardo. Eu não sei. Mas vou descobrir.

Ao se olharem, os olhos de Milena e Ricardo brilham.