Notas iniciais
Outro capítulo, espero que gostem!!!

Capítulo anterior: Estevão, admirado com tamanha beleza e Maria, curiosa, pois tinha a estranha impressão de já ter encontrado aqueles olhos verdes há muito tempo atrás...

Ficariam ali a noite toda, não fosse Geraldo, que chamava Maria de volta à realidade:

– O que disse Geraldo? — perguntou-lhe, tentando disfarçar o rubor de seu rosto.

– Estava tão pensativa... — levantou o rosto de Maria, segurando delicadamente seu rosto entre os dedos — algum problema?

– Não, não,. Apenas senti uma leve tontura — e, de verdade, estava tonta, mas o real motivo para seu mal-estar, ocultara para si.

– Gostaria de se sentar?

Geraldo a guiou para uma mesa vazia, dedicada a familia dele que, morando em outra cidade, ainda não havia chegado de viagem.

Daniela, sua secretária, aproximava-se do casal, com o celular de Geraldo à mão.

– Senhor, perdão que lhe interrompa, mas nosso representante de vendas no Brasil está ao telefone e deseja falar-lhe agora mesmo.

– Se importa se eu for atender? — dirigindo-se a Maria.

– Não, claro que não! Pode ir.

– Já volto — pegando o celular das mãos de Daniela — Pode falar Bruno... — e se distanciou.

Daniela o seguia com o olhar. Amava aquele homem! O que Maria tinha que ela não possuía?

Não odiava a mulher de seu chefe, mas nutria uma profunda mágoa porque Geraldo nunca havia prestado atenção na sua dedicação por ele, além do profissional, e após anos ao seu lado, foi a primeira a saber de seu amor por Maria, que no pouco tempo em que conhecia a Geraldo, já havia se fincado no coração do mesmo. Agora, estavam noivos. Será que havia algum modo de separa-los? Pensou, enquanto encaminhava-se à mesa de uma conhecida.

Enquanto isso, Maria procurava o desconhecido, voltando o olhar para o lugar que ele ocupara, mas este estava vazio. Onde será que tinha ido?

– Me procurando? — Estevão estava atrás de sua cadeira.

Tinha uma voz grossa, firme e naturalmente, sedutora. Era...conhecida? Não, que bobagem. A única pessoa que conhecia e tinha uma voz semelhante à de Estevão, havia falecido há vinte anos atrás!

– Não conheço o senhor — respondeu, indiferente, mas seu coração estava acelerado. Só agora percebia os olhares atrevidos desse homem para si. E o pior: ela também retribuíra o olhar.

– Claro, que indelicado de minha parte. Permita-me que eu me apresente — posicionou-se ao lado da figura feminina — Sou Estevão San Roman.

Maria ofereceu-lhe a mão para um aperto, no entanto, Estevão atreveu-se a beija-la, e Maria retirou a mão da sua, nervosa.

Estevão admirou-se pela suavidade daquela mão pequena. Ambos sentiram algo diferente.

– Como se chama, senhorita? — Diz, tomando um assento na mesa.

– Pensei que estava prestando atenção no discurso de seu amigo. Fala muito bem de você — referia-se à Geraldo e a apresentação que ele fizera.

– Prestava atenção no objeto de assunto. Creio que você também não estava tão atenta assim, já que não tirava os olhos de mim...

Seguiu-se um enorme silêncio na mesa, que após alguns segundos de constrangimento, resolve 'quebrar o gelo' que havia na mesa.

– Trabalha?

– Claro que sim.

– Em que ramo?

– Sou da polícia. Dirigo uma delegacia e sou detetive nas horas vagas.

– Sério? Não parece ser uma pessoa que empunha uma arma de fogo...

– As aparências enganam, meu caro. Tem razão, ainda não matei ninguém. Ainda...

– Ainda? Está caçando alguém, imagino.

– Passei minha vida inteira atrás desse desgraçado. Abdiquei meus sonhos para me tornar o que sou hoje, tudo isso para fazer justiça.

– Ele é um serial killer?

– Não sei. No passado, ele assassinou minha irmã e meu cunhado. Estudei anos fora do país e agora regressei, para começar as investigações.

– Sabe se ele ainda está vivo? Talvez tenha sido...

– Mulher tem um sexto sentido que não falha — cortou-o friamente — sei que está vivo, e quando eu conseguir tê-lo em minhas mãos... aí sim, usarei uma arma.

– Está dizendo que se dedicou a vida toda a tirar a vida de uma pessoa? Esta sendo pior que o assassino.

– Pior? — exaltou-se Maria, e ela teve que baixar o tom de voz, para não atrair a atenção de outros presentes — minha irmã era tudo o que eu tinha. A amava mais que tudo e ainda, na flor da idade, foi arrancada bruscamente da minha vida. Bem se nota que nunca sentiu a dor da perda, meu senhor.

– Eu perdi minha mãe muito cedo, e poucos anos depois, meu pai também faleceu.

– Pelo menos teve a oportunidade de conhecê-los. Patrícia e eu fomos abandonadas à própria sorte por um tio nosso que só bebia e nos batia. Uma senhora viúva se apiedou de nós e nos ofereceu um lar. Dez anos depois veio a falecer e nos deixou a casa. Não fosse minha irmã começar a trabalhar aos quatorze anos para nos sustentar, teríamos morrido de fome!

As lágrimas começaram a invadir o rosto da bela mulher. Estevão sentiu-se culpado pela lembrança dolorosa de Maria e ofereceu-lhe um lenço.

– Perdão... — ainda não sabia o nome dela.

– Maria. Maria Fernandez.

– Não foi minha intenção fazer você chorar...

– Sei que não. Mas por favor, não tente imaginar a dor e muito menos compreender meus sentimentos. As razões que me motivam a vingar-me são justas.

– Tudo bem. Desculpa, outra vez.

– Não sei porque lhe disse tudo isso. Nem mesmo para Geraldo eu havia dito...

– Não há com o que se preocupar. Não falarei nada a Geraldo e a ninguém. Prometo.

– Obrigado — sussurra Maria, enxugando a última lágrima e dando um sorriso triste à Estevão.

Como queria abraça-la naquele momento!

Maria estendeu-lhe o lenço.

– Guarde-o. Talvez precise dele em outra ocasião.

A conversa foi interrompida pela chegada de Geraldo, que havia demorado pois foi receber a seus pais na recepção do hotel.

Geraldo apresentou sua família a Maria, e seguiu-se as perguntas. Nem mesmo para seus familiares, ele havia comentado mais detalhadamente sobre Maria.

Sentaram-se a mesa. Estevão fez menção de retirar-se, mas Geraldo o conteve. Era como um irmão para ele, e fazia questão que Estevão estivesse ali, compartilhando sua alegria.

Brindaram ao casal, que logo após se beijaram.

Estevão não sabia o porquê, mas aquilo o deixou incomodado.

A festa passava e Estevão perdia-se em pensamentos, observando Maria e Geraldo dançarem no salão. Por mais que tentasse, era impossível não olhar para o casal que se movimentava ao ritmo lento da canção que tocava.

Maria atraía sua atenção. Seus movimentos, por mais simples que fossem, eram detalhadamente seguidos por dois olhos verdes ansiosos. As mãos de Geraldo subia e descia pelas costas de Maria, sobre o tecido de seda, acariciavam aquela pele macia... Estevão sentiu inveja do amigo.

Já era madrugada quando os últimos convidados se despediram. Os únicos que se encontravam no local, além dos garçons e da equipe de limpeza, eram Geraldo, Evandro e Carmen, seus pais, Leonel e Lupita, seu irmão e cunhada e Maria. A família de Geraldo retornaria a Hidalgo no domingo, mas ficariam hospedados na casa do próprio, que insistiu para a estadia de seus parentes em sua casa.

– Geraldo, amanhã tenho que estar cedo na delegacia. É melhor eu ir embora — disse-lhe Maria.

– Eu te levo, não se preocupe.

– E seus pais?

– Bom... — Geraldo havia mandado seu motorista para pegá-los no seu carro, não havia pensado nisso.

– Leve-os. Eu tomo um táxi.

– Nada disso. A essa hora pode ser perigoso.

– Se quiser... eu a levo — Sugere Estevão, saindo do salão de festas.

– O que fazia no salão, homem? A festa acabou há um tempo, e pensei que já tivesse ido embora.

– Estava admirando a vista da baía. Tirava algumas fotos do local — mostrou a câmera fotográfica na mão, que havia ido buscar em seu carro, quando Geraldo chamou Maria para dançar.

– Estevão e seus hobbies — murmurou Geraldo, sorrindo — Se puder levá-la, agradecerei eternamente.

– Não é necessário que se incomode, Sr. Estevão — intromete-se Maria.

– Esqueça as formalidades. E não, não será nenhum incômodo.

Seguiram-se as despedidas.

Geraldo dava o último beijo em Maria, e Estevão teve que virar o rosto, não por nojo, mas por... ciúmes?

Enquanto ligava o carro, sorriu, desdenhoso.

"Como terei ciúmes da mulher de meu único amigo?"

Não eram ciúmes, era talvez, insegurança, pois tinha medo de que seu amigo mudasse com ele por conta da noiva, que era linda, que possuía um sorriso intimidador, que tinha um corpo... Não! Repreendeu-se mentalmente pelos pensamentos que agora tomavam outro rumo.

Ouviu a porta do carro abrir e Maria ocupava o lugar do carona, ao seu lado.

Estevão dá partida no carro. Busca um cigarro no porta-luvas do automóvel e o acende, enquanto param num sinal fechado.

– Não oferece? — pergunta Maria, arqueando uma sobrancelha.

– Não sabia que fumava — e buscou por outro cigarro no compartimento do veículo.

– Posso ver suas fotos? — interroga Maria, apontando para a câmera descansando próximo ao volante.

– Não! — responde Estevão automaticamente, pegando o objeto e o jogando no banco traseiro do carro — é que precisa fazer alguns ajustes no menu para acessar as fotos. Demora um pouco — justifica-se.

Silêncio total, a não ser pela voz de Maria, que de vez em quando, dava instruções a Estevão para chegar em seu apartamento.

– Cá estamos — diz Estevão, quando chegaram ao local.

– Obrigado pela carona. Boa noite.

Estevão puxou Maria suavemente pelo braço, para dar-lhe um beijo na bochecha. Mas Maria, virando o rosto, surpreendida pelo toque, colou seus lábios aos dele.

Foi um selinho rápido, e nenhum dos dois sabiam como fazer para desfazer o constrangimento. Optaram pelo silêncio.

Maria saiu do carro a passos largos, querendo chegar o quanto antes em casa. Estevão dava a ré e sumia de vista, cantando os pneus no asfalto. Maria virou para vê-lo se distanciando e sumindo ao dar entrada em uma rua...

>— Enquanto isso num dos quartos de hóspedes da casa de Geraldo...

Carmen e Evandro discutiam suas impressões sobre a festa:

– Meu velho, Geraldo havia dito que Maria era bonita, mas eu não imaginava que era tanto!

– E simpática, também. Mas não é para menos, herdou o bom gosto do pai.

– Sei, sei... mas você percebeu como estava Estevãozinho?

– E eu sou lá homem de ficar prestando atenção em macho?

– Não falei nesse sentido, tonto — terminando de escovar os cabelos e sentando-se ao lado do marido na cama — ele estava distante, e do jeito que é louco por um rabo-de-saia, me estranhou não ter convidado nenhuma mulher para dançar e ter recusado o convite de algumas.

– Não notei nada, mulher. Vamos dormir, que tenho sono.

Evandro ajeitou as almofadas e se deitou. Carmen, no entanto, continuava a desfiar seu rosário de observações.

– Sabe o que mais me intrigou? Ele não tirava os olhos de Maria. Parecia que a devorava com os olhos!

– Deve ser a idade afetando seus miolos — resmungou Evandro — Estevão é muito amigo de Geraldo para acabar se interessando justamente pela mulher do próprio. Além disso, não era apenas ele que a via. Percebi pelo canto do olho que havia uma cambada de marmanjos babando.

– Pode ser apenas que ele a achou muito atraente. Mas eu vi algo em seu olhar. Teve um momento em que Geraldo beijou Maria e ele desviu o rosto. Achei estranho.

– Estranha é você que faz observações absurdas sobre os demais. Vai dormir, velha!

– Só falo o que eu vi. Ah, por falar em 'demais', você viu como a filha dos Lombardo estava grande? Como era mesmo o nome dela? — Virou-se para o marido e este começou a roncar.

Será que eram os fortes medicamentos que havia ingerido antes de dormir, e estes o deixavam sonolento, ou a falta de interesse na sua conversa?

Melhor mesmo seria dormir, pois era incômodo falar sozinha. Deitou-se, apagou a luz do abajur e tentou lembrar o nome da fulana. Quando o dia amanhecesse, continuaria a discutir com o marido...

Entrando no apartamento, Maria avançou para o quarto. Sentia fortes dores de cabeça. Não deveria ter ingerido grande quantidade de álcool.

Procurou em uma gaveta do criado-mudo ao lado da cama, comprimidos para a enxaqueca. Tentou dormir, rolava na cama, mas apesar do cansaço e da dor, o sono não chegava.

Não era o incômodo na cabeça a culpada por sua insônia, era a lembrança insuportável de seu beijo com Estevão...

Continua...

Notas finais
Comentem sobre o que acharam... Até o próximo capítulo! Awiwiss!!!