O Retorno De Um Estranho
3 Há Males Que Vem Para O Bem
Notas iniciais
Capítulo anterior: Não era o incomodo na cabeça a culpada por sua insônia, ela a lembrança insuportável de seu beijo com Estevão...
Estevão tomava o café da manhã em sua mansão.
As empresas San Român era um projeto no papel quando chegou à capital.
Encontrou, em meio as coisas de seu pai enquanto procurava dinheiro, uma carta com o endereço de sua tia Alba, curiosamente, destinada a ele, mas nunca entregue por seu pai.
Ao encontrar o que queria, fugiu e nunca mais voltou a Aruba, onde tudo aconteceu.
Seu pai Severiano, ao saber do furto por parte do filho, teve um ataque cardíaco e faleceu.
Agora, estava órfão de pai e mãe, pois a havia perdido ainda muito pequeno.
Não fosse a confiança da tia em lhe entregar tudo o que tinha para começar o negócio, estaria na sarjeta ou quem sabe, morto.
Mas graças aos seus esforços, construiu um império e os tornou uma das famílias mais ricas e importantes do país.
Sentiu uma mão em seu ombro, e viu que era a tia.
– Bom dia, meu pequeno. — Apesar de ter 49 anos, Estevão adorava esse mimo da tia, sentindo-se amado e protegido.
– Bom dia, tia. — e beija a mão da senhora, carinhosamente.
– Tenho a impressão — diz, tomando assento ao lado de Estevão — que a noite foi ótima pra você.
– Nem tanto, tia. Nem tanto.
– Rebeca! — chama pela empregada, e essa aparece, logo após. — Pode preparar um chá de camomila para mim?
– Pois não, senhora. Com licença.
– Agora pode me falar, como foi a festa e o que fez a noite toda.
Estevão contou minimamente os detalhes da festa e de Maria, mas ocultou seu nome e sua relação com Geraldo.
– Quer dizer que está apaixonado?
– Só me apaixonei uma vez na vida, tia. Não vou me apaixonar de novo.
– Não diga isso, sempre há uma nova oportunidade para o amor.
– Não tia, pelo menos para mim. Depois do que aconteceu naquele dia...
– Shhh — interrompe a senhora. — Já disse para esquecer o que se passou. O passado vive no passado, e por mais que tentamos mudá-lo, ele nunca vai voltar. O que está feito,está feito.
– Quem dera que fosse fácil assim.
Nas suas seções de terapia, Estevão conseguia relaxar um pouco, evitando a todo momento falar demais. Porém, ao fim da seção, o remorso sempre lhe batia a porta.
– Estevão, você de certa forma, já pagou pelo que fez. Está sozinho há mais de vinte anos, andando de uma cama em outra, com qualquer uma. Fechou seu coração para o amor e hoje se diverte com as mulheres, e no outro dia, nem sequer sabe quem são. A solidão é algo que machuca e muito. Você é um homem atraente, forte, mas não é um garoto de 15 anos. Já é hora de formar uma família, ter filhos.
– Minha única família é você e Carlos. Por falar nele, onde será que se meteu?
– Ontem me disse que sairia com uma garota. — Percebendo que Estevão mudava de asssunto, ainda prosseguiu — Mas não tente fugir.
Alba recebe o chá e continua a conversa.
– Bom, conte-me dessa mulher que conheceu ontem.
Ah, Maria. Um sorriso frouxo aflorou-se nos seus lábios. Começou a pensar na bela mulher.
–Ei, Estevão — Alba estrala os dedos.
– Hum...oi tia.
A velha sorri.
– Vejo que alguém começa a balançar seu coração. Porque não tenta algo com ela?
– Como eu havia lhe dito, tia: Ela está comprometida.
– E daí? — Estevão olhou para alba, incrédulo — Invista suas melhores armas para conquistá-la. Se no final ela não se render, é porque ama o noivo, mas se acabar caindo de amores por você... — deu os ombros.
– Creio que não a verei tão cedo, tia. — focando o olhar no resto de café na xícara e brincando com uma mão na borda da mesma.
Nesse instante, seu celular toca.
– Estevão falando.
– Mano, quebra um galho pra mim.
– O que você quer dessa vez? — pergunta Estevão, desconfiado. Carlos só ligava para ele quando estava em maus lençóis. — Não vai me dizer que...
– Tô preso.
– Preso de novo? O que foi dessa vez?
Alba para de tomar seu chá.
– Estava numa festinha na casa de uma amiga minha, aí uns colegas inventaram de fazer uma corrida. Quem ganhasse dormiria com a dona da festa.
– E você fala isso na maior cara de pau?
Carlos não dá a mínima para a revolta de Estevão e continua:
– Estávamos na pista em alta velocidade, aí umas viaturas nos abordaram. Algum vizinho fdp deve ter nos denunciado.
– Não fala nenhuma merda, seu imbecil. Qual o endereço? — Carlos deu as co-ordenadas para chegar ao local — Já, já apareço aí.
E desligou.
– O que aconteceu, Estevão? — pergunta Alba aflita e com a mão no peito. — Carlos de novo?
– Ele mesmo.
– Mas porquê? Oque aconteceu?
– Depois eu falo, tia. Agora trata de se acalmar.
Ligando para o escritório do advogado da família...
Alguém do outro lado da linha atende:
– Escritório de advocacia, bom dia.
– Bom dia, Estrela. Quero falar com Luciano, por favor. Diga-lhe que é Estevão San Roman.
– Pois não senhor San Romãn. Um momento.
Após breves segundos.
– Alô, Estevão? Em que posso ajudá-lo?
– Necessito que me acompanhe à delegacia. Carlos foi preso de novo, e preciso tirá-lo de lá o quanto antes.
– Tudo bem. Que horas?
– Agora mesmo, se não estiver ocupado. Passo em meia hora para te pegar.
– Estarei esperando. Até.
– Eu vou com você — prontificou- se Alba, ao ver que Estevão já havia encerrado a ligação.
– Melhor ficar aqui. Delegacia não é lugar para mulheres como você. Vou sozinho. Qualquer coisa, te chamo ao telefone.
E partiu para a garagem , não antes de expressar ordens à empregada, para tomar conta de sua tia e depositar um beijo na testa da mesma, confortando-a e lhe dizendo repetidas vezes que tudo ficaria bem.
Quase uma hora depois, Estevão e Luciano chegaram à delegacia.
Não demorou muito para que encontrassem Carlos.
Estava sentado em uma cadeira, com um grupo de adolescentes que, como ele, estavam algemados e de cabeça baixa, sendo observados por dois policiais.
– Aí está você, irresponsável! — Vocifera Estevão ao chegar perto do primo.
– Fico feliz em te ver também, Estevão. — Cumprimenta Carlos, ironicamente.
– Como pode ser tão estúpido? Quer matar sua mãe do coração? Já tem dezenove anos e não coloca juízo nessa sua cabeça! Eu deveria...
– Calma, Estevão. Não se altere. — tranquiliza-o o advogado. — Vamos falar com o delegado à frente do caso.
– É melhor mesmo antes que eu cometa um assassinato! — disse frio, se distanciando do primo, mas arrependido pela ameaça.
Levados por um oficial, entraram no gabinete do delegado. Sua cadeira estava de costas, procurava algo em uma das gavetas do armário, atrás de sua mesa.
– Bom dia, senhor delegado. — Chamou-lhe Estevão.
– Pois não, senhor San Romãn — e dizendo isso, a figura a sua frente vira para que possam estar face a face.
De novo, seus olhares se cruzaram. Estevão sentiu uma estranha emoção ao mirar novamente, aquele par de olhos de cor e brilho inesquecíveis...
Continua...
Fale com o autor