O Retorno De Um Estranho
14 Mudança De Planos
Notas iniciais
Queria te parabenizar pelo noivado.
Muito obrigado, tia... Mas acho que esse não foi o único motivo que a levou a me chamar aqui.
Na verdade é sobre isso mesmo... Precisa se casar com Maria o quanto antes! — disse, impulsivamente.
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Me casar com você? — murmurou, perplexa.
Sim, isso mesmo. Quero que seja minha mulher!
Mas...
Não queria uma prova? — retrucou. — Pois lhe dei uma, fiz-lhe uma proposta. — O que me diz?
Eu... Eu preciso pensar. -respondeu, confusa.
Está certo. Mas lembre-se de que não pode fugir disso. Terá que decidir hoje mesmo qual dos dois vai querer.
E se eu escolher Geraldo?
Bom... — respondeu com tristeza. — então eu desisto de você. Definitivamente. — dando ênfase a ultima palavra dita.
Resolveram ficar em silêncio, era a melhor coisa a se fazer. Aproveitariam o momento, desfrutariam a compania um do outro, absorvidos na primeira, ou até mesmo na única dança de ambos.
De longe, uma pessoa atenta aos passos dos dois, roiasse de ódio. Fabiola aplicava tamanha força na taça de champanhe em sua mão, que se não fosse o material resistente do objeto o teria quebrado.
Pediu licença a Carlos, usando a desculpa de retocar a maquiagem, num dos banheiros do salão.
Ao entrar no toilette, deparou-se com uma mulher furiosa, que emanava ódio pelo olhar. Avaliando a própria imagem reproduzida no espelho, lembrou-se do motivo que a levara ali: Elisa!
Rapidamente dispôs do celular e digitou o número da amiga.
Mas que merda! — bravejou quando a chamada caiu na caixa-postal.
Era bom que Elisa atendesse logo, porque se não a ajudasse no plano...
Depois de cinco tentativas, eis que escuta uma voz do outro lado da linha.
Oi Fabíola. — respondeu Elisa, com uma voz animada.
Onde diabos você está?
Tô numa festinha, pô.
Eu não te falei que precisaria de você?
Sim, mas acabei de conhecer um gatinho e...
Você vem me ajudar. Esqueça esse homem.
Mas...
Escutou o que eu disse? — gritou, ríspida. — Você vem pra cá agora. Saia desse barulho e vá pra um lugar mais calmo. Preciso dizer o que você tem que fazer...
Não entendi. — disse Geraldo, com uma expressão de curiosidade.
Bom, é que... Te conheço a tanto tempo e você finalmente tem alguém que te ama do lado... Não demora pra ser feliz! — tentando aparentar naturalidade.
Vou me casar com ela muito em breve. Dois meses.
Muito tempo! — preocupou-se. — Não dá pra ser daqui a uma semana?
Geraldo riu.
Se eu pudesse me casaria agorinha, mas sabe como são as mulheres... Precisam organizar tudo.
Óbvio que não revelaria a aparente falta de interesse da noiva, tema discutido com os pais dias antes; seria melhor que acreditassem na falta de tempo por parte dela.
Mas não precisava dizer a Alba, ela sabia disso. Se Maria o amasse de verdade, jamais daria motivos para que Estevão se enchesse de esperança.
Ou será que ela estaria brincando com os sentimentos do filho?
Estevão disse se vai para o casamento?
infelizmente, não. Terá que viajar, pelo que me disse. O chamei para padrinho, mas ele recusou devido a um assunto que teria que resolver fora da cidade.
"Claro que Estevão não iria", pensou Alba. Ele premeditou a fuga para não ver a amada se casando.
Melhor voltarmos. Queria dançar com Maria.
Sim, claro. Vamos voltar. — era melhor que regressassem logo, porque conhecia o filho muito bem para saber que, a essa altura, já estaria ao lado de Maria, na pista de dança e fazendo-lhe juras de amor eloquentes.
Não falhara na rápida dedução. Maria e Estevão estavam juntos, como era de se supor.
Voltei, meu amor. — falou Geraldo, despertando o casal do momento plácido vivido até ali.
Ah, Geraldo... — murmurou Maria com pouco ou nenhum entusiasmo.
Bom, está entregue a sua noiva de novo... Estevão, me acompanha nesta dança?
Claro, tia. — entendendo como um claro motivo para conversarem. Deixando Maria a sós com Geraldo, muito a contragosto, Estevão acompanha a tia para um lugar mais distante. — O que fazia com Maria?
Costurando não era. — sarcástico.
Vi que estavam dançando. Queria saber sobre o que conversaram...
Nada demais, tia. — desconversando.
Não me oculte nada, Estevão. Conheço você, sei quando está mentindo. Sabe que me preocupo com você...
Não precisa se preocupar. Sei o que faço da minha vida.
Eu não quero que você sofra no futuro, meu pequeno. Há tantas mulheres no mundo, porque justamente ela?
Porque Maria é única. Não existe outra igual. E já que me interrompeu com ela, não há motivos pra continuar aqui, observando Geraldo dançar com ela, sugiro que, por favor, não continue com o assunto, por que senão subo para meu quarto e não desço mais.
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Fabiola demorou a sair do banheiro. Tramava seu plano contra Maria. Sabia que era ela a mulher que estava roubando Estevão dela, pôde constatar isso nas trocas de olhares, na conversa que tiveram, apesar de não tê-la escutado, sabia que falavam sobre a relação dos dois.
No pouco diálogo que teve com Carlos, soube que Maria estava comprometida e, ao regressar para o salão repleto de gente, suspirou aliviada ao ver que Estevão estava sozinho, pedindo um drink ao barman.
Por que demorou tanto? — perguntou Carlos ao vê-la ao seu lado.
Fiquei com falta de ar... Se importa se eu for alguns minutos para fora? Preciso tomar um ar fresco.
Quer que eu te acompanhe? Se estiver se sentindo mal podemos ir embora.
E perder o que estaria por vir? Não! Não iria embora.
Não, gatinho. Não precisa. Vou ficar um tempinho lá fora e volto já, já. — deu um selinho nele e rumou até a entrada da casa, onde Elisa a esperava.
Veio rápido. — exclamou Fabíola, satisfeita.
A festa era perto do endereço. Ai minha cabeça! — reclamou Elisa, pondo a mão na mesma.
Fabíola disse que ela tinha que ingerir uma grande quantidade de álcool antes de ir para a festa. Enquanto estava a caminho, entornou um litro de uísque quase todo e já estava tonta, sinal de que a bebida estava fazendo efeito.
Como faço pra entrar?
Vou destrair os seguranças e você entra. Ao meu sinal...
Fabíola se separa de Elisa, que estava no portão ao lado de fora, e entra na casa. Observa os seguranças e se aproxima para puxar asssunto.
Lindo dia hoje, senhores. Não é? — sendo galante.
Muito lindo. — disse um dos seguranças, malicioso, olhando pro decote dela à mostra.
Sim, senhora, a noite está bonita. — respondeu o outro mais formal, pois a viu chegando com um dos patrões e não queria dar motivos para ser demitido.
Porque não entram para tomarem uma bebida? Creio que deve ser incômodo ficar aqui em pé por muitas horas.
Estamos muito bem aqui. — contestou o mais sisudo.
Nossa, que mal humor! — fingindo-se de magoada.
Não quis ser rude, senhorita. Apenas frisei que estamos trabalhando.
Sim, sim. Claro...
Vendo que se converssasse não tiraria proveito, fingiu um mal-estar.
Gostaria de se sentar?
Sim, por favor. — segurando a cabeça.
O guarda mais tirado avançou para um dos quartos de empregada em busca de uma cadeira.
Faz um favor pra mim? — perguntou ao mais sério. — Pode ir ao meu carro para pegar um remédio pra mim? — procurando na bolsa as chaves do automóvel. — é um palio preto.
Tudo bem. — disse, contrariado. Esperava que nada acontecesse enquanto estivesse fora do posto.
Ao sair da casa, notou uma enorme fileira de carros que iam até o fim da rua.
Suspirou, fatigado , e começou a procurar o carro. Assim que se distanciou, a passos trôpegos Elisa se revelou por entre os carros e correu, tonta, para perto de Fabíola.
Depressa! Ande até a porta de vidro que dá acesso salão e me espere lá, encostada na parede.
Rápido, pois um dos seguranças deve estar de volta daqui a pouco.
Mal Elisa desaparecia de vista, um dos seguranças lhe traz uma cadeira.
Ah, obrigada. — com a voz quebrada.
De nada, dona... Cadê o Alonso? — referindo-se ao companheiro de trabalho.
Pedi que me pegasse um remédio. Não tarda em voltar...
Um minuto depois aparece Alonso com uma cartela de comprimidos.
Foi o único que vi. — estendendo-lhe a cartela.
Muito obrigada, senhores. Vou entrar para tomar o remédio.
Mas... — Alonso não pôde dizer que , como "aparentemente" estava com dor de cabeça, indo em direção à fonte de barulho, pioraria. Mas ela se levantou e andou quase correndo até a alcova.
Isso me parece estranho. — disse Alonso, estreitando os olhos.
Estranho, o que?
Como ela diz estar passando mal e volta pra festa? Isto está me cheirando a algo errado. Escute o que lhe digo...
Mas o outro nem deu bola, tão absorto que estava jogando no celular.
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E se alguém sai e me vê antes da hora? — interrogou Elisa. — Não estou trajada como você.
Ninguém vai sair por agora. Esse tipo de festa dura a noite toda.
Eles também não sabem quem está ou não esta listado entre os convidados.
Tenho que entrar agora?
Não, não... Na hora dou um toque para ceu celular... Fique atenta. Fabíola entrou normalmente no espaço. Andou em direção a Carlos e envolveu seus braços em torno do pescoço dele.
Está melhor?
Humrum.
E começaram a dançar.
"Ficarei melhor ainda!" pensou.
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Uma mulher sorridente aproxima-se de Estevão e lhe pede uma dança. Como Maria não estava disponível, era melhor que ficar sozinho.
Maria por sua vez estava entediada. Porque sentia-se tão normal ao ser tocada por Geraldo? Porque sua pele não ardia com o deslizar de dedos em suas costas, como Estevão o fez?
Mordeu o lábio para reprimir um xingamento ao ver Estevão dançando com outra, bem próximos a ela.
Tenho que dizer que você está linda esta noite. — disse Geraldo, despertando sua atenção.
Já me disse isso duas vezes.
Ele colou os lábios aos dela. Porque seu coração não palpitava quando Geraldo a beijava? Porque Estevão com um mísero sorriso derrubava sua resistência?
De um lado, a razão e a moral lhe ordenavam que seguisse adiante com o casamento com Geraldo, de outro, o coração lhe dizia que optasse por Estevão e aceitasse seu pedido. Era uma situação difícil.
Queria sentar um pouco. Estamos dançando há muito tempo.
O que você quiser, meu amor.
Encaminharam-se a uma mesa e pediram ao garçom que lhes trouxesse algo para comer.
E sobre o casamento, o que você decidiu? — perguntou, esperançoso, lembrando-se da conversa com Alba há pouco.
Quando formos embora lhe digo. — Mas ela já havia escolhido um dos dois.
Geraldo não insistiu. Algo dentro de si dizia que ela aceitaria. Confiaria no sexto sentido que tinha.
Pode pegar um refresco para mim? — perguntou, docilmente.
Tudo bem... Já volto.
E saiu para pegar os drinks.
A mulher que estava com Estevão o abraça, e Maria bate com a mão cerrada na mesa, sentindo o que acreditava ser raiva.
Depois de ter dançado, olhou por todo o salão e viu Maria sentada, olhando diretamente para ele. Com um sorriso no rosto, ele surgia ao lado de Maria.
Estive esperando que ficasse sozinha. Quero finalizar o assunto de vez.
Finalize com a mulher com quem dançava a pouco.
Ciúmes? — rindo.
De você? Óbvio que não.
Ela me dava os parabéns, só isso.
Não me deve explicações, senhor San Romãn.
Devo sim... Maria, diga-me... quem você escolheu? — fitando-a sério.- Vamos, diga. Quanto antes acertarmos tudo, melhor será para os três.
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Fabíola novamente se irritou ao vê-lo juntos. Era a hora! Pegou o celular e ligou para Elisa.
Ainda não percebeu, Maria? Você também gosta de mim, me deseja. Se seguir adiante com esse casamento, não será feliz. Pense bem... Tem uma coisa que eu ainda não te disse...
O que? — Com o coração palpitando. Será que era o que pensava? Esperava que fosse, porque era a única coisa que faltava para atirar-se nos braços dele.
Eu... Eu te...
Mas foi interrompido por alguém que entrava no local aplaudindo e chamando a atenção dos presentes.
O DJ responsável pela música parou, imaginando ser algum tipo de discurso.
Quem é essa 'zinha'? — murmurou Carlos ao ver Elisa no meio dos convidados.
Não tenho a menor ideia. — respondeu Fabíola a Carlos, hipócrita.
Estevão, meu querido... Porque não me chamou pra festa também? — começou a intriga.
Quem é essa mulher? — perguntou Alba ao se aproximar de Estevão.
Eu nunca vi antes, tia.
Alba andou em direção a mulher desconhecida.
O que significa isso, Estevão? — perguntou Maria, temendo o pior.
Juro que nunca a vi na minha vida. — Começando a ficar desesperado.
Alba não queria que uma confusão acontecesse. Chegou perto de Elisa e perguntou, baixinho:
Quem diabos te convidou para essa festa?
Ninguém, eu vim sozinha, sogrinha.
Sogrinha? — repetiu Alba, com certo desprezo na voz.
Sim. Sou noiva de seu sobrinho, Estevão San Romãn. — falou em alto tom para que todos ouvissem. Os convidados olharam a mulher de cima a baixo e um murmurinho em uníssono se formou. Fabíola, ao lado de Carlos exprimia um sorriso de satisfação.
Eu nunca te vi na minha vida. — disse Estevão, ríspido.
Ai, meu amor. Não se faça de fingido! — fingindo-se de modesta e alcançando-o. Passou as mãos pelo peitoral de Estevão. — Não se lembra de quando fizemos amor?
Maria virou o rosto, enjoada. Estevão tinha outra?
Jamais tive algum tipo de relação com você. — respondeu automaticamente, mas se já havia dormido com ela não se lembrava. Eram tempos em que se afogava na bebida.
Por que isso agora, Estevão? — afastando-se dele e forsando algumas lágrimas. — Você disse que me amava e por isso eu me entreguei a você. Terminei meu namoro por sua causa e agora resulta que eu não significo nada? E seu pedido de casamento?
Chega! — Gritou Alba puxando Elisa pelo braço. — Saia daqui agora!
Só saio com meu noivo. — quase não conseguia manter-se em pé, estava muito bêbada.
Estevão, é melhor você ter uma boa explicação para nós. — sussurrou Carlos que havia se juntado ao primo.
Os seguranças ouvindo a balburdia entram rapidamente.
Alonso e Pedro, tirem essa garota daqui.
Não deixem que me levem, Estevão! — Mas já era retirada do recinto.
Alba virou para os presentes e encarou diversas faces confusas.
Bom... Não liguem pra isso. — Dirigindo-se ao povo. — Sabem que Estevão é um homem muito reservado, jamais teria um caso com uma qualquer. — Forçando um risinho. — Mas anda! Vamos continuar a festejar, a noite ainda não começou! — animando o público.
Fernando, por favor, coloque música. — O DJ prontamente obedeceu e, aos poucos, os convidados se entregaram à dança e esqueceram o imprevisto.
Exceto Maria, que se levantou da mesa.
Vamos embora, Geraldo. Não estou me sentindo bem. — ao ver Geraldo chegando com as bebidas.
O que você tem, meu amor?
Fiquei ligeiramente tonta. Melhor irmos embora.
Ok, meu anjo. Como preferir.
Geraldo andou até Estevão, que estava quieto num canto, esquecido e disse que já iria embora. Lamentou a cena ocorrida há pouco, mas era melhor não comentar o assunto agora. Questionado sobre o porquê de ir tão cedo, respondeu que Maria estava indisposta. "Meu Deus! Como faço pra explicar tudo a Maria?"
Pensou Estevão. Era óbvio que seu mal estar não passava de pretexto para fugir dele. Oque será que pensaria dele?
Andou em direção a Maria, mas é detido por Alba. — Você não vai atrás dela. — autoritária.
E mesmo que se soltasse da tia, não daria tempo de alcançar Maria, pois ela já estava próxima a saída, parada. Dirigiu-lhe um olhar de tristeza e, não tendo mais nada que fazer ali, dá as costas e sai, tentando a todo custo reprimir as lágrimas que inexplicavelmente começavam a se formar...
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Maria entrou rapidamente no apartamento. Sentiu um leve incômodo no ombro, pois o ferimento ainda não havia sido curado. Geraldo a seguiu.
Sentaram-se no sofá e ficaram em silêncio. Ele mexia no celular, uma forma de distração para não ultrapassar nenhum limite com Maria, que justo no dia em que estava tão carente, estava deslumbrante e linda, mais que o habitual.
Por mais que tentasse era impossível que Maria esquecesse a figura da mulher expondo sua relação com Estevão. Por minutos acreditou que ele realmente sentia alguma coisa por ela, e quase pediu a ele que a beijasse de novo. O que será que ele lhe diria se não tivesse sido interrompido? Que importava agora... ele era passado.
Mas porque diabos sentia tanta raiva assim? Nem ela mesma o sabia.
Acreditava que Estevão apenas queria se divertir com ela e depois abandoná-la, como fez com a garota.
"Não!" pensou, enquanto se levantava e se despia do manto. Ela não se manteria dependente de Estevão. Andou de um lado para o outro. Lembrou-se da cena de horas antes e, decidida a deixar Estevão de lado e mudando a decisão tomada antes, sentenciou:
Pode começar os preparativos, Geraldo... Porque dentro de dois meses, eu me caso com você!
Continua...
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