O Relicário
28 Capítulo 28 - Uivos
JOÃO FERNANDES era um homem simples. Ele sempre começava seu dia antes do sol raiar. Era a hora do dia que ele mais gostava: era fresco e silencioso. João trabalhava para o prefeito Henrique, ele administrava as terras mais distantes que pertenciam aos Colúber. Quando a esposa reclamava que eles moravam longe demais de Nova Borgeby, João dizia brincando:
— Pra quê você quer Nova Borgeby se nós já estamos quase no Rio de Janeiro? Dá pra ver o Cristo Redentor da nossa janela!
Claro que não dava pra ver o Cristo Redentor, mas ele adorava essa frase.
Naquele dia, João Fernandes abriu a porta da casa e andou alguns metros para avaliar o dia que nascia. O céu ainda estava escuro e cheio de estrelas. O velho lavrador abriu um largo sorriso. Tudo está como deveria.
De repente, um som alto fez-se ouvir por toda região. Era um som agudo e longo, de arrepiar todos os pelos do corpo e gelar os ossos. Era impossível não reconhecer esse som sinistro:
— Lobo! — disse o lavrador.
João Fernandes voltou para dentro de casa e saiu de lá instantes depois carregando uma espingarda em punho. O velho passou duas horas percorrendo a região próxima de sua casa, mas nem rastro do animal. Pela altura do uivo o lobo devia estar perto, mas o lavrador não achou nem pegadas nem ouviu o uivo novamente. Com o dia já claro, o sol erguendo-se para um dia claro e quente, João Fernandes tomou uma decisão: ele iria falar com o prefeito. João já lidara com outros lobos, mas isso foi há muito tempo e agora ele estava velho e precisaria de ajuda.
João Fernandes foi com sua esposa para a cidade: ele achou melhor passar uns dias longe da fazenda. Depois de preencher os papéis da hospedagem, João deixou a mulher na pousada e foi para a prefeitura. Mas a secretária do prefeito o informou que Henrique já tinha saído para almoçar em sua casa. Pela importância do assunto, o velho lavrador decidiu procurar o prefeito em sua casa.
Henrique Colúber foi muito cordial e, interrompendo seu almoço, atendeu prontamente o lavrador levando-a para sala de casa, a mesma que há alguns dias presenciou a conversa desconfortante entre Nícolas e Helena. João Fernandes começou falando do uivo:
— Foi muito alto, estava muito perto. E não foi a primeira vez. Ontem eu ouvi também, mas o uivo parecia mais longe. Senhor prefeito, eu não sou tão jovem. Não posso lidar sozinho com um lobo e pelo som esse é grande.
Helena, que estava indo para a cozinha, ouviu sem querer a conversa ao passar pela porta da sala que dava no corredor. Ela parou e aproximou-se para escutar melhor.
— Não se preocupe, Sr. João, eu reunirei um grupo de pessoas para lidar com esse lobo. Enquanto isso fique na cidade e não se preocupe com a pousada, eu faço questão de pagar sua estadia. Afinal, você é meu funcionário mais antigo e fiel...
Na realidade Henrique temia que o lavrador pedisse demissão e seria quase impossível arranjar outra pessoa confiável para cuidar das suas terras mais distantes em Nova Borgeby. João Fernandes sentiu-se muito envaidecido por esse gesto do prefeito e saiu felicíssimo, indo contar a novidade a esposa.
Por seu turno, Helena também saiu correndo, mas para a floresta.
* * *
— Um lobo nas terras de seu pai?
— Sim, e parece que é grande. O pobre homem fugiu com a mulher para a cidade. Isso tem haver com a Ophidia? Não me lembro de um lobo rondando por aqui antes.
Nóctua não respondeu. Ela estava pensativa, olhando para fora da janela.
— Eu não tenho certeza se tem haver com Ophidia ou não. Lobos são animais comuns nessas terras. Mas de qualquer maneira, esse pode ser um bom treinamento.
Helena olhou confusa para sua mestra.
— O que pode ser um bom treinamento?
Nóctua levantou-se. Havia um brilho diferente em seus olhos.
— Você vai caçar esse lobo, Helena!
Helena não sabia o que responder, apenas ficou em silêncio. Foi tão inesperado, que para todos os preparativos que Nóctua lhe ordenou, Helena respondera apenas “Sim”.
Nóctua lhe dera duas luvas, uma de couro para a mão direita e uma de aço para a mão esquerda.
— Essas são suas armas, é só do que vai precisar. Mas é melhor esperarmos até a noite. Lobos costumam descansar durante o dia e caçar alimento à noite. Mas nesta noite, ele é que será a presa.
— Sim — Helena concordou sem saber por que concordava, ainda distraída que estava com a perspectiva de caçar um lobo.
Helena sempre foi autoconsciente dos seus defeitos, principalmente dos defeitos nascidos de sua criação especial. Mimada, um pouco esnobe, fresca... uma verdadeira patricinha. Mas antes ela achava que era natural já que era a garota mais rica da cidade, e sendo filha do prefeito, sempre se considerara a mais importante. Nas raras vezes em que, por lei, seu pai não podia candidatar-se ao mandato seguinte, Helena via como o novo prefeito corria sempre a sua casa em busca de conselhos de seu pai: era como se seu pai ainda fosse prefeito. Protegida dos males do mundo, vivendo numa vida confortável e farta, Helena sentia que seria feliz para sempre. Pelo menos até a chegada de Elisa, quando sua maré de sorte começara a mudar.
Ser filha do prefeito e ter tanto dinheiro não era suficiente. Quando se lida com magos, dinheiro não importa. Desde que começara a aprender magia, Helena passou a perceber como ela frágil o mundo que pensara viver, pois o mundo real era muito maior e mais difícil. Helena se sentia mais confiante agora do que jamais fora antes, pois o poder que vinha de sua magia era fruto de si mesma, e não da influência do seu pai ou do dinheiro da sua família.
Naquela noite, por volta das nove horas, Helena e Nóctua saíram pela floresta. Nóctua insistiu em fazer um amplo círculo de alguns quilômetros, que segundo ela era uma maneira de procurar vestígios do lobo numa área maior. Depois foram diminuindo o círculo indo cada vez mais para o centro da floresta. Durante esse tempo ouviram apenas o som dos galhos e folhas em que pisavam. O ar estava quente e parado e a floresta estava silenciosa.
Como nunca passeara tão tarde pela floresta, Helena se sentiu com um leve medo. O caminho que ela seguia todos os dias até a cabana de Nóctua, começa na cidade então é como se fosse uma extensão do setor urbano. Mas agora, Helena andava no coração da floresta numa noite muito escura e sem lua. Estava difícil andar.
Helena era favor de acenderem uma luz, mas Nóctua era contra:
— Isso vai alertar o lobo de nossa presença. Devemos usar a escuridão em nosso favor.
— Tá, então o lobo não nos verá chegando. Mas nós também não o veremos chegando. Dá na mesma!
Nóctua parou de repente e Helena trombou em suas costas. A cigana ergueu a mão aberta, num gesto claro que pedia silêncio.
De repente, todo o silêncio foi quebrado da forma mais sinistra.
— Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!
O uivo gelou o sangue de helena, que tornou-se pálida imediatamente. Por mais que tivesse estudado magia e treinado com as luvas o dia todo, ela estava prestes a enfrentar um perigo real. Não mais uma lição, mas sua vida que estava em jogo.
— Ele está longe, mas estamos indo na direção certa — disse Nóctua num sussurro. E percebendo a palidez de Helena, decidiu mudar de assunto para amenizar o medo da garota. Falar de algo conhecido — Então, Helena, voltou a falar com Nícolas?
Pega de surpresa pela segunda vez no dia, Helena não respondeu imediatamente. Mas enquanto pensava no que responder, a cor foi voltando ao seu rosto.
— Não — disse finalmente em voz baixa — Ele nem olha para mim direito, quanto mais conversar. Na verdade eu não o vejo há dias, mas não é surpresa. Eu nem tenho ido à escola e Nícolas tem passado muito tempo no Casarão Flint. Mas é melhor assim, tenho que me concentrar no treinamento. Só isso.
Sua voz foi sumindo enquanto falava, tanto que Nóctua nem ouviu a última parte. Distraída, Helena não estava olhando para frente e pela segunda vez trombou nas costas de Nóctua quando esta parou de repente. Como achava que sua mestra tinha parado para escutar o lobo novamente, Helena esperou ouviu um uivo de novo. Mas o que ouviu foi diferente. Era um rosnado baixo que ia se elevando aos poucos. Helena olhou por cima do ombro de sua mestra e percebeu, finalmente, porque ela parara. Estavam na borda de uma clareira larga, um trecho limpo e plano. As nuvens que escondiam a lua se abriram e a claridade da lua cheia iluminou a negritude da noite.
Bem no meio da clareira estava o lobo, olhando para as duas e só não as atacara ainda porque provavelmente ainda as estava avaliando.
“Isso não é um lobo”, pensou em Helena, “É um monstro!”.
Três metros de comprimento, do focinho a ponta da cauda espessa. O pêlo era grosso e marrom escuro. As patas fortes e musculosas terminavam em garras afiadas como navalhas. A saliva escorria de uma boca cheia de pontiagudos dentes branco-marfim.
A fera deu um passo a frente e soltou outro uivo longo e sinistro:
— Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!
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