O Relicário

29 Capítulo 29 - Caçada


O MOMENTO ERA TENSO e Helena sentia que Nóctua também parecia nervosa. Ela lhe disse em voz baixa, mas tensa:

— Ignore seu medo ou vamos morrer, Helena. Lute com tudo de si e prove que você se tornou uma maga poderosa.

Essas palavras foram o bastante: o espírito da garota de inflamou como se uma chama tivesse sido acesa, um farol que afastava todas as trevas do medo. Helena se endireitou, ajeitou as luvas e tomou a frente de Nóctua:

— Sabe, eu sempre gostei mais de gatos.

E erguendo a mão direita da luva de couro:

— Incinérer!

Uma bola de fogo vermelho saiu da palma de sua mão e acertou o focinho do lobo, que grunhiu de dor. Muito depressa ele virou-se e correu por entre as árvores.

Helena sentiu seu ânimo elevar ainda mais.

— Está aberta a temporada de caça! — gritou quando correu atrás do animal.

Primeiro foi difícil segui-lo. Mas logo Helena foi se acostumando com o Feitiço do Caçador, que aumentava a sensibilidade da visão e da audição. Só agora ela entendia o que Nóctua dissera: um componente importante desse feitiço é a adrenalina, que produzida em nosso corpo em grande quantidade quando estamos sob estresse ou praticando exercícios físicos. A adrenalina normalmente já aumenta a capacidade natural do ser humano, então aliado ao Caçador, tornava o mago numa máquina de caça. Helena já estava usando o feitiço desde que saíram, mas até então ela estava desapontada com os efeitos. Só agora percebia que o efeito só se ampliava durante a caçada, não antes.

Seus olhos foram se acostumando com a escuridão, e sua audição pode ouvir os passos do lobo se distanciando. Era uma incrível sensação!

Helena correu sem rumo por um tempo tentando ouvir o lobo, mas a fera de distanciara bastante. Duas vezes ela saiu correndo pela floresta em busca de sons de passos, mas eram apenas pequenos roedores. Então, depois de uma hora do primeiro contato, ela avistou o lobo próximo do rio.

Assim que as árvores espaçaram e pode mirar bem, Helena lançou outra bola de fogo nas costas do animal. Mas dessa vez ele não ganiu e saiu correndo, como antes. Agora ele não estava mais surpreso, e decidiu revidar. Sacudindo-se para apagar as chamas, o lobo correu na direção de Helena e em três passos já estava quase sobre ela.

Helena teve medo por um instante, mas manteve seu instinto de sobrevivência no último momento:

— Enchaîné!

Houve um ruído baixo de trituração como se algo saísse da terra com velocidade. O lobo não percebeu realmente o que acontecera. Helena fechara os olhos ao lançar o feitiço, ainda com medo de ter dado errado. Mas os segundos passaram, e apesar dos latidos ensurdecedores, ela continua... bem... viva! Aos poucos ela abriu os olhos e enfim percebeu que funcionara.

Uma corrente brotava do chão como a raiz de uma árvore de metal. Na ponta havia uma coleira que se fechou ao redor do pescoço do lobo. A fera continuava a tentar atacá-la ferozmente, mas o máximo que chegava era a um metro da garota. O lobo tentou correr para outros lados, mas a corrente sempre o barrava e ele ficou ainda mais raivoso.

Helena estava completamente calma. Ela vencera o monstro de Ophidia.

— Agora chegou seu fim!

A morena ergueu a mão da luva para matar o monstro, mas nesse instante uma bola de fogo azul explodiu aos seus pés e Helena foi lançada para trás. A garota levantou-se depressa e olhou para a escuridão da floresta procurando o inimigo.

— Você!

Mesmo sob a luz do luar os cabelos de Elisa brilhavam intensamente como se tivessem luz própria. Ela não estava com suas roupas leves de sempre: usava uma blusa branca sob um colete de couro negro e calça de couro justa que modelava seu corpo. Nas mãos ela estava as luvas de atleta dadas por Nícolas: protegia as palmas das mãos e deixava os dedos a mostra. A primeira vista, era realmente impressionante. Elisa não estava nada parecida com o seu normal: parecia uma guerreira indo à guerra, com uma expressão séria no rosto: uma pose profissional para a situação grave em que estavam.

— Afaste-se!

Helena estranhou a si mesma quando simplesmente se afastou ante a palavra imperativa da britânica. Sem dúvida era algo intimidante ver Elisa tão segura de si. Helena se afastou do lobo enquanto Elisa se aproximava. A loira chegou bem perto do lobo, a criatura quase a tocava enquanto rugia com seus dentes pontiagudos à mostra.

— Veio proteger o monstro de sua mestra?

— Não fale do que não sabe... — disse Elisa com voz baixa.

Seu tom não era forte como antes. Foi isso principalmente que elevou o autoconfiança de Helena:

— O que eu não sei? — perguntou em tom petulante.

Elisa não respondeu imediatamente. Helena se aproximou para ver o rosto da britânica e se assustou ao perceber que os olhos da garota brilhavam como se quisesse chorar.

Elisa fungou e limpou o rosto da manga, e respirando fundo, disse de uma vez:

— Esse lobo é o Nícolas!

Notas finais
Comente, por favor! xD