O Reino de Telmamlet - O Castelo de Gelo
9 Sozinha outra vez
Notas iniciais
Ainda nem era a hora do almoço quando eu saí da casa do Smir. Sim, Smir pois não sou obrigada a lembrar o nome dele. Por que uma pessoa teria um nome tão difícil?
Eu admito que não saiba sequer como começar a explorar o castelo. Eu não podia deixar que ninguém soubesse que eu estava o invadindo. E o único lugar que fui era o salão principal.
Fiquei meia hora tentando encontrar um jeito. Eu estava de volta em casa, não iria aparecer na escola no meio da aula e nem iria pra aula da tarde, e Mad não poderia me obrigar. Ela estava trabalhando cada vez mais, talvez porque agora tinha alguém esperando ela depois do trabalho.
Resolvi esperar algum tempo até voltar ao castelo, e esse tempo queria dizer que eu iria á noite. De preferência de madrugada. Até lá ainda tinha muitas horas pra gastar.
Como estava com preguiça de fazer almoço eu resolvi ir até a lanchonete que tinha perto da casa. Decidi levar o livro, sabedoria nunca é demais. Sentei-me em uma mesa e logo veio a garçonete. Pedi qualquer coisa e abri o livro enquanto esperava.
Na primeira página estava escrito: Histórias Perdidas de Telmamlet, autor desconhecido. Comecei a virar a página quando alguém sentou na cadeira que estava vazia á minha frente.
Era um menino. Branco, olhos verdes, camisa não tão apertada, mas dava pra perceber o corpo dele. Parecia extremamente normal.
― Oi! ― ele disse sorrindo.
― Oi. ― eu disse meio desconfiada e com os olhos semicerrados.
― Você gosta de ler? ― ele perguntou ― Claro que gosta, ao contrário não estaria com esse livro ― ele deu uma gargalhada e eu levantei as sobrancelhas. ― O que você está lendo? ― ele perguntou enquanto se sentava e debruçava em cima da mesa.
Tenho que admitir, os olhos dele me chamaram a atenção. Eram verdes e contrastavam perfeitamente com o cabelo castanho claro. Ele é bonito, mas só pelo jeito já percebi que era idiota.
Hesitei um pouco antes de responder.
― Um livro novo ― eu disse.
Ele balançou a cabeça.
― Você é linda. ― levantei as sobrancelhas de novo, mas dessa vez completei o gesto cruzando os braços e me encostando na cadeira.
― O quê? ― ele disse, ainda com aquele sorriso no rosto. Como as bochechas dele não estavam doendo? ― Não gostou do elogio?
― Elogio de estranhos me deixam desconfiada. ― eu disse, mas não estava já tão séria.
― Se prevenindo de futuros idiotas? ― dei de ombros ― Entendi. Mas eu não sou esse tipo de cara, posso te mostrar um dia desses? ― ele disse com uma expressão sedutora.
― Olha, eu passei por muita coisa recentemente. Eu só, não estou no clima. ― eu disse séria mais uma vez.
― Terminou com o namorado? ― ele perguntou com um olhar divertido.
― Meus pais morreram. ― e lá se foi todos os sorrisos e expressões brincalhonas.
― Me desculpe. ― ele disse.
― Sem problemas. ― eu disse com um sorriso sem graça.
Ele olhou pra trás e alguns meninos acenaram.
― Tenho que ir. ― ele disse, e se virou pra mim novamente. Eu mexi a cabeça em sinal afirmativo e me endireitei na cadeira. ― Quem sabe a gente se encontre de novo? ― ele disse.
― Quem sabe... ― eu disse.
― Então poderemos sair? ― ele perguntou, e aquela expressão de volta.
― Vamos ver. ― eu disse.
Ele começou a ir embora, e então se virou.
― Você não me perguntou, mas eu falo mesmo assim. ― ele sorriu ― Meu nome é Chris. ― e então foi embora.
Eu voltei a tentar a ler meu livro, mas a garçonete chegou com o meu pedido.
― Aqui está. ― ela disse e colocou o prato na minha mesa. ― Aquele menino que estava aqui... ― eu olhei pra ela, já com o sanduíche nas mãos. ― não dê bola, ele se insinua pra qualquer uma. ― ela se virou e saiu pisando duro.
― Obrigada. ― eu disse baixinho.
—*-
Depois de terminar meu merecido lanche, eu fui direto pra casa. Tudo o que eu consegui tirar daquele livro foi a história de Smir e algumas outras que pareciam tão antigas quanto. O mais estranho é que a letra do livro é extremamente parecida com a da minha mãe. Além disso, nada me ajudou com a questão do castelo e do castigo do Smir. Como eu queria que houvesse um livro com o mapa do castelo.
Mas isso seria pedir demais.
Tudo o que eu conseguia pensar era em ir ao castelo durante a noite. Nada me tirava da cabeça que se eu fosse de madrugada, teria menos chance de ser vista. Assim que eu tivesse explorado o bastante, e achasse uma sala vazia e que não era utilizada ― como eu queria que tivesse uma sala assim ― eu poderia ir para lá qualquer hora.
Estava começando a me empolgar com o plano, ― e fazendo outros mirabolantes ― quando ouvi a porta se abrindo. Olhei no relógio e já eram quase duas da tarde. Tia Mad tinha chegado mais cedo. Será que aconteceu alguma coisa? Tomara que ela não tenha sido despedida, isso poderia me prejudicar..
Desci as escadas ― só para mostrar que eu era uma boa sobrinha ― e a peguei no sofá, deitada com os pés em cima da mesinha e um copo de água na mão.
― Está tudo bem tia? ― eu perguntei.
Me arrependi no mesmo instante. Ela se assustou tanto que quase caiu do sofá e acabou derramando água na camisa que estava usando.
― LEXIE! ― disse ela se sentando no sofá ― Quase me esqueci do horário em que você chega.
― Algum dia você se acostuma. ― eu disse ― Você chegou mais cedo?
― Sim ― Mad respondeu ― Meu chefe me mandou mais cedo pra casa porque eu terei que viajar por um tempo.
“Ótimo, tia!” ― eu pensei ― “Deixe sua sobrinha que perdeu os pais, há menos de um mês, sozinha em casa. Bem inteligente.” Apesar de tudo, isso poderia me ajudar. Quanto mais tempo tia Mad ficasse fora mais tempo eu teria pra visitar o castelo.
― Quanto tempo? ― perguntei, deixando meus pensamentos de lado.
― Duas semanas. Não vou demorar muito.
A única coisa que eu conseguia pensar era se nesse tempo eu conseguiria olhar em todo o castelo. Não queria admitir, mas Telmamlet me deixou bem curiosa.
― Vai passar rápido ― eu disse.
― Para você vai, para mim será muito cansativo e uma eternidade. ― ela disse
Nossa, como minha tia era sutil.
― Tia, aproveita a viagem. Não fica trancada no trabalho o tempo todo.
― Você fala com se fosse fácil... ― ela deu um longo suspiro e se levantou ― Enfim, suba e se arrume que irei fazer um café.
― Ehh, eu comi na rua tia. Acho que vou fazer os deveres e ir dormir.
Mad colocou as mãos no quadril e me olhou feio. Vêm bronca por aí!
― Lexie, você não pode ficar comendo besteiras o dia inteiro. Isso vai te fazer mal! Você não pode comer assim enquanto eu estiver fora.
― Por que não fazemos assim: você promete sair um pouco do trabalho na viagem e eu prometo comer bem enquanto estiver fora.
Ela me encarou, me analisando. Pensando se aceitaria. Provavelmente ela não sairia pra se divertir, e eu também não cumpriria minha parte do trato.
― Tá bem. Vá pro seu quarto então. ― Mad se virou e foi para a cozinha.
― Boa noite! ― eu disse.
― Boa noite, Lexie.
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