O Reino de Telmamlet - O Castelo de Gelo
10 O castelo
Notas iniciais
Tranquei a porta assim que cheguei ao quarto. Tomei um banho rápido e arrumei minha mochila com algumas coisas que eu poderia usar como comida, água e um agasalho. Acertei meu relógio para que não perdesse a hora. Não iria ficar tempo demais. Não quero que Mad descubra que eu “sai de casa”.
Eu precisava ir ao castelo, mas e se alguém me visse chegando? Não sabia se as pessoas do “outro lado” podiam ver o portal. O jeito seria arriscar. Mas nem era nove horas da noite, e pelo o que me parecia não tinha diferença de tempo entre TelmamleT e a Terra. Ainda era cedo pra me aventurar em um castelo que devia estar cheio de guardas. Mas isso não me impede de testar algumas teorias.
Primeiro eu tentei abrir o portal para alguma outra parte da minha cidade e nada aconteceu. Ótimo. Só funciona entre mundos, Lexie.
Depois eu abri o portal na casa do Smir. Ele estava sentado na mesa, comendo alguma coisa. O portal estava bem ao seu lado e ele nem virou a cabeça. Esperei ele acabar de comer para ter certeza, mas a essa altura minha cabeça já estava doendo. Segurei o portal por mais um tempo, até que ele passou na minha frente e não me viu. Minhas forças acabaram e eu desabei na cama. Ok, então eu não consigo segurar o portal por muito tempo. Eu já estava exausta e nem tinha ido pro castelo ainda.
Descansei por uns vinte minutos, quando me senti um pouco melhor resolvi abrir o portal no salão do castelo. Não havia ninguém lá, pelo o que pude ver. Estava tudo muito escuro, e eu não conseguia ver os cantos direito. Podia ter algum guarda lá. Arriscar ou não arriscar? Eis a questão.
Resolvi entrar de uma vez antes que eu me esgote de novo. Meus tênis tocaram o chão sem muito barulho. O portal se fechou e eu fiquei parada por um tempo, tentando ver se alguém tinha me visto, ou escutado.
Nada. Ótimo.
Tinha duas portas que saiam do salão. Uma de cada lado. Resolvi ir pela direita. Assim que a atravessei vi que tinha um enorme corredor e nele algumas portas. Fiquei com medo de abrir alguma e alguém me ver. Eu precisava de um disfarce, mas não via nenhuma emprega pelo castelo. Será que todas já estavam dormindo?
Andei mais um pouco, sem abrir portas. Os corredores eram longos e quase sempre não levavam a lugar nenhum. Até que cruzei um que dava para uma porta diferente. Ela era maior que as outras e estava aberta.
Entrei e vi que era uma biblioteca. Bem no fundo havia uma luz fraca. Ela iluminava pouca coisa, mas podia ver que a rainha estava ali, lendo algum livro.
Mas era um livro diferente, era como se ele tivesse sua própria luz. Não como aquele que eu vi na casa do Smir. Não, esse era diferente. Eu estava longe, mas podia sentir sua magia. Sabia que era diferente. O livro estava em um pedestal branco, e as paredes em sua volta eram decoradas.
Cheguei um pouco mais perto, me preocupando – lógico – em me esconder. Fiquei atrás de uma estante, perto o bastante pra ver a expressão da rainha. Ela estava preocupada, isso dava pra perceber. Folheando o livro como se fosse a última coisa que faria.
E então ela deu um soco no pedestal, o que me fez dar um pulo e cobrir a boca depois de um gemido. Me agachei e respirei forte, torcendo para que ela não tivesse percebido. Foi então que eu ouvi alguns passos. Me encolhi onde estava. Um barulho, como se alguma coisa estivesse se fechando chegou aos meus ouvidos. E então, com um estrondo, a porta se fechou.
Ainda fiquei algum tempo sentada no chão. Meu coração estava acelerado. O que a rainha teria feito comigo se tivesse me pegado? Me levantei devagar e dei uma olhada pelo cômodo, esperando que ela estivesse em algum canto só esperando para que o intruso ― no caso eu ― aparecesse. Para minha sorte, ela não estava.
Saí de trás da estante a fim de olhar o livro no pedestal. Mas não tinha livro. Nem pedestal. No lugar onde a rainha estava só tinha uma parede. Uma parede com decoração igual a outra, mas nenhum livro.
Eu andei até a parede. Minha vontade era socá-la e gritar com todas as minhas forças. Pra onde tinha ido o livro? Talvez ela tenha escondido em algum lugar. Mas onde? Comecei a olhar cada canto, e nada de achar uma sala, ou um botão que abrisse algum compartimento.
― Droga! ― eu disse um pouco alto demais.
Eu não iria perder a viajem. Olhei ao redor e procurei algum livro que eu poderia ler. Peguei um aleatório. Nele estava toda a linhagem real de Orygon ― que acabei descobrindo ser o nome daquele reino.
Em uma das últimas páginas escritas estava o nome da minha mãe.
”Hellen Fallstrew ― filha de Clare Evelin Fallwstrell
Sumida no ano 500 da Nova Era. Não deixou herdeiros e por isso a coroa foi passada para a aprendiza da rainha, e que apresentava potencial mágico, Jesse Melana.”
Na outra página havia somente um nome.
“Jesse Melana
Antiga aprendiza de Rosie Fallstrew. Assumiu o trono em 500 da Nova Era.”
Então minha mãe havia fugido. Ela podia ter sido rainha, e eu princesa. E talvez ela ainda estivesse viva. Mas por que ela fugiu? E foi aí que eu lembrei do Caderno de Pesquisas dela. Logo nas primeiras páginas ela deixava bem claro que Rosie, a mãe dela, a odiava. Simplesmente pelo fato de que Hellen não apresentava potencial mágico. Que tipo de mãe faz isso com uma filha? Ela quase adotou a Rainha. Que bom que minha mãe fugiu, afinal.
Meu relógio apitou e vi que já eram três da manhã. Eu precisava voltar logo, ou não conseguiria ir pra a escola no dia seguinte. Não que eu quisesse ir, mas com Tia Mad indo viajar em tão pouco tempo eu tinha que dar uma de menina boa e que frequenta as aulas.
Coloqueis os livros no lugar e fui pra casa. Troquei de roupa e deitei na cama. Na noite seguinte esperava encontrar o tal livro e finalmente ver o que tinha nele.
—*-
Não foi fácil acordar no outro dia. Mad quase jogou a porta no chão. Com muito custo me levantei e desci para tomar café. A mesa estava posta como nunca esteve antes. Será que ela estava feliz em viajar? Espero que sim.
― Bom dia. ― eu disse meio grogue.
― Bom dia. ― ela respondeu ― Teve problemas pra dormir essa noite?
― Um pouco.
―Hm. ― ela murmurrou ― Eu viajo amanhã de manhã. Você vai ter que ir pra escola de ônibus.
― Tudo bem ― respondi com um bocejo.
― Quer que eu chame alguém pra te fazer companhia? ― Mad perguntou.
Quase engasguei com o ar.
― Tipo, uma babá? ― eu perguntei com as sobrancelhas arqueadas.
― Não. ― ela respondeu com uma risadinha ― Eu tenho um afilhado que não mora muito longe daqui. Ele pode vir aqui se quiser.
Acho que tia Mad quer me arrumar um namorado. A coisa que eu menos procuro e ela quer me deixar sozinha com um homem/garoto.
― Tia, eu preciso de um tempo sozinha.
― Pode ter o tempo que quiser. Mas pode ser perigoso você ficar sozinha aqui.
Dei um suspiro e comecei a tomar meu café. Eu realmente não queria alguém no meu pé enquanto Mad estivesse fora. Era a última coisa que precisava. Apesar dela estar certa, eu não ia ficar na casa horário nenhum.
― Eu realmente não acho necessário.
― Vamos fazer assim. ― ela disse limpando as mãos ― Eu vou ficar fora por duas semanas. Semana que vem você fica sozinha. E na outra eu ligo pro meu afilhado e ele vem pra cá e fica por uma semana. Que tal?
― Tá bem, ― disse, já querendo me livrar daquilo ― pode ser.
― Ótimo ― ela sorriu ― ligo pra Chris de lá mesmo.
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