O Reino Vermelho
15 Só precisamos que ele não morra
Uma semana depois.
Arya
Passamos essa última semana treinando como loucos e ensinando coisas sobre os demônios a Damon, para que ele estivesse mais preparado quando enfrentássemos outros.
Ele cumpriu a promessa de acabar comigo nos treinamentos. Nesse exato momento estou coberta por hematomas roxos em grande maioria causados por ele, já que Aspen lutava mais com ele do que comigo.
Me olho no espelho, jogo água no rosto. Não dormi bem essa semana, as olheiras embaixo de meus olhos estão pretas.
Ouço batidas na porta do meu quarto. Abro-as e Aspen entra.
—Ah, pode entrar sim, sem problemas. –Digo irônica e ele me mostra o dedo do meio.
—Vamos? –Pergunta
—Sim, mas vou chamar Damon.
Ele rola os olhos.
Bato em sua porta e lá dentro ele grita um entra abafado.
Não o vejo na parte do quarto até que ele abre a porta do banheiro com o rosto coberto por creme de barbear.
—Que foi? –Me pergunta enquanto passa a gilete.
—Damon ainda está meio estranho comigo, não tanto quanto antes, mas ainda está.
—Eu e Aspen estamos indo buscar aquela alma que fiquei devendo ao Descaltrin, só queria saber se você não queria ir com a gente...
Ele termina a barba e sai do banheiro limpando o rosto.
—Ãhn, não obrigado. –Responde.
Coloco minhas mãos nos bolsos de trás.
—Tá.
Saio do quarto e encontro Aspen nos portões do Palácio para sairmos.
—Ele não quis vir?
—Não. –Respondo.
—Por que?
—Não sei...
Entramos num portal qualquer e saímos numa cidade que eu não conheço.
Rodamos a cidade até que Aspen encontrou um homem vagabundo e drogado num beco. Ele deu um soco no cara para fazê-lo desmaiar.
Levamos ele para o Mundo das Sombras.
—Descaltrin! Nax inyvoc bukz! ( Descaltrin! Eu invoco você! )
Um buraco se abre e dele saem uma fumaça com um cheiro horrível e a nossa amada caveira.
—Catho bdju vapae! (Até que enfim!)—Descaltrin diz.
—Fadinior kapul vik alx. ( Aqui está sua alma. ) –Aspen apresenta o drogado ao Descaltrin.
O demônio faz uma cara de nojo.
—Bdju alx wixplu. (Que alma podre.) –Critica.
—Nax nak bdju rayo e alx jija bukz, pa hur had naid wixplu, naid flapyrein. (Eu disse que traria uma alma pra você, se é ou não podre, não importa.) –Me defendo e o ele grunhi.
—Agnopy! (Ótimo!)
O Descaltrin pega a alma dele e vai embora.
—Dever comprido. –Aspen fala.
Assinto.
Começamos nossa caminhada de volta ao palácio.
—Que bom que Damon não veio. –Ele diz sorrindo.
Franzo minha testa.
—Por que? –Pergunto.
—Porque eu não is poder fazer isso.
Num movimento rápido Aspen entra na minha frente me impedindo de andar e cola nossos lábios já pedindo passagem com a língua.
Antes que eu caia no buraco negro que é o beijo de Aspen Verlok, Damon me vem a cabeça. Dou um passo para trás rompendo o beijo.
—É por isso que ele está estranho comigo!
Aspen se assusta com o movimento brusco.
—E daí?
Ignorando a pergunta dele penso em todas as vezes dessa semana em que eu e Aspen “ficamos”... Nenhuma vez foi perto dele...
—Mas, nós não ficamos nenhuma vez perto dele... –Balanço minha cabeça.
Aspen bufa e rola os olhos.
—Ele não é idiota, Arya. –Diz como se fosse óbvio. –Os olhares nos treinamentos, as indiretas e risadinhas, os chupões no seu pescoço... Achou mesmo que ele não tinha percebido?
—Achei... Eu... Não, não parei pra pensar nisso...
Ele bufa de novo.
—Além do mais, ele deve estar tendo alucinações, já estamos aqui a um bom tempo...
Franzo a testa de novo.
—Eu também não pensei nisso... –Lembro da sensação que senti ao vê-lo beijar Stephanie e de quando as serviçais se ofereceram a ele.
Agora é a vez dele franzir a testa.
—Pensou em que nessa última semana?
Em impedir Viggo de entrar na minha cabeça, penso, mas não digo.
Balanço a cabeça.
—Vamos logo. –Digo passando ao seu lado pra continuar andando mas ele coloca as mãos na minha cintura me impedindo.
—E meu beijo? –Diz com um sorriso de molhar qualquer calcinha.
—Ãhn. –Tiro suas mãos da minha cintura. –Acho melhor pararmos com isso por um tempo, ok?
Sr. Molho Calcinhas estreita os olhos, depois solta o ar e balança a cabeça dando dois passos pra longe de mim.
—Por que o fato de ele ter ciúmes incomoda tanto você? –Ele bufa bravo. –Você nem sequer gosta dele!
Respiro fundo.
—Ele é meu noivo. –Afirmo. –Eu também sinto ciúmes dele com outras garotas. Talvez seja melhor se nosso “rolo” acabasse antes.
Engulo em seco mas mantenho a expressão fria.
Ele me olha incrédulo.
—Então é isso que eu sou? Parte de um “rolo”?
Não! Não é! Você é muito mais! Quero dizer, mas me calo porque sei que se eu disser só vai ser pior.
—Bem, quando na festa de formatura eu disse a Damon que tínhamos um “rolo”, você não se incomodou com o termo. –Digo tentando ser delicada.
Ele dá uma risada de escárnio e me olha bem nos olhos e num tom baixo diz:
—Você é a pessoa mais fria que eu conheço.
Se ele tivesse cravado uma adaga no peito teria doído menos. Desvio meu olhar pra não chorar.
Ele continua andando e eu o acompanho. Não trocamos mais nenhuma palavra durante o caminho.
Quando chegamos no Palácio entramos pela porta dos fundos que dá na cozinha. Ele entra primeiro, mas ao invés de entrar mesmo ele se vira e me puxa pela cintura.
—Só um último. –Diz me prensando contra a parede da cozinha e investindo sua língua na minha boca.
Tento empurrá-lo, mas ele segura meus braços prendendo-os acima da minha cabeça.
“Só um último.” Sigo essa linha de pensamento e correspondo ao beijo.
Aspen desce seus beijos pelo meu pescoço e eu fecho os olhos quase gemendo.
—Sabe, deveriam procurar um quarto pra se comerem de uma vez.
Uma voz que conheço bem.
Abro meus olhos e encontro um par de olhos dourados cheios de raiva me fitando do outro lado da cozinha.
Engulo em seco.
Aspen da uma risada perto do meu pescoço me dando arrepios.
—Talvez seja uma boa ideia... O que você acha Arya?
Estou prestes a dizer poucas e boas pra ele, quando ele força o quadril dele contra o meu me deixando sentir sua ereção. E eu acabo dando um gemido involuntário.
Vejo Damon balançar a cabeça e sair da cozinha. Aspen finalmente me solta.
—Você sabia que ele estava aqui.
Ele encolhe os ombros chegando perto da porta da cozinha.
Ciúmes... penso e sorrio.
Corro e me atravesso na frente dele. Passo meus braços pelo seu pescoço e o trago para mim selando nossos lábios. Que ele pensasse o que quisesse sobre esse ato.
Aspen da um pequeno gemido e passando os braços pela minha cintura, me levanta me incentivando a passar minhas pernas pelo seu tronco, assim faço.
Nos beijamos com urgência por um tempo e paramos com selinhos.
Ele segura minha cabeça com as duas mãos juntando nossas testas.
—Eu... –Começa a dizer alguma coisa, mas balança a cabeça como se achasse melhor não dizer.
Me tira de seu colo e me da um beijo casto na testa antes de sair da cozinha.
Penso em ir procurar Damon pra conversar com ele, mas resolvo que é melhor esperar as coisas esfriarem.
***
Acordo com uma dor de cabeça da porra. Faço a higiene matinal e uma maquiagem básica, como todos os dias de manhã.
Desço para tomar café, mas não encontro ninguém na mesa.
—Rosa! –Chamo.
—Sim, Srta Arya.
—Bom dia! Você sabe onde Damon e Aspen estão?
—Bom dia! Damon tomou café a um bom tempo e está na Sala de Luta, já Aspen eu não vi Srta. –Me responde.
Franzo a testa.
—Certo, obrigada Rosa.
Tomo café e vou para a Sala de Luta. As portas estão abertas, Damon está sem camisa socando um “saco de pancada".
—Oi. –Digo tímida.
—Oi. –Seco como sempre.
Pego duas espadas e ofereço uma a Damon.
Ele para de socar o saco e pega a espada.
Começamos uma luta acirrada.
Em um momento em que estamos andando em círculo, apenas nos encarando aproveito para começar uma conversa.
—Desculpe por essa última semana. –Peço.
Ele investe com a lâmina nas minhas pernas, mas desvio. Batemos as espadas mais umas vezes.
—Não vai dizer nada? –Pergunto.
Ele bufa e me acerta um corte no braço.
—O que quer que eu diga? –Diz abaixando a espada.
—Qualquer coisa. E que pare de me tratar tão mal.
Ele sorri irônico.
—Talvez eu parasse de te tratar tão mal, se você parasse de se comer com o seu amiguinho todo o maldito dia! Talvez eu parasse de te tratar tão mal, se vocês parassem de trocar olhares quentes o tempo inteiro. Talvez eu parasse de te tratar mal se você minha noiva parasse de aparecer com novos chupões todos os dias! –Diz empurrando meu cabelo para o lado e deixando meu pescoço livre. -Talvez eu parasse de te tratar tão mal se você me tratasse como qualquer outra coisa se não como o chifrado como está me tratando agora!
Isso sim foi um tapa na cara.
—Eu disse pra você que tínhamos um rolo e que acabaria quando casássemos. –Digo.
—Quando casarmos?! –Ele grita. –Ótimo! Se demorarmos 3 anos pra casar, você vai ficar 3 anos se comendo com ele debaixo do meu nariz?
—Eu... –Ele me corta.
—Como caralhos você se sentiria se eu estivesse ficando com aquela ruiva que se ofereceu aquele dia? Como você se sentiria se eu aparecesse todo o dia com chupões e arranhões pelo corpo? Como Arya?! –Ele abre os braços e os deixa cair de novo.—Traída. Trocada. Chifrada.—Responde a própria pergunta chegando bem perto de mim. –É assim que você se sentiria.
Fico quieta.
—Então, você se mete na minha vida, me força a casar com você, a abrir mão de um relacionamento antigo que eu tinha, pra isso?! –Ele grita e joga a espada aos meus pés. –Tudo isso, pra me tratar assim?!
Mais um tapa.
—Eu não gosto do Aspen, Damon. Não passa de um rolo! –Tento explicar.
—SEU CÚ! —Ele explode. –Seu cú Arya Larke! Você gosta dele! Qualquer pessoa que passe mais de um dia com vocês consegue ver isso! Os olhares, a preocupação, a química! Mas você é tão orgulhosa, que não tem coragem de assumir isso nem pra si própria! Ele é apaixonado por você!
Arregalo meus olhos. Ele despeja tudo isso sobre mim. Como se estivesse tudo na cara. Em poucos meses Damon me conhece melhor do que pessoas que conviveram comigo desde pequena.
—Você esconde dele! Você coloca uma máscara! Tudo como uma encenação. E toda essa porra, porque no fundo, você tem medo! Medo de ter uma fraqueza que não seja você! Mas amar/gostar não é fraqueza, Arya!
—Eu não quero enchê-lo com expectativas que no fim não vão poder ser correspondidas Damon! Ele pode passar o resto da vida me amando... Eu nunca poderia ficar com ele!
Ele cruza os braços.
—Aspen não é um rolo. E eu sinto muito por ter de se casar comigo e não poder ter um relacionamento com ele. Mas por favor, não me trate assim.
—Desculpe. –Murmuro.
Ele toma uma de minhas mãos e da um beijo nela, então volta a socar o saco.
***
Na hora do almoço, meu pai aparece na porta do Palácio.
—Oba! Cheguei na hora certa! –Diz olhando para a mesa e me dando um abraço.
—O que faz aqui? –Pergunto.
—Apesar de só terem se passado algumas horas lá... Eu vi que estavam aqui a uma semana e só queria saber porque... –Me da um olhar interrogativo.
—Vamos comer primeiro... –Digo.
Depois de comer explico cada detalhe e ele me enche de perguntas.
—Mas se você e Damon não estão apaixonados, como vão achar os cristais?
—Não sei. –Respondo.
Ele passa a mão no rosto como se estivesse cansado.
—Eu já suspeitava de alguma coisa... Logo que vocês saíram Viggo pediu minha ajuda para encontrar Bakush... –Ele conta.
Arregalo os olhos.
—Me diga que você não ajudou!
—Que escolha eu tenho, Arya?! Já estou na berlinda com ele graças ao acordo do casamento...
—Então ele já encontrou Bakush? –Aspen pergunta.
—Ele já deve estar a caminho da casa dele.
—Ele vai matá-lo... –Afirmo.
—Vai, mas não antes de tirar informações... –Damon se pronuncia.
—Como você sabia onde Bakush estava? –Pergunto.
—Eu sei onde muitas pessoas se escondem Arya.
—Podíamos tentar salvar Bakush. –Damon da a ideia.
—Viggo irá atrás de você e Arya se forem para o mundo normal.
—Como assim?
Fito meu pai.
—Ele já sabe que vocês estão aqui e que estão tramando alguma coisa... Se formos pra lá ele vai querer caçar vocês.
—Viggo não viu Aspen...
—Hey! –Damon grita. –Como caralhos Viggo sabe de tudo isso?
—Podia ter me dito que ele estava tentando entrar na sua cabeça. –Aspen reclama.
—Ah é... E como exatamente isso ajudaria? –Digo.
—Damon, a Arya tem uma conexão com Viggo. É muita coisa pra explicar, mas ele consegue ter acesso a algumas coisas da cabeça dela, ler alguns pensamentos, ver lembranças até sentir alguns sentimentos... é por isso... –Meu pai explica.
—Caralho... –Ele murmura.
Encaro Aspen por um momento.
—Você tem certeza de que Viggo não sabe que Aspen está metido nessa? –Meu pai me pergunta.
—Tenho.
—Então eu vou. –Aspen diz.
—Mas você não pode ir... Precisa de dois membros do Reino Vermelho pra teletransportar uma pessoa para as profundezas do Mundo das Sombras... –Digo.
—Se Bakush morrer nós vamos perder nossos poderes de qualquer forma... Precisamos dele... -Damon lembra.
—Esqueçam... –Diz meu pai. –Vou dar um jeito de garantir que ele não morra... Mas vai ser torturado de qualquer forma e Viggo vai conseguir as informações.
—Não tem problema... –Digo. –Lidamos com isso depois... Só precisamos que ele não morra...
Fale com o autor