O Reino Vermelho

16 Um vislumbre do passado e um vislumbre do presente


Arya

Meu pai vai embora logo após nossa discussão sobre Bakush. Ele disse que acharia uma maneira de salva-lo, mas honestamente estou com medo de que ele não consiga.

—Quando nós vamos para as profundezas do Mundo das Sombras? –Aspen me pergunta.

—Ãnh... Eu... –Estreito meus olhos. –A onde você estava hoje de manhã?

Ele bufa.

—Isso importa?

—Sim importa. –O pressiono.

Ele rola os olhos e me dá ás costas indo em direção ao quarto dele.

—Amanhã. –Respondo sua pergunta inicial enquanto ele resmunga alguma coisa que não entendo.

Damon cruza os braços.

—Você está indo contra o que Bakush nos disse. “E se Damon e Arya não amar um ao outro, nada dará certo.”—Ele repete a fala de Bakush.

—Qual é a garantia que temos de que algum dia iremos nos amar Damon? –Questiono. –Podem levar semanas ou anos ou pode ser que simplesmente nunca consigamos fazer isso.

—Como pode dizer isso? Nós nem sequer tentamos! Nem sequer nos conhecemos bem...

Respiro fundo.

—Eu quero pelo menos tentar conseguir os cristais ok?

—Tudo gira em volta de você Arya! –Ele se altera. –Alguma vez já parou pra me perguntar o que eu quero? Porque eu não sei se você sabe, mas essa porra toda não inclui só você!

—E o que é que você quer Damon? –Me altero também. –Quer se apaixonar por mim e quer que eu me apaixone por você como num conto de fadas?! Porque eu não quero isso.

Ele inclina a cabeça pó lado me observando como um animal prestes a dar o bote.

—Então é disso que se trata? Você...

—Com licença. –Rosa o interrompe, graças aos deuses. –Eu não quero interromper, mas vocês estão assustando a filha recém nascida de uma das empregadas que está aqui ao lado.

Damon a ignora e sai da sala em que estávamos.

—Desculpe Rosa. Não percebi que estávamos falando tão alto.

—Imagine... –Diz se retirando. –Eu que peço desculpas.

Passei o resto da tarde com Damon, que a cada 5 minutos tinha uma visão alucinógena. Eu estava o ensinando sobre coisas que podíamos encontrar nas profundezas e tentando achar relatos da Guerra Imortales, quando os Possuidores Imortais foram extintos.

Nesse momento ele está lendo um livro chamado Espíritos, Corpos e Almas amaldiçoadas na Guerra Imortales, enquanto eu leio um tão velho que não tem nem a capa com nome.

—Olha só. –Diz Damon me mostrando o livro. –Aqui diz que essa tal de Caroline Westing era uma Possuidora Imortal e hoje é um corpo amaldiçoado.

Leio as informações sobre ela.

“Caroline Westing,

Princesa Azul.

1711-1733 (22 anos)

Causa da morte: Facadas

Amaldiçoada com a Maldição do Corpo Eterno.

O Poço da Escuridão Infinita.”

Sorrio maliciosamente para ele que me olha como se eu estivesse louca.

Me levanto da mesa onde estamos e peço para que Damon me siga para a parte de trás do palácio, onde damos de cara com enormes portões pretos, de textura parecida com gelo, com pequenos realces de vermelho e um símbolo chamado Triskle.

—Eu já vi esse símbolo. –Damon diz.

Levanto meu pulso esquerdo para que ele preste atenção na minha pequena tatuagem que cobre uma cicatriz de quando passei por uma tortura onde cortaram meus pulsos.

—Ah... Foi daí. –Fala passando o polegar sob meu pulso.

—O Triskle é um símbolo muito antigo, que pode significar diversas coisas, sendo cada “perna” dele uma delas. –Explico. –No caso desses portões significam “vida, morte e pós-morte”. Estamos na frente de um cemitério do Ciclo Negro. Já foi a algum? –Pergunto.

Não existem cadáveres nos cemitérios do Ciclo Negro, afinal quando morremos nos transformamos em pó ou num fantasma, espírito coisa assim, mas existem túmulos feitos como representação de pessoas muito importantes e queridas que se foram. Além de alguns amaldiçoados.

—Já, já fui. –Responde. -E o que significa para você? –Eu não entendo fazendo uma careta. –O Triskle. O que significa para você?

O fito por um segundo.

—Céu, terra e inferno. –Respondo. –As pessoas vivem num dilema de decidir qual deles é o melhor, qual é o pior, qual é o mais justo, quem vai pra qual... Que o céu é o foda, o inferno é uma bosta e a terra é só a terra... Eu só quero achar um equilíbrio entre todos eles. Faz sentido ou isso só me faz parecer louca?

Ele sorri.

—Faz sentindo Arya.

Coloco minha palma direita no meio do símbolo para ativá-lo e abrir os portões. Puxo Damon para dentro.

O cemitério é enorme, dez fileiras com sabe deus quantos túmulos cada uma. Andamos pelo meio dos túmulos até chegar no final, onde se localizam um poço preto feito de pedras antigas tapado com uma pedra redonda e achatada para que o que há ali não saia e a maior tumba de todas, erguida por quatro colunas pretas.

Peço ajuda para remover a pedra/tampa do poço.

—O que tem aqui? –Damon pergunta desconfiado.

—É O Poço da Escuridão Infinita. – Digo sabendo que ele já ouviu falar. Ele ergue a sobrancelha esquerda me olhando com cara de desconfiado. Rolo os olhos. –Os amaldiçoados não vão nos atacar...

Ele arregaça as mangas da camisa azul que esta usando e abre o poço sozinho. Não posso deixar de notar seus músculos fortes se tencionando conforme ele faz força.

Logo que a tampa sai, gritos de desespero enchem nossos ouvidos. Damon faz uma careta.

—E agora? –Me pergunta.

Me debruço na borda do poço para encarar a escuridão.

—Vamos invocar Caroline Westing. –Respondo sorrindo. –Quando o invocarmos ele vai ser o único que conseguirá sair para conversar com a gente.

—Simples assim? É só invocar? –Responde.

—Aham.

Estendo minhas mãos para ele que está do lado oposto do poço. Ele as pega.

Caroline Westing niwik inyvoc bukz! (Caroline nós invocamos você!) –Digo.

Solto as mãos de Damon e uma fumaça preta começa a sair do Poço. Logo, duas mãos femininas meio podres com ferimentos e unhas quebradas, se agarram á borda de pedras, Caroline se impulsiona para cima e se senta na mesma.

Ela aparenta ser uma garota de mais ou menos 16 anos, apesar de ter 22, já que aos 16 os Possuidores Imortais param de envelhecer. Extremamente magra, cabelos curtos, loira de olhos vermelhos, como os meus quando uso magia. Vestida com um vestido rosa claro bem antigo, poderia ser facilmente confundida com uma boneca de tamanho real, se não fossem os ferimentos por todo o corpo e a carne meio verde apodrecida.

Engulo em seco tal como Damon.

—Kipap Caroline! Nax raor Arya a hisy raor Damon. (Olá Caroline! Eu sou Arya e ele é Damon.) -Nos apresento. –Niwik walkap bukaz lapyll. (Nós queremos saber sua história.)

Pa bukz xaip. (Se você puder.) –Damon adiciona.

Ela nos olha com cara de triste e começa sua história.

Nos conta que ela era uma Possuidora Imortal, a filha do Rei Azul, que na época, era o maior rei do Ciclo Negro.

Em 1728 na Guerra Imortales, ela foi aprisionada pelo pai na masmorra do Castelo Azul para que caso todos os outros fossem extintos, os guardas do palácio escoltassem ela até um lugar seguro e secreto ainda pudesse ter uma chance de continuar com a linhagem Imortal. O Rei Azul armou a morte da filha quando a escondeu para que ninguém suspeitasse de nada.

Ela passou 3 anos e 5 meses presa, sem ver a luz do sol, sem ver a mãe e o pai, sem ver a chuva ou sentir o vento no rosto, então um príncipe do Reino Negro se infiltrou no castelo a fim de achar pontos fracos do Rei Azul, e quando a viu se apaixonou a primeira vista por ela e a convenceu a ir com ele para o Castelo Negro com a promessa de cuidar dela já que o pai não fazia isso.

Caroline não sabia ao certo qual Reino era o causador da guerra, nem quais Reinos estavam a favor da morte aos Possuidores Imortais e quais não estavam, só sabia que estavam numa guerra civil, onde Possuidores que fizeram uma cagada perderam a imortalidade não queriam que ninguém mais a tivesse. Naquela época as mulheres eram tratadas como lixo, ninguém lhes dava muitas explicações.

O príncipe, chamado Filipe, levou-a até o Castelo Negro, e escondendo-a do pai, (Como diz Damon, sempre há pessoas dispostas a trair o Rei dentro de um Palácio) causador da guerra segundo o que Filipe explicou, cuidou dela durante 11 meses, eles se apaixonaram, ela engravidou e Filipe já estava pensando em uma maneira de derrotar o pai a fim de acabar com a guerra e se casar formalmente com Caroline.

Próximo ao dia do parto ela começou a sentir contrações muito fortes, em uma dessas contrações acabou gritando de dor e o Rei, que estava passando em frente ao quarto onde ela estava escutou e entrou no quarto.

Quando a viu, mandou matá-la imediatamente, mas Filipe implorou ao pai que não o fizesse, explicou toda a história, que a amava, que Caroline carregava um filho seu, o Rei depois de processar as informações simplesmente sorriu e disse ao filho que tinha feito a melhor jogada da Guerra.

O filho o olhou confuso e o rei bufou sentando-se para explicar. “A garota terá um filho Imortal, afinal, ela é imortal e esse e os próximos filhos de vocês serão todos Imortais, então a guerra continua, vamos acabar com todos os Possuidores imortais, no entanto, nossa família formará o Reino mais poderoso, porque no fim da guerra os mais poderosos estarão aqui, na linhagem Negra”.

Filipe e Caroline não sabiam se respiravam aliviados ou se temiam pelo o que poderia acontecer com o Rei Negro no poder de tudo. Depois de conversarem muito, Filipe decidiu que ia ficar tudo bem, mas Caroline tinha suas dúvidas, durante todo o tempo em que ficou ali naquele palácio viu o quão o Rei Negro era terrível. Sim, seu pai também era, assim como todos os pais do Ciclo Negro, mas esse era o pior.

Ela então com medo do que poderia acontecer com todo o Ciclo se o Reino Negro fosse mais poderoso do que já era, subornou um guarda com riquezas eu havia ganhado do “marido”, a mandar uma carta para seu pai.

Esse por sua vez fez uma armadilha para que a maior parte do exército Negro se afastasse do Castelo onde sua filha estava e atacou o mesmo.

O Rei não estava lá, a Rainha foi estuprada pelo guerreiro que a encontrou e enforcada em passa pública horas depois, Filipe foi morto por Caroline antes que seu pai chegasse a encontra-los, ela o fez para que ele não sofresse o que ela sabia que sofreria, o pai obrigou um doutor a fazer o aborto do menino que estava nela, ele nasceu vivo e foi queimado também em praça pública, e ela... foi torturada por 1 ano e 2 meses de diversas maneiras e morta a facadas pelo próprio pai, que amaldiçoou sua pós-morte com a Maldição do Corpo Eterno e depois jogada pelo Rei Vermelho da época, no Poço onde se encontra.

Todos eles passaram por tudo isso para que o Reino Negro não dominasse o Ciclo como domina hoje, e tudo foi em vão.

A essa altura, ela já tinha chorado litros e litros... Estou de cabeça baixa, total e completamente impactada com a história dela.

—Dainit Carol. (Obrigada Carol). –Damon diz enquanto ela se afunda no Poço de novo.

Ele recoloca a tampa e ficamos num silêncio mortal.

Me sento com as costas apoiadas nas pedras do Poço.

—Horrível. –Comento.

Ele se senta do meu lado assentindo.

—Ela foi muito corajosa matando Filipe... Não acho que eu teria coragem de matar alguém que eu ame, mesmo que fosse o melhor pra essa pessoa...

—Eu também não teria. –Concordo. Ele solta o ar de forma que não sei se é uma risada ou um bufo.

—E você ama alguém? –Me olha de forma acusatória.

—Eu amo minha família Damon. –Retruco.

—Morreria por eles? –Diz me fitando com aqueles olhos despidores de armadura.

Bufo me levantando e indo em direção á saída do cemitério enquanto ele resmunga e ri.

Acordo com batidas nervosas na porta do meu quarto. Resmungo alto.

—Que foi?!

—Damon acha que é melhor irmos mais cedo. –Aspen diz.

Rolo meus olhos. Me lembrando de nossa pequena discussão de ontem.

—Ah, que bom que ele acha. – Digo sendo hipócrita. Levanto me espreguiçando e abro a porta. –Já desço. –Digo.

Depois de pegar algumas garrafas de água, kit de primeiros socorros, barras de cereal e sanduíches, começamos nossa jornada.

Passamos três dias andando pelo labirinto, parando apenas para comer, descansar e dormir. A comida que havíamos pegado acabou ontem de manhã e vez ou outra entrávamos num portal qualquer para achar ou comprar comida.

Agora estamos andando por uma névoa sem enxergar nem sequer um palmo a frente dos olhos, sinal de que estamos próximos.

Logo essa névoa começa a baixar e damos de encontro com um abismo. Pego uma pedra próxima de onde estávamos taco com força no mesmo. Aspen e Damon aproximam os ouvidos da beirada para saber se é fundo, afinal se não fosse poderíamos tentar descer.

Ficamos uns minutos em silêncio.

—Nada. –Diz Damon balançando a cabeça. –É muito fundo.

—Será que você não consegue nos transformar em sombras e nos levar para o outro lado Damon? –Aspen pergunta cutucando-o.

—Acredito que sim. –Responde.

Abro a boca para me pronunciar, mas escuto sussurros do abismo e sou tentada a ir para a beirada dar uma olhada.

Várias vozes sussurrando ao mesmo tempo na língua dos mortos. Vejo rostos em desespero, cenas de tortura e sinto uma tristeza enorme e sem sentido me invadir, todas as coisas horríveis que sofri com Viggo de repente passam na minha cabeça. É como se eu pudesse sentir toda a dor e desespero que sentia naquela época.

Me ajoelho ainda mais perto do abismo e sentindo as lágrimas se acumulando na borda de meus olhos tenho o ímpeto desejo de me jogar.

Um dos rostos começa a se aproximar de mim, logo se torna um adolescente de mais ou menos 14 anos, um sorriso diabólico, cabelos negros e olhos tristes. Ele começa a escalar a parede do penhasco e me estendendo sua mão me pede ajuda.

Estreito os olhos, ainda aturdida com a tristeza estendo minha mão direita em direção á dele. Parte do meu cérebro diz que essa é uma decisão completamente idiota, que eu estou em transe, que o garoto está morto e que ele vai me puxar, mas parte dele se rende a tristeza e para o lado emocional da coisa sem pensar em como isso pode me afetar.

A mão dele é gelada como uma pedra de gelo, mas ao mesmo tempo macia como os pelos de um cachorro.

Estou prestes a começar erguer minha mão a fim de ajudá-lo a vir para cima, quando ele me puxa com mais força do que um adolescente de 14 anos jamais teria.

Saio de meu transe e num reflexo ergo meu outro braço para tentar segurar na borda do penhasco, não sou rápida o suficiente, mas Damon com sua mão forte se agarra a minha e me puxa com mais força do que o garoto, que solta minha mão e se agarra minhas pernas.

Damon se agacha na borda do abismo e passa os braços envolta da minha cintura, enquanto me agarro em seus braços força. Olho para baixo onde os espíritos parecem formar uma enorme corrente e agarrando as minhas pernas, como se Damon e eles estivessem jogando cabo de guerra e eu fosse a corda.

—Aspen! Fique longe do abismo seu imbecil da porra! –Damon grita.

Viro minha cabeça de forma a olhar para cima novamente. Sinto um dos espíritos arrancar meu tênis do pé direito, logo depois ele arranca a meia e lambe toda a extensão do meu pé, e mais rápido do que eu possa pensar em sentir nojo, me morde com muita força.

Grito cravando minhas unhas nos braços de Damon, que me segura com um braço só e começa a atacar os espíritos. Quando a maioria deles para de puxar minha perna, Damon me puxa com força.

Tropeçando nos próprios pés, ele cai com tudo me derrubando por cima dele. Todas as partes dos nossos corpos estão grudadas com exceção das nossas bocas.

Eu estou ofegante.

Ele está ofegante.

Suas mãos quentes estão sob minha pele quente e nua já que minha camisa subiu um pouco enquanto ele me puxava. Embriagada com sua respiração, murmuro um obrigada quase inaudível.

Ele sorri e desliza suas mãos pelas minhas costas me fazendo leves cócegas.

—De nada. –Sussurra.

Seu olhar desce de meus olhos para minha boca e eu também desço o meu para a boca dele que está levemente aberta por conta do cansaço dando-o um ar sexy.

Antes que qualquer um de nós faça mais alguma coisa, Aspen faz um som com a garganta para chamar nossa atenção.

Damon balança a cabeça e eu me apoio em seu peito largo para me levantar.

—Tá, o que... –Aspen é interrompido por um homem que surge do nada coloca uma mão no ombro dele.

Arregalo meus olhos já sacando minhas adagas e Aspen tenta dar um soco no rosto do homem, no entanto, sua mão passa diretamente pelo mesmo.

—Não estou aqui para machucá-los. –Diz o homem levantando as mãos em forma de paz. –Sou o Guardião do Abismo do Sofrimento. Vou ajudá-los a passar se for isso o que desejam.

—Qual é o seu nome? –Damon pergunta ríspido.

Tronhik. –Responde o Guardião.

—Certo e como podemos passar? –Pergunto.

—Os dois Possuidores Vermelhos ajudarão o Possuidor Roxo a passar, mas por serem Possuidores tão poderosos, apenas dois de vocês poderão continuar sua jornada nas Profundezas enquanto o outro fica aqui e espera a volta dos que foram. —Tronhik explica.

Bufo. Será que pelo menos uma vez na vida o Mundo das Sombras não poderia deixar de lado suas pegadinhas?

—Achei que já que precisava-se de dois Vermelhos para ajudar um outro a passar todos pudessem permanecer do outro lado. –Resmungo e o Guardião balança a cabeça em sinal de negação.

-Vocês dois vão para lá e eu fico aqui. –Aspen diz.

Eu e Damon assentimos. Pegar os cristais tem a ver comigo e Damon.

O Guardião estala os dedos e o começo de uma enorme ponte preta aparece.

—A cada linha branca que atravessarem dessa ponte o Mundo das Sombras pedirá algo em troca, cada hora de um de vocês. São três linhas até o final onde haverá um portal quebrado, precisam arranjar uma maneira de passar. -Franzimos a testa simultaneamente. –Alguma pergunta?

Balanço a cabeça e eles murmuram que não.

Nos dirigimos a ponte. Eu vou na frente, seguida por Damon e Aspen atrás dele. Cerca de 10 minutos depois chegamos a primeira linha branca.

Respiro fundo e atravesso sem problemas.

Aspen

Após Arya atravessar, Damon também atravessa sem problemas.

Na minha vez sou impedido de atravessar por uma barreira e uma voz maligna.

—“UMA MEMÓRIA, ESSE É O PREÇO”

Por um momento penso que terei direito de escolher qual memória vou lhe dar, mas então sinto algo invadindo minha mente, revirando todas as minhas lembranças e memórias até finalmente “puxar” uma.

“Dia 19 de janeiro de três anos atrás, Arya tinha 16 anos e eu 18. Estávamos na praia sentados na sombra de um coqueiro observando o mar.

Eu estava com um calção preto, sem camisa e todo molhado, pois tinha acabado de voltar do mar. Estava observando ela.

Shorts jeans claro, com a parte de cima do biquíni num tom de verde piscina, os cabelos ruivos soltos ao vento, de olhos fechados tendo um momento de paz e um pequeno sorriso que entregava que ela sabia que estava sendo observada. Linda.

Ela abre um dos olhos e me encara.

—O que foi?

Sorrio.

—Nada.

Ficamos na praia até o sol começar a se pôr.

—Quem chegar até aquele coqueiro, –Digo apontando ao longe. –ganha alguma coisa do outro.

Ela me fita estreitando os olhos, com um sorriso malicioso como se tivesse pensado no que queria de mim, me deixando curioso.

—Um, dois, três... Já! –Grito.

Ela sempre odiou correr, e eu, sempre adorei, então é óbvio que acabei ganhando. Sorrio para ela ofegante.

—Quero saber o que ia pedir pra mim se tivesse ganhado. –Digo.

Ela engole em seco.

—Não. –Responde andando em direção a casa alugada onde estávamos.

Corro atrás dela a segurando pela cintura impedindo-a de continuar.

—Me diz o que. –Insisto.

—Não. –Diz sorrindo.

A prenso contra o tronco de um coqueiro e começo a fazer cócegas nela.

—Para... porra! –Diz rindo.

Eu paro.

—Fala. –Repito.

Ela desvia o olhar do meu e engole em seco de novo.

—Eu... –Semicerro os olhos. –Eu ia pedir para você me beijar. –Diz ainda sem me olhar.

Arregalo os olhos e pisco várias vezes.

Me aproximo mais dela juntando nossos troncos. É a minha vez de engolir em seco.

Levo minha mão até seu queixo fazendo-a olhar para mim.

—Por quê? –Sussurro.

Ela encaixa seu olhar no meu e engole em seco de novo. Sei que ela não vai me dizer o porquê. Ela é Arya Larke egoísta e orgulhosa demais para isso.

Coloco cada uma de minhas mãos de um lado da cabeça dela e a puxo para mim selando nossos lábios.

Ela solta um gemidinho involuntário e passa suas mãos pelo meu pescoço, para então fazer algo que realmente me surpreendeu ela força sua língua contra meus lábios pedindo para aprofundar o beijo –com certeza não era nova naquilo- e eu deixo.

Nossas línguas brincam uma com a outra enquanto eu desço um de meus braços até sua cintura explorando aquela área nua de uma forma que não havia explorado antes.

Rompo o beijo pela falta de ar e descanso minha cabeça na volta do seu pescoço liberando minha respiração ofegante no ouvida dela. Suas mãos exploram meu tórax e abdômen com desejo.

Nosso primeiro beijo, o melhor deles”

Atravesso a linha e a última coisa de que me lembro é de uma voz maligna ter me pedido uma memória e sinto um vazio que não sei explicar.

Damon

Andamos mais alguns minutos até encontrar a segunda linha.

Aspen foi o primeiro a atravessar. Arya foi em seguida. Quando minha vez chegou, uma barreira invisível me impediu e uma voz masculina diabólica disse:

—“UM SEGREDO, ESSE É O PREÇO”

Diversos segredos passaram pela minha cabeça, mas não porque eu queria e sim porque alguma coisa está mexendo neles.

“Eu gosto de Arya Larke, não sei explicar porque senti tanta atração por ela desde o dia em que a conheci, só sei que sinto algo grande por ela e não entendo isso”.

Eu havia admitido isso para mim mesmo em voz alta alguns dias atrás enquanto tentava pegar no sono e não conseguia.

A voz ecoa em minha cabeça novamente.

—“QUANDO VOCÊ MAIS DESEJAR ESCONDER ESSE SEGREDO, ELE SAÍRA DE SUA BOCA SEM QUE VOCÊ TENHA CONTROLE DE SUAS PALAVRAS”.

Engulo em seco e atravesso a linha.

Arya

Na terceira linha, como era de se esperar, foi minha vez de não conseguir passar. Uma voz masculina e maligna diz:

—“VISLUMBRE O SEU PASSADO, ESSE É O PREÇO”

Sou tomada por uma visão.

“Estou na sala de uma casa enorme e linda. Pelas janelas vejo que o dia lá fora está bem ensolarado.

Começo a andar pela casa até chegar na cozinha, logo na entrada, dou de cara com o Aspen do futuro que está bebendo uma cerveja. Tento falar com ele, mas ele não me vê e minha voz não sai.

Mais adentro da cozinha vejo o Damon do futuro sentado envolta da ilha, também bebendo uma cerveja, tento cutuca-lo, mas minha mão passa direto por ele. De repente foco em sua mão esquerda. Uma aliança prateada nem muito grossa nem muito fina está em seu dedo anelar.

Perco o fôlego quando a Arya do futuro entra na cozinha por uma porta que acredito levar ao porão.

Imediatamente chego mais perto dela a fim de ver se ela também possui uma aliança. Sim, assim como a de Damon, prateada, mas com alguns detalhes de pedrinhas que acredito serem diamantes. Na mão direita usa um tipo de anel que geralmente é utilizado para noivados, prata com um diamante não muito grande em cima.

Vou atrás do Aspen do futuro que agora saiu da cozinha e foi para o jardim. Encontro-o brincando com uma menininha de mais ou menos cinco anos de idade, eles estão conversando, mas não consigo escutar a conversa. Ela tem cabelos ruivos escuros e olhos azuis acinzentados como eu.

Pisco diversas vezes, sem conseguir controlar as lágrimas que se acumulam em volta dos meus olhos. Minha filha, ela é minha filha.

Como num ímpeto procuro desesperadamente conseguir ver se Aspen também possui uma aliança. Mão esquerda, dedo anelar, aliança prateada.

Me desespero. Com quem eu sou casada? De qual dos dois a menina é filha?

Respiro fundo e corro para dentro da casa novamente. Subo algumas escadas e começo a escancarar todas as portas procurando meu quarto e de meu esposo. Escancaro uma porta onde dois meninos de mais ou menos seis anos e uma menina de também mais ou menos seis anos, estão brincando.

Eles se viram e eu posso ver seus olhos. Um deles tem os olhos dourados e o outro tem olhos verdes. A menina também tem olhos dourados.

Bufo com a respiração entrecortada.

Saio desse quarto e finalmente acho o meu.

Ao lado da cama de casal desarrumada há uma cômoda com um porta retrato onde eu estou vestida de noiva com um sorriso esplêndido para a foto e meu esposo me fita com um sorriso que eu jamais vi ele dar.

Ao lado da porta retrato há um bilhete. Nesse bilhete ele me chama por apelido que eu conheço bem...”

Pisco diversas vezes, estou ofegante, lágrimas molham meu rosto. Do outro lado da barreira, Aspen e Damon me perguntam se eu estou bem.

Antes que eu possa responder e secar as lágrimas a voz maligna ecoa de novo.

—“QUANDO VOCÊ QUISER SABER SE AMA ALGUÉM MAIS DO QUE QUALQUER OUTRA, DIGA A PALAVRA FLYPESD (LIBERTE), SE O RELATO DESTA VISÃO SAIR DE SUA BOCA SEM QUE VOCÊ POSSA CONTROLAR SUAS PALAVRAS, ENTÃO VOCÊ AMA TAL PESSOA MAIS DO QUE TUDO, SE NADA ACONTECER É PORQUE NÃO É SEU MAIOR AMOR. MAS CUIDADO! UMA VEZ QUE DIGA ESTA PALAVRA, O TESTE NÃO FUNCIONARÁ NOVAMENTE”.

Respiro fundo.

—Espere! –Grito para seja lá o que for. –Isso foi real? Realmente será assim o meu futuro?

—“VOCÊ SABERÁ A VERDADE MESMO ANTES DE TUDO O QUE VIU ACONTECER”.

A barreira se desfaz e eu atravesso a linha.

Depois de mais uns dez minutos andando finalmente avistamos o portal.

Ao contrário dos outros que brilham com uma luz azul, esse não passa de uma camada refletora, como um espelho de corpo inteiro.

Chego mais perto coloco minha mão sobre a superfície refletora, Aspen faz o mesmo. É duro, nossas mãos não passam para o outro lado.

Mexemos em totós os lados que conseguíamos ver, invocamos o teletransporte, socamos o portal, fizemos diversos feitiços na língua dos mortos, nada adiantou. Passaram-se duas horas.

Estou cansada, com fome, com vontade de vomitar, com dor de cabeça e dor nas costas.

Solto um grito de raiva e ataco o portal com Magia Negra. Do nada o portal fica negro e o raio que eu mandei atravessa.

Aspen solta uma risada que mais parece um grunhido de raiva.

Sorrio.

—Talvez se enchermos o portal de magia negra ele volte a funcionar normalmente. –Sugiro.

Ele assente.

—Talvez.

Nos preparamos e começamos a mandar magia sem parar. O portal fica todo preto e nossos raios passam direto, mas assim que paramos o portal vira “espelho” novamente.

Bufo frustrada.

Tentamos de novo, e de novo e de novo. Eu até tentei atravessar enquanto mandava magia, mas assim que cheguei perto ele se fechou e a magia refletiu quase acertando Damon e Aspen atrás de mim.

Deito no chão desistindo.

—Acho que eu esgotei minha magia por hoje. –Comento.

Damon chega mais perto e se transforma numa sombra, eu nunca havia visto ninguém fazer isso... Ele parece entrar dentro do portal. Me levanto rapidamente e toco a superfície enquanto ele tenta atravessar.

Sem sucesso ele volta para fora e se transforma em homem de novo.

—Não dá. –Diz ofegante. –Tem uma barreira de Magia Negra do tipo vermelha que eu não consigo atravessar.

Aspen estala a boca.

—E se você entrasse lá e nós jogássemos Magia Negra no portal? Será que você não conseguiria atravessar?

Damon assente.

—Acho que sim.

Franzo a testa.

—Não vai machucar você? –Pergunto.

—Nada além de luz machuca uma sombra. –Responde. –Mas como você vai atravessar?

Olho para Aspen.

—Não sei...

—Eu posso atravessar e quando eu chegar do outro lado te transformo numa sombra e te puxo. –Damon diz.

—Como assim puxa? –Eu e Aspen perguntamos ao mesmo tempo.

—Eu meio que transformo eu e você numa mesma sombra. Então se você estive longe de mim vai ser como se eu te sugasse para mim. –Explica.

Faço cara de desconfiada e ele sorri.

—Não confia nos meus poderes Vossa Alteza? –Me provoca.

Sorrio.

Colocamos a ideia em ação.

Damon realmente conseguiu atravessar.

—Espera! –Grito para Damon.

Aspen olha para mim com carinho.

“-Se cuida ruiva.”

Ele me diz por telepatia. Sorrio triste.

“-Você também.”

Respondo.

—Vai! –Grito para Damon de novo.

Sinto meu corpo começar a dissolver. O mundo a minha volta se torna denso e lento. De repente sou sugada para dentro do portal.

Me sinto como se estivesse no corpo de outra pessoa que se chama Damon. Sendo apenas um, consigo sentir seus sentimentos, pensar como ele, ver as coisas da maneira como ele vê.

Antes que me aprofunde nessa de “ser um só” ele nos separa e nos transforma em humanos.

Respiro fundo e ele sorri.

—Conseguimos. –Dizemos ao mesmo tempo

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.