O Rei e o Valente
1 Tédio e Frio
Notas iniciais
"E enquanto o mundo acaba estarei aqui para segurar a sua mão. Porque você é o meu rei e eu sou o seu valente."
King And Lionheart — Of Monsters And Men
Era noite, na verdade quase madrugada. A neve caia insistentemente há dias, uma grossa camada de gelo deixava tudo branco e gélido, as cores não se faziam presentes naquele lugar há muito tempo. Uma carruagem percorria a estrada à toda velocidade, o máximo que quatro cavalos razoavelmente cansados conseguiriam cavalgar. A estrada traiçoeiramente esburacada se tornava ainda mais perigosa por conta da camada escorregadia de gelo que a cobria.
Estava escuro, escuro até demais. Não se enxergaria com clareza naquele lugar nem se tentasse com todas as suas forças, mas apesar de tudo isso a carruagem continuava a se mover apressadamente, sem saber que um despenhadeiro os aguardava logo à frente. Em um dado momento o senhor que controlava a carroça percebeu o que se aproximava, tentou a todo custo frear os animais, mas foi tudo em vão. Os animais, a carruagem e todos os que nela estavam despencaram rumo à morte.
Dormia pesadamente, apesar de se mexer na cama a todo instante. Cenas que nunca presenciou invadiam seu sonho, nunca as viu de verdade, mas as mesmas imagens insistiam em aparecer todas as noites enquanto dormia, roubando-lhe o sossego. Acordou ofegante, sentando-se na cama. Passou as mãos pela testa, tirando as mechas de cabelo que caiam. O quarto estava completamente escuro, se inclinou para o lado, tateando a mesa de cabeceira em busca do abajur, mas não obteve sucesso. Acabou derrubando um copo de vidro, que se estilhaçou ao bater no chão.
A porta do quarto foi aberta quase imediatamente após o copo ter se quebrado. A luz do corredor inundou o ambiente, obrigando-o a cerrar os olhos.
— Está tudo bem, jovem rei?
— Sim, está. E eu já te disse para não me chamar de jovem rei. – respondeu rispidamente.
O homem alto parado próximo a porta abriu um longo sorriso cínico, ao ouvir as palavras ríspidas do garoto.
— Ora, é apenas uma questão de respeito.
— Não, não é. Só insiste em me chamar assim por que sabe que eu odeio.
O garoto voltou a se deitar, cobrindo o rosto com o cobertor. Tinha a esperança de que aquele homem fosse embora de vez, apesar de saber que isso não iria acontecer. A figura parada próximo a porta entrou no quarto e se aproximou da cama, sentando-se ao lado do garoto.
— O mesmo sonho de novo?
— Sim.
Alguns instantes passaram, o silencio tomava conta do ambiente. Aquele homem continuava sentado na cama, o que começava a causar irritação no garoto.
— Você não vai embora, Sebastian?
— Estou esperando você dormir, jovem rei.
— Talvez eu conseguisse dormir se você não estivesse aqui sentado.
— Só achei que você quisesse companhia nessa noite tão fria, mas parece que não é o caso.
Sebastian se levantou da cama e então se aproximou do garoto, depositando um beijo demorado em sua testa.
— Boa noite, Ciel.
— Já te disse para não fazer isso. – respondeu manhosamente, mesmo não tendo a intenção de soar assim.
— É meu dever cuidar de você. – falou antes de ir em direção a porta.
Ciel quis responder, quis dizer que seu único dever naquele momento era guardar a porta, mas desistiu no meio do caminho. Estava com muito sono e sabia que discussões com aquela pessoa nunca tinham fim, cobriu novamente o rosto e o som da porta batendo foi o ultimo que ouviu antes de adormecer novamente.
Acordou extremamente cedo no outro dia, nunca conseguia dormir até tarde. Às vezes acordava sem ânimo nenhum para sair do quarto, insistia em pegar no sono novamente ou tentava insistentemente ficar na cama, mas raramente conseguia. Levantou da cama se espreguiçando, vestia apenas um camisolão, feito de um tecido fino e quase transparente, as pernas estavam de fora.
Caminhou até a janela e então puxou a cortina vermelha que a cobria. Empurrou o vidro, abrindo-a. Um vento forte invadiu o quarto, estava nevando novamente. Os pelos de seu braço estavam arrepiados, olhou para os grandes pinheiros cobertos de neve e parecia impossível, mas tudo à sua volta estava ainda mais branco do que antes.
— Mais neve, mais frio. – falou em voz alta, se sentindo entediado.
Pensava em se mudar para um lugar mais quente qualquer dia desses. Fechou as janelas, deixando apenas a cortina aberta para que um pouco de luz entrasse no quarto. Escovou os dentes rapidamente, sentindo os dedos congelarem, cobriu-se de roupas, tentando ficar o mais quente possível.
Quando saiu do quarto, o rosto de Sebastian foi a primeira coisa que viu. Não poderia ter arrumado um guarda mais inconveniente do que aquele, pensou. Toda vez que se virava o maldito homem estava lá, preso a ele como se fosse sua própria sombra.
— Você passou a noite aqui?
— Não se preocupe eu dormi por algumas horas.
Quem disse que eu estou preocupado? Foi o que pensou, mas resolveu não falar. Começou a andar pelo corredor, sendo seguido pelo guarda. Desceu as escadas, sentou-se à mesa como de costume. As empregadas começaram a servir o café da manhã imediatamente após terem visto seu rei se sentar.
Sebastian continuava parado em silêncio mantendo certa distancia, vê-lo ali parado e quieto deixava Ciel incomodado.
— Sente-se, Sebastian. – falou, apontando a cadeira que estava à sua frente do outro lado da mesa.
— Não é necessário, jovem rei.
— Sente-se. – repetiu grosseiramente.
O guarda soltou um suspiro desanimado e então se acomodou na cadeira. Sebastian tinha o dom de deixar Ciel irritado, era cínico, respondia a tudo ironicamente e sempre fazia brincadeirinhas sem graça. As empregadas terminaram de colocar os alimentos em cima da mesa, Ciel se pôs a comer e Sebastian fez o mesmo. Após algum tempo de silencio o rei começou a falar.
— Vou andar um pouco pela floresta hoje. – falou, bebendo um pouco de leite quente.
— Não pode... Quer dizer não tem como. Está nevando, será difícil caminhar por lá.
— Isso não me incomoda nenhum pouco, eu não aguento mais isso! Ficar trancafiado nesse castelo frio o dia todo me enche de tédio.
— Tudo bem...
Os dois apenas desistiram de iniciar uma discussão, sabiam que aquela poderia ser mais uma daquelas discussões quase eternas que nunca chegava a um consenso. Continuaram comendo em silencio, Sebastian foi o primeiro a terminar.
— Pretende caminhar muito? – perguntou enquanto se levantava.
— Provavelmente...
— Irei preparar algumas coisas, me espere aqui. Não demorarei.
O guarda saiu apressado deixando Ciel sozinho. Foi em direção a cozinha e pediu que preparassem um cesta com frutas e uma bebida quente, vestiu mais alguns agasalhos, pegou um cobertor e algumas roupas. Voltou para onde Ciel estava e o garoto continuava a comer calmamente.
— Está tudo pronto, Ciel.
— Tudo bem.
Sebastian se acomodou novamente no lugar de antes. Ciel leu algumas páginas de um livro, bebericou seu chá, e um longo tempo se passou até que decidisse que já era hora de partir. Foram rumo a área externa do castelo, fazia muito frio, mas ao menos havia parado de nevar.
Os dois andaram em silencio até os portões do lugar, foram lembrados pelo guarda que lá fora fazia muito frio, como se isso já não fosse bastante perceptível. Ciel andou em silencio, não falou com ninguém, nenhum dos guardas se atreveu a falar nada. E mais do que depressa já estavam fora do castelo, andando pela estrada que levava até a floresta de pinheiros.
Aquele vento frio poderia congelar facilmente qualquer um que não estivesse bem agasalhado e acostumado ao clima da região, mas com todas aquelas roupas que Ciel usava o vento nem chegava a fazer diferença.
— Está muito frio hoje. – Sebastian falou, enquanto colocava mais um par de luvas na mão.
— Você acha? – respondeu calmamente.
— Sim, eu acho. O que te deu para querer sair do castelo justo hoje, Ciel?
— Não sei, acho que apenas tédio.
Andaram por um bom tempo naquela estrada, em silencio durante boa parte do percurso. Ciel olhava em volta se lembrando de coisas que não queria lembrar.
— Será que eles passaram por aqui antes de morrer?
— Seus pais?
Apenas acenou positivamente com a cabeça olhando diretamente nos olhos de Sebastian.
— Não sei, mas acho que não. A carruagem e os corpos foram encontrados em um local totalmente diferente do caminho que deviam estar.
— Verdade... – respondeu suspirando.
Seus pais haviam morrido há quatro anos, mas Ciel se lembrava deles todos os dias, as lembranças eram tão nítidas que às vezes tinha a impressão de que os pais ainda estavam vivos. Voltaram a ficar em silencio, andaram mais um pouco até que se viram em meio a pinheiros. Ciel não gostava de morar em um lugar tão frio, mas os pinheiros e o cheiro que aquela mata exalava, eram uma das poucas coisas que o agradava em seu reino.
Havia um tronco caído no chão, limpou a neve que cobria o local e então se sentou. Respirou fundo tragando o cheiro de natureza que estava presente ali. Sebastian encostou-se ao tronco de uma arvore, ficando de pé.
— Quer mesmo passar o dia aqui?
— Sim.
— O frio não está te incomodando?
— Passei minha vida toda aqui, não tive e ainda não tenho, nenhuma outra escolha a não ser me acostumar com o frio.
Ciel se levantou e então começou a andar novamente, Sebastian se via obrigado a segui-lo. Algum tempo se passou e então chegaram próximo ao lago congelado que Ciel tanto gostava de observar. O garoto andava próximo a borda, tinha medo de escorregar ou de que o gelo cedesse e acabasse se afogando naquela água fria.
— Um garoto de dezessete anos com medo de andar no gelo?
— E o que isso tem haver com idade, idiota?
Sebastian riu descontroladamente da reação de Ciel, achava divertido ver o garoto irritado, na maior parte do tempo tratava o garoto como se fosse apenas um amigo, e não como rei. Ciel continuou a andar, Sebastian ficou parado apenas observando e então alguns barulhos foram ouvidos próximo ao local onde estava, algo similar a passos. Não chegou a perceber que dois ladrões se aproximavam, um deles atacou Sebastian de surpresa enquanto o outro esbarrou em Ciel sem querer, o corpo do garoto bateu com força no gelo do lago, girou parando em cima de um local onde o gelo era mais fino. Ciel tentou levantar, mas era escorregadio demais.
Tudo aconteceu muito rápido, Sebastian tentava se soltar dos bandidos para poder alcançar o rei, mas quando se livrava de um o outro o atacava. Conseguiu se soltar dos bandidos com certa dificuldade pegou um pedaço de madeira que estava caído próximo a eles e acertou um deles na cabeça fazendo com que caísse no chão. Ciel ainda tentava se levantar e em algum momento caiu com tanta força no gelo, que ele se rachou. O garoto sentiu a água fria molhando seu corpo, não sabia nadar, tentou se segurar, mas não conseguiu, acabou afundando.
O outro bandido continuava a atacar Sebastian, que já estava em desespero após ver Ciel caindo dentro do lago. Em um momento de sorte conseguiu acertá-lo na cabeça, abrindo um corte em sua testa, os dois bandidos acabaram desistindo e fugiram. Não conseguia entender o motivo de terem sido atacados assim, afinal não tinham nada de valor. Correu em direção ao lago o mais rápido que pôde, procurou por Ciel na borda do buraco que fora feito no gelo.
Ciel conseguiu se segurar em um pedaço de gelo que estava no fundo, Sebastian o puxou pelos braços. O garoto respirava com dificuldade, estava tremendo descontroladamente, sua pele totalmente pálida e gelada. O guarda o pegou no colo e então andaram calmamente até sair do lago congelado. Deitou o garoto em embaixo de um pinheiro e então pegou a bolsa onde as coisas que havia trazido estavam guardadas.
A respiração de Ciel já começava a se normalizar, Sebastian começou a tirar as roupas molhadas do rei rapidamente. Ciel o olhava com uma expressão de espanto.
— O que... E-está fazendo?
— Tentando te impedir de congelar.
Os vários casacos de Ciel foram retirados, deixando sua pele totalmente descoberta, sem nenhuma peça de roupa. Sebastian olhava cada parte de seu corpo atentamente, às vezes tentava não prestar tanta atenção, mas era impossível. Se pudesse teria acariciado aquela pele, mas sabia que não podia, pelo menos não agora. Pegou as roupas que havia trazido e vestiu em Ciel, havia apenas uma calça e um casaco, ambos feitos de uma grossa lã.
Sentou-se ao lado ao lado do garoto e então o pegou no colo envolvendo-o no cobertor que estava consigo, envolveu seus braços no corpo do garoto, deixando os corpos bem colados, Ciel não sabia como reagir diante daquela situação, ser segurado daquele jeito lhe causava a impressão de ter voltado a ser criança, estava achando tudo meio constrangedor.
— Isso é realmente necessário?
Sebastian sorriu cinicamente como fazia de costume, Ciel teve a impressão de que o guarda estava se aproveitando da situação. Sebastian então se abaixou e novamente o beijou na testa.
— Nada melhor do que calor humano para esquentar esse seu corpo gelado.
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