Notas iniciais
Boa leitura *O*

Ciel continuou parado nos braços de Sebastian por alguns instantes dizendo a si mesmo que só continuava ali por conta do frio. Sebastian olhava o garoto fixamente, estava se divertindo com a situação, isso era inegável. Ciel olhava para frente, evitando os olhares de Sebastian.

— Está melhor, jovem rei?

— S-sim...

— Então acho que já pode se levantar, não é mesmo?

Ciel se sentiu completamente idiota por ter esperado que Sebastian o lembrasse de se levantar dali. Ciel orgulhoso como era se levantou bruscamente, jogando o cobertor em cima de Sebastian. Estava deverás envergonhado, mas jamais admitiria, pensou. Preferia morrer a admitir.

— Obrigado por seus serviços, Sebastian. – falou polidamente, ainda de costas para o guarda.

— Disponha jovem rei.

— Não me chame assim. – falou antes de começar a andar novamente.

Sebastian o seguiu de longe ainda rindo, o garoto apenas andava rumo a lugar nenhum tendo apenas a intenção de manter uma longa distancia entre eles.

— Para onde está indo, Ciel?

— Para o castelo. – respondeu.

— Sabe que por aí não chegará ao castelo?

— Claro que sei! – respondeu, olhando em volta e então mudou de direção.

Estava tão distraído que nem ao menos percebera que estava no caminho errado. Deuses, como se sentia desconfortável naquele momento. Tudo seria mais fácil se eu tivesse outro guarda pessoal, pensou. Poderia mudar de guarda facilmente, caso quisesse. O problema é que não sabia se queria ou não.

Começaram a trilhar a mesma estrada de antes, sem dizer sequer uma palavra. Sebastian apenas assobiava uma canção que deixava Ciel irritado, talvez quisesse evitar aquele silencio insuportável. E para deixar a situação melhor ainda havia começado a nevar outra vez, não era nada demais, mas o suficiente para deixar os cabelos úmidos.

Tentou ignorar a neve e o assobio irritante do guarda. Envolto em pensamentos acabou se lembrando de quando aquele homem irritante começou a servi-lo diretamente. Logo após a misteriosa morte dos pais de Ciel os conselheiros da corte insistiram que o novo rei precisava de mais segurança, e o escolhido para escoltá-lo pessoalmente foi justamente Sebastian, por que o guarda era considerado um dos melhores e mais dedicados naquele ramo. Lembrava-se que a aparência do guarda chamou sua atenção desde a primeira vez que o vira.

Estava tão envolvido em suas lembranças que nem chegou a perceber que o castelo dos Phantomhive estava próximo.

— Ciel? Ciel? – Sebastian chamou.

— Sim – respondeu após algum tempo.

— Já estamos chegando.

— Eu sei. – falou olhando em volta.

Foram recebidos pelos mesmos guardas de antes. Ciel passou rápido pelos portões e nem sequer olhou para os lados, queria apenas ficar quieto e sozinho. Ciel não era do tipo sociável, gostava de passar despercebido, quanto menos pessoas por perto melhor. E em conseqüência disso não tinha amigos.

A essa altura já estava dentro do castelo, próximo as escadas. Virou-se procurando por Sebastian.

— Vou para o meu quarto e não quero ser incomodado.

— Sim. – respondeu o guarda.

Subiu as escadas indo em direção aos seus aposentos, sentia necessidade de ficar a só consigo mesmo. Na verdade era acometido por essa necessidade de estar sozinho, várias vezes ao dia. Procurou vestir algo mais confortável e então se sentou em sua poltrona, olhava os flocos de neve que caiam lá fora. Gostaria de poder sair lá fora sem guardas e sem sentir seu corpo congelar, pelo menos uma vez na vida.

Ser rei não significava muita coisa, era apenas um título. O reino era governado pelos conselheiros da corte, Ciel não se envolvia em nenhum problema, nenhuma decisão. Apenas estava ali representando a família Phantomhive e julgava tudo isso muito inútil, se o rei e a rainha não faziam nada pelo reino então qual era a necessidade de tê-los ali?

Foi tirado de seus pensamentos por batidas na sua porta, ficou em silencio esperando que, quem quer que fosse saísse dali. Mas as batidas na porta não cessaram e se viu obrigado a responder.

— Não se pode ter um pouco de sossego? – falou em voz alta.

— Não quando se é o rei. – ouviu Sebastian responder.

— O que você quer? – falou abrindo a porta.

— Ela está aqui.

— Quem?

— Sua tia, ou por acaso se esqueceu que ela viria te visitar?

Ciel passou a mão pela testa, soltando um suspiro de desânimo. Havia se esquecido da visita dela e ninguém foi capaz de lembrar-lhe disso.

— Avise-a que estou descendo.

— Não se demore, sabe bem que ela não gosta de esperar.

— Você não precisa me lembrar disso.

Ciel se trocou, precisava vestir algo que tivesse mais a cara de um rei ou seria obrigado a ouvir sua tia lhe dizendo o quanto era importante que um rei soubesse se vestir bem. Trocou-se rapidamente e então desceu. Sua tia estava sentada próxima a mesa de jantar, sorrindo para Sebastian, a aparência do guarda a agradava imensamente, dava para perceber isso pela forma com que a mulher o olhava. Ciel se aproximou silenciosamente e então tocou a tia nos ombros.

— Como foi a viagem tia? – falou, beijando-lhe a mão cordialmente.

— Longa e cansativa – se queixou suspirando.

— Poderá descansar em breve senhora Angelina. – Sebastian falou sorrindo.

Angelina usava apenas um vestido vermelho e um chapéu de mesma cor. Ciel tinha a impressão de que o frio não a afetava nenhum pouco. Sentou se em frente à tia.

— Nos deixe a sós Sebastian.

O guarda fez uma longa reverencia para a dama e então se retirou. Ciel sabia que a tia provavelmente tinha algum interesse oculto naquela visita.

— A que devo a honra dessa visita? – tentou soar o mais cordial possível, escolhendo bem cada palavra.

— Senti saudades de meu sobrinho. – falou sorrindo.

— Tem certeza?

Ciel conhecia muito bem a tia para acreditar que ela havia viajado tanto apenas por sentir saudades dele.

— O que foi? Não posso mais sentir sua falta? – respondeu tentando soar ofendida.

— Claro que pode. Mas convenhamos tia, nós dois sabemos que apenas a saudade não a faria viajar tanto.

— Tudo bem, eu admito que alguns outros motivos me trouxeram até aqui, mas em minha defesa digo que a saudade que eu senti de você foi o principal deles.

— De acordo.

Ciel se levantou pegando uma garrafa de vinho e duas taças que estavam na pequena mesa ao lado. E então serviu uma para a tia e outra para si. Acomodou-se novamente em seu assento e então bebeu um pouco do liquido escuro. Olhou em direção a tia esperando que ela começasse a falar, mas não obteve resposta alguma.

— O que deseja aqui? – falou calmamente.

A tia suspirou como se estivesse se preparando para dizer algo muito difícil.

— Você precisa se casar.

— Esse assunto de novo Madame Red?

Só chamava a tia assim quando se sentia irritado com ela o que de certa forma a incomodava.

— Um rei tem obrigações e...

As palavras de Angelina foram interrompidas pela gargalhada de Ciel. Ele tentara ser o mais educado e calmo, mas sua personalidade estressada tendia a querer aparecer.

— Quais obrigações um rei tem? Por que eu não vejo nenhuma dessas famosas obrigações sendo exigidas de mim.

— Um rei deve representar seu reino e acalmar seus súditos e para isso precisa ter uma bela rainha ao seu lado para ajudar.

Ciel queria rir mais um pouco, mas julgou desnecessário. Tratar a tia daquela forma só pioraria a situação.

— Eu fui bem claro quanto à isso. Eu não pretendo me casar.

— Você é um Phantomhive e é rei desse lugar tem por obrigação seguir as tradições. Seu pai e sua mãe também não queriam se casar, mas o fizeram assim mesmo e posso dizer que foram muito felizes dessa maneira.

— Não envolva meus pais nisso. Eu não escolhi ser um Phantomhive e também não escolhi ser rei.

— Ora, Ciel. Não seja tão duro, apenas pense no assunto. Seria bem mais reconfortante ter uma esposa ao seu lado, você poderia se apaixonar por ela e esse castelo teria mais vida graças à isso.

Não importava o que Ciel dissesse, sua tia tinha sempre uma boa resposta na ponta da língua. Se ela se irritasse pelo menos teria mais chance de ganhar aquela discussão, mas a mulher era a calma e a cordialidade em pessoa, respondia a grosseria com educação. E de certo modo Ciel admirava essa característica dela.

— Então pelo que vejo a senhora já tem alguém em mente?

— Sem dúvida que sim. Eu não teria vindo até aqui se não tivesse uma boa noticia para lhe dar, encontrei a pretendente perfeita para você.

— E quem seria essa mulher?

— Sua prima.

— Minha prima? Que prima?

— A Elizabeth.

Ciel não via a prima há séculos, mas se lembrava com detalhes da personalidade dela. A garota estava sempre a chamá-lo constantemente, sempre querendo redecorar tudo, ou querendo trocar a roupa de todos á sua volta. O ambiente nunca estava bom o suficiente para ela, Elizabeth tinha sempre que deixar tudo feminino e com um ar delicado e fofo. Ciel se sentiu levemente irritado só de pensar em ter que revê-la.

— Não me casarei com Elizabeth.

— Ciel, por favor. Já te disse para ao menos pensar no assunto. Ao menos fale com ela.

— A resposta final é não. Eu não quero vê-la.

Angelina se levantou de sua cadeira e então se pôs a andar pela sala de estar e então parou ficando de costas para Ciel. O garoto bebericava um pouco de seu vinho, apreciando o recente silencio que havia tomado conta do ambiente.

— Tarde demais, ela chegará aqui em breve.

Ciel quase se engasgou com o vinho. Não conseguia acreditar que a tia havia convidado aquela garota para o castelo sem sua permissão.

— Como pôde? – perguntou indignado.

— Eu sabia que você seria contra a ideia sem nem ao menos conversar com ela, então achei melhor que ela viesse sem sua permissão.

— Conversarei com ela e serei bem claro em relação a minha insatisfação com esse suposto casamento.

— Pois fique sabendo que ela está extremamente animada para vê-lo e que acha maravilhosa a idéia de se casar com você. Não será nada fácil se livrar dela. – respondeu sorrindo.

— Eu não falarei mais sobre esse assunto. Os empregados já devem ter arrumado seu quarto, sinta-se à vontade. – falou secamente.

Ciel saiu da sala bufando de ódio, sentia-se traído. Sua vida já era insuportavelmente chata e ainda por cima passou a não ter controle nenhum sobre o que fazer dela. Andava distraído pensando em uma maneira de se ver livre de tudo aquilo e então acabou esbarrando em Sebastian, teria caído de cara no chão se o guarda não o tivesse segurado.

Olhou para cima pensando em dirigir alguns bons xingamentos ao ser que o havia derrubado, mas desistiu ao perceber que era Sebastian. Sentiu-se desconcertado devido à proximidade de seus rostos, a mão de Sebastian o segurava firmemente pela cintura, conseguia sentir a respiração quente do guarda batendo em seu rosto. Sentiu-se estranhamente seguro naquele instante.

— Está tudo bem, Ciel? – Sebastian se aproximou mais alguns centímetros.

O garoto voltou a si e então se levantou afastando-se dos braços de Sebastian.

— Estou ótimo. – falou ajeitando seu colete.

Sentiu-se desconcertado outra vez. Concluiu que aquele dia não poderia ficar pior.

— Tem certeza? Sua expressão não está nada boa.

— Estaria melhor se eu não tivesse esbarrado em você.

— Deveria prestar atenção por onde anda. – Sebastian respondeu cinicamente.

— Eu deveria me livrar de você, isso sim!

— Esteja à vontade, meu dever é cumprir suas ordens, mesmo que estas sejam para que eu me demita.

Sebastian fez uma reverência e então olhou Ciel nos olhos esperando por uma resposta. O garoto sentia mais ódio ainda. De todos os guardas do mundo, o dele tinha que ser logo o mais petulante? Eu me livrarei de você, pensou. Mas sabia lá no fundo que não conseguiria fazer isso, só faltava admitir para si mesmo.

— Faça a gentileza de desaparecer da minha vista, Sebastian.

— Como queira, jovem rei.

Ciel não esperou que o guarda fosse embora, apenas se pôs a andar o mais rápido possível. Sebastian ficou parado assistindo o garoto sumir no corredor. O guarda começou a gargalhar, concluindo que aquele trabalho ficaria cada vez mais divertido.

Notas finais
Deixem suas opiniões por gentileza. Façam uma autora feliz. :D Continuem comigo. Bjo bjo, até a próxima.