O Rei e o Valente

16 Temos Um Plano?


Notas iniciais
Boa leitura *O*

— Eu não quero fazer isso! – Ciel exclamou.

— Ciel, eu não vejo outra maneira de conseguirmos fugir. Acaso tem alguma ideia melhor?

— Obviamente não! Mas me aproximar de Elizabeth? Tudo bem, eu concordo que ela é um incômodo, mas não seria muita crueldade iludi-la dessa maneira?

— Em momento algum eu disse que seria algo agradável de ser feito, mas é o necessário. Elizabeth teve todas as oportunidades do mundo para desistir desse casamento, e mesmo assim não desistiu. Você acha que ela não seria capaz de qualquer coisa para ficar com você, para levar esse casamento adiante? Ela não está interessada na sua felicidade, se estivesse teria percebido há muito tempo que sua felicidade não está ao lado dela.

Ciel respirou fundo e então sorveu um pouco de seu chá, tentando enxergar a situação da melhor maneira possível e tentando-se convencer de que aquela seria a melhor maneira de escapar do castelo.

— Suponhamos que eu aceite seguir com o plano. Como irá me tirar do castelo no dia do casamento, sendo eu o noivo? Como sairei daqui se justo nesta data os olhares de todos estarão sobre mim e sobre Elizabeth?

— Quanto à isso não se preocupe. Eu apenas preciso que tenha um pouco de confiança em mim.

— Eu me sentiria mais seguro se soubesse exatamente o que vai ocorrer.

Sebastian se levantou de sua cadeira, deixando sua xícara de café em cima do pires. O guarda se aproximou de Ciel aos poucos e o envolveu em seus braços, aconchegando-o contra seu peito.

— Eu sei que não será fácil se aproximar de Elizabeth ainda mais tendo que fingir que está tudo bem, mas eu peço que aceite o que lhe peço. Eu não vejo outra maneira de sair daqui, sem que um escândalo seja feito em torno disso. Mesmo os reinos distantes sabem quem você é e se souberem que fugimos poderão encontrar uma maneira de nos achar. Apenas confie em mim.

— Tudo bem. – Ciel suspirou desistindo de argumentar.

O rei apoiou as mãos nas costa do guarda, segurando o tecido da roupa de Sebastian com força. O abraço durou um bom tempo até que Sebastian se afastou, acariciando o rosto de Ciel com os dedos. O guarda gostava de olhar para Ciel e gostava de vê-lo retribuindo o olhar, ao invés de simplesmente se afastar, assim como antes.

Sebastian se aproximou, tocando de leve os lábios de Ciel, fazendo com que o garoto erguesse a cabeça e o corpo, tentando-se aproximar mais um pouco. Os dois se beijaram longamente, as respirações se misturando, o ambiente antes tenso parecendo ficar mais leve.

— Tenho que ir agora. – Sebastian falou, afastando-se dos lábios de Ciel. — Você vai procurar por Elizabeth para tomarem café da manhã juntos.

— Mas eu já tomei café da manhã com você. Não tenho fome.

— Apenas beba outra xícara de chá e faça companhia à ela. Seja cortês e nada de arrogância.

— Não será fácil.

— Provavelmente não, mas não há opção.

Ciel tentava achar uma maneira de escapar do castelo sem ter que seguir com o maldito casamento, mas nenhuma solução surgia. Se cancelasse o casamento Elizabeth com toda certeza faria um escândalo. Se algo do que Elizabeth sabia chegasse aos ouvidos dos conselheiros do reino, Sebastian e Ciel seriam afastados. O que deixaria tudo mais difícil para os dois.

O rei se via preso à Elizabeth e preso a vida de rei que jamais quis ter. Rei e ainda sem poder algum. O castelo era seu e o título também, mas apenas isso pertencia a ele. Sendo que ainda havia a possibilidade de lhe tirarem o castelo e o título, caso o romance que mantinha com seu subordinado fosse descoberto. Que bela vida Ciel tinha!

— Eu sei que não há opção! Não precisa me lembrar disso. – Ciel bufou de ódio.

Sebastian sorriu diante da expressão ranzinza que se formou no rosto de seu rei. O guarda depositou um beijo demorado nos lábios de Ciel e então se levantou, indo em direção a porta do quarto.

— Não acho que seja boa idéia continuarmos dormindo juntos.

— Por quê? – Ciel questionou parecendo desapontado.

— Elizabeth pode desconfiar de sua aproximação se vier a suspeitar que ainda estamos juntos.

Ciel olhou para a cama, imaginado como seria desconfortável dormir sozinho naquela cama enorme, sem ter o calor de Sebastian ao seu lado. Imaginou como passaria as noites fitando o lugar vazio ao seu lado antes de adormecer. O rei estava completamente apaixonado e com uma personalidade diferente da usual, mas ainda não havia chegado ao ponto de pedir para que o guarda ficasse. Não havia chegado ao ponto de pedir-lhe para não o abandonar.

— Ciel? – Sebastian questionou diante do silencio repentino que tomara conta do ambiente.

— Concordo com você. Eu dormirei sozinho a partir de hoje.

— Nos vemos depois. Bom dia.

— Bom dia. – Ciel respondeu secamente, engolindo à vontade de dizer que não queria dormir sozinho.

O rei não era o mesmo desde que se descobriu atraído pelo guarda e mudou mais ainda depois de saber que o que sentia era amor e não somente atração, mas seu orgulho há muito adormecido ainda insistia em aparecer de vez em quando. Ciel acostumara-se facilmente a ter companhia, a não dormir sozinho e a ideia de voltar a ficar sozinho naquele quarto e cama enorme, não lhe agradava nenhum pouco.

Ciel foi rumo ao banheiro e lavou o rosto, tentando juntar algum ânimo para conseguir colocar um sorriso no rosto. O rei respirou pesadamente e então forçou seu melhor sorriso e somente depois disso se dirigiu ao quarto de Elizabeth.

Durante o curto caminho até o quarto de Elizabeth, Ciel concluiu mais uma vez que seria impossível ser feliz ao lado da jovem. Como posso ser feliz ao lado dela, se até o sorriso que tenho no rosto é forçado e amargo? Como ser feliz ao lado de alguém que sequer consigo ficar perto sem me sentir incomodado? Elizabeth só podia estar louca por achar que era capaz de amar por dois e conseguir ser feliz e fazer Ciel feliz com apenas isso.

Ciel bateu gentilmente na porta, ainda tentando-se manter animado. Estava cedo e Elizabeth provavelmente havia acabado de acordar.

— Ciel? – Elizabeth questionou assustada por ver Ciel batendo em sua porta.

— Pensei em lhe fazer companhia durante o café da manhã. – Ciel abriu um sorriso. O sorriso mais falso que conseguira colocar em seus lábios.

— Ah Cla-claro!

Elizabeth pareceu deveras animada por ver Ciel e mais animada ainda por saber que teria a companhia dele durante o café da manhã. O rei raramente descia para fazer as refeições, pois estava sempre fugindo de Elizabeth e também por preferir saborear suas refeições ao lado de seu guarda. Ciel raramente era visto e raramente fazia questão de ser visto.

Ciel gentilmente entrelaçou seu braço do de Elizabeth, se amaldiçoando por fingir tanta gentileza. Elizabeth sorria de orelha a orelha, demonstrando a satisfação que aquele simples momento de cordialidade lhe causava. Garanto que não sorriria assim se soubesse que esse sorriso e essa cordialidade são recheados de fingimento e alegria forçada, Ciel pensou.

Ambos desceram as escadas lentamente, mas em silencio. Ciel não sabia ao certo como começar uma conversa com a garota e Elizabeth apenas ria estupidamente. Chegaram até a mesa e Ciel até mesmo puxou a cadeira para que a noiva se sentasse. O rei ordenou que o café da manhã fosse servido e depois se acomodou em uma das cadeiras, ficando de frente para Elizabeth.

— Dormiu bem à noite. – Ciel arriscou um assunto qualquer.

— Sim. E você?

— Sim.

O silencio caiu como uma pedra, deixando o ambiente tenso. Elizabeth olhava para Ciel, esperando que algo fosse dito e Ciel torcia para que os empregados entrassem com as bandejas, para que ao menos o barulho da mesa sendo servida fosse ouvido.

— Cansou-se de tomar café da manhã sozinho, Ciel?

— Sim. Creio que seja bom ter companhia de vez em quando.

Elizabeth mais uma vez sorriu. Ciel julgou que a garota só poderia estar cega de amores para não achar estranha, a gentileza repentina com que estava sendo tratada. Apesar de que no fundo era melhor que fosse assim, quanto menos suspeita houvesse por parte de Elizabeth melhor seria.

A mesa finalmente foi posta e Ciel rapidamente se serviu de uma xícara de chá, procurando algo para se distrair, procurando algo que o distraísse dos sorrisos de Elizabeth.

— Sabe se minha tia já acordou? – Ciel questionou à Elizabeth.

— Creio que não, já que costumamos tomar café da manhã mais tarde.

— Entendo.

A conversa sem graça que tinham morreu ali e ambos apenas se concentraram nos chás que tomavam. Elizabeth não perguntou por Sebastian, não questionou se Ciel o tinha visto e também não fez questão de forçar nenhum assunto. A companhia da garota não foi tão desagradável para Ciel, mas apesar disso não deixou de ser incômoda.

Aquele café da manhã pareceu durar horas e foi de longe um dos mais tediosos que Ciel já tivera, mas também não chegava a ser algo insuportável que fizesse o rei querer se levantar e abandonar a mesa.

— Ciel você acha que poderia ver comigo alguns detalhes da decoração do casamento?

— Sim. – Ciel respondeu em meio a outro sorriso falso.

O rei estava preparado para responder não, mas lembrou-se do que deveria fazer. Lembrou-se que deveria ser cordial com Elizabeth e justamente por isso não foi capaz de negar o pedido da jovem. Elizabeth se levantou da mesa e buscou algumas amostras de tecido que segundo ela seriam usadas nas cortinas que ela pretendia distribuir no salão de bailes do castelo. Não demorou muito para que Angelina descesse e após isso ambas importunaram Ciel durante horas, contando lhe os tediosos preparativos para o casamento e também lembrando que a data estava próxima. Faltavam apenas quinze dias.

Ciel planejava apenas tomar café da manhã com Elizabeth e depois voltaria para seu quarto, mas não foi isso o que aconteceu. O rei passou basicamente o dia todo na companhia de Elizabeth e de Angelina. Almoçaram juntos, jantaram juntos, conversaram sobre quem viria para o casamento, sobre como seria a vida de casados e Ciel quis morrer várias vezes durante aquele longo dia.

Após o jantar Ciel pediu licença dizendo que estava cansado e com dor de cabeça e andou o mais depressa possível para seu quarto. Sua bochecha doía graças aos inúmeros sorrisos que dera, sua cabeça latejava e o rei poderia jurar que ainda ouvia a voz de Elizabeth ecoando em sua cabeça. Ciel olhou em volta pensando em como o quarto parecia solitário, mas decidiu não se focar nisso.

Já estava tarde e o rei apenas achou melhor ir dormir, pondo fim aquele dia inútil e irritante que tivera. Ciel se acomodou na cama, lembrando-se que só vira Sebastian pela manhã e quase conseguindo ver a silhueta do guarda ao seu lado. Ciel tentou afastar a imagem do guarda e tentou se focar em outras coisas, mas era difícil apenas desviar seus pensamentos.

Acabou então pensando em Elizabeth, em Angelina e no fato de que elas pareciam não desconfiar de sua gentileza exagerada. O rei decidiu então que seria melhor ser menos gentil para evitar qualquer suspeita futura e em meio a pensamentos e a falta que sentia do guarda, o garoto finalmente adormeceu.

No meio da noite Ciel acordou, automaticamente levando as mãos ao lado vazio na cama. O rei suspirou lembrando-se que não dormiria mais com Sebastian, pelo menos não por enquanto. Ciel virou-se de um lado para o outro, tentando sem sucesso adormecer novamente.

O garoto desistiu de continuar sozinho e então seguiu rumo a porta. Ciel olhou em volta, se certificando de que não havia ninguém no corredor. Está tarde, todos estão dormindo, Ciel pensou. O rei andou silenciosamente pelo corredor, parando na porta do quarto de Sebastian.

Ciel respirou fundo e então abriu a porta, jogando para o alto o resquício de orgulho que ainda mantinha consigo. Ciel calmamente entrou no quarto, parando em frente a cama do guarda, fitando o rosto adormecido dele. O rei admirou a visão que tinha e com muita calma se enfiou embaixo dos cobertores, fazendo com que Sebastian acordasse.

— Ciel, O que você...

— Não diga nada. – Ciel pediu.

Sebastian apenas atendeu o que lhe foi pedido e não pronunciou mais nenhuma palavra. Ciel acomodou-se embaixo dos cobertores, virando de frente para Sebastian, colando seu corpo no do guarda. Sebastian o envolveu em seus braços, apertando-o com firmeza e carinho. Ciel sabia que aquele era seu lugar. Sabia que devia estar ali.

— Boa noite, Sebastian. – Ciel sussurrou.

— Boa noite, Ciel.

Notas finais
Continuem comigo. Bjo bjo, até a próxima