O Rei e o Valente
15 Paz
Notas iniciais
Sebastian finalmente havia conseguido o que tanto esperou. Depois de muitos anos amando em segredo, o guarda tinha Ciel em seus braços. O rei adotou uma postura defensiva em relação as aproximações do guarda, mas com o tempo foi cedendo e deixando as dúvidas e o orgulho de lado, e os dois finalmente puderam se amar, sem se preocupar com o que os rodeava, sem se importar com os outros à sua volta.
A noite que tiveram foi inexplicavelmente perfeita, e durante o tempo em que estiveram juntos os problemas não existiam. Depositaram suas esperanças um no outro, esperanças de que somente isso bastasse para serem felizes. Dormiram juntos, Ciel mais uma vez aninhado nos braços de Sebastian.
Mas como nem tudo é felicidade, a manhã chegou, trazendo com ela Elizabeth, Angelina, o maldito casamento e todos os problemas que assolavam Ciel. Por que as coisas não podem ser mais simples? Ou será que nós é que insistimos em complicar? Tudo seria mais fácil e simples se os dois fugissem dali, deixando tudo para trás.
Sebastian foi o primeiro a acordar naquela manhã. O guarda abriu bem os olhos e demorou um pouco para se recordar do que havia acontecido na noite anterior. O corpo de Ciel fazia peso sobre seu peito, as mãos pequenas do rapaz se agarravam a Sebastian, como se quisessem impedi-lo de fugir. Como se eu estivesse interessado em fugir daqui, pensou Sebastian.
O guarda fechou os olhos e recordou cada momento, cada pequeno detalhe do que a noite passada lhe trouxera e isso lhe trouxe um enorme sorriso aos lábios. Sebastian julgou que tudo o que um dia achou ser felicidade em nada se comparava ao que sentia naquele instante. A sensação de ser correspondido, de saber que não se está amando sozinho, que há a possibilidade de seguir em frente com quem se ama era maravilhosa e exatamente o que o guarda sentia.
Eram muitos sentimentos bons para um momento só. Sebastian não seria capaz de explicar o que sentia sem parecer idiotamente feliz e perdidamente apaixonado. O guarda tinha muitos afazeres na manhã em questão, mas ficava difícil sair daquela cama quentinha, difícil abandonar Ciel ali e sair rumo ao frio. Sebastian então se rendeu ao desejo de permanecer ali, envolvendo Ciel em um abraço apertado.
Ciel dormia tranquilamente, a respiração pesada, os olhos levemente fechados, os cabelos bagunçados emoldurando seu rosto. Sebastian tentou fechar os olhos, quem sabe voltar a dormir, mas a visão que tinha do garoto o impedia de fazer isso. Observou Ciel atentamente, a fim de gravar em sua memória a primeira manhã de muitas que teriam para acordar um ao lado do outro.
O guarda tinha lá sua personalidade difícil, era petulante, um pouco arrogante e não demonstrava muitos sentimentos, mas quando se tratava de Ciel tudo isso mudava. Pode parecer mentira, e parece ser coisa de gente apaixonada, mas nunca sentiu antes o que sentia agora e estava disposto a passar os próximos dias, quem sabe meses ou até mesmo anos, demonstrando tudo o que sentia pelo jovem rapaz arrogante.
Sebastian acabou se mexendo mais do que queria e não demorou muito para que Ciel acordasse. O garoto abriu os olhos e depois os fechou novamente e só depois disso é que percebeu onde estava e que se lembrou do que acontecera noite passada.
— Bom dia. – Sebastian falou suavemente, depositando um beijo na testa de Ciel.
— Bom dia. – Ciel falou baixinho.
O guarda esperava alguma reação por parte de Ciel, mas tudo o que o rei fez foi abraçar Sebastian com mais força e fechar os olhos novamente. Ciel tinha total consciência do que aconteceu entre ele e Sebastian, e antes de dormirem juntos, o garoto pensou que quando acordassem de manhã seria constrangedor e incômodo, mas não foi. Acordar ao lado de Sebastian, foi reconfortante e extremamente agradável.
— Você vai dormir de novo?
— Eu estou com sono e faz frio. – Ciel falou manhosamente.
— Bom, eu tenho que me levantar. Tenho muito trabalho para fazer.
— Não vai. – Ciel resmungou.
— Eu preciso ir.
— Não precisa. Eu sou seu rei e digo que não precisa. Apenas... Fique aqui. – Ciel falou baixinho, novamente fechando os olhos.
A atitude mimada e possessiva de Ciel arrancou uma rápida gargalhada de Sebastian. O guarda desistiu de vez de se levantar dali. Se o seu rei pedia para que ficasse, por que insistiria em não ficar? Novamente apertou Ciel contra si e fechou os olhos, voltando a dormir instantes depois. O clima do reino estava frio como sempre e isso fazia com que as pessoas que ali viviam ficassem mais sonolentas, inclusive o rei.
Ambos dormiram novamente, ignorando os compromissos que tinham e ignorando o fato de que não era normal que Sebastian não aparecesse para realizar suas tarefas e menos normal ainda que Ciel dormisse até tarde. Os moradores do castelo só não sentiram falta de Ciel, por que o garoto não tinha praticamente nenhuma obrigação como rei. Ser rei era apenas um título, apenas aparência e nada mais.
A única obrigação do rei era aparecer em público, mostrar ao povo do reino qual família reinava ali e, depois da morte dos pais, nem ao menos isso Ciel fazia. Todos sabiam quem era o rei, mas raramente o viam. Quando os pais de Ciel ainda estavam vivos a relação entre as pessoas do reino e a corte era melhor, mas depois que morreram Ciel não quis manter contato nenhum com as pessoas do reino. Os conselheiros julgaram que não seria necessário obrigar Ciel à isso, pelo menos não durante algum tempo.
Ciel sabia que o dia em que seria obrigado a assumir algumas responsabilidades como rei chegaria, assim como também chegaria o dia em que precisaria se casar, em que seria obrigado a ter uma rainha ao seu lado. O rei nunca se interessou em conhecer outras pessoas, em ser próximo a alguma mulher e agora que Sebastian e ele estavam juntos a existência desse interesse se tornou impossível.
O rei demorou a admitir para si mesmo que amava Sebastian e agora que havia feito isso não estava disposto a perdê-lo. Ciel demorou a entender exatamente o que sentia e demorou também a se acostumar com a presença e a proximidade do guarda, mas agora que havia se acostumado, não conseguia imaginar como seria voltar a solidão de antes e também não se imaginava com outra pessoa que não fosse Sebastian, por mais que ainda achasse estranho o fato de dois homens estarem juntos.
Já passava das nove da manhã, o café da manhã já havia sido servido há muito tempo. Elizabeth e Angelina comeram juntas como sempre, enquanto discutiam os últimos detalhes do casamento. Elizabeth torcia para que Ciel tivesse ouvido a tia e pelo menos tivesse pensando na idéia de demitir Sebastian, mas percebeu que tudo continuava igual quando Ciel não desceu para tomar café da manhã e teve mais certeza ainda que Sebastian e Ciel estavam juntos, quando procurou pelo guarda e foi informada que ele ainda não havia aparecido para realizar nenhuma das tarefas que tinha naquela manhã.
Elizabeth estava decidida a falar com Ciel mais uma vez, a garota não se importava se Ciel a achava louca ou se ficaria incomodado com sua presença. Elizabeth tinha certeza, quase que absoluta, que poderia fazer Ciel feliz, mesmo que ele não a amasse. Estava convencida de que poderia amar sozinha e ainda ser feliz. Apenas uma mera ilusão, é impossível ser feliz amando por dois, um relacionamento não é o que deveria ser quando não há amor de ambos os lados.
A garota saiu de seu quarto e foi em direção ao quarto de Ciel, nutrindo esperanças e torcendo para que Sebastian não estivesse no quarto, junto com Ciel. Elizabeth não tinha certeza sobre o que acontecia entre Sebastian e Ciel, mas se sentia enjoada só de imaginar que havia algo entre eles. Para Elizabeth era inaceitável que dois homens pudessem ter um relacionamento romântico, que pudessem ficar juntos. Um homem junto com outro homem? Isso ia totalmente contra o curso normal da natureza.
Elizabeth respirou fundo, juntando coragem para conversar com Ciel e então finalmente bateu na porta do quarto do rei. Esperou por alguns instantes, mas não obteve resposta, e não ouviu sequer um ruído vindo do quarto.
— Ciel?
Sebastian acordou com os ruídos que Elizabeth fazia do lado de fora do quarto, mas nem ao menos se mexeu na cama. Fico em silencio, esperando que a garota desistisse e fosse embora.
— Fale comigo, Ciel. Eu sei que você está aí.
Dessa vez foi Ciel quem acordou com os barulhos que Elizabeth fazia. O rei olhou em volta assustando e então se sentou na cama.
— Não acredito que Elizabeth está aqui. – Ciel sussurrou para Sebastian.
— Deixe que ela bata na porta o quanto quiser. Uma hora ou outra Elizabeth irá desistir.
— A porta está trancada?
— Não tenho certeza, mas creio que sim.
Ciel sentiu o coração falhar só de imaginar o que aconteceria se aquela porta não estivesse trancada e Elizabeth entrasse no quarto e visse os dois juntos na cama e completamente sem roupa. Elizabeth continuou insistindo em bater na porta e em chamar Ciel e quando percebeu que não teria resposta, tentou abrir a porta, mas para alivio de Ciel a porta estava realmente trancada.
— Por que a porta está trancada? Você nunca deixa a porta trancada, eu sei disso! Vocês estão juntos, não estão? Eu sei que o Sebastian não desceu para realizar as tarefas inúteis que tinha para fazer. Vocês só podem estar juntos!
Elizabeth como sempre não conseguiu manter o controle e quando deu por si estava quase aos berros, sentindo-se mais uma vez traída por Ciel.
— Você ainda insiste nisso depois de tudo o que eu disse? Não vê que jamais terá paz se escolher esse tipo de vida? Se sua tia e eu suspeitamos de sua relação com Sebastian, os empregados também suspeitam. O que fará se souberem? O que fará?
Ciel sentiu o sangue ferver e estava pronto para iniciar mais uma discussão com Elizabeth, mas foi impedido por Sebastian.
— Deixe que ela fale. – Sebastian falou baixinho.
A garota reclamou durante mais algum tempo, mas acabou se dando por vencida e indo embora logo depois. Ciel fora acordado da pior maneira possível e ainda se viu obrigado a ouvir as maluquices de Elizabeth sem nem ao menos poder revidar. Revidar as acusações de Elizabeth, normalmente não levava à nada, mas pelo menos diminuía o ódio que Ciel sentia.
— Vou acabar com esse casamento! Eu juro que vou! – Ciel exclamou, quando teve certeza de que Elizabeth não estava mais na porta.
— Não faça isso, Ciel.
— Como pode ficar tão calmo diante de algo assim? Como teve coragem de me impedir de discutir com ela?
— De nada adiantaria iniciar uma discussão com Elizabeth. Além do mais o casamento que ela tanto sonhou e que tanto trabalhou para organizar pode vir a ser útil.
— Útil para quem? – Ciel questionou nervoso. — Como esse maldito casamento pode ser útil?
— Já se esqueceu do que sugeri? Sequer pensou em considerar a idéia de ir embora desse reino frio? Podemos fugir durante o casamento, todos estarão distraídos com isso.
— Eu pensei muito nisso, admito, mas não acho que seja boa idéia. Como poderei sair daqui sem ser visto? Como serei capaz de deixar tudo para trás?
— Ciel, ouça bem. O que a Elizabeth disse não deixa de ser verdade. Você jamais viverá em paz se continuar comigo. Está disposto a continuar evitando Elizabeth? A continuar dormindo de portas trancadas? Está realmente preparado para enfrentar o conselho do reino e dizer lhes que estamos juntos? Sabe muito bem que em algum momento lhe será exigido que tenha uma esposa, que tenha filhos, que continue a linhagem dos Phantomhive. Está disposto a enfrentar tudo isso?
— Não estou disposto e enfrentar tudo isso, nem ao menos sei se tenho forças o suficiente para passar por algo assim, mas também não queria deixar o castelo de meus pais.
— Esse castelo não vale mais do que as lembranças que tem dos seus pais. O que você lembra deles, ficará com você para sempre, o castelo não os representa. Sei que é uma escolha difícil, mas poderemos ser felizes longe daqui. Se fosse um homem qualquer no reino, as pessoas em volta se importariam menos com o que ele faz ou deixa de fazer, mas não é esse o caso. Você é o rei e as pessoas se importam com o que você faz e também há a possibilidade de que deixe de possuir esse título inútil de rei, caso os conselheiros saibam do que acontece aqui.
— Eu sei... Mas é que é tão difícil decidir. – Ciel falou desanimado e novamente se aninhou nos braços de Sebastian.
— É difícil para mim também, mas imagino que seja infinitamente mais difícil para você. Eu nos imagino juntos em algum lugar onde tenhamos paz, onde não sejamos incomodados por ninguém. Onde você não seja o rei e eu não seja o seu guarda. Parece um sonho bobo, mas acho que seria o suficiente para que fossemos felizes.
— Não é um sonho bobo. – Ciel sussurrou sentindo-se extremamente feliz por ouvir Sebastian falando assim.
— Se decidir ficar aqui eu ficarei com você, mas ficarei mais feliz se você decidir fugir comigo. Venha comigo.
— Eu vou... Eu vou com você.
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