O Rei e o Valente
20 Passado Ou Futuro?
Notas iniciais
Sebastian saiu rapidamente em direção ao corredor. Ciel ainda continuava de joelhos no chão, com a cabeça baixa e pensando em como sua vida mudaria depois da cena que sua noiva havia visto. O guarda queria continuar ali e reconfortar Ciel, dizendo lhe que tudo ficaria bem, mas era mais importante ir atrás de Elizabeth.
A garota já estava descendo as escadas quando foi parada por Sebastian. O guarda a puxou pelo braço, trazendo a de volta para o quarto.
— Sugiro que não faça barulho. – Sebastian falou enquanto forçava Elizabeth a andar.
Assim que chegaram ao corredor Ciel já estava de pé, mas ainda se mantinha parado, fitando o nada. O garoto só foi capaz de demonstrar alguma reação ao ver os dois se aproximando.
— Entre no quarto, Ciel.
O rei prontamente obedeceu, mesmo que não estivesse nenhum pouco interessado em ficar no mesmo cômodo que sua maldita noiva.
— O que vocês querem? – Elizabeth falou em voz alta.
— Eu posso garantir que a senhorita não vai querer fazer um escândalo. Acha que seria uma boa ideia se os empregados aparecessem aqui? Apenas abaixe o tom de voz!
Elizabeth se sentia acuada então achou que seria realmente melhor não fazer escândalo. A garota engoliu em seco à vontade que tinha de gritar, de derramar seu ódio e aos poucos se acalmou.
— Seja breve. O que você quer de mim?
Ciel apenas assistia a tudo em silencio, era difícil reagir em um momento como aquele. Era difícil saber o que dizer, saber o que fazer.
— Apenas a verdade. O que você planejava ao chegar neste castelo?
— Ao que se refere, Sebastian? Minha única vontade era casar com Ciel e isso nunca foi um plano, já que a sugestão veio da Angelina.
— Como você deve saber recentemente eu fiz uma viagem. Durante esse tempo em que estive fora eu encontrei um conhecido seu, que alias era um grande amigo meu na época em que iniciei meu trabalho como guarda há vários anos atrás...
— Onde eu me encaixo nessa conversa? – Elizabeth falou interrompendo Sebastian.
— Tenha paciência. Esse meu amigo trabalhou para seu pai por vários anos. O contrato de trabalho que havia entre eles só chegou ao fim quando seus pais morreram e você o despediu. Lembra-se disso?
A expressão de arrogância que Elizabeth mantinha foi se desfazendo aos poucos e dando lugar a um olhar perdido e desesperado.
— Seus pais tiveram alguma influencia na morte dos meus pais? – Ciel questionou, lembrando aos outros dois que ainda estava ali.
A garota virou o rosto e direcionou a Ciel um olhar carregado de nojo e repulsa, mas apenas se manteve em silencio, ignorando a pergunta que o rei havia feito.
— Elizabeth, eu te fiz uma pergunta! Eu mantive a paciência durante muito tempo! Durante muito tempo eu te suportei e devo avisar lhe que minha paciência se esgotou. – Ciel esbravejou.
— Não tenho medo de você, Ciel. Acha que vou ceder apenas porque de repente você resolveu falar grosseiramente? O que vai fazer? Matar-me?
— Não tenho paciência o suficiente nem para me aproximar de você. Acha que eu seria capaz de tocá-la? Eu apenas quero que responda o que te perguntei. – Ciel respirou fundo. — Os seus pais mataram os meus? – Repetiu.
— Como acha que meus pais seriam capazes de algo assim?
— Eu não sei se seus pais seriam capazes de algo assim! Apenas me dê uma resposta.
— Fique calmo, Ciel. Acha que ela lhe contaria tudo assim tão fácil?
Sebastian aproximou-se de Ciel, e lentamente o tocou no rosto, acariciando suas bochechas e tentando trazer lhe um pouco de calma.
— Esse amigo de que lhe falei me informou sobre os planos que seu pai tinha. Casá-la com o herdeiro dos Phantomhive poderia tirá-los da situação difícil em que se encontravam, não é mesmo? Seu pai estava falido e tudo o que queria era arrumar um bom casamento para sua filha. Quem diria que ele perderia a razão ao ter seu pedido de noivado recusado.
— Eu não sei ao que se refere!
— Cale-se! – Ciel gritou.
O rei andou em direção a Elizabeth, as mãos tremiam e um pouco do seu autocontrole ia embora todas as vezes em que a voz da garota se fazia presente.
— O que sua família tem a ver com a morte dos meus pais? Esqueça essa sua recém descoberta arrogância e diga-me a verdade. – Ciel apertou o rosto da garota com força. — Minha paciência chegou ao fim.
O ambiente se tornava cada vez mais pesado. Ciel não podia afirmar se o que Sebastian havia descoberto era verdade. Talvez fosse um equivoco despejar todo aquele ódio em cima de Elizabeth e talvez até mesmo não houvesse culpa alguma, mas a garota jamais diria a verdade, jamais seria sincera se ainda mantivessem a calma e deixassem que ela dissesse apenas o que queria dizer.
— Meus pais não tiveram absolutamente nada a ver com a morte dos seus! — Elizabeth empurrou Ciel e depois se afastou. — Muito pelo contrário, meus pais morreram graças aos seus pais! Você não faz ideia do quanto eu te odeio!
— Você me odeia e veio até aqui para forçar um noivado? Me odeia e foi capaz de ficar aqui por todo esse tempo? Pois bem, eu não tenho interesse em saber o que sente por mim, apenas explique-se!
— Por culpa da sua família eu perdi meus pais e tudo o que eu tinha! Meu pai planejou a morte dos seus pais e eu adoraria que ele tivesse conseguido o que queria, mas não foi o que aconteceu. Seu pai era arrogante demais para aceitar aquele maldito noivado e olha só em que situação estamos agora. Tudo graças ao seu arrogante e imbecil...
Ciel novamente se aproximou e pela segunda vez na noite Elizabeth sentiu o rosto arder. O rei bateu na garota com toda a força que tinha e logo depois se afastou, arrependendo-se da reação que julgava como exagerada.
— Não permitirei que ofenda meu pai!
— Acalme-se, Ciel. Não deixe que ela o afete assim.
— Não se intrometa, Sebastian! Eu não quero manter a calma!
O guarda estava relutante, mas naquele momento percebeu que o melhor era deixar que Ciel conversasse com a garota. Sebastian tinha apenas a intenção de proteger seu rei, de ajudá-lo e trazer lhe calma, mas aos poucos entendeu que isso não resolveria nada e então apenas se afastou e permaneceu em silencio.
O rei sentia as pernas fraquejarem a todo o momento. Era como se tudo o que acontecia ali não fosse real. Como se estivesse tendo um pesadelo. Elizabeth chegou ao castelo com uma pose de jovem inocente e agora tudo o que dizia era carregado de veneno e arrogância. As aparências realmente enganam.
— Está achando divertido bater em meu rosto?
— Não há nada de divertido aqui! Não acho certo o que fiz, mas juro que volto a fazer caso necessário! Termine logo essa sua maldita história!
Elizabeth respirou fundo e então sorriu arrogantemente. A garota estava cheia de ódio e adoraria devolver o tapa que havia recebido, mas sabia que estava em desvantagem.
— Meu pai sugeriu o noivado e seu pai apenas rejeitou a ideia logo em seguida como se eu não fosse boa o suficiente para você. No dia seguinte esse tal amigo que Sebastian lhe falou, foi instruído a fazer alguns pequenos ajustes na carruagem que seus pais usariam para vir embora. O que acontece é que esse maldito homem acabou realizando o trabalho exigido na carruagem errada e graças à isso meus pais morreram em um maldito acidente assim como os seus!
— Isso não faz o menor sentido! Acha mesmo que eu vou acreditar no que está me contando?
— Você pediu a verdade e eu lhe disse! Meus pais acabaram usando aquela maldita carruagem defeituosa. A carruagem que estava preparada para os seus pais! Se seu pai tivesse aceitado o noivado nada disso teria acontecido! Acha que eu estou feliz? Acha que eu fiquei feliz sendo rejeitada? Que eu fiquei feliz sabendo em quais circunstancias meus pais morreram? Pode soar como ironia do destino, mas essa é a maldita verdade!
Os olhos de Elizabeth encheram-se de lágrimas conforme a trágica e irônica história era contada. Era difícil acreditar que algo assim havia acontecido e tudo parecia uma grande mentira. Uma pessoa planeja a morte de outra e graças à isso acaba morrendo. Realmente parecia mais uma ironia do destino.
— Seus pais não morreram por culpa dos meus e eu nem vou me dar trabalho de discutir isso. Suponhamos que tudo isso seja verdade. O que veio fazer aqui?
Ciel estava estranhamente calmo e naquele momento era como se tivesse aprendido a se controlar um pouco mesmo quando a situação era odiosa e desesperadora. O rei não saberia dizer de onde essa calma havia vindo, mas esperou que pudesse continuar com ela.
— Eu decidi me casar com você e se possível planejava fazê-lo infeliz até o resto dos seus dias. Seu castelo seria meu e tudo o que meu pai queria para mim seria conquistado, mesmo que eu tivesse que olhá-lo todos os dias. Mesmo que eu me lembrasse da morte dos meus pais todos os dias!
Ciel permaneceu em silencio analisando as palavras que Elizabeth havia dito e toda a história que ela havia contado. O garoto jamais seria capaz de provar se aquilo tudo era ou não verdade, e de toda maneira os pais de ambos estavam mortos. Não havia como atribuir a culpa a ninguém. O garoto concluiu que só podia aceitar o que havia ouvido. Ciel odiaria Elizabeth pelo resto de sua vida, mas por outros motivos e não pela morte de seus pais.
— Eu jamais me casaria com você! Jamais! Você acha que eu deixaria o Sebastian para ficar com você? O casamento poderia até ter ocorrido, você teria uma coroa e seria rainha, mas jamais seria capaz de me fazer infeliz. Pelo menos não enquanto eu tivesse o Sebastian. Você seria traída noite após noite e seria ainda mais infeliz do que eu neste casamento. Você quer este castelo? Pois bem, ele é seu! Fique com ele e continue remoendo esse maldito passado.
O rei estava mais decidido do que nunca e naquele momento estava disposto a esquecer o passado. Seus pais haviam morrido e isso jamais seria superado por completo, era triste deixar para trás o castelo que era deles, mas quem está vivo tem que seguir vivendo, mesmo que seja complicado.
Ciel sabia que teria que deixar algumas coisas para trás se quisesse ter paz e agora tinha certeza de que estava pronto para abandonar o castelo e seguir em frente. Foi difícil saber que o pai de Elizabeth havia planejado a morte de seus pais, e talvez tudo isso não fosse nem mesmo verdade, mas o que podia ser feito? Elizabeth não era obrigada a ser sincera e mesmo que Ciel soubesse a verdade não havia nada que pudesse fazer. Só havia duas escolhas. Continuar ali remoendo o passado ou deixar tudo para trás e seguir em frente.
— O que você vai fazer? – Elizabeth questionou.
— Isso não é algo que seja do seu interesse. Não digo que desejo a morte dos seus pais, mas posso afirmar que eles tiveram o que mereceram. Você pode estar mentindo, mas eu jamais serei capaz de provar. Você queria que eu fosse infeliz e tudo o que posso afirmar é que eu não serei. O castelo é seu, espero que faça bom proveito. Meus pais foram muito felizes aqui, e cada detalhe desse lugar me lembra a minha mãe. Espero que continue aqui e lembre-se de que este lugar não lhe pertence e que nunca pertencerá, mesmo que eu o tenha cedido para você.
Algumas lágrimas escorriam pelo rosto de Elizabeth e a garota apenas pensava em gritar, mas do que isso adiantaria? Os empregados dormiam bem longe dali e até que alguém chegasse seria tarde demais.
— O que você vai fazer comigo, Ciel?
— Nada.
O rei virou-se em direção a Sebastian e após sussurrarem algumas palavras que Elizabeth não foi capaz de ouvir, o guarda se aproximou da garota.
— Não se aproxime!
— Pare de gritar! – Sebastian falou, tampando a boca da garota com a mão.
O guarda continuou segurando Elizabeth e aos poucos de aproximou de sua mesa de cabeceira. O guarda procurou por algo em sua gaveta enquanto Ciel buscou um copo com água. A garota empurrou o braço de Sebastian, tentou correr, esperneou, mas apenas foi parada e forçada a engolir aquela água. O guarda a manteve em seus braços e alguns minutos depois já havia adormecido.
— Não me sinto bem fazendo algo assim.
— Preferia que ela corresse para contar tudo o que sabia? Que fizesse um escândalo?
— Eu apenas não queria ter que dopá-la.
— Às vezes somos obrigados a fazer escolhas difíceis. Ela estará bem ao acordar. Não temos tempo, precisamos sair daqui antes que o dia amanheça.
Ciel sentiu o corpo inteiro arrepiar ao ouvir Sebastian dizer que precisavam sair dali antes que o dia amanhecesse. O rei sentia o estomago revirar todas as vezes em que a palavra fuga vinha em sua mente. A noite até ali já havia sido longa e cansativa, mas havia apenas começado.
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