O Rei e o Valente
21 A Fuga
— A Elizabeth vai ficar aqui no seu quarto?
— Não. Eu a deixarei no quarto dela. Assim parecerá que ela está apenas dormindo.
— Entendo.
Ciel estava apreensivo e o frio no seu estômago parecia não querer passar. Muita coisa podia dar errado ali e isso era o que mais temia.
— Vá para o seu quarto, troque de roupa e me espere lá. Eu preciso me certificar de que tudo que planejei ainda pode ser executado.
— Tudo bem.
O rei foi em direção a porta, as pernas e mãos tremiam como nunca haviam tremido. O nervosismo que o atingia era quase palpável.
— Ciel? – Sebastian falou abraçando o garoto.
— Sim?
O guarda tinha pressa e talvez estivesse sendo frio demais com Ciel, mas não era como se fosse de propósito. Sebastian queria poder acalmá-lo e dizer que tudo ficaria bem, mas naquele momento não se via capaz de fazer algo assim, então apenas resolveu dizer que o amava.
— Eu te amo.
— Eu também...Te amo.
Ciel realmente gostava de ouvir o guarda declarando seu amor, mas diante das circunstancias isso só servia para deixá-lo um pouco mais nervoso do que já estava. A sensação que tinha era de que tudo parecia bem demais, fácil demais e que em algum momento tudo desandaria de uma forma catastrófica.
Os dois finalmente se afastaram e após isso o garoto andou em direção ao seu quarto. Assim que entrou no cômodo a porta atrás de si foi trancada. O rei manteve o quarto na mesma escuridão de antes e procurou se vestir o mais rápido possível. As roupas escolhidas foram as mais quentes que encontrou. Calças e blusas de lã grossa, assim como luvas e pares de meia. Calçou também uma bota confortável e após isso deitou em sua cama.
Ciel não tinha a menor vontade de permanecer deitado, porém achou que talvez conseguisse manter-se mais calmo se tentasse relaxar um pouco. Os músculos de seu corpo pareciam rígidos e sem mobilidade. Seus pensamentos giravam em torno de Elizabeth e de tudo o que havia escutado. O rei realmente não queria deixar o castelo para ela, mas não havia opção.
O reino não mudaria seus costumes tradicionais da noite para o dia e da água para o vinho. O certo ali era que homens se casassem com mulheres e tivessem filhos que pudessem continuar a linhagem dos pais. Se a ideia de um relacionamento entres homens já era inaceitável para um camponês qualquer, imagina se aceitariam algo assim acontecendo com o rei.
Os próximos minutos foram torturantes e cheios de preocupação. Ciel tentava não se desesperar, mas a cada minuto que passava era como se a vida que havia imaginado longe dali ficasse cada vez mais distante. E a preocupação que sentia tornou se quase sufocante quando percebeu que já fazia mais de uma hora que havia se separado de Sebastian.
O rei decidiu que ficar deitado era uma péssima ideia. Ciel levantou-se da cama e ficou parado próximo a janela, o corpo e boa parte do rosto escondidos atrás da cortina. Seria normal se alguém visse o garoto olhando pela janela, porém naquele momento tudo parecia suspeito. Era como se qualquer atitude, qualquer pequeno movimento, por mais usual que fosse, soasse como estranho e anormal.
A maçaneta da porta girou, mas não pôde ser aberta por estar trancada. O coração de Ciel falhou, mas voltou a se acalmar quando o garoto ouviu a voz familiar de Sebastian.
— Ciel, abra a porta.
— Espere um pouco.
O garoto andou até a porta com o máximo de pressa possível e rapidamente a destrancou. Sebastian estava vestido com as roupas que usava para patrulhar o castelo e tudo ainda parecia sossegado.
— Está tudo pronto. Vamos?
Ciel acenou positivamente com a cabeça e então começou a andar atrás de Sebastian. O guarda andava a passos largos e o rei fazia o melhor que podia para conseguir acompanhar. Seguiram pelo corredor, desceram as escadas e ao chegarem próximo a área externa do castelo seguiram por um caminho que Ciel desconhecia.
— Onde estamos?
— Essa passagem é usada pelos guardas e no passado foi usada pelos conselheiros do reino durante uma invasão.
— Eu sabia sobre a invasão, mas achei que algo assim não existia.
— Pois existe, mas agora será melhor andarmos mais rápido e manter silencio. Essa passagem não é nem de longe desconhecida e durante o dia os guardas a usam frequentemente.
Andaram por um longo corredor bem iluminado. O local era abafado e levemente sujo. A caminhada durou alguns minutos, e ao chegarem do outro lado encontraram uma saída que levava ao estábulo.
— Poderíamos ter fugido por aqui a qualquer momento. – Ciel falou sério.
— Não podíamos. Nesse momento metade dos guardas do castelo estão na mesma situação que a senhorita Elizabeth...
— Você os dopou? – Ciel interrompeu Sebastian.
— Não tive opção. Se eu tivesse deixado que ficassem acordados com certeza não teríamos conseguido chegar até aqui.
— Isso só atrairá mais suspeitas e atenção! – Ciel exclamou.
— Eu trabalho como guarda há anos e boa parte desse tempo foi nesse castelo. Com o tempo adquiri bastante confiança por parte dos outros guardas. Também conheço muito bem os hábitos de quase todos esses guardas e sabendo disso não foi difícil entregar lhes um inocente e aconchegante chá quente. Ninguém suspeitará, ao menos não por enquanto e torço para que estejamos bem longe quando suspeitarem.
Ciel não conseguia nem de longe ter a calma que Sebastian parecia ter. O guarda parecia seguro do que estava fazendo e a cada palavra que dizia era como se tivesse certeza de que tudo correria bem. O rei respirou fundo e deixou para fazer qualquer questionamento em outra hora. Havia muitas dúvidas, mas não havia nada a fazer a não ser confiar e torcer pelo sucesso da fuga.
Começaram novamente a andar, indo em direção ao fim do estábulo. Atrás de uma parede havia uma carruagem que Ciel não se lembrava de ter visto antes. Era algo luxuoso até demais para se usar em uma fuga e acabaria chamando mais atenção do que deveria.
— Não me diga que usaremos essa carruagem luxuosa?
— Essa carruagem está fora de suspeita justamente por ser luxuosa. Se eu não estiver enganado ela está aqui desde que cheguei ao castelo e há alguns meses atrás eu comecei a modificá-la para que ficasse cada vez menos parecida com o que era antes.
— Há quanto tempo você está planejando essa fuga?
— Há bastante tempo. Acho que desde quando descobri que você se casaria.
— Mas não tínhamos nenhum relacionamento nessa época.
— Digamos que eu confiava bastante na ilusão de que teríamos um relacionamento um dia. Bom, acho que fiz bem em manter a confiança.
Ciel não conseguiu manter-se sério após ouvir aquilo. O rei achava que os planos para a tal fuga eram recentes, mas a verdade é que o guarda já a planejava há bem mais tempo do que Ciel poderia imaginar. O garoto sorriu durante algum tempo e aos poucos sentiu a apreensão diminuir.
Sebastian entrou na carruagem e ao sair de lá trouxe consigo algumas roupas. O rei olhou paras as vestimentas, e logo se pôs a imaginar de quem seriam.
— A quem pertencem, Sebastian?
— A mim e a você.
— Eu não vou usar isso! – Ciel falou, deixando seu lado arrogante e mimado tomar conta da situação.
— É necessário. Não achou que fugiríamos usando nossas roupas usuais, achou?
— Bem, sim.
— Estas roupas são de alguém que andaria nesse tipo de carruagem. Nosso tempo está se esgotando, apenas vista o que eu te trouxe.
O guarda entregou a roupa para Ciel e logo após se concentrou em vestir sua própria roupa. Sebastian havia escolhido para si um fraque, algo que lhe trouxesse um ar de serviçal, mas que denotasse certa classe. O problema naquilo tudo eram as roupas de Ciel que eram um tanto quanto constrangedoras.
— Não sei como vestir isso! – exclamou em meio ao incômodo que sentia por ter de vestir aquilo.
— Eu te ajudo. – Sebastian falou sorrindo.
O rei não queria de modo algum ter que usar aquilo, mas deveria admitir que era realmente um bom disfarce e que quando terminasse de se arrumar ficaria irreconhecível. Algo totalmente fora de suspeita.
Sebastian vestiu Ciel com o máximo de pressa que pôde já que a roupa era apertada e difícil de vestir. Haviam muitas peças, muitos fios, muito volume e a falta de delicadeza com que vestiam as peças só tornava tudo ainda mais complicado.
Sofreram um bocado com uma tarefa aparentemente simples, mas no fim o resultado fez com que o esforço vale à pena.
— Meu corpo todo dói e isso aperta demais. Como conseguem usar isso?
— Nenhuma dama teve os órgãos expelidos por usar um espartilho. – Sebastian brincou. — Adoraria continuar olhando para você, mas precisamos ir agora.
Ciel estava completamente irreconhecível, e também bastante desconfortável. A roupa lhe apertava em vários lugares diferentes e até mesmo andar havia se tornado uma tarefa difícil. O rei havia ficado maravilhosamente bem usando aquele vestido rosa e isso de alguma forma mexia com Sebastian. O chapéu que usava tinha o mesmo tom do vestido, as luvas deixavam os braços bem delicados e a peruca combinava perfeitamente bem como o rosto magro do garoto. O garoto combinava com roupas femininas e isso era fato.
O guarda sabia que o momento não era propicio para tais pensamentos, mas ficava difícil não imaginar como seria excitante despir Ciel aos poucos ou então vê-lo gemer enquanto estivesse vestido como uma dama.
O guarda juntou as roupas que usavam e as escondeu em um canto qualquer da carruagem. O uniforme de guarda seria jogado fora em algum ponto da estrada, e as roupas de Ciel poderiam apenas ser guardadas já que não eram fáceis de reconhecer.
— Não consigo nem ao menos respirar direito. Quanto tempo terei que usar isso?
— Até chegarmos ao nosso destino.
Sebastian sorriu mais uma vez e aos poucos se aproximou de Ciel, abraçando-o. Os dois permaneceram assim por algum tempo. O rei já estava bem mais calmo do que antes e todos os momentos em que conversou com Sebastian serviram para que se sentisse mais seguro e confiante.
Beijaram-se rapidamente, o amanhecer estava cada vez mais próximo e já haviam perdido tempo demais conversando. Sebastian andou em direção a parte de cima da carruagem e Ciel entrou, fechando a porta e também as cortinas. Os dois estavam sozinhos, então a tarefa de conduzir a carruagem havia sobrado para Sebastian.
O rei acomodou-se o mais confortável que pôde e o frio que sentia no estomago voltava a incomodar. A carruagem começou a se mover lentamente e Ciel nem ao menos foi capaz de olhar para o lado de fora.
Sebastian procurou seguir os caminhos que julgava como mais desertos. As roupas poderiam trazer lhe um ar de mordomo ou algo assim, mas sua aparência ainda permanecia a mesma e poderia ser reconhecido. O guarda parecia confiante, mas estava tão apreensivo quanto Ciel.
Saíram em direção à escuridão noturna. A lua brilhando no céu era a única iluminação que tinham. Era perigoso viajar à noite, mas não tinham opção e só restava tentar ser cuidadoso enquanto seguiam pelas estradas cheias de neve.
O vento que batia na carruagem deixava o ambiente interno cada vez mais frio. Ciel cobriu-se com um dos cobertores que Sebastian havia trazido e após isso fechou os olhos. O rei ouvia o barulho dos cavalos e da carruagem e a cada instante se pegava imaginando o que poderiam encontrar na próxima estrada, na próxima curva, na próxima floresta e isso o atormentava.
Ciel não se lembrava de ter ficado tão aflito assim antes, era como se estivesse vivendo algum tipo de incômodo que não tivesse fim. Sua vida tornou-se um inferno ao conhecer Elizabeth e desde então a aflição lhe fazia companhia, mas o que sentia quando morava no castelo não se comparava em nada com o que estava sentindo agora.
Os dedos estavam frios e o estomago parecia revirar, a mente não conseguia se concentrar em nada e tudo se resumia a uma mistura de devaneios, medos e expectativas. Era bom imaginar que estava livre do castelo, livre de ser rei e principalmente livre de Elizabeth, mas mesmo isso não fazia com que conseguisse se acalmar.
Sebastian guiou a carruagem por horas seguidas sem descanso, e assim que o dia amanheceu haviam chegado a um pequeno vilarejo que ficava já bem distante do reino. O cansaço venceu a aflição e Ciel havia adormecido.
O guarda parou no tal vilarejo, fazer algo assim era arriscado, mas precisava encontrar alguém que pudesse guiar a carruagem. Sebastian estava cansado, com sono e sua capacidade de prestar atenção na estrada diminuía um pouco mais a cada instante. Se insistisse em continuar guiando acabaria provocando um acidente.
Todos ali pareciam desconfiados e com muito custo encontrou um senhor que estava disposto a aceitar o trabalho. O tal senhor chamava-se Alfredo e tinha uma aparência gentil. Sebastian sabia que não podia confiar em alguém apenas pela aparência, mas não tinha muita opção.
O vilarejo ficava distante do reino e era deveras pequeno. A possibilidade de que alguém soubesse algo sobre o desaparecimento do rei era quase nula. Sebastian entrou na carruagem e deixou que o tal Alfredo a guiasse. O guarda acomodou-se ao lado de Ciel, mas manteve-se alerta o tempo todo.
O rei permanecia adormecido e Sebastian não foi capaz de dormir. O guarda olhava pela janela a todo momento, tentando se certificar de que o senhor que havia contratado estava seguindo o caminho que havia explicado. Em breve a apreensão que sentia daria lugar a tranquilidade quando chegassem ao seu destino final.
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