O Rei e o Valente
13 Não Se Preocupe
Notas iniciais
— Sebastian?
— O que deseja senhora Angelina?
— Eu gostaria de falar-lhe sobre um assunto, você teria algum tempo disponível?
Sebastian estava junto de outro guarda, verificando os quartos vagos do castelo, na ronda semanal que faziam.
— Estou ocupado agora, mas assim que terminar, eu a procuro.
— Tudo bem, eu estarei em meu quarto.
O guarda estava intrigado pela atitude de Angelina, já que não sabia o que os dois poderiam ter para conversar a sós, mas decidiu não pensar nisso. Sebastian terminou os afazeres que tinha planejado para aquela manhã e somente depois disso teve algum tempo disponível para conversar com a tia de Ciel.
— Senhora Angelina? – Sebastian falou, batendo na porta.
— Pode entrar.
Sebastian abriu a porta e entrou no quarto. Angelina o aguardava sentada em frente a janela de seu quarto.
— Sobre o que queria conversar?
— Sente-se. – Angelina falou indicando a cadeira à sua frente.
O guarda acomodou-se no lugar indicado e ficou em silencio, esperando que a mulher começasse a falar.
— Eu vou ser bem direta quanto ao que quero saber. Você não acha que está passando tempo demais junto de Ciel?
— Sou o guarda pessoal dele, fui contratado para servi-lo diretamente e para estar sempre próximo à ele. Achei que a senhora soubesse disso. – Sebastian falou em um tom de ironia.
— É óbvio que eu sei de todas essas informações. Não se faça de tonto! Você sabe exatamente ao que estou me referindo.
Sebastian sabia exatamente aonde Angelina queria chegar. Elizabeth, sem dúvida fora chorar suas mágoas para ela e agora a mulher estava empenhada a descobrir o que havia entre Ciel e o guarda.
— Peço perdão, mas não sei ao que está se referindo.
— Elizabeth acha que você está interessado em atrapalhar o casamento dela com Ciel.
O guarda olhou para Angelina, com uma expressão triste no rosto, como se estivesse ofendido.
— Que motivos eu teria para querer que o Ciel não se casasse?
— Não sei, me diga você. Que motivos você teria?
— Nenhum. Desejo a felicidade para meu rei, assim como você deseja.
Eu desejo a felicidade do rei, mas é claro que essa felicidade não poderá ser encontrada ao lado de Elizabeth, Sebastian pensou.
— Deseja a felicidade do rei? Peça demissão então! Elizabeth não quer que você continue ao lado de Ciel.
— Pedir demissão? Jamais! – o guarda sorriu, se divertindo com o pedido de Angelina.
— Sebastian, sua presença aqui é completamente dispensável! Elizabeth e eu concordamos que seria melhor que você se afastasse de Ciel.
— Eu sirvo ao rei, e só sairei deste castelo se ele me demitir! Se você e Elizabeth estão incomodadas com minha presença, falem com o rei. Apresentem a ele seus motivos e deixem que ele decida sobre minha demissão. Deseja algo mais?
— Você é apenas um simples servo! Não tem direito de se dirigir a mim dessa forma.
— Eu a ofendi? Juro que não foi essa a minha intenção. Agora, se não deseja mais nada, tenho trabalho a fazer.
Sebastian levantou-se de sua cadeira e direcionou uma reverencia a Angelina antes de ir rumo à porta do quarto.
— Sebastian?
— Sim. – Sebastian se virou em direção à mulher novamente.
— Eu sei que há algo entre você e o Ciel. Elizabeth não me disse nada, mas eu tenho as minhas suspeitas. Seria sábio de sua parte me contar logo o que está acontecendo, será bem pior se eu descobrir por conta própria.
— Peço perdão mais uma vez, mas eu não devo satisfação sobre o que acontece entre mim e o rei. Essa sua preocupação é completamente desnecessária. Caso tenha mais alguma dúvida, pergunte ao rei. Com licença.
O guarda saiu rapidamente do quarto, deixando Angelina sozinha. A mulher estava tomada pelo ódio.
— Como meu sobrinho aceita que alguém tão grosseiro trabalhe para ele? – Angelina falou, enquanto andava pelo quarto.
Angelina chegou a duvidar quando Elizabeth lhe disse que Sebastian estava disposto a atrapalhar o casamento, mas depois daquela conversa, passou a ter certeza de que Elizabeth estava certa. Angelina decidiu então que conversaria com Ciel, já que a conversa com Sebastian não surtiu nenhum resultado.
A mulher saiu de seu quarto e foi em direção ao quarto de seu sobrinho. Ciel saia do quarto cada vez menos, então Angelina tinha certeza, quase que absoluta, de que o encontraria por lá.
— Ciel? Ciel? – falou batendo na porta, mas não obteve resposta.
Angelina não conseguia acreditar que o sobrinho não estivesse naquele quarto e exatamente por isso insistiu em bater na porta.
— Está muito enganado, se pensa que vai me evitar Ciel. Abra a porta!
Ciel estava realmente dentro do quarto e contra à sua vontade se levantou da cama e abriu a porta para a tia.
— Bom dia, tia. O que deseja? – Ciel falou em um tom falso de cortesia.
— Precisamos conversar.
Angelina não esperou que fosse convidada a entrar no quarto, ela simplesmente afastou o sobrinho da porta e entrou, acomodando-se na primeira cadeira que encontrou.
— Vejo que a pressa por essa conversa tirou-lhe um pouco da educação.
— Foi seu guarda que lhe ensinou a ser grosseiro assim?
— Creio que não. Acho que as visitas indesejáveis que tenho nesse castelo, me incentivaram a ser mais grosseiro. Enfim, pulemos os elogios. O que deseja?
— Elizabeth está chateada com você. Tenho medo que ela cancele o casamento.
— Ela deu a entender que cancelaria o casamento?
— Não.
— Que pena!
— Ciel, por que está agindo assim? Elizabeth não merece o seu desprezo!
— Eu não pedi para que Elizabeth viesse até aqui e desde o começo deixei bem claro que não queria esse casamento!
— Então por que aceitou se casar com ela?
— Tive meus motivos.
O rei queria livrar-se de Elizabeth, mas não estava disposto a contar para a tia o motivo para ter aceitado se casar com a garota. Como lhe direi que estava beijando meu guarda e por isso fui chantageado por Elizabeth? Impossível tocar nesse assunto, pensou Ciel.
— Gostaria bastante de saber quais são esses motivos, mas creio que não me dirá.
— Ainda bem que sabe.
— Enfim, não era sobre isso que eu queria lhe falar. Aconteceu algo entre Elizabeth e o Sebastian?
— Não que eu saiba. Por quê?
— Ela conversou comigo ontem e pareceu bastante incomodada com a presença de Sebastian. Ela acha que seu guarda está querendo impedi-lo de casar com ela.
— Isso não faz o menor sentido! Sebastian não tem motivos para querer tal coisa.
— Tem certeza? Ciel contrate outro guarda. O Sebastian não é a pessoa indicada para esse trabalho!
— O Sebastian é bastante petulante, eu admito, mas estou extremamente satisfeito com o trabalho dele e não tenho interesse em demiti-lo.
— Ciel você...
— Tia, me poupe dessa conversa. Não quero ter mais dor de cabeça do que já estou tendo nessas últimas semanas.
— Já vi que não adianta tentar conversar com você. Só peço para que tome cuidado e não faça nada que possa se arrepender depois.
— Obrigado pela preocupação. Até mais tarde.
Angelina saiu do quarto de Ciel com mais ódio ainda. Ela tinha esperança de que uma conversa com o sobrinho resolvesse tudo, mas pelo visto não seria tão simples assim. Ciel não demonstrou, mas a conversa com a tia lhe causou certo desespero. O rei não queria que ninguém soubesse o que havia entre ele e o guarda. O reino jamais concordaria que dois homens ficassem juntos e Ciel sabia disso.
Ciel não sabia exatamente qual havia sido a conversa que Elizabeth havia tido com sua tia, mas se sentia apavorado só de imaginar que ela tivesse contado algo que não devia durante essa maldita conversa.
— Ela não se atreveria a contar sobre o beijo! Não se atreveria! – Ciel falou para si mesmo.
O rei não queria se casar com Elizabeth, não queria ser infeliz para o resto de sua vida, mas não conseguia imaginar uma maneira de continuar ao lado do guarda sem que um escândalo fosse feito em algum momento. Ciel queria ver Sebastian, queria falar com ele, mas achou que aquela não seria a melhor hora.
— Estou perdido se souberem o que acontece nesse quarto. – Ciel falou baixinho acomodando-se na poltrona.
Ciel passou o dia à beira do desespero, temendo que Elizabeth revelasse tudo a qualquer momento. O rei pensou em todas as hipóteses possíveis, mas nenhuma solução surgiu. Ciel só queria ter paz. Só queria poder viver, ao menos uma vez na vida, sem ser incomodado pelas pessoas à sua volta.
O jantar como sempre foi servido no quarto de Ciel, o garoto se alimentou mesmo que não estivesse com a menor vontade comer. E depois de jantar pediu a empregada que discretamente chamasse Sebastian. O rei temia que a tia o estivesse observando, esperando o momento exato para encontrá-lo junto de Sebastian. A empregada fez o que foi pedido e não demorou muito para que o guarda entrasse no quarto.
— Mandou me chamar, Ciel?
— Sim.
Ciel andou rapidamente em direção a Sebastian e o abraçou. O guarda se assustou com a proximidade repentina, mas retribuiu o abraço sem questionar o motivo.
— Sebastian, eu não sei o que fazer.
— O que aconteceu?
O rei se afastou de Sebastian e sentou-se na beirada da cama. O guarda acompanhou o rei e sentou-se ao lado dele.
— Minha tia quer que eu o demita. Parece que Elizabeth teve uma conversa com ela sobre você.
— Eu sei disso. Sua tia tentou me fazer pedir demissão hoje cedo.
— E por que você não me disse nada?
— Não achei que fosse importante.
— Como algo assim poderia não ser importante? Ela tem suspeitas quanto a relação que temos, e isso me preocupa.
— Ela suspeita, mas não pode provar nada.
— Elizabeth nos viu juntos.
— Se Elizabeth se atrever a contar algo, será sua palavra contra a dela.
— Sebastian, não faça as coisas parecerem tão simples. Acha que eu tenho forças para enfrentar esse tipo de acusação diante do reino? Eu não estou pronto para enfrentar um escândalo, e acho que nunca estarei. – Ciel falou em desespero.
— Ciel, não se preocupe...
— Como pode pedir para que eu não me preocupe? O que aconteceria se chegasse aos ouvidos dos conselheiros do reino as coisas que acontecem nesse quarto? O que há entre nós jamais seria bem visto.
Ciel levantou-se da cama e ficou em frente a Sebastian. O rei estava bastante alterado, mas o guarda parecia mais calmo do que nunca.
— Você não havia dito a Elizabeth que contaria sobre a chantagem se ela contasse o que viu?
— Sim, mas não acho que isso tenha feita alguma diferença. Elizabeth é imprevisível, e eu acho que ela seria capaz de qualquer coisa para garantir que esse casamento ocorra.
— Ciel, deixe que Elizabeth organize o casamento. E no dia da cerimônia, quando todos estiverem distraídos com o casamento, nós fugiremos.
O rei sentiu as pernas tremerem só de pensar em fugir do castelo. Ciel não se imaginava capaz de fazer algo assim.
— E viveremos aonde? Como você conseguiria me tirar do castelo sem que os guardas e os empregados vissem? Não tem como isso dar certo!
Sebastian puxou Ciel pelo braço, fazendo com que ele ficasse parado entre o espaço que havia entre suas pernas e o abraçou pela cintura.
— Ciel, por que você gosta tanto de complicar as coisas? Esqueça a Elizabeth, sua tia e pense somente em você. O que você quer fazer da sua vida?
— Eu não sei...
— Então descubra!
— Não é tão simples assim.
— Eu sei que não, mas ao menos tente. Eu quero ser capaz de passar o resto da minha vida com você, mas não posso te obrigar a vir comigo. A decisão é sua.
— Esse seu plano tem tantas chances de dar errado.
— Nunca saberemos o que poderia acontecer, se não tentarmos.
Ciel ficou em silencio diante da reposta de Sebastian. O guarda continuava agarrado a cintura do garoto, olhando-o nos olhos.
— O que você sente por mim? – Sebastian fez a pergunta sem pensar.
Uma expressão de espanto se formou no rosto do rei. Ciel não esperava que aquela pergunta surgisse em um momento com aquele, então tentou se afastar, mas Sebastian o impediu.
— Você disse que gostava de mim na noite em que bebeu muito vinho.
Ciel sentiu o rosto esquentar diante do que o guarda falou, já que ele não se lembrava de ter dito nada para Sebastian naquela noite. A vergonha começava a atingir Ciel.
— Eu... Não me lembro disso.
O guarda puxou Ciel para mais perto de seu corpo, fazendo com que o garoto se abaixasse o suficiente para que o guarda lhe alcançasse a orelha.
— Ciel, eu te amo. – Sebastian sussurrou.
O rei tremeu diante da frase do guarda, o estomago pareceu esfriar, a sensação era estranha demais para que ele conseguisse explicar o que estava sentindo. E depois de algum tempo de silencio, em um momento de certeza, Ciel envolveu os braços no pescoço do guarda e decidiu ser sincero com ele e consigo mesmo.
— Eu também te amo.
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