O Rei e o Valente
10 Não Quero Viver Assim
Notas iniciais
Ciel não conseguia por em palavras os sentimentos causados por aquele encontro com Sebastian. O rei não conseguia entender como foi capaz de fazer algo como aquilo, algo que ia totalmente contra sua personalidade e contra quem ele era. Talvez eu esteja mudando, pensou. Ele só não sabia dizer se a mudança era para melhor ou não. Seus pensamentos nunca estiveram tão confusos quanto estavam agora.
O rei simplesmente não conseguia aceitar aquilo, pois na sua cabeça tudo precisa de uma explicação, e aceitar os acontecimentos sem fazer complicações desnecessárias era algo completamente impossível para ele. No principio julgou que fosse culpa da curiosidade já que foram sensações completamente novas para ele e o descobrimento normalmente causa curiosidade, mas acabou concluindo que só a curiosidade não o levaria tão longe.
Ciel pensou em muitas hipóteses que poderiam explicar o que havia acontecido, mas nenhuma delas parecia fazer sentido. E o rei só não conseguia entender o que estava acontecendo, pois se negava a enxergar a realidade. Desejo foi justamente o que sentiu naquele momento, e desejo era justamente o que sentia agora, e mesmo com o passar dos dias esse desejo não diminuiu.
Acabou tocando em lugares que jamais tocaria antes e se acariciando de uma forma que nunca imaginou. Foi influenciado a fazer tais coisas, mas em momento nenhum conseguiu se convencer de que não havia gostado daquilo. E era isso o que mais lhe incomodava. Cedeu a influencia do guarda e sabia que cederia de novo caso a oportunidade surgisse. O orgulho lutava para convencê-lo de que aquilo era baixo e vergonhoso, mas não dava para negar que era desejo.
Apenas o ato de olhar para o guarda lhe causava arrepios, seus sonhos o faziam reviver as caricias e o beijo que recebeu dele, acordava excitado durante à noite, mas se recusava a se masturbar outra vez. Começou até mesmo a se recusar a dormir, já que nos sonhos as caricias do guarda o atormentavam. É um homem, meu guarda e anos mais velho do que eu, isso é de muitas formas errado, pensava.
Com o passar dos dias, a falta de sono e as duvidas excessivas, causavam em Ciel uma irritação maior que a de costume. O rei falava aos outros somente o necessário e só respondia o que lhe perguntavam. Evitava Elizabeth ao máximo, mas mesmo assim a garota o encontrava e o rei já havia perdido a conta de quantas vezes foi grosseiro com ela. Ela seria louca se casasse comigo mesmo depois de tanta grosseria e rejeição, pensava.
Elizabeth continuava a organizar cada detalhe do casamento e estava animadíssima, mesmo que não estivesse à vontade com as reações grosseiras de Ciel. A garota gostava de alimentar a ilusão de que Ciel mudaria com o tempo, apesar de um parte de si gritar que nada daquilo poderia fazê-la feliz. E depois de tantas perturbações a vida do rei limitava-se a evitar os outros moradores do castelo.
Sebastian foi o único a quem o rei não precisou evitar, já que o guarda por si só evitava proximidades exageradas com o garoto, ele estava sempre ali observando Ciel, mas não se aproximava mais do que devia e também se mantinha em silencio. Ciel achou que algo na relação deles mudaria depois do que aconteceu, mas tudo permaneceu estranhamente calmo e normal, o que de certa forma começou a incomodar o rei.
O guarda planejava atrair e conquistar Ciel aos poucos, para quem sabe um dia o garoto o procurasse por conta própria. Sebastian sabia que o orgulho de Ciel era imenso e que talvez o que queria nunca acontecesse, mas apesar disso não estava disposto a desistir. As caricias de dias atrás e a repentina distancia que estava mantendo faziam parte desse plano.
Já passava da meia noite e Ciel estava em sua cama lutando para não dormir. O rei evitou o sono durante muitos dias, pois não queria sonhar. Cada sonho que tinha envolvia Sebastian de uma maneira diferente, mas em todos eles era acariciado pelo guarda. Tentava evitar o sono que chegava, mas em um momento ou outro adormecia e só conseguia dormir com mais tranquilidade depois de passar alguns dias em claro. O garoto não queria admitir, mas estava enlouquecendo aos poucos.
O corpo e a cabeça doíam constantemente e as olheiras nunca mais deixaram seus olhos. Passou tanto tempo remoendo os últimos acontecimentos que depois de certo tempo não conseguiu mais esquecê-los. O sono era mais forte do que sua vontade de não dormir e seus olhos insistiam em fechar-se.
Estava quase adormecendo quando ouviu passos no corredor. O barulho parou e então a maçaneta de sua porta foi aberta. Sentou-se rapidamente na cama tentando ver quem estava na porta, mas não viu ninguém. A porta não estava completamente aberta.
— Sebastian? – perguntou incerto.
A porta se abriu completamente e então o rei viu que era realmente Sebastian quem estava ali.
— Ainda acordado, jovem rei?
— Sim...
— Só quis ver se estava tudo bem. Então boa noite. – Sebastian falou fechando a porta.
— Sebastian! – Ciel chamou.
O rei sentiu-se estranhamente animado ao ver Sebastian ali na porta de seu quarto, e vê-lo indo embora fez com que percebesse que queria que o guarda ficasse. Ciel estava carente e sentindo-se solitário como nunca sentiu antes, talvez fosse a falta de sono e o cansaço lhe causando sentimentos confusos. Sebastian abriu a porta novamente e olhou para Ciel.
— Aconteceu algo?
Ciel chamou o guarda no calor do momento e por conta disso não fazia idéia do que dizer. O garoto pensou alguns instantes antes de pensar em para falar.
— Você disse que... Veio ver se estava tudo bem?
— Sim, eu disse.
— Acho que não está tudo bem. – Ciel falou olhando para baixo.
Sebastian podia jurar que sabia exatamente o que incomodava seu rei, mas achou melhor fingir que não sabia. O rei não gostaria de ouvir Sebastian dizendo a ele que aquele incômodo todo era mais desejo do que duvidas.
— O que te incomoda?
— Nada.
— Nada? E como isso te impede de adormecer?
Ciel começava a se arrepender de ter chamado o guarda e de ter dito que não estava bem, pois agora acabaria sendo forçado a dar explicações e não seria nada agradável para si contar a Sebastian tudo o que passava por sua cabeça.
— Eu não sei direito. Só não tenho sono.
Sebastian ainda estava parado na porta, pois achou que aquela conversa com Ciel não ia muito longe e justamente por isso decidiu não entrar. Mas pelo rumo que a conversa tomava ele acabara concluindo de que o melhor seria entrar. O guarda entrou no quarto e se aproximou da cama de Ciel, esperando que a qualquer momento o rei o expulsasse dali.
— Você quer conversar sobre o que está te incomodando Ciel?
— Não tem nada me incomodando. – Ciel respondeu de imediato.
— Não entendo essa sua insistência em complicar tudo! Apenas enxergue a realidade Ciel!
Sebastian quase sempre mantinha a calma quando estava próximo a Ciel, mas de vez em quando, algumas reações do garoto o tiravam a paciência.
— Eu não consigo dormir direito há uma semana. – Ciel falou baixinho.
A personalidade do rei estava completamente diferente. A irritação exagerada de antes parecia ter se transformado em uma calma repentina.
— O fato de você não conseguir dormir tem algo a ver com o que fizemos aquela noite?
Ciel levantou a cabeça e olhou para Sebastian com uma expressão de espanto. Como se estivesse chocado por ter escutado o guarda falando sobre aquele assunto. Sebastian concluiu após aquela reação que as noites mal dormidas de Ciel só podiam ser por causa daquilo. O guarda sentia-se um pouco arrependido do que aconteceu, pois jamais imaginou que Ciel agiria assim e que por conta disso não conseguiria dormir.
— Ciel esqueça esse seu orgulho pelo menos por um momento. – Sebastian falou sentando-se ao lado de Ciel.
— Não sei do que você está falando Sebastian!
— Eu tenho certeza absoluta de que você sabe.
— Eu não quero falar sobre isso. Por que você insiste em me perturbar com a sua presença?
Bastaram apenas alguns instantes de conversa e a repentina e estranha calma de Ciel havia novamente se transformado em raiva e irritação.
— Não sou eu que te perturbo. Muito pelo contrário, você se perturba por conta própria.
— O que você está querendo dizer? – Ciel questionou.
— Eu estou querendo dizer que você não consegue tomar decisões por conta própria e que mente para si mesmo. E que prefere passar a vida sendo perturbado por pensamentos ao invés de admitir o que sente para si mesmo.
Ciel gostaria de ter uma boa resposta para o que acabara de ouvir, mas não tinha. Queria poder dizer que era mentira, mas isso também não podia fazer, já que tudo o que acabara de ouvir era verdade. Nunca tomou decisões por conta própria, sempre foi arrogante e orgulhoso, mas nunca teve o controle de sua própria vida.
— E o que você supõe que eu sinta? – Ciel perguntou grosseiramente.
— Eu não estou supondo nada.
— Sebastian me deixe sozinho!
— Você disse que não estava bem, não posso ir embora e te deixar sozinho. O que está te incomodando?
— NADA! VÁ EMBORA! – Ciel falou levantando da cama.
— Ciel você sabe muito bem que esses gritos não irão me fazer ir embora. O que está te incomodando?
Naquele momento uma mistura de sentimentos distintos atormentava a mente de Ciel. Era sono, raiva, cansaço, dor, vergonha, medo, dúvida e indecisão. A presença de Sebastian só fez com que piorasse e foi exatamente isso que fez Ciel perder o controle.
— Você me incomoda! Todas as minhas perturbações são causadas por você! Eu sonho com você todas as noites e por isso me recuso a dormir. Eu estou me sentindo estranho desde aquele dia! Eu estou cansado, irritado e não consigo raciocinar direito. Eu não aguento mais isso! Eu não quero viver assim.
Ciel deixou-se cair no chão e ficou de joelhos olhando para baixo. Sebastian não esperava que ele fosse ter coragem de falar tão abertamente sobre o que o incomodava, e sentia-se um pouco arrependido por ter provocado Ciel. O guarda levantou da cama e se aproximou de Ciel.
— Vamos para a cama. – Sebastian falou puxando o garoto pelo braço.
— Não precisa se incomodar comigo.
Ciel se recusou a levantar do chão e então Sebastian o pegou nos braços, levando-o em direção à cama.
— Não aja feito criança. – Sebastian falou antes de jogar Ciel na cama.
Sebastian acomodou se novamente no lugar de antes na cama e depois puxou Ciel para mais perto de seu corpo.
— O que vo-você pretende fa-fazer Sebastian?
— Não se preocupe, eu não farei nada. Você sequer está em condições de fazer o que eu realmente quero.
O guarda acomodou Ciel em seus braços, a cabeça do garoto encostada em seu peito e então o cobriu com os cobertores que estavam na cama.
— Durma. – Sebastian sussurrou, abraçando Ciel com força.
— Mas...
— Apenas durma Ciel.
O rei queria discutir, queria reclamar, queria pedir para que Sebastian se afastasse, mas não conseguiu. Os braços do guarda estavam tão confortáveis e aconchegantes que não demorou muito para que o sono chegasse.
— Por que você age assim comigo Sebastian? – Ciel sussurrou.
— Assim como?
— Me persegue e me incomoda, me beija e depois some. Eu não consigo entender.
— Você é realmente muito inocente ou então não quer enxergar. – Sebastian falou rindo.
Ciel se irritou com a risada do guarda e então tentou se afastar, mas Sebastian o apertou mais ainda impedindo que ele sequer se mexesse.
— Eu esperava que você percebesse sozinho, mas parece que é meio impossível. Eu te amo Ciel.
O guarda lembrava-se de cada dia que passou com Ciel durante aqueles anos em que foi guarda dele. No começo lutou contra tudo o que sentia, pois se recusava a acreditar que estava apaixonado por um adolescente, mas Ciel foi crescendo e o sentimento que Sebastian sentia só aumentava. Dormia com várias mulheres tentando encontrar uma que mudasse aquele sentimento, mas sempre que estava com elas pensava em Ciel.
— Foi amor da primeira vez que te vi e ainda é amor agora. Sempre foi amor – Sebastian falou baixinho.
Sebastian demorou muito tempo para conseguir admitir para si mesmo que amava Ciel e só agora o guarda percebia o quanto estava sendo injusto com o garoto. Deuses! Eu estou cobrando dele uma certeza que eu demorei anos para ter, pensou. Eu não posso obrigá-lo a decidir em menos de um mês o que eu demorei anos para decidir.
A respiração de Ciel tornou se pesada e o rei parecia estar adormecido. Sebastian o chamou, mas ele não respondeu.
— Dormiu enquanto conversávamos? Pergunto-me até que parte da confissão ele ouviu.
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