O Rei e o Valente
11 Algumas Mudanças
Notas iniciais
Ciel acordou extremamente cedo, fazia mais frio do que o normal. Mexeu-se na cama lentamente, espreguiçando-se. Sentia o corpo leve e descansado, percebeu então que havia dormido maravilhosamente bem à noite. Virou-se na cama e passou a fitar o lustre que se balançava à cima de sua cama. Estava com uma incômoda sensação de estar esquecendo algo.
Sentia que precisava se lembrar de alguma coisa. Mas o que seria? Fechou os olhos e começou a reviver o dia anterior, até chegar a parte onde estava em sua cama sem conseguir adormecer.
— Dormi tão bem que cheguei até a esquecer. – Ciel falou, passando a mão pela testa.
Todas as lembranças da noite passada vieram à tona. O Sebastian estava aqui e nós discutimos. Eu adormeci em seus braços e foi somente por isso que dormi tão bem. E além de tudo eu acho que ouviu um “eu te amo”, mas não sei se posso afirmar que foi real. O sono que eu sentia era tanto que eu sequer estava conseguindo raciocinar direito.
Ciel havia dormido tranquilamente, o que de fato não fazia há dias. Mas bastava acordar para que voltasse imediatamente a remoer sempre os mesmos assuntos. A presença de Sebastian, casamento com Elizabeth, a vida sufocante que levava e agora ainda tinha uma nova questão lhe incomodando. Sebastian disse “eu te amo” ou foi apenas invenção de sua cabeça?
O rei levantou-se da cama e trocou de roupa. Fazia dias que não se sentia tão bem e descansado. Sentia-se diferente e estranhamente mudado. Como apenas uma boa noite de sonos foi capaz de fazer algo assim? Nem ele mesmo sabia. Desceu as escadas rapidamente e pediu que lhe servissem o café da manhã. Tinha um pouco de pressa e estava decidido a resolver alguns assuntos.
As mesmas dúvidas que o atormentavam há dias continuavam consigo, mas acabou percebendo que algumas certezas haviam surgido depois de tanto tempo pensando em vão. Lembrava-se com clareza da discussão que teve com o guarda, e infelizmente se via obrigado a concordar com absolutamente tudo o que ele havia dito.
O rei realmente tinha problemas em tomar decisões por conta própria. Depois da morte de seus pais se viu obrigado a reinar no lugar deles, deixou que os conselheiros do reino fizessem essa escolha, e nem sequer questionou. Alguns anos de monotonia passaram e se viu obrigado a aceitar Elizabeth no castelo, deixou que a tia tomasse essa decisão. Se viu obrigado a casar com Elizabeth, novamente sua vida tomou um rumo que não queria e que não foi decidido por si mesmo.
Insistia em dizer que foi obrigado a seguir por esses caminhos. Obrigado? Quem o obrigou? Poderia ter se negado a fazer o que lhe pediram, podia ter sido mais corajoso e ido contra as situações que não concordava, mas não o fez. Ciel havia se obrigado a fazer tudo isso, a culpa era completamente dele e finalmente, depois de muito tempo, o garoto havia percebido isso. Havia percebido pela primeira vez que tinha uma escolha, e que só o obrigaram a fazer coisas que não queria, por que ele mesmo deixou.
— Até agora eu deixei as pessoas decidirem a minha vida por mim, mas eu pretendo mudar isso. – sussurrou para si mesmo.
O rei tentava ter mais segurança nas decisões que estava tomando, mas estava sendo difícil. Não estava acostumado a agir assim e situações desconhecidas quase sempre causam medo. O castelo estava estranhamente sossegado e o silencio era sua única companhia. Decidiu ler algo para passar o tempo enquanto bebia seu chá. Estava decidido a conversar com Elizabeth, mas achava que a conversa não era tão urgente à ponto de precisar acordar a garota.
Seguiu em silencio, lendo seu livro e bebendo seu chá. Esperou pacientemente e um bom tempo se passou até que Elizabeth e a tia descessem para o café da manhã. As duas estavam quase sempre juntas, pareciam inseparáveis e Ciel sabia que a tia gostava bastante de Elizabeth.
— Bom dia, Ciel. – Elizabeth falou sentando-se ao lado do rei.
— Bom dia. – Ciel respondeu secamente.
— Meu sobrinho dormiu bem?
— Sim, tia. Maravilhosamente bem.
Ciel percebeu então que não poderia conversar com Elizabeth naquele momento, já que não estava com a menor vontade de ter aquela conversa na presença de sua tia.
— Eu preciso falar com você, Elizabeth. Termine seu café da manhã e venha até meu quarto.
— S-Sim. – Elizabeth respondeu.
O rei levantou-se da mesa e voltou rapidamente para seu quarto. Sentou-se em sua poltrona e voltou a ler seu livro, enquanto Elizabeth não chegava. Ciel percebeu que gostaria de ter tido um relacionamento mais amigável e agradável com a garota, mas isso era quase impossível para ele. Ciel achava uma pena que as coisas fossem assim, mas a personalidade de Elizabeth lhe tiravam qualquer vontade, que alguma vez teve, de se aproximar.
— Pode entrar. – Ciel respondeu ao ouvir batidas na porta.
Elizabeth entrou no quarto e fechou a porta atrás de si, aproximando-se de Ciel logo depois.
— Queria falar comigo?
— Sim. Sente-se.
Ciel indicou a cadeira que estava à frente e Elizabeth foi em direção à ela. Acomodando-se lá.
— Elizabeth você pretende ir em frente com essa história de casamento?
— Eu não quero falar sobre esse assunto Ciel.
— Não importa. Nós falaremos sobre isso, você querendo ou não.
— Eu pretendo me casar com você. – Elizabeth respondeu.
— Você não percebe que não seremos felizes? Eu não te amo, Elizabeth. E não quero me casar com você.
Elizabeth passou a se mexer constantemente na cadeira e sequer olhava para o rosto de Ciel.
— Mas... Mas eu quero me casar com você, Ciel. – Elizabeth falou baixinho.
Ciel suspirou tentando não perder a paciência. Havia prometido para si mesmo que não voltaria a ser grosseiro com Elizabeth e que resolveria a situação da melhor maneira possível.
—Eu fui grosseiro com você durante os últimos dias e você ainda acha que esse casamento vale à pena? Você não pode me fazer feliz! Eu não posso te fazer feliz! Pode ser triste, mas é essa a realidade.
— É por causa dele não é? O Alois me avisou que você me trocaria por ele, mas eu não quis acreditar!
— Elizabeth eu não estou te trocando por ninguém! Eu estou tentando manter a calma, mas você torna tudo mais difícil!
— Você deveria demiti-lo Ciel. Você deveria. – Elizabeth começou a choramingar e seu tom de voz estava alterado.
Elizabeth estava se iludindo desde o dia em que chegara ao castelo e bastava alguém tentando desfazer essas ilusões para que a garota começasse a chorar e perdesse o controle.
— Eu não demitirei ninguém! Acalme-se e preste atenção no que eu vou te dizer. Eu nunca quis que você viesse para esse castelo, você está aqui por culpa da minha tia. Nós dois não temos nada em comum, seremos infelizes para o resto da vida. Eu não pretendo passar a minha vida assim! E também não quero que você passe a sua vida assim.
— Ciel, por favor! Confie em mim, eu sei que posso te fazer feliz.
— Essa sua ilusão tem que parar Elizabeth!
— Eu ainda posso contar o que vi. Eu posso contar para todos o que aconteceu entre você e Sebastian.
— Vá em frente! Eu direi que o que diz é falso. Direi que você se enfiou em minha cama, que me seduziu. O que irão pensar de uma moça que dorme tão facilmente com um homem? E a sua reputação como fica?
— Eu... Eu...
Ciel se sentia incomodado por ver Elizabeth naquele estado e chantageá-la não parecia boa idéia, mas não tinha muita opção. Ver uma moça chorando não era uma sensação muito agradável para o rei, mas teria de agüentar.
— Veja bem, Elizabeth. Eu não pretendo impedir que você continue com esse casamento.
— Não? – Elizabeth finalmente voltou a olhar para Ciel.
— Não. Eu já tomei minha decisão quanto à esse casamento e deixarei que tome a sua. Não irei te obrigar a cancelar a cerimônia, mas te asseguro que seria o melhor a ser feito. Você foi avisada e eu não vou mais tocar nesse assunto, você que faça o que achar melhor. Pode ir agora.
— O-obrigado, Ciel.
— Não me agradeça. Eu não preciso de agradecimentos.
Elizabeth saiu rapidamente do quarto enxugando com as mãos, as lágrimas que escorriam pelo rosto. Ciel percebeu que não conseguia odiar e nem amar Elizabeth. O único sentimento que nutria pela garota era pena. As coisas que ela dizia e a forma com que se iludia eram quase irreais. Só conseguia acreditar que Elizabeth era assim, porque havia visto com os próprios olhos.
A conversa com certeza não tinha sido agradável e a situação com Elizabeth não estava resolvida, mas Ciel estava decidido quanto ao que faria em relação ao casamento. O rei passou o resto do dia pensando sobre as outras decisões que precisava tomar, mas de novo não chegou a nenhuma conclusão.
— Um passo de cada vez, um passo de cada vez. – Ciel falou em voz alta.
O garoto queria aproveitar a repentina mudança em seus pensamentos para resolver tudo o que o incomodava o mais rápido possível, mas concluiu rapidamente que isso não seria possível. E ele já estava mais aliviado apenas pelo fato de ter conversado com Elizabeth e por ter tomado uma decisão em relação à ela.
Aquele cansativo dia havia passado depressa e a noite tinha chegado outra vez. O rei havia esquecido aquela idéia de ficar sem dormir, mas agora que estava decidido a dormir em paz, o sono não vinha. Olhava para o lado vazio em sua cama e não conseguia evitar pensar em Sebastian. Ele estava aqui ontem, Ciel pensou.
O rei não era bom em admitir as coisas, mas sabia que gostava da companhia de Sebastian. E que o guarda o fazia bem, de certa forma. Sentiu vontade de chamar Sebastian, mas se controlou e continuou deitado em sua cama. Torcendo para que o guarda aparecesse por lá, assim como na noite anterior.
Havia mudado um pouco de postura, mas não o suficiente para deixar o orgulho de lado e aceitar Sebastian. As horas passaram e o bendito sono não vinha, tentou de toda forma dormir, mas não conseguia. Virava de um lado para o outro, mas a cama lhe parecia extremamente desconfortável. Desistiu de pegar no sono e então sentou-se na cama.
Mais algum tempo passou antes que ouvisse novamente o som de passos no corredor. O som parou, mas dessa vez a porta não se abriu. Esperou que a porta fosse aberta, mas como isso não ocorreu se arriscou a chamar por um nome.
— Sebastian? – Ciel falou incerto.
O guarda estava do outro lado porta, olhando fixamente para a maçaneta quando ouviu Ciel chamar por seu nome.
— Me chamou jovem rei? – Sebastian falou abrindo a porta.
— Sim.
— Deseja algo?
— Não, eu acho que não.
Sebastian esperava que Ciel tivesse algum motivo em especial para ter chamado por seu nome, mas não era esse o caso. O guarda julgou então que já era suficientemente bom que Ciel ao menos o tivesse chamado. O guarda entrou no quarto, e sem esperar que Ciel dissesse algo, se acomodou no espaço vazio em sua cama.
Os dois ficaram em silencio. Ciel queria falar alguma coisa, mas não sabia o que dizer. O rei desceu um pouco o corpo e quase inconscientemente encostou-se ao ombro de Sebastian. Era o máximo de aproximação que Ciel conseguia manter. O guarda sorriu com a simples atitude do rei e então o abraçou, trazendo-o para mais perto de si.
— Eu conversei com Elizabeth. – Ciel falou tentando fugir do silencio incômodo que ocupava o ambiente.
— Sobre o casamento?
— Sim, mas a conversa não surtiu o efeito que eu esperava.
— Ela não desistiu do casamento?
— Não, ela parece não querer enxergar a realidade. Eu sinto pena dela, eu queria poder fazê-la feliz, mas não posso.
— Ciel Phantomhive falando assim de alguém? Parece que algumas mudanças estão ocorrendo. – Sebastian falou em um tom irônico.
— Não seja estúpido Sebastian!
— Esse sim é o Ciel que eu conheço.
Ciel começou a pensar que naquele momento os dois pareciam com um casal e concluiu que a idéia de ser um casal não o desagradava nenhum pouco. A visão que eu tinha do Sebastian mudou tanto e eu nem ao menos sei dizer quando isso aconteceu. Sebastian passou a acariciar os cabelos de Ciel e o rei se rendeu aos sentimentos ternos que aquela caricia lhe causava, e mais uma vez adormeceu nos braços de Sebastian.
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