O Rei e o Valente

3 Prefiro Continuar Sozinho


Notas iniciais
Boa leitura *O*

Ciel estava em seu quarto andando de um lado para o outro, nunca se sentiu tão incomodado quanto agora. Elizabeth chegaria em poucas horas e ele ainda não havia conseguido pensar em uma maneira de se livrar dela sem ser grosso ou magoá-la. Aquilo tudo era culpa de sua tia e o garoto não queria envolver Elizabeth em seus problemas. Ciel não era dado a cortesias e a gentilezas, mas magoar uma garota não lhe parecia correto, apesar de ter certeza absoluta de que o bem estar dela não o interessava.

Ele não tinha e nem nunca teve a intenção de se casar, as obrigações que supostamente tinha como rei não interessavam à ele nenhum pouco, permaneceria solteiro à qualquer custo. Fugiria se necessário, pensou. Mesmo sabendo que jamais teria coragem suficiente para escapar dali.

Sua cabeça começava a doer, passou o dia trancafiado em seu quarto, fugindo da tia. Os dois iniciavam uma discussão toda vez que se olhavam, estava contando os minutos para que aquela mulher fosse embora. Gostava muito da tia, mas tê-la por perto o importunando com idéias estúpidas sobre casamento era enlouquecedor. Respirou fundo passando as mãos pelo cabelo, sua dor de cabeça aumentava a cada instante.

– Preciso de um chá – falou em voz alta.

Abriu a porta do quarto lentamente, tinha certeza de que veria Sebastian por ali, mas ao abrir a porta se surpreendeu, o guarda não estava lá. Estranhou não ter visto Sebastian, mas julgou que não tê-lo por perto era uma pequena benção, já que seu humor não estava dos melhores. Alias seu humor nunca estava dos melhores, o garoto sequer conhecia o sentido da palavra bom humor.

Desceu as escadas sentindo a cabeça doer a cada passo que dava, sentiu de novo que precisava urgentemente de um chá. Começou a ouvir algumas risadas conforme ia se aproximando da sala de estar, desejou saber qual seria o motivo de tanta alegria. Encontrou Sebastian conversando com sua tia, os dois estavam sentados em volta da mesa, riam descontroladamente. Passou alguns instantes observando Sebastian de longe, nunca o vira tão alegre.

Percebeu que estava gastando tempo demais fazendo observações desnecessárias, respirou fundo tentando conseguir forças para lidar com aquelas risadas irritantes e então se aproximou. Sebastian parou de sorrir assim que viu Ciel se aproximando, a tia não chegou a perceber a presença dele até que o garoto a tocou nos ombros.

Ciel se encaminhou para seu lugar de costume na mesa, sentou-se calmamente sem dizer nada a ninguém. Ciel passava a mão pela testa constantemente como se aquilo fosse melhorar sua terrível enxaqueca, sua tia o observava atentamente.

– Você parece péssimo, Ciel.

– Diga-me algo que eu não saiba tia. – respondeu rispidamente.

Se já não tinha muita paciência quando estava bem, com dor de cabeça a situação só piorava. Chamou umas das cozinheiras e então solicitou uma xícara de chá de hortelã com gengibre.

O chá lembrava Ciel de sua mãe, já que ela o preparava para ele quando o garoto sentia dor de cabeça, o que era constante.

Ciel percebeu que as risadas e a conversa pararam com sua chegada, mas não se importou. Sabia que não tinha uma personalidade muito divertida e sabia também que isso deixava as pessoas com receio de se aproximar dele, mas não se importava muito. Levantou a cabeça olhando em volta, achava que o chá estava demorando além do necessário para chegar.

O garoto olhou em direção ao Sebastian, percebeu que ele e sua tia se entreolhavam, não gostava de toda aquela proximidade.

– Você não tem nada melhor para fazer Sebastian?

Ciel considerava dispensável a presença de Sebastian naquele momento, pelo menos foi isso que disse para si mesmo. A verdade é que ver sua tia e Sebastian ficando tão próximos o deixava extremamente incomodado, mas seu orgulho insistia em dizer lhe que não era nada disso.

– Não sei jovem rei... – Sebastian respondeu com o mesmo sorriso cínico de sempre no rosto.

– Sugiro então que encontre algo para fazer e de preferência longe daqui.

– Como desejar, jovem rei.

Sebastian era arrogante e cínico, mas costumava obedecer as ordens de seu rei sem questionar. Bom, nem sempre às vezes o guarda as ignorava. O guarda foi em direção a área externa do castelo, deixando Ciel a sós com Angelina.

– Não precisava ser tão rude com ele, Ciel.

– Tia, a senhora veio até aqui querendo me dizer com quem casar e o que fazer da minha vida, não queira me dizer também como devo tratar o Sebastian. Não quero ser mais grosseiro com você do que já estou sendo.

A empregada chegou trazendo o chá que Ciel havia pedido, o garoto bebericou um pouco do liquido quente, o chá exalava um cheiro forte de hortelã, o que o fez se sentir um pouco melhor. Ciel após pensar um pouco resolveu quebrar o silencio.

– Elizabeth chega hoje tia?

– Creio que sim, se nenhum imprevisto ocorrer é claro.

Voltaram a ficar em silencio, Angelina começava a se sentir incomodada, ela não queria que o sobrinho passasse a ter raiva dela. Quis apenas que o garoto fosse mais feliz, julgava que passar a vida sozinho era muito triste e sabia que Ciel jamais procuraria por uma esposa, achou que Elizabeth pudesse ser uma boa esposa para ele.

– Ciel, ouça. Eu queria deixar claro que não fiz tudo isso para te aborrecer, eu apenas achei que a Elizabeth pudesse fazer bem à você. É triste passar a vida sozinho.

– Eu entendo sua preocupação, mas eu sei o que é melhor para mim. Eu não conheço muito bem a Elizabeth, e nem quero chegar a conhecer. Está tudo bem em passar a vida sozinho, tia. Não se preocupe com isso e por favor, não se intrometa mais.

Angelina suspirou se sentindo derrotada, gostaria de ver o sobrinho encontrando um par adequado, mas percebeu que era em vão. Ciel não mudaria de idéia por mais que conversassem, mas lá no fundo ainda tinha um pouco de esperança, quem sabe Elizabeth não consiga conquistá-lo quando chegar.

– Eu desisto então, Ciel. Mas a sua prima já está vindo para cá, o que você fará quanto à isso?

– Nada, deixe que venha. Eu conversarei corretamente com ela.

Ciel terminou seu chá e após alguns minutos se sentia revigorado. A dor de cabeça fora sumindo aos poucos, se preparava para sair da mesa quando Sebastian entrou no cômodo novamente.

– A senhorita Elizabeth acaba de chegar.

– Tudo bem. Eu irei recebê-la. – Angelina falou se levantando.

Angelina saiu junto com Sebastian e Ciel nem se preocupou em sair do lugar. Não queria ser mal educado, mas também não queria demonstrar hospitalidade demais, tinha a impressão de que acabaria morando com duas mulheres caso fosse muito receptivo tanto com Elizabeth quanto com Angelina e não queria isso de forma alguma.

Alguns instantes se passaram e então Elizabeth entrou na sala acompanhada por guardas que traziam pelo menos cinco malas consigo. Ciel jurou que a prima estava de mudança para o castelo após ver tanta bagagem. A garota parou em frente a Ciel fazendo uma reverencia, Ciel se aproximou e então depositou um beijo na mão dela.

– Como foi a viagem Elizabeth? – falou forçando um sorriso.

– Cansativa.

Elizabeth se sentou e então Ciel olhou em volta desesperado procurando pela tia, pelo Sebastian, por qualquer pessoa. Não sabia sobre o que falar com Elizabeth e queria evitar situações constrangedoras, mas todos pareciam ter sumido de repente. Ciel resolveu se sentar e após ter se acomodado em sua cadeira deu uma boa olhada na prima. A garota trajava um vestido rosa nada discreto e tinha a mesma aparência infantil de sempre.

– Deseja beber algo Elizabeth?

– Não, eu estou bem. Alias eu gostaria de saber em qual quarto irei dormir.

– Claro.

Ciel chamou rapidamente por um empregado, achou formidável a idéia de que ela fosse para seu quarto assim evitaria o sofrimento de ter que arrumar assunto suficiente para uma conversa. Elizabeth subiu a escada acompanhada por dois empregados que carregavam um pouco das malas dela. Ciel havia pedido para que os empregados preparassem para ela o quarto que ficasse o mais longe possível do dele, queria diminuir as chances de esbarrar com ela no corredor, na verdade queria vê-la o mínimo possível.

Ciel aguardou um pouco e então subiu para seu quarto, conversaria com Elizabeth mais tarde, só queria manter distancia dela por hora. Andou calmamente pelo corredor e então entrou em seu quarto. Sentou- se em sua poltrona pensando que teria sossego, mas instantes depois ouviu batidas na porta.

– Pode entrar. – respondeu suspirando.

A porta se abriu e então Ciel ficou surpreso ao ver que era Elizabeth. A garota não entrou no quarto, apenas parou próxima a porta.

– Entre Elizabeth. Deseja algo?

– Apenas conversar...

– Pode se sentar. – falou apontando para a cadeira que estava próxima a escrivaninha.

– Então conversaremos sobre o que?

– O que você... Achou da idéia do casamento?

Ciel não esperava ter que tocar naquele assunto ainda, mas conclui que quanto antes resolvessem aquilo melhor.

– Sendo sincero não me agradou muito.

– Mas Ciel... Eu... Você...

Ciel percebeu que Elizabeth estava extremamente nervosa, a garota nem sabia direito o que falar, decidiu que explicaria melhor as coisas para ela e de um jeito que não a magoasse.

– Veja bem Elizabeth, eu estou acostumado a ficar sozinho, essa idéia toda de casamento me pegou de surpresa e eu acho que o mais adequado para mim é continuar solteiro, como eu disse eu já me acostumei à isso e não sei se quero mudar.

Elizabeth olhava fixamente para Ciel, o garoto teve certeza de que estava sendo claro e que depois daquela conversa tudo iria voltar ao normal.

– Não se preocupe Ciel, estou aqui. Eu não vou deixar você passar o resto de seus dias sozinho, alguns dias comigo e eu sei que você vai mudar de idéia.

A moça loira se levantou rapidamente e então saiu do quarto, sem esperar por uma resposta. Ciel estava atônito, sem entender nada. O rei não sabia responder como aquela conversa fora terminar daquele jeito.

– Uma porta teria entendido melhor o que eu estava dizendo. – falou suspirando.

Ciel sentiu que havia arrumado mais problemas ainda e que se livrar da garota seria bem mais difícil do que imaginava. Sua calma durou por pouco tempo, a mesma irritação de antes voltou a perturbá-lo. Não conseguia se manter quieto, passou a andar pelo quarto novamente, pouco tempo se passou até que voltasse a ser incomodado pela dor de cabeça outra vez.

Não desceria para tomar chá, pois não queria se encontrar com Elizabeth ou com a tia. Decidiu chamar por um empregado, abriu a porta e por sorte viu Sebastian. O guarda estava entrando em seu quarto.

– Sebastian – chamou.

O guarda se virou e então veio rapidamente em direção a Ciel.

– Deseja algo jovem rei?

– Um...

Ciel sentiu que estava ficando tonto e então se segurou em Sebastian, sua visão escureceu, achou que ia desmaiar.

– O que foi Ciel? – Sebastian falou preocupado.

Ciel não respondeu nada, estava zonzo demais para formular qualquer frase. O guarda o pegou no colo e então entrou no quarto deixando Ciel na cama. O rei não chegou a desmaiar e já havia recobrado os sentidos, foi apenas uma tontura passageira. Sebastian estava parado ao lado da cama encostando a mão na testa de Ciel.

– Você está bem, Ciel? – falou quando percebeu que o garoto olhava para ele.

– Sim, Sebastian. Não foi nada e já pode parar eu não tenho febre.

Ciel empurrou a mão do guarda bruscamente, queria evitar proximidades desnecessárias.

– Eu vou chamar alguém. – Sebastian falou se afastando.

Ciel esticou o braço e então puxou Sebastian pela mão, impedindo-o de sair.

– Não precisa, eu não quero ninguém aqui.

Sebastian se ajoelhou próximo a cama do rei, encostando novamente a mão em sua testa. Dessa vez Ciel ficou quieto, apenas olhando para frente em silencio. Sebastian aproveitou o momento de calma e então passou a mão pelo cabelo do garoto, achou estranho ver Ciel tão quieto.

– Bom, então se não quer que eu chame ninguém, terá que me deixar cuidar de você.

– Que seja, pelo menos você não vai me importunar com essa história idiota de casamento.

– Você falou com a senhorita Elizabeth?

– Bom, eu tentei, mas acho que seria mais simples fazer as paredes entenderem. Eu disse que não queria me casar, mas ela ignorou.

– Entendo, então parece que meu jovem rei será noivo em breve.

Ciel se virou em direção ao Sebastian que ainda estava agachado próximo a cama.

– Eu não ficarei noivo. – falou olhando Sebastian nos olhos.

– Bom, então eu agradeço muito por isso.

Sebastian se levantou, Ciel não entendeu o que ele quis dizer com “Eu agradeço muito por isso”, mas não falou nada.

– Eu vou buscar algo para você comer, garanto que não se alimentou direito hoje.

O guarda saiu do quarto rapidamente, Ciel apenas fechou os olhos ainda tentando entender o que “Eu agradeço muito por isso” queria dizer. Agradecer por quê? Ele não quer que eu me case? Tentou afastar aqueles pensamentos inúteis, achou que estava dando atenção a coisas desnecessárias mais uma vez.

O rei não entendia muitas das coisas que Sebastian dizia e fazia, mas em breve começaria a entender.

Notas finais
Continuem comigo. Bjo bjo, até a próxima