O Rei e o Valente

22 Coisas Boas Também Acontecem Com pessoas Ruins


Notas iniciais
O próximo capítulo será o último. Talvez ainda tenha um epílogo, mas não é certeza. Boa leitura! *O*

Elizabeth dormia pesadamente em sua cama, o sono lhe era extremamente agradável e a cama nunca parecera tão confortável quanto estava sendo agora. Nunca havia dormido tão serenamente, pena que essa noite tão reconfortante se devia ao fato de estar dopada e completamente fora de si.

Dormiu durante quase um dia todo e quando acordou já passava das três da tarde. Ao abrir os olhos tudo parecia extremamente confuso e sequer se lembrava de onde estava. Sentou-se na cama e após olhar em volta recordou-se de que estava no castelo. As lembranças da noite anterior eram confusas e tudo mais parecia um grande devaneio. A cabeça doía e os olhos pesavam.

Levantou-se de sua cama e lentamente andou até o banheiro. Lavou o rosto e depois se olhou no espelho durante um longo tempo. Estava confusa e estranhamente perdida. Fechou os olhos e aos poucos reviveu tudo o que havia acontecido no dia e na noite anterior. Lembrava-se de ter tomado café da manhã sozinha e de ter almoçado com Ciel. Lembrava-se também de não tê-lo visto durante o resto do dia.

Lembrou-se dos detalhes e das coisas sem importância e por fim chegou ao ponto critico da noite, quando pensou ter ouvidos gemidos ao passar pelo corredor. Naquele momento pensou que desmaiaria de tanto ódio. Seu noivo gemendo sem pudor, enquanto se entregava ao maldito guarda que ela tanto odiava. Essa imagem era nítida em sua mente, tão nítida a ponto de sentir como se estivesse revivendo o momento.

O resto da noite foi mais trágica ainda e desejou profundamente que aquilo tudo fosse um pesadelo, porém sabia que não era. Tudo que tinha planejado havia chegado ao fim e ódio era tudo que conseguia sentir.

Saiu do banheiro andando a passos largos e nervosamente passou a caminhar pelo quarto. Nunca sentiu tanta raiva em toda sua vida infeliz. O ambiente do quarto lhe parecia sufocante e só de pensar em Ciel sentia vontade de destruir tudo à sua volta. Seus pais estavam mortos, sua família falida e sem esperança alguma, não havia mais noivado e em quatro dias aconteceria a cerimônia de casamento. Tudo estava perdido e não conseguia ver esperança em lugar algum.

Respirou fundo tentando manter a calma, mas isso só piorou a situação. Lembrou-se de seu passado e da vingança que havia planejado, pensou novamente em seus pais e no quanto era infeliz e a parte mais perturbadora foi perceber que Ciel não seria infeliz como havia planejado.

Elizabeth saiu de seu quarto às pressas, indo em direção ao quarto do rei. Abriu a porta violentamente, entrando no local logo em seguida. A cama estava arrumada e nem sinal de Ciel. Desceu às escadas com mais pressa ainda e ao chegar na área externa do castelo foi imediatamente informada do desaparecimento de Ciel e Sebastian.

Os guardas estavam todos agitados e pela primeira vez em anos os serviços quase inúteis que prestavam ao reino foram questionados. Elizabeth andou pelo castelo, sentindo-se ainda mais desesperada. A garota não fazia a menor ideia do que fazer e tudo o que mais queria era desaparecer completamente. Sumir sem deixar nenhum rastro, se possível.

Depois de muito andar Elizabeth voltou para seu quarto e se trancou lá. A garota nunca foi capaz de lidar com seus problemas, e surtava sempre que algo fora de seus planos ocorria. O reino inteiro estava em estado de alerta e isso era ainda mais preocupante, pois acabava com a possibilidade uma nova fuga ocorrer. Elizabeth sabia bem como a segurança ali era precária, mas depois de algo assim ter acontecido as coisas provavelmente mudariam e graças à isso não conseguiria deixar o castelo como havia pensado. Seria suspeito se simplesmente pedisse para ir embora e mais complicado ainda se fosse pega fugindo.

O estado em que a garota estava era preocupante e o desespero que sentia não a deixava raciocinar direito. Desde pequena as coisas sempre foram extremas em sua mente. Amava demais ou odiava demais. Sempre se sentiu perturbada e sempre enxergava as situações de forma distorcida.

Os pais eram o único apoio que tinha e quando se viu sem eles apoiou-se em seu objetivo de vingança e agora isso também havia desaparecido. Continuou a andar pelo quarto descontroladamente, enquanto tudo lhe parecia cada vez mais sem esperança ou solução. Andou até o banheiro, voltando de lá com um copo de água. Sentou-se próximo a sua cama e logo após vasculhou a gaveta de sua mesa de cabeceira.

Retirou de lá um pequeno vidro que havia trazido consigo. O liquido de cor clara e quase transparente havia sido guardado para um momento de desespero e chegou a pensar em livrar-se de Sebastian usando aquilo, mas não foi capaz de ir em frente com a ideia. Aquele pequeno vidro de veneno era um companheiro de longa data, o trazia consigo desde a morte dos pais e sempre que estava desesperada pensava em tomá-lo, porém nunca tinha coragem o suficiente.

Olhou para o vidro durante um longo tempo, revivendo mais uma vez os problemas pelos quais havia passado. Tentou imaginar se seus pais seriam capazes de se matar em um momento de desespero e depois de muita pensar percebeu que eles não seriam capazes de algo assim. Reuniu todo o resto de coragem que tinha e então guardou então o vidro novamente em sua mesa. Após isso trocou de roupa, e se arrumou como sempre fazia. Estava desesperada, preocupada e sem esperança, mas ainda julgou que precisava manter um pouco a pose.

Continuou em seu quarto pelo resto do dia e ao anoitecer foi informada de que Angelina havia chegado ao castelo. Elizabeth respirou fundo, e logo em seguida foi procurar pela tia de Ciel. A garota estava disposta a parecer triste e o mais desolada possível com o desaparecimento do noivo. Na verdade, ela estava realmente triste, desolada e bastante preocupada, mas os reais motivos de todo esse incômodo jamais seriam ditos a Angelina.

— Tudo isso deve ter sido horrível para você! – Angelina exclamou ao ver Elizabeth.

— Eu só queria saber onde o Ciel está!

Naquele momento Elizabeth estava disposta a ser digna de pena, disposta a ser a noiva abandonada mais triste que todos já viram.

— Não se preocupe. Os guardas estão procurando por Ciel e com certeza o encontrarão.

— De que adianta encontrá-lo? Eu fui abandonada! Sabe muito bem que ele fugiu com Sebastian! Eu te disse que ele estava junto com aquele guarda! Eu disse. – Elizabeth falou em meio à lágrimas.

Angelina a abraçou e carinhosamente lhe afagou os cabelos. As duas permaneceram abraçadas durante um longo tempo.

— Vai ficar tudo bem. Não se preocupe com nada.

Elizabeth se sentiu um pouco mais feliz ao perceber que ainda tinha o apoio da tia de Ciel e após isso percebeu também que não estava tão esperança quanto havia pensado. Angelina sempre foi a favor do tal casamento e desde o começo achou que Elizabeth seria uma boa esposa para seu sobrinho. A garota de certa forma a encantava e as duas se davam muito bem.

— E o casamento? Não temos mais tempo para avisar a todos os convidados que não haverá mais a cerimônia. O que faremos?

— Avisaremos à todos que conseguirmos sobre o desaparecimento de Ciel e os que vierem até aqui serão avisados assim que chegarem. Eu resolverei tudo. Não se preocupe com isso, Elizabeth.

Durante os próximos dias Angelina e Elizabeth se dedicaram a avisar sobre o cancelamento do casamento. A garota recebeu todo o apoio possível de todos à sua volta e continuou a manter a falsa pose de noiva abandonada. Procuraram por Ciel nos reinos vizinhos, mas não obtiveram nenhuma informação.

Angelina estava preocupada com o sobrinho, e extremamente incomodada com o fim do casamento. A mulher ainda julgava que Elizabeth era a escolha perfeita para Ciel e continuaria pensando assim, pois provavelmente jamais viria, a saber o que realmente estava por trás de todo aquele plano de casamento.

Tudo o que havia acontecido e todas as confissões sobre o passado, haviam sido ouvidas apenas por três pessoas. Nada poderia ser provado e ninguém saberia do ocorrido a menos que Elizabeth contasse algo e a garota com certeza não estava disposta a voltar a tocar no assunto.

Ciel poderia ter continuado no castelo junto com Sebastian e quem sabe conseguissem mostrar à todos quem Elizabeth realmente era. Poderiam ter se dedicado a desmascarar todas as mentiras, mas de que isso adiantaria? Se continuassem ali só seriam ainda mais infelizes, e com certeza ter paz e liberdade era infinitamente mais importante do ficar no castelo, tentando convencer a todos de tudo o que haviam ouvido e de tudo o que Elizabeth havia feito.

Elizabeth manteria a pose de noiva triste e desolada e continuaria iludindo à todos com os falsos sentimentos que tinha. Continuaria tendo o apoio de Angelina e quem sabe até mesmo continuasse a morar no castelo. A única coisa boa em meio à tudo aquilo era o fato de o rei o guarda não estarem mais ali.

Sebastian e Ciel viajaram por dias e mais dias, passando por pequenos vilarejos, florestas silenciosas, reinos grandes e pequenos. Durante a noite dormiam em pousadas não tão agradáveis quanto o rei gostaria e durante o dia ficavam horas dentro daquela carruagem andando por estradas quase desertas. Tudo apenas para garantir que ficariam o mais longe possível do castelo Phantomhive.

Ciel estava sempre a questionar para onde iriam ou o que fariam no futuro, porém Sebastian nunca lhe dava uma resposta satisfatória e quase sempre pedia apenas para que o garoto tivesse paciência e esperasse. Tudo ao seu tempo, dizia o guarda. Sebastian já havia planejado tudo o que pôde para que a nova vida não fosse muito difícil ou cheia de percalços e graças à isso tinham um lugar para ir, mesmo que ficasse bastante distante.

O rei não estava realmente preocupado com o lugar para onde iriam ou realmente incomodado com o futuro, mas achava um pouco incômodo não saber o que acontecia, e estar entregue cegamente aos cuidados de outra pessoa de certa forma o deixava preocupado.

Além do fato de que o caminho era longo e Ciel fora obrigado a fazê-lo sempre vestido como uma dama. Sebastian havia trazido vários vestidos diferentes e o garoto estava sempre a trocá-los durante a noite. “Devemos manter o disfarce até chegarmos ao nosso destino” era o que Ciel sempre ouvia quando começava a reclamar das saias volumosas e dos espartilhos apertados. Concluiu então que usar aquele tipo de roupa seria com certeza uma das maiores torturas que já passou em sua vida.

Ao fim de uma tediosa e cansativa semana chegaram finalmente ao seu destino. O rei que agora já não se considerava mais tão rei assim sentiu-se aliviado ao perceber que a longa fuga havia chegado ao fim e que tudo havia corrido da melhor maneira possível. A apreensão que sentia foi embora, e o alivio que tomava conta de si era imenso.

— Vamos morar aqui? – Ciel questionou ao descer da carruagem.

— Sim.

O garoto olhou em volta, tentando observar cada detalhe do local onde estava. Atrás de si havia uma pequena área verde, com várias arvores diferentes e também flores.

— Há um lago, mas ele não é visível daqui. – Sebastian falou ao ver que Ciel olhava em direção as arvores.

Ciel não chegou a responder e apenas continuou a observar. O guarda deixou que o garoto continuasse distraído e enquanto isso pagou o que foi prometido ao senhor que os havia trazido até ali e como última parte do acordo a carruagem também foi entregue.

— Gostou daqui, Ciel?

— Acho que sim. – Respondeu incerto.

O ambiente onde estavam era realmente bonito e o que mais havia agradado Ciel era o fato de que não havia neve em lugar algum. O clima da região era agradavelmente fresco e o ar carregava o cheiro suavemente adocicado das flores. Os vizinhos mais próximos ficavam há metros de distancia e tudo era muito discreto.

— Vamos entrar? – Sebastian falou, puxando Ciel pela mão.

Andaram em direção a casa onde morariam, tudo era cercado por grandes muros o que trazia uma grande sensação de segurança a ambos. Andaram durante alguns poucos minutos e por fim chegaram finalmente a casa onde morariam.

A propriedade era grande, mas realmente bem pequena se comparada ao castelo onde estavam acostumados a morar. O local poderia ser menor, mas pelo menos ali tinham a garantia de que não haveria Elizabeth, empregados ou um reino inteiro para julgá-los ou incomodá-los.

Teriam que se acostumar com a nova vida, porém isso não era um incômodo. Havia ali a possibilidade de terem paz e isso já era maravilhosamente animador. Depois de muito tempo sentiriam se livres e teriam um lugar só deles, longe de tudo o que os incomodava e causava preocupação.

Notas finais
Acho que muitos leitores devem estar infelizes com a atual situação da Elizabeth. Bom, as opções do Ciel eram vingança no castelo ou felicidade longe do reino. Não dava para ter os dois. D: Continuem comigo. Bjo bjo, até a próxima :3