O Reencontro
9 Primeiro passo
Notas iniciais
# Bella #
— Alice? – perguntei me aproximando. Ela me olhou se e rapidamente passou as mãos pelo rosto e se levantou, tentando enxugar as lágrimas.
— Bella? Oi, quanto tempo! – disse se levantando, como se nada tivesse acontecido, como se ela não estivesse aos prantos um segundo atrás.
— É, realmente, muito tempo... está tudo bem, Alice? – perguntei preocupada. Meu modo promotora já sendo ativado, noventa por cento das vezes que uma mulher chorava era por causa de um homem.
— Não, está tudo bem. – ela tentou me tranquilizar com um sorriso, sorriso esse que não alcançou os olhos.
— Tem certeza? – insisti.
— Claro! Então, a Meg disse que foi na sua casa com a Rose ontem. – ela mudou de assunto.
— É, ela é uma graça! Você tem muita sorte de ter aquela princesa. – e tinha mesmo, Megan é um amor.
— É, ela é o bem mais precioso que eu tenho, não sei o que seria de mim sem ela na minha vida. – ela pareceu pensativa.
— E tenho que dizer, ela se parece muito com você no jeito, quando eramos crianças, você era igual – comentei. Ela riu.
— É verdade, as vezes me pergunto como podemos ser tão parecidas e diferentes ao mesmo tempo.
— Ela é toda você no jeito, mas na aparência não tem nada. Deve ser a cara do pai, não é? – ela me olhou e não disse nada, seus olhos ficaram marejados. Será que eu tinha falado alguma besteira? Não sabia nada de sua vida, a Rose nunca falava muito sobre a família, na maioria das vezes porque teria que incluir Edward nas informações, então ela evitava, pois sabia que isso ainda me afetava.
— Sim, ela é a cara do pai. – ela respondeu depois de um tempo, mas parecia bastante afetada. Tinha alguma coisa errada com Alice Cullen, vê-la tão pra baixo assim parecia errado, isso não combinava com ela. Alice sempre foi astral, animada, falante, tinha certeza que havia algo de errado.
— Alice, eu sei que faz muito tempo que não nos vemos, e que não somos amigas nem nada, mas você pode se abrir comigo. – ela me olhou por algum tempo.
— É, eu preciso mesmo desabafar. Que tal um café? – ela disse sorrindo fraco.
— Seria ótimo.
Caminhamos até uma cafeteria perto do parque. Não me lembro desse lugar, provavelmente tinha inaugurado a pouco tempo, como cinquenta por cento do comércio atual da cidade, Forks estava mesmo mudada.
Sentamos numa mesa mais afastada e fizemos nosso pedido que logo chegou.
— Não tínhamos lugares legais assim na nossa adolescência. – Alice comentou.
— É verdade, só tínhamos uma opção de café na cidade. – disse olhando o expresso e o descafeinado sobre a mesa, me lembrando da pequena lanchonete que servia apenas café preto, no máximo um café com leite se a gente pagasse mais cinquenta centavos.
— As coisas realmente mudaram por aqui. Eu estou um tanto assustada, não sei como agir diante dessas mudanças.
— Não está falando da cidade, não é? – perguntei.
— Não, não estou. – ela respondeu olhando para o café em suas mãos.
— É sobre o pai da Meg? Você ficou estranha depois que eu comentei sobre ela provavelmente ser parecida com ele.
— Sim, eu estou assim por causa do pai dela, estou perdida, não sei o que fazer. – ela disse deixando os ombros caírem.
— Pode se abrir comigo, Alice. Não sei se vou poder ajudar, mas pode ser que desabafar te faça bem. – eu lhe ofereci um sorriso reconfortante, era quase o mesmo sorriso que eu dava quando tinha interrogar as testemunhas no tribunal, para que confiassem em mim.
— Eu acho que você deve ter percebido, pela idade da Megan, que eu fui mãe bem jovem. – ela começou. – Descobri, ainda estava no primeiro semestre da faculdade. Você se lembra no baile de formatura, não lembra? – ela perguntou.
— Infelizmente, não tem como esquecer. – murmurei. Ela me olhou pesarosa, mas não comentou nada sobre o acontecido daquela noite.
— Foi nessa noite que eu engravidei. – a olhei surpresa.
— Sério?
— Sim. – ela me deu um pequeno sorriso. – Eu falei com você e Ângela antes de você ser coroada a rainha do baile, queria perder a virgindade a qualquer custo, bem, não a qualquer custo, eu estava apaixonada e queria ter um pretexto para ir em frente. – ela explicou. Eu me lembrava daquela noite perfeitamente, por diversas vezes tentei esquecer, mas era impossível. Cada detalhe parecia intacto em minha mente, em alta definição, cada som, cada imagem, cada sentimento.
— Megan é filha de Jasper Whitlook? – perguntei. Eu me lembrava que ela havia saído do baile com ele aquela noite, eles viviam juntos no colégio, se diziam apenas melhores amigos, mas dava pra notar que tinha algo mais ali.
— Sim, ela é. – ela confirmou.
— Pensando bem, ela é mesmo a cara dele. – comentei, ela deu um pequeno sorriso. – Vocês são casados? – perguntei. Ela apenas balançou a cabeça negando.
— Essa é a parte complicada?
— Mais ou menos.
— Como é a relação entre os dois? – minhas perguntas saiam naturalmente, eu havia entrado no modo promotora, louca para descobrir todos os detalhes para que pudesse formar alguma opinião.
— Não existe! – ela abaixou a cabeça.
— Como assim não existe? Ele não quis assumir? – sempre vi o Jasper como um cara legal, mas meu histórico provava que na adolescência eu não sabia nada sobre o caráter das pessoas.
— Não foi isso. – os olhos de Alice se encheram de lágrimas. Eu segurei sua mão por cima da mesa.
— Você nunca contou pra ele não é? – perguntei.
— Eu não tive como, Bella. Não foi uma escolha. – ela não conseguia mais segurar as lágrimas.
— Ei, não chore. – disse lhe estendendo um guardanapo, ela assoou o nariz.
— Nós ficamos juntos aquela noite, e depois por mais algum tempo nas férias, mas sei que fiquei grávida naquela noite, pois foi a única que não usamos proteção. – ela começou a contar. – Ele nunca quis um compromisso sério, na época eu não entendia o motivo, mas agora, eu imagino que... – ela secou mais algumas lágrimas. – Um dia eu não aguentei, disse que o amava e no dia seguinte ele desapareceu.
— Deixa eu adivinhar, você se reencontrou com ele agora, não foi? – perguntei, nossa história até que estava bem parecida, tirando alguns detalhes, eu também vivi algo muito marcante aquela noite, e minha visita a Forks também foi marcada por reencontros, um em especial.
— Eu esbarrei com ele numa calçada. Mas isso não é tudo. – ela respirou fundo. – Ele está cego, Bella! Ele nunca vai poder ver o rosto da filha, eu me sinto tão culpada... – ela esfregou o rosto com as mãos borrando um pouco a maquiagem.
— Cego? Nossa, eu não esperava por isso. – era difícil de assimilar, até pra mim que nunca tive muito contato com ele. Imagina a Alice, que tem uma filha dele. É eu não poderia comparar jamais minha situação com a dela, ela estava bem mais complicada que eu.
— E eu, Bella? Imagina como eu estou me sentindo. Eu deveria ter insistido. Deveria ter contado ao pai dele que estava grávida, quem sabe assim ele ficaria sabendo, quem sabe assim ele teria a oportunidade de olhar para o rostinho da filha, poder enxergar os olhos dele em outra pessoinha... – ela se lamentou. E eu senti meus olhos marejarem.
— Você não tem culpa, Alice! Foi ele quem sumiu. Você se sentiu rejeitada, só quis proteger seu bebê de uma rejeição também.
— E se ele não me perdoar? E se ficar com raiva de mim? Eu ainda o amo, nunca consegui esquecê-lo, e se a minha filha ficar com raiva de mim? – ela parecia fazer perguntas a si mesma.
— Vocês chegaram a conversar?
— Algo muito rápido, eu estava muito atordoada, ele também, aí chegou uma moça, pelo jeito era sua namorada. E se ele tiver uma família? Ai meu Deus, eu não sei o que fazer!
— Você precisa conversar com ele, precisa contar a verdade de uma vez, imagino que será difícil, mas a Megan precisa conhecer o pai, ele também, apesar de qualquer limitação, precisa conhecer a filha, ela pode não ver, mas vai poder ouvir, abraçar, brincar. Eles precisam disso. – aconselhei da melhor forma possível. Eu sabia que ela ouviria e fazer a coisa certa.
— Eu vou fazer isso, só preciso de um tempo pra assimilar tudo.
— Eu sei que fará o certo.
— Obrigada por ter me ouvido, Bella. Sei que não nos vemos a muito tempo, mas você continua sendo minha amiga. – eu sorri.
— Acho que eu não fui uma boa amiga na adolescência.
— Acredite, você foi. Amigas sempre respeitam o jeito da outra, você sempre respeitou o meu e eu sempre respeitei o seu.
— Prometo que tentarei ser uma amiga melhor a partir de agora.
— Acredite, já está sendo.
Depois da conversa com Alice fui direto para casa, já estava escurecendo quando eu cheguei o tempo ainda estava bom o que me fez poder observar um belo pôr do sol a beira de um lago no caminho.
Resolvi estudar alguns casos que seriam julgados no próximo mês, um sobre uma adolescente que sofria maus-tratos do padrasto, o outro era sobre uma funcionária que havia sofrido assédio por parte de seu chefe, o seu namorado era um cara muito influente e estava fazendo de tudo junto a justiça para que o réu respondesse por seu delito.
Mas eu não conseguia me concentrar. Já estava ali há algumas horas e a história que Alice me contou não saía de minha mente, eu queria muito podê-la ajudar mais, mas não tem nada que eu possa fazer além de torcer por ela. A situação na qual ela se encontra é muito difícil, eu não sei se eu saberia lidar com isso.
A sorte dela era que ela tinha sua filha, seu bem mais precioso. Ela pode ter um pedacinho de amor da sua vida com ela o tempo todo em que estavam longe, e apesar de ser mãe nova e não estar preparada para isso, eu podia ver que ela havia se saído muito bem.
Por um momento, eu me peguei imaginando como seria minha vida se eu tivesse ficado grávida naquela noite. Como seria se eu tivesse um pedacinho dele comigo para sempre, eu me imaginei com o Lucca, sendo mãe dele, cuidando dele todos os dias, sentindo saudades quando estava no trabalho...
Meu celular vibrou me tirando desses devaneios sem sentido. Fiz uma careta ao notar de quem era a mensagem. Respirei fundo e abri.
Eu ainda não consigo compreender o que aconteceu. Pensei que eu estava finalmente conseguindo. Você não pode fugir de mim para sempre, Bella. Eu não vou desistir tão fácil, realmente gosto de você!
Demetri.
Já havia algum tempo que eu realmente fugia dele, depois daquele dia trágico, não tinha mais cara para olhar para ele. Eu fui obrigada a romper esse relacionamento, pelo menos temporariamente, ele era tão bom pra mim, não merecia uma mulher quebrada como eu.
Demetri Volturi era um renomado juiz em Los Angeles, com apenas trinta e um anos era um dos melhores no ramo, nos conhecemos em algumas palestras que ele ministrava na universidade, depois nos encontramos nos tribunais, viramos amigos e algum tempo depois dele muito insistir namorados, mas como todo relacionamento que eu tentei até hoje, aquele também não deu certo. Eu poderia dizer que ele terminou de uma forma cômica se não fosse trágica.
Eu vim para Forks esperando que pudesse pôr um ponto final nessa história mal resolvida do passado, e quem sabe pudesse dar uma chance ao Demi, estar realmente aberta para permiti-lo me fazer feliz. Mas como nem tudo que eu planejo pode dá certo, longe de colocar um ponto final nessa história, eu estou sendo muito afetada por ela, e pelo Edward.
Eu não sei se eu tinha uma parte masoquista em mim, que gostava mesmo de sofrer, mas eu continuava mexida por ele, sentia que esse contato próximo demais, muito por conta do Lucca, não tinha como ser benéfico para minha saúde emocional. Eu não sei até quando poderia fingir ser indiferente a Edward Cullen, eu não sabia até quando conseguiria fingir que segui em frente, quando eu não fiz isso, eu não sei o quanto eu seria forte até sucumbir de novo.
Quando eu olhava para ele, sentia raiva pelo que me fez, sentia tristeza por não ter sido como esperava, sentia admiração pelo homem, pelo pai que ele se tornou, e o pior de tudo, sentia uma vontade louca de me jogar nos braços dele, mas eu não o faria, não podia fazer isso de novo, ele teve a sua chance e desperdiçou, eu tinha que arranjar um jeito de seguir em frente, não poderia cometer o mesmo erro duas vezes.
# Edward #
Forks poderia ter mudado, mas o bar onde eu passava maior parte dos meus finais de semana continuava do mesmo jeito. É claro que naquela época usávamos identidade falsa, por mais que o Joe, dono do bar, nos conhecesse desde crianças e soubesse que éramos menores, ele nos vendia bebidas mesmo assim e se a polícia aparecesse ele usava a desculpa da identidade falsa, isso quando não conseguíamos fugir pelos fundos.
O lugar permanecia intacto, os mesmos pôsteres na parede, as mesas de sinuca, as banquetas de madeira, e as mesas com toalha xadrez, tudo estava igual. A única diferença era que agora as identidades falsas eram dispensáveis.
— Olha só essas crianças, acho que aquelas ali ainda nem vão começar a faculdade no próximo semestre. – Emmett comentou.
— É verdade, e disfarça, mas elas estão olhando pra cá.
— É claro que estão Edward! Você é uns dos jogadores mais famosos do mundo! – ele balançou a cabeça em descrença.
— Desde que cheguei aqui não lembro muito desse detalhe. Parece que sou o mesmo Edward de oito anos atrás. Só que um pouco mais maduro.
— Fala sério, mano! Hoje em dia você é quase um idoso. – olhei feio para ele.
— Você é mais velho que eu, sabia? – retruquei.
— Sim, mas eu ainda dou no couro, já você... – ele provocou.
— Muito engraçado você...
— Humorista era minha segunda opção de profissão.
— Com licença... – duas moças se aproximaram de nós. Tinha certeza de que não tinham nem dezoito.
— Você é Edward Cullen, não é? – uma dela perguntou.
— Sim, e esse é meu assessor e empresário Emmett McCarty.
— Podemos ajudá-las em algo, meninas? – Emmett perguntou.
— Na verdade, viemos perguntar se vocês não queriam se juntar a nós. – a mais baixinha fez o convite.
— Sinto muito, mas estamos bem aqui. – respondi, temendo que meu amigo não muito ajuizado se envolvesse com garotas menores.
— Fica pra outra hora, meninas. – Emmett não foi contra, o que me deixou surpreso. Elas se despediram e saíram amuadas.
— Sério que você não vai falar nada? – perguntei. – Não vai me chamar de velho e se juntar as meninas? – Emmett ficou com um sorriso bobo nos lábios e balançou a cabeça.
— Elas são crianças, cara. – ele disse tomando um gole de sua cerveja.
— Eu sei, mas isso nunca te impediu antes.
— Quer saber da verdade? – apenas o encarei curioso. – Eu cansei disso tudo, baladas, muitas mulheres, acho que está na hora de sossegar no meu canto. – eu ri. – Qual é cara?! Eu estou falando sério!
— Eu sei que sim. E isso tem a ver com minha prima, não tem? – ele abriu um sorriso maior.
— Você sabe que sim, mano. – ele confirmou. – Sabe que eu gosto dela desde o colegial, a Rose sempre foi especial pra mim.
— Sim, mas ela nunca acreditou que você fosse deixar de ser um galinha para ficar com ela. – lembrei.
— Você não era diferente de mim nessa época, Edward!
— Eu deveria ter sido. – o clima de brincadeira sumiu e eu fiquei pra baixo. Se eu tivesse agido diferente lá atrás, muitas coisas não teriam acontecido.
— Agora eu tenho um motivo importante para largar de vez o mundo da putaria. – eu ri com o termo que ele usou. – Mas eu nunca entendi você! Antes você era o pegador, cara que destruía o coração das jovens apaixonadas, enganava as menininhas pra levá-las pra cama, eu me pergunto onde esse Edward foi parar. Quando foi que mudou de time, cara? – eu o encarei emburrado, isso tudo que ele disse não era motivo de orgulho, muito pelo contrário, era o motivo da minha desgraça.
— Eu nunca mudei de time, Emmett!
— Eu estou falando sério, Edward. Eu sou seu melhor amigo, pode se abrir comigo, eu respeitarei suas escolhas, você sabe que não sou preconceituoso nem nada disso. – eu o encarei incrédulo.
— Você não está falando sério, está?
— Cara, eu trabalho com você há alguns anos, eu nunca, eu disse NUNCA, vi você sair com nenhuma mulher. Você nem ao menos fala delas, reclama de alguma namorada, ou fala que saiu com alguém. Nunca saiu em nenhum site de fofoca com alguma modelo internacional. Eu sinceramente não consigo pensar em outra explicação. – ele terminou seu longo discurso e eu tive que rir para não chorar.
— Eu não sou gay, Emmett! – disse esfregando os cabelos, um vício meu quando ficava nervoso. Eu sabia muito bem quando Emmett estava de brincadeira e quando ele estava falando sério, e agora ele não brincava. – Cara, eu até entendo que grande parte dos veículos de fofocas falem isso, na verdade não me importo. Não tenho nada contra gays, mas eu não sou um. Me admira você, meu melhor amigo, não me conhecer a ponto de duvidar da minha masculinidade. – completei irritado.
— Sério? – ele perguntou. E parecia realmente surpreso.
— É claro que é sério, Emmett!
— Érr, então virou celibatário? Está pensando em virar padre depois que se aposentar do futebol? – eu ri.
— Não, eu não quero virar padre. Mas a parte do celibato é quase isso. – e não era mentira.
— Cara, quanto tempo faz que você não transa?
— Um tempo que você julgaria impossível para qualquer ser humano. – respondi rindo.
— Meses? – ele perguntou com os olhos arregalados.
— Anos. – seu queixo literalmente caiu.
— Tá, mas a pergunta que não quer calar... Por quê?
— É uma longa história... – eu disse bebendo mais um gole da minha cerveja.
— Você prefere me contar ou quer que eu continue acreditando na teoria da conspiração?
— Ok.
— Sou todo ouvidos...
— Você lembra do baile de formatura, não lembra? – eu perguntei.
— Tem algo a ver com aquela história da Bella invisível? – eu fiz uma careta ao ouvir o apelido, invenção das meninas recalcadas que faziam parte do nosso grupinho na época.
— Não chame ela assim, Emmett! – o repreendi.
— Tudo bem, cara, mas me conta essa história logo, agora eu realmente fiquei curioso.
Eu contei toda história ao Emmett, todos os detalhes, desde o sentimento guardado, o namoro escondido, o baile, a noite no chalé, o motivo de eu ter machucado a garota que eu amava. A cada detalhe que eu contava o Emmett ia ficando mais surpreso, mas não interrompeu um momento sequer. Era tão bom falar sobre isso com alguém, eu só tinha feito isso uma vez, há muitos anos.
— Cara, essa sua história dá um livro! – Emmett comentou. – Eu não acredito que aquilo tudo foi por causa de uma chantagem!
— É, mas se eu não tivesse escondido tudo antes, isso não seria possível. Se eu tivesse assumido tudo, sido o homem que deveria ser, minha vida seria diferente hoje em dia. – e o meu arrependimento era tanto que eu acho que mesmo que se por algum milagre eu conseguisse ela de volta, eu nunca me perdoaria por isso.
— E agora, o que você pretende fazer? – ele perguntou. Mas eu não tinha essa resposta.
— Essa é a pergunta que eu me faço desde o dia que soube que ela estava aqui.
— Você sabe que tem um ponto a seu favor, não sabe? – ele perguntou como se eu estivesse deixando escapar algo óbvio.
— O que? – quis saber.
— Você não disse que ela e o Lucca se dão bem? Que o moleque gostou tanto dela que até a pediu em namoro? Tenho que confessar que ele foi muito mais esperto que você.
— Eu não posso usar meu filho para chegar na Bella, Emmett! Isso seria errado. – não poderia me aproveitar do carinho que sentiam um pelo outro para usar a meu favor.
— Você não usaria ninguém, mano. Pensa bem, se a Bella gosta de ter o Lucca por perto, e você gosta de ter os dois por perto, por que não unir o útil ao agradável? Você só tem que impor mais a sua presença. – ele aconselhou. E até que a ideia não era ruim, muito pelo contrário, era o meu sonho de consumo, nós três como uma família.
— É talvez você esteja certo.
— Confessa que eu sou um gênio, Cullen!
— Não exagera!
— Um brinde a um novo começo? – ele levantou sua garrafa de cerveja.
— A um novo começo! – e brindamos.
***
Ficamos mais algum tempo no bar. Depois o Emmett me deixou em casa, já que tínhamos ido no carro dele. Estava quase na porta de casa, quando a percebi sentada na varanda. Ela estava sentado no degrau encostada na mureta da varanda. Eu não pensei, simplesmente caminhei até lá.
— Admirando as estrelas? – perguntei e ela se assustou.
— Edward! Que susto, não vi você se aproximar. – ela me olhou.
— Desculpe, não foi minha intenção te assustar, borboleta. – ela piscou algumas vezes depois fez uma careta.
— Pensei que tinha sido clara quanto a essa questão de apelidos. – ela falou dura, meu coração doeu.
— Me desculpe mais uma vez. Mas é difícil, te chamo assim desde que me entendo por gente, você sempre será minha borboleta, promotora Swan. – bem, mas se ela queria formalidade, eu respeitaria.
— Acho que devo te pedir para não usar pronomes possessivos ao se referir a mim.
— Como quiser. Mas você não respondeu minha pergunta. Estava admirando as estrelas? – insisti. Eu sabia que ela amava o céu a noite e se sentia frustrada por Forks não ter muita visibilidade.
— Sim, elas são tão raras por aqui, a última vez que... – mas ela parou no meio da frase.
— Eu lembro da última vez que o tempo ficou bom assim. – completei.
Ela ficou quieta.
— A vista da janela do chalé agora deve estar magnífica. – comentei.
— Você voltou lá? – ela perguntou me surpreendendo.
— Nunca mais depois daquela noite...
— Por quê?
— Não tem sentido ir lá sem você. – eu fui sincero. – Aquele lugar era nosso...
Ela deu um sorriso fraco de descrença.
— Na verdade, depois daquele dia nada teve muito sentido, eu nem sequer havia voltado a Forks até uns dias atrás.
— Eu também não. – ela falou baixo. – Eu prometi que não pisaria mais nessa cidade, mas cá estou.
— Você também prometeu que nunca mais olharia na minha cara, e aqui estamos nós. – e isso foi uma das coisas mais duras que eu ouvi na vida.
— É, talvez a gente devesse fazer menos promessas, já que não podemos controlar os rumos da vida. – ela sorriu fraco.
— O mundo dá voltas, Bella. E as pessoas mudam, as vezes pra melhor. Olhe pra nós, já não somos mais os mesmos.
— Será? – ela questionou. – Eu mudei de tantas formas, mas continuo igual em tantas outras.
— Tenho certeza que essas mudanças só acrescentaram, mas o que continuou foi sua essência, o que sempre fará parte de você, independente das voltas que o mundo dá. Tem coisas que são imutáveis.
— E você, Edward Cullen? O quanto você mudou? – ela perguntou em forma de desafio, me olhava nos olhos, agora segura, diferente de quando me olhava anos atrás.
— Eu gosto de pensar que eu evoluí bastante, muito em consequência das coisas que perdi, mas também das coisas que eu ganhei. Como o meu filho, por exemplo. – criar uma criança sozinho faz um homem mudar drasticamente.
— Você é um cara de sorte. Seu filho é... – ela pareceu pensar um pouco. – eu não sei nem explicar, o Lucca é especial.
— Sim, ele é mais que especial, ele é a luz da minha vida. – ela sorriu, um sorriso grande dessa vez.
— Não imaginaria essa conversa jamais. Sabe, você como um pai, um ótimo pai, tenho que admitir. – ela voltou a olhar para o céu.
— No começo foi difícil, eu pensei que não ia dar conta. Criar um bebê sozinho, aos vinte dois anos, sem nenhuma experiência, com o trabalho exigindo demais de mim... Mas no fim eu consegui, o amor sempre nos deixa mais fortes, não é mesmo? – ela me encarou, havia um brilho estranho em seu olhar, mas eu não sabia identificar o que era.
— Tenho que discordar dessa última parte. – ela abaixou a cabeça. – O amor nos enfraquece.
— Borb... Bella, eu...
— Por favor, Edward, não vamos falar desse assunto. Passou, a gente não é mais adolescente. – ela me cortou.
— Não é tão simples assim...
— Sinto te informar, mas nada é simples. Tudo depende de uma infinidade de coisas.
— Mas eu queria que você soubesse que eu ainda me sinto da mesma forma. – ela me encarou, um sorriso perverso se formando nos lábios.
— Da mesma forma como? Ainda acha que eu sou uma nerd boba? Ou ainda quer só transar comigo? Estou bem melhor agora, não é mesmo? Foi isso que você disse que sentia, não? – seu tom era ácido, e a culpa me correu ao ouvi-la recitando as mentiras que eu fui obrigado a contar.
— Nada daquilo foi verdade.
— É, eu sei!
— Não me refiro a tudo que a gente viveu, e sim ao que eu te falei. – tentei explicar, por mais que tivesse certeza de que ela não ia acreditar.
— Sério que você quer que eu acredite nisso? – ela arqueou as sobrancelhas.
— Quem me dera se você pudesse acreditar nessa verdade, da mesma forma que acreditou nas mentiras que eu te contei naquele lual.
— Você não está fazendo muito sentido, Edward. Acho melhor ir dormir.
— Eu sei. Mas antes quero que saiba que não precisamos ser inimigos, isso é tudo que eu menos quero, talvez pudéssemos começar de novo. – eu precisava de qualquer migalha que ela pudesse me dar.
— Começar o que de novo, Cullen?
— Podemos iniciar pela amizade, que tal? – ela me olhou meio na dúvida, mas depois assentiu concordando.
— Amigos, então. – disse se levantando.
— Boa noite, borboleta. – ela ia abrir a boca para me responder, mas eu beijei seu rosto, a pegando de surpresa e depois me afastei caminhando em direção a minha casa.
— Boa noite, Edward. – ela respondeu baixinho depois de um tempo.
Eu fui dormir com o maior dos sorrisos, só pelo simples fato dos meus lábios terem tocado sua pele, depois de tanto tempo. Eu sabia que aquele era o primeiro passo para o nosso novo começo.
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