Aquela segunda-feira estava excepcionalmente comum para Elizabeth, o trabalho apesar de muito excitante, algumas vezes era terrivelmente tedioso. Revirava e relia todas as edições publicadas até julho daquele ano, estava satisfeita com o trabalho de todos, sentia que a cada ano aquilo ficava mais fácil e melhor.

— Deixe-o entrar. Obrigada, Bella! — Elizabeth disse, para sua secretária.

Ela organizou sua mesa para recepcionar a visita das dez horas. Sentia-se muito ansiosa a respeito disso, entendia o quanto aquilo significava para si e a revista naquele momento.

— Entre, por favor — ela sorriu, sendo bem otimista quando sua secretária abriu a porta da sala para a visita entrar. — Sente-se. Gostaria de aceitar um café? Suco? Chá? Água?

— Não, obrigado. — Ele sentou-se sobre a cadeira de frente para Elizabeth.

— Obrigada, Bella. Pode fechar a porta — Elizabeth estava um pouco nervosa, ela não sabia exatamente o porquê disso, mas sentia o estômago revirar a cada segundo que passava. — John, certo? Bom dia. Você está bem?

— Bom dia, sim. — Ele disse, sendo objetivo e sério.

Ela manteve as mãos suadas no colo. — Vamos ao ponto, como você sabe a revista tem crescido muito nesse último ano. Obviamente recebi ótimas recomendações sobre você nas últimas reuniões, e eu estava mesmo procurando um redator experiente para ficar ao meu lado. Principalmente agora que a minha redatora-chefe está grávida dos meus dois afilhados — ela assentiu, sorrindo. — Eu sei que isso não significa doença, ela fala muito disso o tempo todo, mas você sabe... mães têm muitos compromissos, não é?

Elizabeth olhou para John que estava coçando a barba freneticamente com o dedo indicador. Talvez ele estivesse ficando um pouco desconfortável com o rumo que aquela conversa estava tomando. Porém, de fato, não parecia estar interessado em saber sobre mães naquele momento.

Ela pigarreou antes de prosseguir. — Bom, de todo modo, eu sei que você é ótimo como redator e como fotógrafo. Seu salário com toda certeza vai aumentar consideravelmente e você vai trabalhar ao meu lado. Modéstia parte eu sou uma ótima chefe — ela sorriu. — Mas, se quiser continuar em sua função atual, eu irei entender e respeitar, John.

Fez-se um longo silêncio.

Por um tempo John permaneceu calado. Talvez ficasse analisando a proposta por mais alguns minutos. Isso torturaria Elizabeth? Talvez. Bem que ela merecia, ele pensou. Aquele discurso sobre mães seria um pouco demais na visão dele. John de fato era um ótimo redator e fotógrafo, mas ele já estava recebendo um excelente salário, apesar de não estar trabalhando no prédio principal, ao lado da figura mais importante da revista, sentia-se muito importante no local onde trabalhava. Mudar tudo agora, será?

Aqueles olhos verdes de Elizabeth faziam um contato visual tão intenso sobre seus olhos azuis, então por alguns segundos John pensou: por que não? Chefe bonita, emprego pitoresco, cargo mais importante. Mas, mudar repentinamente, largar as antigas namoradas, os horários flexíveis, as viagens ao redor do mundo. Precisaria de pelo menos mais dois anos e muito charme para Elizabeth concordar em abrir exceções em algumas raras vezes como seu antigo gestor fazia. Era tentador, tantas questões começaram a contornar sua cabeça, novamente aqueles olhos verdes pareciam voltar a obrigá-lo aceitar. Tão tentador.

— Tudo bem! — ele disse, dando de ombros. Esticou a mão em direção a Elizabeth.

— Significa que é negócio fechado? — ela não hesitou em tocar a mão de John.

— Negócio fechado, chefe — ele sorriu.

Elizabeth arregalou os olhos, sorrindo. — John, obrigada... quer dizer, parabéns! — ela endireitou-se na cadeira. — Me fale mais sobre você. Estou ansiosa para saber mais com quem vou trabalhar.

Ele notou o quanto deixava Elizabeth nervosa. Talvez tivesse gostado um pouco disso. Seria um flerte momentâneo? Precisaria ficar um pouco mais perto para descobrir.

— Sou ótimo em descrever qualquer outra coisa, me desculpe — ele mentiu.

— John, eu irei te ensinar a primeira regra sobre trabalhar comigo, não faça isso. Eu faço as perguntas e você responde, está bem? — ela sorriu ao vê-lo assentir. — Vamos as perguntas mais clichês dos talk shows — Elizabeth moveu seus óculos, fingindo ser uma repórter. — Quantos anos você tem? É casado? Tem filhos?

John ergueu a sobrancelha ao ver como Elizabeth era direta ao ponto, não fazia rodeio algum quando queria saber algo. Isso era muito instigante, mas assim seria difícil vê-la apenas como uma chefe. Será que estou flertando? Ele pensou. — Eu tenho trinta anos, não sou casado, não tenho filhos. E já sei o que você está pensando — ele rolou os olhos, algo como imitar uma pessoa reclamando. — Você já deveria ter uma família — ele deu de ombros. — Prefiro viajar pelo mundo, conhecer pessoas e apreciar lugares. Ninguém nunca resolveu me prender em lugar algum até então, eu acho. Ou eu que sou exigente demais.

Elizabeth conhecia aquele tipo, claramente estava tentando flertar com ela. Fora de cogitação, ela pensou. — Na verdade — ela aproximou-se da mesa, encostando suas mãos sobre a papelada —, eu pensei que temos mais coisas em comum do que imagina.

John era muito atraente, daqueles homens sedutores que fazem as mulheres virarem a cabeça para olharem ao menos por cinco segundos. Seus olhos eram azuis, mas em algumas raras vezes pareciam verdes, dependia muito da luz do ambiente. Era do tipo que preferia manter a barba, em algumas ocasiões fazia questão de retirar, no geral gostava de como ficava com ela. Seu estilo era moderno contemporâneo e, apesar da sua idade, ainda tinha a mesma alma de quando tinha seus vinte e dois anos, mas com muita maturidade.

Elizabeth não deixou de reparar naquele belo sorriso encantador, era fascinante para qualquer um. Assim como aqueles fios pretos perfeitamente alinhados, será que ela estava reparando mais do que deveria?

O dia havia passado voando, não dava para imaginar que já era fim de expediente. Elizabeth sempre questionava o por que suas amigas sentiam prazer de beber em plena segunda-feira. Afinal, isso não é algo para um final de semana, meninas? Ela resolveu se desafiar aquela noite. Por que não ir? Um happy hour cairia bem de vez em quando. Ela era uma mulher independente, dona de uma revista, precisava se divertir.

Não conseguia imaginar como um bar poderia estar tão lotado em plena segunda-feira. Quantas pessoas poderiam beber logo no começo da semana? Era desafiador contar. Homens riam enquanto flertavam com mulheres que estavam dançando e bebericando ao mesmo tempo, Elizabeth rolou os olhos ao ver aquela cena. Julgando pelo ambiente ela já sabia o que isso significaria: bar e amigas, o assunto não poderia ser outro.

— Eu juro por Deus, meninas… aquele homem era um animal — Kimberly disse, rindo enquanto jogava um amendoim em Elizabeth que revirava os olhos.

— Por Deus, Jennifer, se eu ouvir isso por mais um segundo, eu vou vomitar. Preciso ir ao banheiro.

— Não seja tão chata com a vida, Elizabeth. As aventuras dela são interessantes — Jennifer riu.

— Meninas, eu realmente preciso ir ao banheiro.

Elizabeth levantou-se o mais depressa que poderia, queria esquecer aquele assunto. Envolver sexo daquela forma não era algo que ela estava acostumada, ela realmente estava começando chegar à conclusão que havia virado uma pessoa insuportavelmente chata, ao que parecia era isso mesmo. Ainda não estava conseguindo acreditar no quão lotado aquele lugar estava. Será que todas aquelas pessoas estavam tão irritadas com os seus chefes que se afugentaram ali para ficarem calmas? Sentia que era uma intrusa nesse caso, afinal, ela era do outro lado, então.

— Você aqui.

Aquela voz era tão familiar, irritante. — Como é? — Elizabeth disse, virando-se para trás. Não podia ser o homem musculoso de cérebro pequeno.

Merda, Kimberly. Foi a única coisa que veio em sua mente.

— Você sumiu, linda.

— Elizabeth! — ela disse, levantando o indicador. — Eu não desapareci, apenas troquei de número.

— O que faz por aqui? Por acaso lembrou que esse era o meu bar preferido? — ele passou o braço sobre o ombro de Elizabeth, pressionando os seus músculos sobre ela.

— Deus do céu... eu mal lembro seu nome — ela murmurou, tentando desviar daquele braço cheio de músculos.

— Não tem problema, gata. Nós podemos ir para a sua casa, você está com saudades?

Elizabeth estava visivelmente incomodada com aquela situação, retorcia seu corpo algumas vezes para ver se ele iria entender que ela não queria estar ali. Porém, ele era tão sem cérebro que não pareceu perceber absolutamente nada, muito pelo contrário. Ela sentia-se tão pequena naquela situação, seus olhos começaram a ficar marejados diante de tudo aquilo, além de estar apavorada por dentro.

Começou a se questionar o por que não ficou ouvindo as aventuras sexuais da sua amiga, teria sido melhor, ou por que não era corajosa o suficiente para gritar. Será que ninguém estava vendo aquilo? Alguém com uma alma bondosa para ajudar?

— Larga ela agora — uma voz grossa disse.

Elizabeth fechou os seus olhos em aprovação sobre seu alívio, sentia o coração palpitar fortemente. Não sabia quem era o seu herói, com toda certeza iria pagar todas as bebidas que ele escolhesse. Talvez quando estivesse mais calma, outro dia.

— Ela é a minha namorada, só estamos tendo uma noite difícil. Não é, Beth? — o homem de cérebro pequeno virou o corpo de Elizabeth para o outro que acabara de falar com os dois, era visível como ela estava assustada. — Diz logo, anda.

Elizabeth estava com a feição de pânico. Ela não estava por livre e espontânea vontade, diferente daquela mulher que brincou de lhe entrevistar horas mais cedo. John era um homem vivido, era inteligente o suficiente para entender quando uma mulher era forçada a algo.

— Interessante — John riu. — Poderia jurar que Elizabeth era a minha noiva — ele esticou o braço em direção a Elizabeth, tirando ela de perto daquele homem, a envolvendo em seus braços. Conseguiu sentir naquele momento o quanto ela estava assustada, agora aliviada por vê-lo, não poupando esforços para abraçá-lo. — Fica longe dela.

Obviamente que o homem de cérebro pequeno não disse palavra alguma, basicamente saiu correndo com medo. Talvez seja porque John era bem mais alto do que ele, ou porque era covarde demais perto de outro homem ou em qualquer situação.

Elizabeth acomodou-se nos braços de John, perdeu a noção do tempo, espaço. Estava tão assustada que não se importou de chorar em seu peito. Eles mal se conheciam, mas de fato ele foi o único que a ajudou naquele momento, então significava que ele entendia o quanto ela estava assustava.

— Está tudo bem, calma — ele murmurou.

John afastou-se um pouco de Elizabeth, suas mãos foram diretamente sobre aquele pequeno rosto que se perdera entre as suas palmas. Os fios loiros cobriam uma parte do rosto, estavam grudados por conta de todas as lágrimas que umedeceram sua pele. John suavemente limpou as lágrimas, observando cada traço tão delicado que compunha o rosto tão belo de Elizabeth; o nariz tão pequeno e arrebitado, as maçãs do rosto tão preenchidas belamente e avermelhadas naturalmente, os lábios carnudos e aquela pele tão branca quanto a neve.

— Você quer algo? Uma água? Um suco? Um café? — ele disse, referindo-se a mais cedo. — Quer sair daqui?

— Por favor… — ela murmurou.

John levou Elizabeth para fora daquele bar. Ela não poderia acreditar como era bom respirar o velho e benevolente ar de Verona; a Itália tinha a magia de acalmar as pessoas, mesmo quando a situação fosse o mais desesperadora possível.

De frente para o bar havia uma pracinha, muito popular naquela região, diversos casais frequentavam aquele local. Inclusive muitas pessoas que frequentavam o bar passavam por ali antes de irem para suas receptivas casas. John achou que seria o local perfeito para Elizabeth respirar um pouco, para recuperar sua calma.

Sua pele branca agora estava avermelhada, aquilo só poderia ser uma mistura de estresse com lágrimas. John preferiu permanecer em silêncio, não queria atrapalhar os pensamentos que Elizabeth teria naquele momento, achou que não seria bom e nem seria um sinal de cavalheirismo.

Alguns goles de água, intermináveis soluços e ela estava pronta para falar o que precisava.

— Obrigada, John. Foi muito corajoso fazer aquilo por mim, eu não sei como te agradecer — ela disse, sorrindo suavemente. — Não consigo imaginar como descobriu que eu estava sendo forçada a ficar ali.

— Não precisa agradecer, Elizabeth. Fico feliz que esteja mais calma — ele disse, sorrindo. — Quando se viaja pelo mundo, você se acostuma com pessoas de todo tipo. Já frequentei bares de todos os lugares, acredite que os bares irlandeses são bem interessantes.

— Você pode me chamar de Beth, se quiser é claro — ela aproximou-se de John, encostando seus lábios macios e carnudos sobre a bochecha dele. — Obrigada.

Elizabeth suspirou enquanto gentilmente beijou a pele de John. Não conseguiu deixar de notar o quão cheiroso ele era, aquele cheiro era tão diferente de todos os homens que ela encontrou em torno de todos aqueles anos.

— Merda, Elizabeth Dean Cipriano. Onde você estava? — Kimberly gritou.

— Kimberly! — Jennifer disse, tentando acalmar a amiga. — Você está parecendo uma bêbada descontrolada.

Elizabeth e John riram ao ver aquela cena digna de Oscar, Kimberly gritando e Jennifer assustada.

— John, eu preciso ir ou ela vai ter uma crise, explicarei tudo à elas. Novamente obrigada, você foi incrível comigo. Vejo você amanhã às seis horas?

— Claro! — ele sorriu, assentindo. — Boa noite.

Elizabeth acenou com a mão, indicando um — até mais — para John.

Ele não poderia ter achado mais engraçado ela tentando explicar para amigas no meio da rua tudo o que havia ocorrido para justificar aquele sumiço repentino. John não conseguia entender o porquê não tirava os olhos de Elizabeth, de fato, já havia visto algumas fotos dela por aí, mas só; vê-la pessoalmente naquela manhã era diferente, um diferente bom. Era desafiador para ele.