O Querido Amigo Gay
4 O passado dele
Notas iniciais
No shopping, um grupo de amigos andava lentamente, observando as lojas, após terem saído da sala do cinema e todos estavam extremamente animados, comentando o filme recém-visto... Bem, todos, menos um rapaz.
Com as mãos nos bolsos da calça jeans, Naruto não sabia se deveria sentir-se irritado ou preocupado com Hinata. Irritado, pois ela o deixara sem ao menos se despedir e pediu para Sakura passar que estava indo para a casa de uma amiga, Tenten; preocupado, pois a rosada havia reparado que, quando se esbarraram, a outra estava pálida e muito abalada...
Será que havia ocorrido algo? E, se tivesse, por que não foi falar com ele? Após a amiga ter sussurrado isso ao sentar-se no lugar da “namorada”, o filme perdera toda a graça e só não foi atrás dela por causa dos amigos que logo voltariam para Tóquio.
— Naruto — chamou Sakura e levantou o olhar, vendo todos olharem para ele. —, quer ir comer conosco lá no hotel? Kushina ligou e pediu para perguntar.
Na verdade, ele não queria. Preferia ir para casa, deitar na sua cama e esperar a morena chegar. Estava querendo conversar com ela há uma semana, mas ela parecia evitá-lo... Ou ele parecia evitá-la. Da mesma maneira que seu cérebro falava que era o certo, seu coração não estava colaborando. Por um segundo, avaliou as duas idéias: ir para casa e conversar com Hinata ou ir para o hotel e esperar mais um pouco.
— Hai, não tem problema! — era lógico que ele iria esperar mais um pouco.
— Se importa de levar Shion? — perguntou Ino e quase revirou os olhos, contendo-se. — Nosso carro está apertado e ela sabe onde seus pais estão hospedados.
— Me importo — respondeu e recebeu um olhar pidão da Yamanaka, fazendo-o suspirar. — Mas levo.
— Arigatou! — foram juntos para o estacionamento e despediram-se lá. — Ja né!
Viu os quatro amigos indo para longe e deixando-o com a pessoa que menos queria estar. “Traidores de uma figa!”, xingou-os e virou-se para seguir seu caminho, ouvindo passos rápidos da moça. Ela, infelizmente, alcançou-o.
— Onde está o carro, Naruto-kun? — indagou Shion e tentou enlaçar seu braço ao dele, como faziam quando eram namorados.
— Por aí — desviou do braço dela e seguiu, ignorando qualquer tentativa da loura de puxar assunto.
Entrou no carro e quis matar Ino quando o cheio, agora, enjoativo de sua ex-namorada ficou mais denso, graças ao ambiente fechado. Claro que notou que as duas louras estavam armando uma para cima dele e de sua amiga, para “separá-los” o que é impossível; eles não namoravam de verdade e nem poderiam, já que ele falava para a Hinata que era gay.
A verdade? Não, Naruto não era gay. Ele, quando conheceu a morena, pensava que nenhuma mulher prestava. Ao vê-la, pensava que, mesmo com o corpo maravilhoso e a carinha de anjo, a morena demonstrara um ar que ele julgou ser superior assim que entrou num lugar tão humilde. “Deve ser uma interesseira”, foi seu pensamento na hora. Para prevenir tanto seu coração quanto sua conta, apresentara-se como Uzumaki Naruto (o nome de seu pai, Namikaze, era o nome da empresa de sua família) e deixara em pratos limpos sua “escolha sexual”.
Seis meses mais tarde, foi quando o rapaz percebera a merda que havia feito. Até tentou ser gay por causa da amiga, porém era horrível ficar paquerando um homem. E quando eles paqueravam de volta? O louro ficava para morrer! Então, ele decidiu ficar agindo como gay apenas com Hinata e na presença dela. Só de duas semanas para cá foi que, finalmente, ele achou que estava na hora de contar a verdade para a amiga.
Mas cadê a coragem quando se precisa dela?
— Está avoado, Naruto-kun — piscou e olhou para o lado, bufando internamente por estar com Shion. — Aconteceu algo?
— Nada que te importe. — sua expressão ficou séria de repente.
— Está pensando em Hinata, certo? A razão de ter ido embora cedo — opinou a loura e, não obtendo resposta, concluiu que era verdade. — Ela é uma namorada estranha, não acha? Vai embora sem se despedir.
— Não vou conversar sobre meu namoro, Shion.
— Só estou comentando que acho estranho... Quando éramos namorados, eu sempre me despedia de você e, quando não o fazia, você me ligava uma mil vezes! — ela riu com a lembrança e olhou-o de canto. — Você não parece tão preocupado com ela... Será que não a ama como me amou? Ou será que você ainda me ama e só está brincando com os sentimentos da coitada?
O louro, diferente da Hyuuga, era um sem paciência. Com aquelas palavras, parou o carro abruptamente e pouco ligava se outro automóvel pudesse bater ou não em sua traseira; se importava ainda menos com as buzinas e os xingamentos que recebia. Virou-se para a loura e viu-a encolher-se com seu olhar assassino, gemendo baixinho quando o Uzumaki pegou-a pelo queixo com força.
— Escute aqui...
— Naruto-kun, está me machucando. — Shion choramingou e tentou fugir dali, sem sucesso.
— Escute aqui! — sua voz era completamente diferente do normal e uma parte pequena de seu coração sorriu ao vê-la com os olhos lilás arregalados de medo. — Não sei como tem a ousadia de olhar na minha cara depois de tudo que fez comigo e, pior ainda, falar que ainda te amo! Deixa-me contar uma coisa... Você, para mim, é um ser desprezível agora! Um nada, um ninguém, um inseto de tão insignificante. Não me importo mais com a sua existência... Mas me importo com suas palavras, principalmente quando elas referem-se a minha namorada. Hinata é alguém que é de suma importância para mim e a melhor amante que já tive, em todos os aspectos! Jamais estarei brincando com os sentimentos dela, jamais.
Naruto soltou-a antes que pudesse fazer algo e o mundo pareceu ligar novamente, pois os sons nada animadores eram ouvidos agora. Como se nada estivesse acontecido, ele deu a marcha e voltou a prestar atenção no trânsito. Durante toda a viagem, Shion não voltou a abrir a boca e o louro não se sentia nenhum pouco arrependido, o que mostrava algo que o mesmo já tinha certeza: seu amor pela loura já havia virado pó e um vento desconhecido havia o levado para longe.
Ou será que o vento não fosse tão desconhecido assim?
Havia um estacionamento para visitantes em frente ao hotel e fora lá que estacionou seu carro. Entraram no luxuoso hotel e acharam seus amigos logo de cara, vendo a ex-namorada correr para o carinho das melhores amigas. Viu as mulheres comentarem algo com seus respectivos amados e irem para um lado com Shion enquanto Sasuke e Gaara o guiavam para o outro.
— O que você fez, dobe? — perguntou o moreno e viu-o fitar-lhe com desconfiança.
— Só cortei o barato dela — sorriu sapeca e os amigos deram de ombros. Era tão bom ter amigos que não eram cheios de palhaçada.
Chegaram à entrada do restaurante do hotel e o ruivo pronunciou que a namorada pedira para esperar. Mesmo que estivessem do lado de fora, o cheio de comida chegou à narina do Uzumaki, fazendo-o segurar o estômago e resmungar de fome – só naquele momento que notou que sentia e culpou Hinata internamente por estar deixando-o tão perdido a ponto de esquecer a própria fome.
As meninas chegaram minutos depois e ele viu o rosto de Shion avermelhado, contudo, simplesmente virou-se e entrou no restaurante.
“Ah, comida!”, sua mente festejou e sua barriga concordou, roncando. Queria logo sentar-se e comer para, finalmente, ir para sua casa e isso o impulsionou a procurar os pais. Algo fácil, já que só um cego não veria sua mãe, uma mulher de cabelo vermelho-sangue em uma mesa imensa e bem no meio do recinto. Aproximando-se, contou oito cadeiras vazias e não sete, entretanto, não ligou. Queria comida!
— Yo kaa-san, tou-san — cumprimentou-os e recebeu um sorriso de ambos, sentando-se em frente aos dois. Nem percebera o olhar ansioso de sua mãe muito inquieta.
Os outros sentaram-se também e Minato perguntou onde estava Hinata, o que Naruto respondeu com um “teve que sair mais cedo”. Chamaram o garçom e cada um fez o seu pedido... Menos Kushina, que fez dois pedidos.
— Dois pedidos, kaa-san? — indagou o louro e brincou. — A senhora não estava de dieta?
— Olha o respeito, Naruto! — a ruiva repreendeu com uma veia saltando na testa. — E esse pedido não é para mim, enxerido!
— É para quem, então?
— Para mim, oras! — uma voz extremamente familiar surgiu atrás dele. — Não lembra a meu prato preferido, Naruto?
Do nada, toda a fome que sentia evaporou. Sua postura descontraída ficou rígida e seu sorriso morreu. Ele sabia quem era, a quem a voz pertencia e, por essa razão, seria mais racional não virar... Foi quando sua cabeça já não comandava seu próprio corpo, assim como o sentimento que não conseguia mais reprimir no coração. Totalmente virado, seus olhos começaram de baixo e foram subindo.
O homem vestia uma calça jeans clara e larga, uma camiseta branca e um casaco marrom sobre esta, ou seja, de jeito despontado como uma única pessoa costumava se arrumar. Chegando ao rosto, viu os olhos azuis-escuros brincalhões, os cabelos medianos vermelhos como o de sua mãe, a expressão amena que seu pai tinha e o sorriso minúsculo lateral.
A expectativa que rondava a mesa foi substituída por um susto assim que Naruto, não demonstrando nenhuma emoção, partiu para cima de Nagato, seu irmão mais velho. No primeiro momento, eles acharam que era brincadeira entre irmãos e só quando o louro começou a enforcar o ruivo que todos notaram que não era uma simples brincadeira...
O Uzumaki havia ligado-se a um modo que nem ele mesmo sabia que tinha: no modo “matar”. Ele ouvia cadeiras se arrastando, pratos caindo, pessoas gritando; ele ouvia o próprio coração, quase na boca, entalando qualquer emoção ser engolida, além do rancor, do ódio... Do desejo de matar.
— NARUTO! — berrou Kushina e ele piscou. — VOCÊ VAI MATÁ-LO!
Piscando algumas vezes, Naruto sentiu o pescoço de seu irmão entre suas mãos e viu as mãos dele tentando afastá-lo. Nagato estava fechando os olhos e, mesmo sem estar no modo “matar”, o rapaz não queria parar. Sorriu cruelmente e teria apertado as mãos com mais força, se não tivesse sido tirado de lá.
— ME SOLTEM! — gritou e debateu-se contra os melhores amigos, cada um puxando-o por um braço. — ME DEIXEM MATÁ-LO! SOLTEM-ME!
Minato e um garçom ajudaram o ruivo a ficar de pé enquanto Naruto lutava quanto o aperto dos amigos. Kushina ficou na frente ao filho mais velho, como se o protegesse do irmão mais novo que apenas pensava qual seria o problema daquelas pessoas!
— Naruto, que merda é essa? — Ino apareceu na sua frente e encarava-o confusa. — É o Nagato, caramba! Não um inimigo!
— É tudo culpa da Hinata! — Shion apontou e olhava-o como se fosse um louco. — Aquela vadia transformou nosso doce Naruto em um animal!
— JÁ FALEI QUE VADIA É VOCÊ, SHION! — Naruto, agora, concentrava todo o seu olhar de ódio na loura. — SE MINHA FAMÍLIA ESTÁ DESTRUIDA, A CULPA É TODA SUA, SUA PUTA!
Naruto sentiu seu rosto virar e sua bochecha esquerda quente. Duas mãos pegaram sua cabeça com força e determinação e encontrou os olhos cheios de dor, medo e lágrimas de sua mãe, o que o desarmou completamente. Por um segundo, tudo pareceu sumir e só os olhos de Kushina pareciam fazê-lo ver as coisas. O que ele estava fazendo? Ele estava agindo como um monstro, querendo matar o próprio irmão por uma mulher que nem merecia.
— Naruto... — a voz trêmula da ruiva não deixou-o mais feliz. — Por que você quase matou Nagato, meu filho?
Então, ouviu a voz serena de Hinata em sua cabeça, como se tivesse ali, sussurrando para ele “É a hora da verdade, Naruto-kun”. E, como se ela fosse sua consciência, ele disse o que atormentou-o por meses.
— Porque ele transava com Shion, okaa-san.
Alguns anos atrás...
O pequeno anel era reluzente e de ouro branco, o metal que a namorada mais gostava. Girando-o entre os dedos, Naruto tinha um sorriso sonhador no rosto só de pensar qual seria a reação de Shion com o pedido. E quando colocasse o anel no dedo dela? Seria a expressão que mais marcaria sua vida.
— Nada vai me impedir de ficar com você, Shion — sussurrou confiante e seguiu para casa. — Nada, nem ninguém!
Já havia pedido para os pais dela e eles relutaram um pouco, afinal, ambos tinham apenas dezoito anos, muitas situações ainda os aguardavam. Mesmo com essa relutância, o jovem mostrou todo o seu amor pela namorada e os pais dela acabaram por ceder. Também comentou com seus pais e eles tiveram a mesma reação.
O seu pedido seria no dia seguinte, dia que a formatura deles aconteceria. E, ainda assim, não sabia como chegar nela! Depois de dois anos juntos, depois de ter pedido tantas coisas – umas mais indecentes que outras... Agora, estava completamente inseguro! Ele deveria pedir durante a dança? Ou no final da festa, diante a porta da casa dela? Ou, até mesmo, subir no palco e pedir para o DJ diminuir a música para que ele pudesse fazer a proposta...
Quase pode ouvir a voz de Nagato resmungando: “Você é o que? Um homem ou um rato?” Riu sozinho e imaginou seu irmão mais velho sorrir enquanto bagunçava seus cabelos. “Não esquenta, tudo vai dar certo”.
O ruivo era a pessoa que mais confiava. Quando eram menores e seus pais trabalhavam, era Nagato que estava lá, ou fazendo seu almoço ou ajudando com o trabalho de casa ou brincando com ele a tarde toda. Ainda que crescidos, os irmãos eram extremamente grudados e contavam mais coisas um para o outro do que para os amigos da mesma idade. Ninguém poderia entender ou destruir esse elo que existia entre eles...
Naquele dia, havia mandado uma mensagem para Shion logo pela manhã e descobrira que a mesma sairia com Sakura e Ino pela tarde e voltaria apenas à noite para casa. Assim, Naruto, com pensamentos impuros, resolveu fazer uma “surpresinha” para a amada.
Foi para a casa dela e abriu a porta com sua chave, visto que ganhou uma cópia do pai da garota. Seus futuros sogros não estavam em casa, ou seja, estava só. Subiu as escadas em silêncio e escutou barulhos estranhos vindo do final do corredor. Bem, ele pensava que estava só.
Aproximando-se, o jovem franziu o cenho ao constatar que os barulhos estranhos eram, na verdade, gemidos... Que, por acaso, ele conhecia muito bem. Ele negou-se a acreditar no que ouvia. Chegou mais perto e percebeu que os gemidos vinham do quarto da namorada. Chegou mais perto ainda e, para seu total horror, nojo, dor e decepção, a porta estava entreaberta, revelando a cena que ele teria marcado para o resto da sua vida em sua mente e em seu coração despedaçado.
Shion, sua amada Shion, estava nua e sentada sobre um homem, subindo e descendo conforme as mãos masculinas guiavam. Seus olhos fechados, seu lábio inferior sendo mordido e sua cabeça inclinada para trás demonstravam todo o seu prazer.
Naruto, possesso, pensou em entrar e fazer só o que Kami-sama sabe. Só pensou. O “casal” mudou de posição e o homem que comia sua namorada era ninguém mais, ninguém menos que Nagato, seu irmão mais velho. Ele que tinha uma expressão aflita enquanto estocava Shion com força e violência.
— Ahm, Nagato-kun! — gemia a loura, manhosa, e aquilo parecia atiçá-lo a meter com mais força.
— Goza para mim, Shion, minha cadelinha. — as palavras nada gentis fizeram-na gritar e relaxar, chegando ao seu limite.
E ao limite do pobre rapaz que assistiu a cena toda, sem conseguir se mexer e sem conseguir acreditar. Não fazendo um som, deu as costas para... Para aquela imundice e seguiu para sua casa.
Abalado, o Uzumaki não sabia o que fazer da vida. A mulher que pensava ser sua futura esposa e o seu irmão e seu confidente... Estavam tendo um caso bem debaixo de seu nariz. Nagato ainda teve coragem de falar que aprovava o casamento! Para que? Para que ele e aquela puta rissem da cara dele enquanto estivesse trabalhando para sustentar a vagabunda e os filhos que ele nem saberia se era dele ou não!
Ainda assim, destruído por completo emocionalmente, Naruto jantou com os pais e foi dormir – ou tentar – como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, logo pela manhã, despediu-se de Kushina e Minato, falando que passaria o dia na casa de Sasuke para se arrumar para a formatura.
Horas mais tarde, o Uzumaki não estava mais em Tóquio.
(...)
Dois meses passaram-se. Dois meses extremamente sem rumo ou razão. Naruto não sabia por quanto tempo ficou naquela vida. Uns dias, ele saia para comer; outros, ele simplesmente deitava-se na cama e pensava como a vida era traiçoeira.
Um dia desses, um pensamento o fez voar mais que os outros: perdeu a mulher que amava para o seu irmão mais velho, mas isso significava seu fim? Isso deveria significar que ele não viveria novamente, não sorriria novamente? Shion e Nagato deveriam querer isso para ele e haviam conseguido...
Ou não.
Levantou-se da cama ainda nessa linha de raciocínio. Ele já tinha se entregado ao amor três vezes e, nas três, saiu todo fudido mesmo. Isso acontecia, não? O amor pregava peças com todos... Seus pais, por exemplo, já tiveram tantas crises que teve uma época que chegaram a morar separados, mas eles se amavam extremamente, pois vira o quanto eles sentiram saudades um do outro. Para que tivesse amor, Kushina e Minato tiveram que passar por muitos impedimentos para alcança-lo.
Será que um dia Sakura, Ino ou Shion pensaram em lutar contra as barreiras para ter o amor dele? Naruto duvidava muito. Então, isso significava que sua alma gêmea em algum lugar daquele mundo?
Com esse pensamento, a depressão voltou para o fundo do poço.
O louro não sabia como havia ido parar em Kyoto, uma cidade a cerca de quinhentos quilômetros de distância de Tóquio; também não sabia como fora parar num hotel minúsculo quase no fim do mundo, entretanto, não se importava. Ao procurar algo útil em sua bolsa, encontrou a razão de ter ido para lá: uma carta de admissão na faculdade de Direito na Universidade de Kyoto. E ele só tinha mais uma semana para inscrever-se ou perderia a vaga.
A semana seguinte fora corrida. Foi para a faculdade, matriculou-se, cortou o cabelo, procurou um trabalho, comprou um celular novo e procurou uma casa para morar, porque não pretendia viver de hotel em hotel para sempre. Faltando uma semana para que as aulas começassem, Naruto estava começando a ficar sem esperanças quando achou um anúncio interessante no jornal.
Pegou o celular e ligou para o número, o qual chamou, chamou e ninguém atendeu. Tentou outra vez e ficou aliviado ao ser atendido. Por pouco tempo.
— Não aceito desculpas, Hanabi! — a voz feminina mostrava-se irritada e, por algum motivo, aquilo arrancou-lhe um sorriso.
— Ih, acho que está me confundindo... — foi impossível conter seu tom brincalhão, principalmente quando a moça prendeu a respiração, claramente envergonhada e surpresa.
— G-g-gomen nasai... D-deseja falar com quem? — ela estava gaguejando?
— Hã... — procurou pelo anúncio e leu o nome: — Hyuuga Hinata?
— S-sou eu mesma — a voz dela saíra baixinha, bem mais calma comparada a voz alterada que o atendera. O que será que aquela tal de Hanabi havia feito?
— Sou Uzumaki Naruto e queria saber se o quarto no seu apartamento ainda está para alugar?
O que? Ele nunca fora homem que enrolava!
— Hai... — desta vez, a voz dela mostrava que ela estava meio hesitante.
— Será que poderíamos marcar para eu ver como é aí? — perguntou e cruzou os dedos, pedindo que ela não desligasse o telefone. É, já havia acontecido antes.
— Claro! — hã? Aquela resposta o pegara desprevenido, assim como a seguinte: — Tem como ser hoje?
Surpreso, Naruto marcou de encontrar-se com a moça em um restaurante próximo ao hotel que estava hospedado e ver no que daria. Ao desligarem, foi para lá e sentou-se em uma mesa distante da entrada como sempre fazia. A atendente veio perguntar o que ele queria e dar um pouquinho em cima dele, dispensando-a. Esperaria por Hinata.
Foi quando o sino da porta tocou.
Ele levantou a cabeça e arregalou os olhos, totalmente abismado ao ver a linda mulher passar pela porta. “Ei, ei, ei, ela tá te procurando!”, exclamou em pensamento ao vê-la olhar ao redor e corar ao notar que era observada por todos. No restaurante, havia muitos homens e aquilo deveria estar deixando-a sem graça, pois abaixou a cabeça. “Hora de agir, Naruto”.
Levantou-se e foi até a moça, parando bem a dois passos.
— Hinata? — perguntou duvidoso e, quando ela ergueu os olhos, forçou-se a não prender o ar ou arregalar os olhos ou suspirar ou fazer qualquer merda.
Os olhos, que não conseguia ver a cor à distância, deixaram-no imóvel. Era um lilás quase branco, tão claro que ele poderia confundir com uma pérola e não havia pupila como os olhos normais, o que não o deixou espantado e sim encantado. O cabelo não era preto, porque tinha um tom azulado misturado, o que deixava um azul-petróleo ou um preto-azulado, ele não sabia a diferença. O rosto em formato de coração, os lábios rosados grossos, o nariz pequeno, as bochechas avermelhadas. De perto, também teve certeza que o busto dela era bem avantajado assim como as pernas.
“Eu morri? Porque devo estar sendo encarado por um anjo, só pode!”, foi seu único pensamento coerente.
Ela piscou por um momento e ficou muito mais vermelha, deixando mais embasbacado, especialmente quando começou a falar com as mãos nas bochechas para tentar esconder o rosto corado:
— Y-y-yo... v-você deve ser N-Naruto-san, não é? — curvou-se para si e ele fez o mesmo gesto.
— Hai, isso mesmo! Vem, vamos sentar. — guiou-a para a mesa e tentou, sem sucesso, não olhar para a bunda da desconhecida.
Ei, por mais machita que pareça, aquela era sua parte favorita no corpo de uma mulher. E aquela ali na sua frente tinha uma bunda que, nossa, deixava-o babando.
Conversa vai, conversa vem. Naruto acabou percebendo que Hinata era simpática e muito tímida, porém algo em seu jeito... Fazia-o lembrar da ex-namorada. Talvez na maneira que ela olhava ao redor, sentindo-se superior os outros. Até o pedido que a morena havia feito, seria a mesma coisa que Shion teria pedido. Temeroso, acabou acreditando nessa primeira impressão e, sem pensar duas vezes, falou a primeira coisa que veio em sua mente: que era gay.
Atualmente...
O silêncio era geral. Parecia que todos os fregueses e garçons tinham parado para ouvir a sua história de corno. Sua triste história de corno. Contou até a parte da fuga, porque não queria deixar-se exposto ao falar que ficara dois meses vivendo como só Kami-sama sabia e não queria contar que tinha comparado Hinata com Shion, já que sua melhor amiga era quase perfeita enquanto a sua ex... Era melhor nem falar.
— Você... — Ino foi a primeira a falar, a voz tremula e embargada. Virou-se para a loura e viu os olhos dela cheios de lágrimas, sua expressão desgostosa. — Você...
— Por isso, você vivia sumindo — Sakura apontou e tinha um sorriso irônico. — Falava que Naruto era o amor de sua vida e estava sempre na cama do onii-san dele!
— Nani? Vocês vão acreditar nisso? — Shion negou com a cabeça e tentou aproximar-se das amigas. — Vocês acreditar num homem alterado?
— Por que não acreditaríamos nele? — Sasuke indagou e recebeu os olhos dela sobre si. — Ele é mais meu amigo do que você, Shion.
— É a minha palavra contra a dele, a minha e a de Nagato! — exclamou a loura que fitou Naruto com desprezo. — Você não criava histórias para ser vítima, Naruto, nunca criou... Hinata te transformou em um merda.
Ah, se ele não estivesse preso, estaria tentando matá-la naquele instante.
— Você ainda tem coragem de negar? — debatia-se e encarava-a com ódio. — Olhando na minha cara, você tem coragem de dizer que é mentira!
— É MENTIRA!
— Não é mentira... — a voz de Nagato fez-se presente e todos olharam para o homem todo machucado, sendo erguido pelo próprio pai. — O que adianta negar, Shion?
— Nagato! — a loura olhou o ruivo como se fosse louco e repreendeu-o.
— Eu disse que iria falar, Shion, mesmo que isso feri-se Naruto. — rebateu e fitou o irmão. — Nunca quis fazer isso... E simplesmente aconteceu!
— Nagato...
— Cale a boca, Shion! — Kushina descontrolou-se e foi segurada por Naruto que previa a atitude de sua mãe. — Naruto!
— Não vale a pena — sussurrou e fitou o irmão mais velho. — Não quero suas desculpas... A merda já está feita. Vocês já me feriram uma vez e não permitirei que entrem na minha vida novamente, mesmo que peçam perdão de joelhos.
O outro Uzumaki abriu a boca e fechou-a, sabendo que perdera o que mais importava para seu irmão: sua confiança.
— Quero que você vá embora daqui — a ruiva falou e apontou para Shion. — Vá embora do hotel, vá embora de Kyoto, vá embora de nossas vidas...
— Mas...
— Você não entendeu, Shion? — a Yamanaka olhava-a com nojo.
— Ninguém quer você aqui — completou a rosada.
— Nem Naruto nem suas amigas te querem — a ruiva concordou.
— Você traiu a todos nós, você e Nagato — Minato, finalmente, tomou as rédeas da situação. Sua voz e expressão estavam sérias, contudo, não tinha a mesma raiva que os outros tinham na face. —, mas, diferente de Nagato que é dá família, você não tem o direito de ficar conosco. Peço que se retire e, se não fizer por bem, serei forçado a chamar os seguranças.
— VOCÊS ESTÃO LOUCOS? — pela primeira vez, a loura parecia descontrolada e desesperada. — VOCÊS NÃO PERCEBERAM QUE É UMA ARMAÇÃO CONTRA MIM?
— Onegai, chame a segurança. — Naruto ouviu seu pai falar para um garçom que, prontamente, se retirou para frente do hotel.
— Cale a boca, sua vadia! — Ino gritou de volta, de saco cheio. O rapaz não sabia como a loura se sentia, mas deveria estar como ele se sentira no dia: traída e sem rumo. — Cale a boca, cale essa maldita boca!
— Quem é você para mandar em mim, sua piranha? Que eu saiba, você também trocou o Naruto! — respondeu a outra loura e o Uzumaki sentiu Gaara apertar seu braço com a reação da Yamanaka que fora um sorriso nada... Amigável.
— Quem sou eu? Vou ter mostrar quem sou eu...
E, em menos de uma hora, estavam duas pessoas brigando no chão do restaurante pela segunda vez.
Mas, na opinião de Naruto, briga de mulher era muito mais emocionante.
As louras rolavam de um lado para o outro, puxando cabelo e dando tapas. Ouvia gritos femininos e xingamentos e olhava a cena de boca aberta. Ino, desde sempre, fora um pau-mandado de Shion e vê-la meter a porrada na sua idolatrada parecia uma cena quase impossível de acreditar.
O ruivo soltou-o e foi atrás da namorada, tentando tirá-la de lá. Sakura gritava para que a melhor amiga parasse, todavia, era esperta o suficiente para saber que era melhor ficar afastada. Os outros ficaram fitando a luta com o queixo no chão de tão incrédulos.
Só quando dois seguranças vieram e puxaram Shion que a briga finalmente teve fim. Apenas a briga...
— SUA PUTA! — berrou a loura nos braços do namorado.
— PIRANHA! — berrou a outra e continuava a ser arrastada. — SEMPRE SOUBE QUE VOCÊ ERA IGUAL A ESSES MESQUINHOS!
— VADIAAAAAAAA! — Ino berrou antes de ver a outra sumir de vez. Abraçou-se e começou a chorar, sendo abraçada pelo amado. — Gaara...
— Eu tô aqui, minha loira. Tô aqui — sussurrava enquanto via a amada chorar como uma criança.
— Naruto-kun... — a loura murmurou e levantou o olhar para o amigo. — Gomen.
— Não tem problema, Ino-chan — sorriu tristonho com estado da moça.
— Naruto, v-vai atrás da Hi-Hinata... — o sorriso dele morreu. — Shion... Ela fez algo com ela! Ela vem fazendo desde a nossa chegada...
Ai Kami! A Hinata! Ele ficou tão focado no momento que esquecera que sua melhor amiga tinha ido embora e que queria ir atrás dela... Agora, com essas palavras da loura, ele sabia que necessitava ir atrás dela, como se sua vida depende-se disso.
A primeira coisa que fez foi pegar o celular e ligá-lo, já que havia se esquecido de fazer isso após sair do cinema. A segunda coisa que fez foi ficar desesperado, pois havia vinte – isso mesmo, vinte! – ligações perdidas de Tenten. Puta merda, se isso não era um mau sinal, era o que? O fim do mundo! Quando pensou em retornar a ligação, a morena o ligou...
— Naruto, cadê a Hinata? — perguntou, completamente fora de si.
— Cacete, eu iria fazer a mesma pergunta!
— Ah! Merda, merda, merda, merda, merda...
— Tenten?
— Merda, merda, merda, merda...
— Tenten! — ela, graça a Kami, havia parado. — Me fala: o que está acontecendo?
— Pensei que você saberia! Vocês não foram ao cinema juntos?
— Hai, mas ela foi embora antes do filme acabar — ouvi-a xingar do outro lado.
— Quando liguei para ela, Hinata estava chorando — começou a Mitsashi e Naruto mal percebia que estava andando de um lado para o outro no restaurante. — Perguntei se havia algo errado e ela falou que tinha acontecido um pequeno acidente, depois falou que não iria poder vir aqui em casa. Pedi para que não fizesse nenhuma merda e, como resposta, ela disse que estava grande e que garotas grandes não choram e desligou. Estou tentando ligar para você e para ela desde então...
— Que horas isso aconteceu?
— Umas quatro e meia, eu acho!
O Uzumaki olhou no relógio e ficou um tanto mais desesperado ao notar que faltavam quinze minutos para às sete. Quem iria ficar repetindo “merda” agora, seria ele.
— Temos que manter a calma e procurá-la — só que ele mesmo não estava nem um pouquinho calmo.
— Hai, vou procurá-la na faculdade! — e desligou. Tenten deveria estar muito preocupada.
— O que aconteceu, Naruto? — Kushina perguntou e ele parou de andar.
— Hinata sumiu... Tenten falou que ela não foi fazer o trabalho na casa dela e está tentando falar comigo e com ela desde então.
— Ai, Kami-sama. — a ruiva pareceu preocupada e deu um abraço nele. — Vá procurá-la, Naruto.
— Hai... Teme, tem como vir comigo? — indagou e o moreno assentiu. Olhou para Gaara e o mesmo também assentiu, mexendo os lábios um “depois”. — Estamos indo.
Despedindo-se, Naruto apressou-se a sair dali, sendo seguido por Sasuke. Só carro que teve que se segurar para não se bater. Por que fora tão burro? Por que não percebera que ela estava mais afastada? E aquelas vezes que ele deixara-a com aquela loura vadia? Foram tantas que... Ah, que vontade de se bater! Mas por que a morena não contara nada para ele?
Ah, isso ele perguntaria pessoalmente. Agora, o mais importante era procurá-la.
No entanto, onde estaria Hinata?
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